Eu no seu lugar
33 Hoje falamos apenas sobre exceções
Ochako abre os olhos, piscando sem parar enquanto sua visão se ajusta. Acima dela, o teto da enfermaria. Chega a ser engraçado como ela aprendeu a reconhecê-lo, tendo vindo pra cá mais vezes nesse mês do que no ano passado inteiro.
A grande diferença, dessa vez, é que ela não sabe porque está aqui, ela recapitula os acontecimentos do dia: acordou, veio com os pais para a U.A., onde o professor Aizawa e a família Bakugou já os esperavam, eles entraram em uma van que atravessou o campus e chegou até o instituto de pesquisas do colégio.
O Diretor Nezu estava lá e os recebeu, apresentando alguns dos estudos que eles estão desenvolvendo atualmente, o Katsuki ficou fazendo cara feia pra tudo, querendo saber quando o papo de nerd ia acabar, a mãe dele berrou com ele, ele berrou de volta, o pai tentou apaziguar sem sucesso — até aqui nada de diferente — eles chegaram até uma sala que parecia uma brinquedoteca, colorida e alegre, onde a Eri brincava com um boneco do All Might e um dinossauro de borracha.
Um dos cientistas responsáveis explicou como eles estavam desenvolvendo a individualidade dela sem desgastá-la, mostrando os avanços que eles vêm fazendo em trazer a permeação do Togata-senpai de volta, e como eles planejavam desfazer a troca, deixando bem claro que havia uma chance muito grande de não funcionar, e que mesmo a tentativa seria adicionada aos dados deles sobre a individualidade da Eri, tudo isso estava explicado nos termos que os pais deles receberam, a mãe dela só assinou depois de perguntar se ela tinha certeza disso, Ochako não hesitou nem por um segundo.
E então os dois foram conduzidos até uma sala com uma mesa e duas poltronas, nas quais eles foram instruídos a se sentarem. Eletrodos foram acoplados em suas cabeças, e o homem usando jaleco pediu que eles ficassem de frente um pro outro e dessem as mãos, Ochako se lembra de ter se movido vagarosamente, morrendo de vergonha, mas o Katsuki nem hesitou, agarrou as mãos dela e chegou perto, sabendo que ele devia estar sentindo a respiração dela bem pertinho.
Alguns minutos depois, a Eri entrou.
— Eu… não sei se vai funcionar… — ela disse de cabeça baixa.
— Tudo bem, a gente sabe que você tá se esforçando e agradece muito. Né, Katsuki? — Ochako apertou a mão dele com um pouquinho mais de força.
— É, é… se der certo, o onii-chan vai fazer um monte de estalinhos com as mãos pra comemorar. — ele disse de um jeito tão mecânico que quase não deu pra perceber que tava tentando ser gentil. Quase, porque a Eri deu um sorriso tímido e acenou com a cabeça. Naquela hora, Ochako viu que o chifre dela parecia um pouquinho maior.
O homem deu mais algumas instruções para a Eri e saiu da sala, provavelmente observando tudo por trás de um espelho pendurado em uma das paredes, a iluminação da sala diminuiu.
— Katsuki-kun… eu… eu não quero sair dessa do mesmo jeito que a gente entrou… eu te a…
Ela sentiu uma mãozinha tocar sua perna, e de repente tudo ficou branco.
— Ah, ela acordou! — ela reconhece a voz de seu pai — Enfermeira, ela acordou!
— Bem-vinda de volta, Ochako. — a mãe dela sorri serenamente.
— M-mamãe? Eu tô… meio tonta, o que…? — quando ela leva uma das mãos para esfregar os olhos.
