Eu não sou cachorro, não!
1 Capítulo único
Notas iniciais
Ela jamais havia entrado num estabelecimento como aquele. Era moça de família, ora bolas. Não convinha.
“Como o recepcionista do apart-hotel chamou o lugar onde informaram que Kiba estava? ”
Tentou lembrar, ao adentrar o minúsculo barzinho no centro da cidade. Analisou o papelzinho que segurava: −Kiba, como você veio parar aqui? – perguntou baixinho.
Na fachada, uma faixa com a frase: FOI MAL, TAVA DOIDÃO. Recepcionava os recém chegados. Num canto, próximo a mesa de sinuca, um pobre coitado tentava inserir uma tampinha de garrafa pet na entrada de moedas de, uma jukebox?! Brasileiros eram um povo esquisito.
— Com licença, senhor – pediu. A voz soou tímida, enquanto apertava junto ao corpo, uma bolsinha tiracolo. Foi ignorada com louvor. Obrigada!
A briga entre o objeto plástico e a máquina de som, parecia interessar mais o homem que sua sutil presença, além disto, a música era tão alta no ambiente que não valia a pena repetir a educação. A passos miúdos, a garota seguiu à procura do único ser capaz de lhe obrigar a entrar naquele muquifo. Inuzuka Kiba, no entanto vozes alteradas chegaram a seus ouvidos:
“Eu não sou cachorro, não
Pra viver tão humilhado
Eu não sou cachorro, não
Para ser tão desprezado”
Ficou tão chocada ao avistar o estado deplorável do amigo que tapou os lábios com as duas mãos. Lembrou-se no ato, qual o nome dado pelo recepcionista do hotel para o local em que se encontrava: Pé sujo.
A sua frente, um Kiba embriagado segurava um microfone na mão direita, na cabeça uma bandana estilo ninja, no rosto triângulos vermelhos pintados com batom, deixava-o com a aparência selvagem. A seu lado, dois sujeitos igualmente bêbados, ensinavam-lhe uma canção. As vozes desafinadas ecoavam pelo ambiente.
“Tu não sabes compreender
Quem te ama, quem te adora
Tu só sabes maltratar-me
E por isso eu vou embora.”
— É sério mesmo? – Hinata suspirou após proferir tais palavras para ninguém especifico. A vontade de retornar ao hotel em que se hospedara era imensa, porém, prometera a Shino-kun que se achasse o inconsequente primeiro, levá-lo-ia em segurança para o apart.
A Hyuuga recordou-se da mensagem de texto que recebera do Inuzuka há poucos minutos, quando ela e Shino separaram-se para procura-lo:
@Kiba: Amiga, por favor, vem me buscar aqui no bar da Brahma tô muito bêbado. 01:17
@ Kiba: Perdi minha carteira não dá para pegar um táxi...
01:18
O rapaz passara a manhã no quarto da Hyuuga, conversavam sobre o Aburame. Kiba nutria há anos uma paixão silenciosa pelo colega de trabalho. Temia confessar seus sentimentos e ser rejeitado. O jeito fechado do outro o desestimulava. Hinata desconfiava que o sentimento fosse recíproco e revelou suas desconfianças durante a conversa. Foi o estopim para Kiba deixar a amiga falando sozinha e buscar o crush no intuito de se declarar, todavia, nunca chegou aos aposentos do amado, sumindo em seguida, sem deixar pistas de seu paradeiro. Quando Shino foi até o 202 chamá-los para jantar, veio a revelação. A partir dali se iniciou o desespero dos dois. Principalmente devido à má fama da cidadã, alimentada pelos funcionários do apart-hotel.
E se ele estivesse em perigo?
Sequestrado?
Morto?
Hinata respirou fundo outra vez. Agora mais aliviada, afinal, Kiba estava seguro. Um pouco bêbado sim, mas, graças aos céus, seguro.
****
— Desculpa Manoel-san... no nosso país ele não costuma beber desse jeito – Hinata desculpou-se com o dono do bar.