Ochako nota estar usando suas tradicionais luvas de dormir, e leva alguns segundos pra ela entender o que isso significa, até porque o Katsuki também usa luvas para dormir de vez em quando, ele não disse diretamente, mas ela as viu na gaveta do criado-mudo no quarto dele, só que as luvas dele eram bem maiores. Ela arregala os olhos, de repente completamente alerta, e arranca as luvas. Em sua mão esquerda, tá escrito "guarda-roupa", e ele franze o cenho tentando entender, mas logo percebe que isso é o de menos, porque essas mãos são muitos menores e mais gordinhas, além das bolinhas cor de rosa nas pontas de seus dedos
Seus “botõezinhos”, como a Mina e a Hagakure carinhosamente chamam, estão aqui. Ela leva as mãos ao rosto, bochechas redondas e macias sob seu toque de cinco dedos que acaba fazendo-a flutuar. Ochako grita de surpresa, e só aí ela entende que se tivesse se ouvido chamar pela mãe, teria escutado a própria voz, e agora não estaria levitando.
Ela teria percebido antes que está no próprio corpo.
— L-liberar! — Ahhh que saudade que ela tava de falar isso! Cabelos castanhos, nada de barriga de tanquinho, um par de seios e… é, aquela “coisa” também não tá aqui. Ela é Uraraka Ochako por inteiro! — Mamãe, sou eu! Você tá vendo isso? Sou eu!
— É você, minha filha! É você! — a mãe dá pulinhos ao lado dela. E as duas ficam pulando e gritando até que ela olha para a maca ao lado esperando encontrar um certo loiro de cara amarrada, mas não tem ninguém, tá vazia. Sua mãe a abraça, e ela abraça de volta.
Pouco tempo depois, seu pai entra na enfermaria com a Recovery Girl ao seu lado.
— Ai ai ai, menina Uraraka Ochako, só porque você está saudável, não precisa ficar pulando na maca! — a heroína da cura a repreende, e Ochako imediatamente se senta de pernas cruzadas e cabeça baixa. — Muito bem, o Aizawa-kun tá dando aula, então pediu pra eu fazer algumas perguntinhas pra gente ter certeza que você é você. — ela pega uma folha de papel — Certo, qual a comida favorita da Asui Tsuyu?
— Gelatina de maçã-verde. — ela nem pensa em responder.
— Correto. Quem ganhou a competição de Rei do Dormitório no primeiro ano?
— O Sato-kun. — Ah, o Katsuki não saberia responder essa porque estava dormindo naquele dia.
— Correto. Por fim, o que o Eraserhead te disse depois que a missão contra o Overhaul acabou?
— “Você fez tudo que pôde, a responsabilidade é nossa. Não estou dizendo para você esquecer isso logo, mas tire esse tempo para pensar o que você quer fazer no futuro.” — ela comprime os lábios — Eu nunca vou esquecer.
— Que bom! — a Recovery Girl sorri gentilmente — É, está tudo bem, não se esqueça da sua consulta com o dermatologista na quinta-feira. Você vai estar em prisão domiciliar, nada justifica você faltar. E por favor, Uraraka-chan, você sempre foi ajuizada, se tiver algo de errado, venha falar comigo ou com um professor em quem você confie, não faça nada por trás das nossas costas e não sofra em silêncio, entendeu?
— S-sim, senhora! Desculpe pelo transtorno, senhora!
— Tá desculpada dessa vez, toma aqui uma bala! — Ochako pega o doce naturalmente — Você está liberada!
— Ah que bom! — o pai dela respira aliviado — A gente tava preocupado que tivesse alguma coisa errada, o garoto acordou tão rápido, você ficou dormindo por horas!
— Por… por horas? — ela olha para o relógio de parede: já são quase quatro horas da tarde! Era de manhã quando ela foi ao instituto…
— Bom, nós não sabemos como funciona direito ainda, mas pode ter a ver com a resistência do corpo associada à complexidade da mente. Não existem diferenças práticas entre cérebros femininos e masculinos, na verdade, todo cérebro é único, vai ver por isso a Uraraka-chan tenha demorado mais para processar a transferência para o corpo original do que o Bakugou-kun.
— O… Bakugou-kun… a que horas ele acordou? Ele tava bem?
— Melhor do que nunca, acordou gritando com a mãe e tudo. — o pai dela comenta — Foi um pouquinho depois das onze da manhã.
— Entendi… — ela quer perguntar se eles viram pra onde ele foi, mas é melhor não. O seu pai já não simpatiza muito com ele, imagina se ela parecer mais ansiosa em falar com o Katsuki do que aproveitar esse tempo com os pais — Que bom que está tudo bem!
Então ela aproveita, levando os pais numa mini tour pelo câmpus, os colegas estão na sala. então ela não vai ser vista agora. Lá pelas cinco e pouquinho, ela leva os pais até o portão da U.A, eles vão voltar para Mie por causa do trabalho, Ochako se sente péssima por tê-los feito perderem um dia de trabalho, adicionando essa quantia ao dinheiro que ela planeja pagá-los quando receber seu primeiro salário de heroína profissional em alguns anos. Alheios a esse objetivo, os pais dela lhe enchem de abraços, beijos e pequenas broncas enquanto se despedem.
Seu pai percebe os escritos na mão dela, mas Ochako responde não saber, a única coisa que ela sabe que essa letra é do Bakugou. O que quer que seja isso, é um recado pra ela entender só depois que seus pais forem embora
— Nós nos orgulhamos muito de você. Traga o menino Bakugou para Mie nas suas próximas férias. — a mãe dela fala baixinho enquanto lhe dá um último abraço e um beijo na testa, fazendo-a corar.
Os pais entram no carro fornecido pela U.A. que vai levá-los à estação. Ela se permite chorar assim que o vê sumindo ao virar a esquina. Independente de ter o “menino Bakugou” acompanhando-a, ela não vai poder ir pra casa nessas férias de verão, esse é o preço que se paga. Nada mais justo.
Ochako caminha lentamente de volta para os dormitórios, ela não pode falar porque não está indo às aulas, mas algo a diz que será fuzilada com perguntas assim que notarem que ela está lá, o que não é muito animador. Talvez… se ela for por aquele atalho dos fundos, dê pra entrar mais discretamente…
Ela vai por esse caminho, notando que há um certo verde ali que destoa do verde dos arbustos e árvores do local, ela reconheceria esse tom em uma multidão lotada.
— Uraraka-san! — ele sorri animadamente.
— Tsk, tá se empolgando todo por quê, nerd maldito? — ela fecha a cara, tentando não rir quando os ombros dele caem de frustração e espanto — Tô brincando! Tô brincando! Sou eu, Deku-kun!
— T-tem certeza? — ele a olha suspeitosamente.
— Uhum, eu vou provar — ela limpa a garganta — Nós somos Deku e Uravity, uma dupla infalível salvando as pessoas…
— QUANDO NÃO ESTÃO SALVANDO UM AO OUTRO! Uraraka-san, é você! É você mesmo! — ele sorri, os olhos brilham de uma maneira que faria o sol ter inveja. O Deku se aproxima empolgadamente, ruborizando ao perceber que ele tá muito perto — Q-quer dizer, só de você não ter me xingado, eu já deveria saber que era você… a Eri-chan conseguiu mesmo! Eu tô muito orgulhoso dela. — ele funga, limpando as lágrimas na gravata — Aargh, me desculpa por chorar, Uraraka-san, é que eu tô mesmo muito feliz!
— Não tem que se desculpar por nada, seu nerd bobão. — Ochako sente o coração, seu coração de verdade, mais quentinho
— E-então, como foi? Como é a sensação de voltar pro seu corpo?
— Eu… não sei explicar, na verdade, eu nem sei o que acontece, apaguei assim que a Eri-chan encostou em mim, é como se… nossa, é como se eu tivesse morrido e ressuscitado.
— Igual ao filme, então… — ele diz, admirado. E um pensamento passa como um flash pela cabeça dela: um pouco antes de apagar, ela estava se confessando pro Katsuki, será que ela chegou a terminar? Ah não! Não não não! Por que ela foi falar aquilo àquela hora? Será que ele ouviu? — Hã, Uraraka-san?