O homem atendeu o celular de Kiba quando ela ligou, após visualizar a mensagem estranha. Gentil, ele lhe passou o endereço, preparando-a primeiro para não surtar quando chegasse ao estabelecimento.
— Não precisa explicar mocinha, sei que o seu amigo teve um dia bem difícil. Na verdade o olho puxado ai é um bêbado bem falante.
— Oe! ‘num ‘tô ‘bêbo não moço! Nem tenho o olho puxado – berrou ofendido. Kiba nem de longe parecia um dos melhores cinegrafistas com quem ela já trabalhou. Ele, ao lado de Shino, formava com ela o trio mais conceituado de jornalistas do país que dava nome a emissora. Assim que foram apresentados pelo presidente da Konoha International, formaram um time premiadíssimo. Apelidado de time 8 pelos colegas. No entanto a relação que poderia ter se limitado ao campo profissional transcendeu tornando-se uma amizade sincera e duradoura.
— E eu sou o Masashi Kishimoto! Aqui, menina, a carteira e o celular dele. Achei melhor guardar comigo, para evitar piores danos. Essa cidade é maravilhosa, contudo...
— Serio?! Você é o Kishimoto? – As presas salientes no sorrisão, marca registrada, começavam a aparecer.
Hinata adiantou-se:
— Não Kiba-kun, não é sério, ele está sendo sarcástico. Desculpe-me mais uma vez qualquer inconveniente que ele tenha lhe causado – implorou envergonhada, mas não recebeu resposta ao seu pedido. Assim que o dono do bar abriu a boca, os cantores que antes acompanhavam Kiba na cantoria, atacaram de novo:
“A pior coisa do mundo
É amar sendo enganado
Quem despreza um grande amor
Não merece ser feliz, nem tampouco ser amado
Tu devias compreender
Que por ti, tenho paixão
Pelo nosso amor, pelo amor de Deus
Eu não sou cachorro, não”
Conhecia pouco do idioma, mas a intensidade com que entonavam a canção falava por si. Os homens estavam sofrendo da dita, dor de cotovelo.
— Hina-chan, vamos! Quero lhe apresentar meus amigos – Kiba disse animado, como se conhecesse ambos há tempos – Hei...− Reclamou ao ter o braço puxado.
— Não Kiba, vamos para o hotel! O Shino... – Hinata contaria que o jornalista estava preocupado, que tinha ido à delegacia prestar queixa de seu desaparecimento, entretanto, foi interrompida com brusquidão.
— Não me fale desse, maldito! Não quero vê-lo nunca mais! – Soltou-se do agarre.
— Kiba?! – Hinata falou, surpresa diante do rompante.
Como uma avalanche, as memórias invadiram a mente do Inuzuka.
— Eu fui procurá-lo no apartamento dele. m-mas... mas ele não estava sozinho...
— Garcia, você não conhece o Kiba, ele não é como você... Ele jamais me perdoaria, tampouco, entenderia se eu dissesse algo assim a ele... Nos poucos minutos que vocês tiveram contato. Viu como ele é impulsivo e mal humorado. Nunca poderia levá-lo para casa comigo. Não posso forçar meu pai a conviver com ele... se cogitasse essa possibilidade teria que lhe ensinar boas maneiras antes. Não tenho tempo, nem paciência para isso.
— Domesticá-lo, quer dizer? Conheço você Shino. Namoramos tempo suficiente para saber que não é alguém de se deixar levar por sentimentalismos.
— Que seja! Ele pode vir a ter pontos positivos no futuro. Ser fiel, amigo, apaixonado, todavia é muito selvagem...
— Shino, mas não foi justamente isso que te encantou nele.
— Namoramos tempo suficiente para saber como eu sou. Não posso arriscar me apaixonar por ele.
— Eu sei o que ouvi Hinata-chan – O rosto de Kiba revelava que ele não se encontrava em um dos seus melhores dias – Caralho! Nunca mais irei beber desse jeito, na minha vida – Encolheu-se ante o som da própria voz. Sua cabeça latejava devido à bebedeira desenfreada da noite anterior. Sentia ódio de Shino. A culpa daquela maldita ressaca era toda dele.