— Hum?
— O que é isso aí na sua mão? — ele aponta para a mão esquerda dela.
“Guarda-roupa”. Ela lê os kanjis de novo, é isso que tá escrito na palma da mão dela. Guarda-roupa… por que ele escreveu isso? Ai, aquele moleque! Será que ele tá tirando sarro da cara dela? E pensar que por um breve minuto, ela desejou que ele tivesse escrito "Eu te amo" igual ao filme? Tsk, claro que não! É o Katsuki! Ele nunca… mas que droga, então por que ele escreveu “Guarda-roupa”?
— Vai ver… ele quer que você olhe no seu guarda-roupa. — o Deku sorri serenamente — Quer que eu vá com você? O Iida-kun não deve ter voltado ainda… — ela assente com a cabeça, e os dois caminham em silêncio até os dormitórios, surpreendentemente, não tem ninguém na área de convivência. — Deve estar todo mundo se arrumando para o Hanabi Taikai. Você vai, Uraraka-san?
— Eu tô de castigo, esqueceu? — ela ri, sem-jeito.
— A-ah sim, desculpa! — ele coça a cabeça — Que pena, seria legal se você fosse…
— É… — Ochako o olha, e ele soa genuinamente triste, o coração dela parece se comprimir. Há um mês, ficar sozinha no elevador com ele faria as borboletas no estômago dela ficarem tontas de tanto voarem, mas agora… ela não sente nada, quer dizer, não nada, apenas… um imenso carinho por ele e pelo jeito que ele se importa, como… um irmão se importa com a irmã. No fim, a Tsu tava certa em questioná-la se o que Ochako sente pelo Deku não é o mesmo que ela sente pelo Iida.
Há um mês, não era. Hoje, só pode ser. Porque ela o ama tanto, quer tanto que o coração dele encontre conforto e felicidade, mesmo que não seja com ela. Ochako quer o Deku sempre sorrindo como ele está agora. Ela não precisa de uma resposta para aquela confissão, Ochako está em paz contanto que ele esteja em paz consigo mesmo.
Eles chegam ao andar dela, entrando rapidamente no quarto antes que a Mina perceba alguma coisa. Será ótimo abraçar a amiga cor-de-rosa, só… não agora, agora ela precisa entender o que “Guarda-roupa” significa.
Ochako hesita muito em abrir a porta, olhando para o Deku, que acena com a cabeça, assegurando-a de que vai ficar tudo bem. Ela abre a porta e encontra uma capa de plástico, daquelas de embalar ternos. Na verdade, parece muito com as capas que a mãe do Katsuki tinha no estúdio dela.
Ela arregala os olhos assim que abre o zíper da capa e encontra um yukata, não qualquer yukata, mas um muito parecido com o que ela viu na loja aquela vez que eles foram com a Nejire-senpai, é tão lindo quanto. Embora esse tenha um tom mais próximo do azul marinho, a estampa cósmica é praticamente a mesma e o obi é violeta. é simplesmente maravilhoso.
— Um yukata? Não entendi… — o Deku observa, curioso.
— Pois é, eu também n- — quando ela mexe a capa, um pedaço de papel cai no chão, ela e o Deku franzem o cenho, Ochako pega o papel e se surpreende com a caligrafia, não por ser linda, mas por que é a letra dele.
“E aí, Cara de Lua?
Se você tá lendo isso, é porque finalmente acordou. Eu achava que você já estaria acordada pra berrar ‘Katsuki-kun’ na minha orelha assim que eu abrisse os olhos, mas não, eu acordei primeiro. Seus pais tão aí, e acho que você prefere acordar com eles do que comigo e minha cara de merda brigando com você por ter demorado voltar e deixado todo mundo preocupado, achando que você tinha morrido. (Sério, não morre, se não eu te mato)
Assim que me liberaram, a velha me fez almoçar com ela e meu velho, eu meio que tenho que fazer o que ela fala porque ela fez o favor de deixar esse yukata aí pra você. Eu vi que você gostou daquele que a gente viu na loja, então mandei o velho comprar um depois que você me deixou em casa, não é igual, mas é o mais parecido, a velha fez uns ajustes porque o que tinha na loja era muito grande, agora não tem como não servir porque eu fiz ela tirar as medidas.
Antes que você comece com mimimi de “ain, Katsuki-kun, pra que você foi gastar dinheiro comigo, deve ter sido super caro blá blá blá”, eu comprei quando ainda tava no seu corpo, então eu comprei PRA MIM, não tem motivo nenhum pra você não usar, só se você não quiser mesmo, aí já é problema seu.
Você não é obrigada a nada, mas se quiser, pode usar hoje no Hanabi Taikai, eu conversei com o Aizawa, ele vai liberar a gente só por hoje. Em troca, a gente vai ter que pajear a Menina Unicórnio durante as férias. Você gosta da pirralha, então se vira.
Você não precisa ir no Hanabi Taikai se não quiser também, mas ia ser do caralho se você fosse. Eu quero muito te ver.
Ah, e eu sei que você tava esperando encontrar uma coisa diferente escrita na sua mão, vai se foder! Eu não sou idiota igual ao moleque do filme! Se você quer mesmo ouvir isso de mim, vai ter que me encontrar pra eu falar na sua cara redonda e macia.
Eu vou estar te esperando no jardim de rosas (é, tem um jardim de rosas na U.A., como você não sabia disso, Cara de Anjinho?) me encontra lá até às seis e meia. Se você não aparecer, tá de boa, eu não ia ficar surpreso de você não querer saber de mim, eu sou um escroto e você é legal até demais. Agora, se você vier… bom, vem que você descobre. A decisão é e sempre vai ser sua, Ochako.
Katsuki.
P.S.: eu encontrei o Quatro-Olhos e ele veio me perguntar se tá tudo bem e se eu tô precisando de outro abraço. Que caralhos você fez???”
— Aquele idiota! — as lágrimas molham a carta que ele escreveu, e Ochako a abraça com força.
— Hã… Uraraka-san? — ela o olha espantada, Ochako quase esqueceu que o Deku tava aqui.
— Ah, me desculpe por isso, Deku-kun, eu… — ela enxuga as lágrimas.
— Tá tudo bem! É só que… eu sei que tô bem atrasado, mas… quero dar minha resposta para a sua confissão.
***
Midoriya Izuku ama Uraraka Ochako. Disso ele sabe mais ou menos desde o começo desse ano, quando eles combinaram de assistir a um filme com o Iida e ele não pôde ficar. Eram só ele e ela, lado a lado no sofá, Izuku tava com a visão borrada de tanto chorar com o filme, mas ao olhar brevemente pra ela, olhos atentos e brilhantes, as pernas abraçadas pelos braços e os cabelos presos em um rabinho de cavalo, ele soube ali que amava aquela menina, provavelmente não do jeito que ela gostaria de ser amada.
Se fosse pra comparar, o mais próximo seria dizer que ele a ama como ama um ídolo, ele a vê em um pedestal, inatingível, imponente, maravilhosa, tão benevolente e gentil que às vezes ela desce do pedestal e o elogia, sorri pra ele e, por um breve momento, acalma todos os usuários do One for All e suas dicas bem-intencionadas, mas às vezes superprotetoras. Quando ela se declarou, Izuku ficou sem chão, como pode alguém tão espetacular vê-lo dessa forma?
Não foi a primeira confissão que ele recebeu, mas foi certamente a primeira que ele realmente ouviu. Quando o Todoroki se declarou pra ele no Natal do ano passado, Izuku tinha a resposta na ponta da língua: “Obrigado, eu gosto muito de você, mas não desse jeito. Me desculpe, mas é que eu tô 100% focado no curso de heróis.” o Todoroki sorriu, agradeceu e seguiu em frente. Alguns meses depois, ele estava com o Yoarashi, e tudo ficou bem. Bem de uma maneira que Izuku não conseguiu ficar assim que ouviu o “Eu gosto de você, Deku-kun” vindo dela. Ele não podia falar “não”, jamais poderia negá-la o que quer que fosse, mas também não podia falar “sim”,a princípio, ele queria acreditar que era por causa do One for All e dos perigos que ela correria por estar envolvida com ele, mas não é, nunca foi, ela daria conta de se proteger do que quer que a ameaçasse, ainda arranjaria tempo para protegê-lo, porque ela é incrível nesse nível, e ainda assim, Izuku não consegue amá-la como ela deseja, tudo que ele consegue é ser egoísta, segurá-la a essa promessa de que enquanto ele não desse uma resposta, ela não daria chance a nenhuma outra pessoa ciente de toda sua magnitude, e isso não é bom nem pra ele nem pra ela, colegas, parceiros, amigos.
A Uraraka merece tudo que há de melhor, uma vida com um garoto indeciso quanto a tudo que não seja heroísmo e que a vê como melhor amiga, parceira, irmã e ídola, tudo, menos como uma mulher, não é o melhor pra ela, não é o que ela merece. Uraraka deveria ser feliz com um homem que a ama e a deseja, que não a enxerga no topo de um pedestal, e sim ao seu lado. E aí entrou o Kacchan e a troca de corpos, uma maneira inusitada de se apaixonar, mas talvez a mais efetiva.
Izuku sempre a admirou, ele também sempre admirou o Kacchan, os dois se apaixonando parece o destino jogando um jogo bagunçado de pega-varetas, alguns pauzinhos vão inevitavelmente se mexer, não importa o quão cuidadoso você seja.
— Eu torço para sua felicidade acima de qualquer coisa, Uraraka-san. — ele tenta dar o sorriso mais sereno que consegue — E sua felicidade não é comigo.
— Deku-kun… — ela dispara a chorar de novo.
— Ei, ei, não chora! Não precisa chorar por mim! Eu não… mereço que você chore por mim… — ele a puxa para um abraço, ignorando o rubor em suas bochechas — Vai ficar tudo bem, Uraraka-san.
— Eu só não quero que as coisas mudem entre a gente porque eu… me apaixonei pelo idiota do seu rival, não foi de propósito, eu juro, eu só…
— Você tem uma queda por idiotas, pelo jeito. — ele ri — Nada vai mudar, você é e sempre vai ser a primeira menina que foi gentil comigo, e eu sempre vou ser o garoto normal do cabelo enroladinho.
— E o Katsuki-kun sempre vai me dar nos nervos toda vez que ele for grosso com você.
— E eu vou sempre perdoá-lo, agora mais que nunca porque ele é o homem que minha melhor amiga ama, se bem que eu acho que ele vai se acalmar um pouco por causa dela, ela o torna mais gentil. Você é muito boa pra ele, sabia disso, né?
— Ele é bom pra mim também. Ele… me torna mais forte.
— Você sempre foi forte, Uraraka-san, isso não tem nada a ver com ele. — ela parece arrepiar sob os braços dele, e Izuku sorri, apertando-a, nada dessa força vem do One for All — E… tem uma coisa que eu preciso te contar, é sobre minha individualidade.
— Hã? Por que isso agora?
— Porque é importante e porque eu confio em você, mas isso fica pra outro dia, é melhor você não deixar o Kacchan te esperando.
— Como você… sabe que ele…?
— Ah, é que eu o vi no jardim de rosas quando tava vindo pra cá, eu não o reconheci de primeira, mas com certeza era ele. — ela o olha, curiosa, e ele só sorri — Vai com ele, a gente vai ter tempo pra conversar. — Izuku a solta do abraço, dando dois tapinhas nos ombros dela antes de andar rumo à porta.
Antes que ele saia, porém, ela o surpreende com outro abraço. A vez em que ela o abraçou no corpo do Kacchan foi uma experiência… bizarra, pra dizer o mínimo, é bem melhor ser abraçado por ela dessa forma, eles têm uma diferença pequena de altura, então ele a alcança melhor assim, inundado pelo cheiro dos cabelos dela.
— Obrigada por tudo, Deku-kun. Eu… te adoro.
— Também te adoro.
E assim, Izuku deixou seu primeiro e único amor partir, afinal, não existe uma regra de como o amor deve ser.
***
Katsuki olha o relógio do celular mais uma vez, batendo o pé impacientemente contra o chão pavimentado do jardim de rosas. Tsk, que lugar mais idiota ele escolheu, mas não tinha coisa melhor, é o único lugar que ele tem certeza que não vai aparecer ninguém a essa hora de uma segunda, a última coisa que ele precisa é algum figurante dando de cara com ele e o enchendo de perguntas inúteis.
— Eita! É o Bakubro ali? — falando em idiotas fazendo perguntas inúteis… ele reconhece a voz na hora: Pikachu. — Você tá… diferente, cara.
— Cê acha? Pra mim tá igual. — o Kirishima dá de ombros, puxando o braço do Pikachu no processo já que eles tão de mãos dadas. — E aí, nada dela ainda?
— Não, ela tá aqui, a gente tá brincando de esconde-esconde. — ele responde sarcasticamente — Tsk, é cada uma…
— Ei, fica calmo, mano!
— Você tá esperando quem?
— Quem você acha? — o Kirishima responde por ele, embora no tom dele soe bem mais amigável.
— Ahhhhh entendi, então ela e o Midoriya não…? Não vai virar mesmo?
Uma parte dele torce para que não, a outra parte apenas sabe que não. Porque uma das coisas que ele mais ama nela é como ela é sincera em suas reações e às vezes diz o que pensa sem usar palavras, e ontem foi uma combinação das duas coisas. Katsuki nunca esteve errado, ela tava flertando tanto quanto ele, querendo tanto quanto ele, e tava tão assustada e confusa quanto ele. Resta saber agora é se ela acha que isso vale a pena, tanto quanto ele.
Faltam cinco minutos para as seis e meia, mas não é como se ele tivesse checando o relógio de cinco em cinco segundos e virando a cabeça toda vez que ouve um barulhinho por perto.
— Ela vai vir, cara, pode confiar. — o Kirishima afirma de um jeito que não deixa espaço pra discussão, o que é bom, porque Katsuki não tá a fim de brigar. — Bom, vamos indo, Denki, a gente se encontra no festival!
— Kirishima!
— Opa! — o cabelo de ouriço vira pra olhá-lo e sorri.
— Valeu… por tudo, você sabe.
Tanto o Kirishima quanto o Kaminari arregalam os olhos e se entreolham. Ugh… por isso que não dá pra conversar com esses imbecis!
— Ah… de boa, bro! Tamo junto!
— Eu nem sei o que tá rolando, mas sabe, Bakubro, se você quer mesmo mostrar sua gratidão, você podia pagar uns tira-gostos pra mim e pro seu amigão aqui.
— Porra Denki, não abusa! — o Kirishima torce a boca.
— O Yakitori é por minha conta. — ele põe as mãos nos bolsos e acena com a cabeça.
— Aí, Bakubro! Valeu! — o Pikachu comemora — Viu, Eiji? Quem não chora, não mama, rapaz!
— Valeu, cara! Boa… boa sorte aí! — o Kirishima dá um leve soquinho no braço dele, e normalmente Katsuki devolveria o soquinho com uma explosão na cara desse idiota, mas hoje não. Hoje ele pode deixar passar.
Ele olha o relógio de novo, não acreditando que os dois paspalhos o distraíram tanto: 18:29 e nada dela. Katsuki se lembra da hora em que ele perguntou se falou alguma besteira por ter dito pro otário da B que ela já gostava de alguém, ele se lembra do “Eu te amo” que ela sussurrou quando eles tavam de mãos dadas hoje de manhã. Uraraka Ochako o ama, então onde caralhos ela tá?
E então, ele ouve o barulho de madeira batendo no chão, passinhos apressados de pés envoltos em getas. Katsuki olha pra frente e perde o fôlego ao vê-la. Puta que pariu, ele mesmo experimentou esse yukata ontem, como caralhos parece melhor vendo-o de fora assim? É por que ele sabe que é ela?
— Katsuki-kun! — ela corre e acena pra ele, as mangas do yukata balançando contra o vento, algumas mechas do cabelo dela presas e puxadas para trás enquanto os fios mais compridos acariciam as bochechas rosadas e arredondadas, bizarro como ele passou um mês inteiro naquele corpo e agora é como se estivesse o vendo de verdade pela primeira vez. Ela é ridiculamente linda, sempre foi, mas fica mais ainda quando é sua essência ali, a verdadeira Uraraka Ochako em corpo e alma. Ela para na frente dele, arfante. — Desculpa… a demora… eu tentei… fazer um coque… mas não deu… pera, você tá usando óculos!?
— Algum problema com isso?
— Não, não… de jeito nenhum, muito pelo contrário, tá… tá muito bom, você ficou muito bem… muito bem mesmo… — ela parece encará-lo de cima a baixo, e Katsuki sente o rosto pegar fogo de vergonha. Porra! Mesmo sem as bochechas de esquilo, ele ainda fica vermelho? Mas rapidamente se recupera, olhando-a atentamente no yukata que ela mesma escolheu semanas atrás. — Que… que foi? Eu… amarrei o obi certinho, né? Não tenho costume de usar yukata, então não sei. O que você acha?
— O que eu acho? — ele sorri, tentando espantar a cara de bobo — Meh, ficou melhor em mim.
Ela enche as bochechas de ar e o olha feio, fazendo-o rir. Porra, quando foi a última vez que ele riu assim em seu próprio corpo? Só ela mesmo pra fazê-lo se sentir tão… leve. É como se ela tivesse tocado com esses dedinhos no coração dele e tirado todo o peso, todo o medo, toda a angústia.
— Katsuki-kun, hoje de manhã… eu não sei se você ouviu ou se lembra, mas eu…
— Eu te amo. — ele diz seriamente — Foi o que você disse, é o que eu tô dizendo agora.
— Você…? — ela arregala os olhos e cora violentamente, uma cena perfeita com esse céu que mistura as cores da tarde com as da noite. Uma hora mágica. — Eu também… eu também te amo.
— E-eu… não tenho ideia do que acontece daqui pra frente, você sabe que essas coisas nunca estiveram nos meus planos, então… eu vou ser o melhor de todos, nunca duvide disso, sabe por quê?
— Por quê?
— Porque eu tenho a melhor de todos junto comigo. — Katsuki se aproxima, observando o brilho pulsante no olhar dela.
— P-parece um bom plano…
— É um plano bom pra caralho! E… a primeira parte do plano é assim, ó.
Terminando o que ele começou há dias, semanas talvez, Katsuki captura os lábios dela com os seus. Ele já sabia, mas é muito diferente sentir o quanto a boca dela é macia e doce, o quanto o cheiro dela é incrível e inebriante, o quanto tudo nela é encantador e mágico. Ochako envolve os ombros dele, aprofundando o beijo com entusiasmo e doçura. E porra, Katsuki não tem ideia de porque tem gente que fala que o primeiro beijo normalmente é ruim.
Esse aqui é bom pra caralho, assim como é o segundo, o terceiro e todos os que eles trocam enquanto o sol se põe no horizonte.
Não é um sonho. Não é a porra de um maldito sonho.
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