Olhou para o celular. Escondeu o rosto entre as mãos. Estava mortificado ao rever as mensagens trocadas com Hinata. Eram vergonhosas demais. Entendeu a forma, nada educada da amiga respondê-lo:
Hinata: Amigo tu é sem juízo. ‘Tava quase dormindo seu inseto. Tô indo ai. 01:19
@Kiba: amiga já tô no quarto, não precisa me buscar mais não. 03:52
Hinata: Eu que te busquei e deixei no quarto carniça. Kkkkkjkk 03:56
Graças às divindades, não se lembrava de quase nada da noite anterior.
— Você, não pode ter se confundido?
A pergunta o fez retornar ao foco da conversa. Já estavam no quarto dele. Chegaram por volta de três da madrugada. Shino, depois de ser informado do paradeiro de ambos, os buscou de táxi no barzinho. Kiba estava ainda mais alto quando ele chegou. Não tinha como negar que o garoto de olhos puxados, foi maior atração do lugar e conquistou vários fãs. Após a cena dramática, proporcionada por sua envolvente narrativa acerca da conversa, que ouvira antes do almoço, Kiba foi apresentado a caipirinha e toda a lista de “músicas de corno” existente na jukebox. Cantou algumas, dançou sobre as mesas, não reconheceu nem mesmo o amado quando este lhe impediu de fazer um strip-tease ao som de “Vai Malandra. ”
— Eu não me confundi – Lágrimas podiam ser notadas em seus olhos – Shino, me considera um selvagem...
— Kiba... – Quis interromper. Não acreditava naquilo. Recordava o olhar admirado de Shino ao falar do, jeitinho, peculiar do amigo, numa das raras vezes que teve a oportunidade de vê-lo sem os óculos escuros (inseparáveis) durante um bate papo. Rezava para que tudo não passasse de um mal entendido.
****
— Eu o amo, Hinata. Bastante... – Ela sabia– Sei que não falo baixo, não sou muito inteligente, sou estabanado e como de boca aberta. Sempre os envergonho nas nossas viagens mundo afora, porém, não tem como eu mudar isso. É minha essência, quem eu sou. Entende? Só queria que ele me aceitasse.
A tristeza contida nas palavras ditas por Kiba a atingiu como uma voadora. Ouvir a conversa sem noção, entre Garcia e Aburame foi um duro golpe naquele coração apaixonado.
— Você estava enganada. Nunca fui, nem nunca terei meus sentimentos correspondidos. Ele prefere homens, educadinhos, como aquele ex namorado emproado dele.
Ao completar a frase trouxe à memória a forma como ele e Hinata se referiam ao antigo romance do colega de equipe. Um romance nada a ver, sem química, ou cor alguma.
— E os planos de se casarem... de terem dois filhos e um cachorro?
Inuzuka Kiba deu de ombros. Não havia mais planos, foram todos por água abaixo, após aquela decepção.
****
— Ele entendeu tudo errado!
— Agora sei disso, mas terá que se apressar, caso queira convencê-lo do contrário. O jatinho que Kiba alugou saíra daqui a uns... vinte minutos.
Hinata encarou a tela do celular antes de avisar o fato. Riu internamente ao ver a expressão desesperada do homem a sua frente. Sabia que o avião só levantaria voo dali duas horas, entretanto, ela passara a manhã inteira sendo solidaria na angustia do colega. Chorou com ele, ao pensar que Aburame Shino realmente fosse um homem sem coração. Ficou muito feliz por estar enganada, então pensou: Por que não poderia ser má só um pouquinho?
Metade da noite passou num bar sendo babá de bêbado, metade da manhã, ouvindo seus martírios. Okay, verdade que Shino ajudou um pouco, mas a pior parte ficou com ela. No momento só queria assistir de camarote o desfecho do dramalhão mexicano encenado pelos dois. De camarote, se possível.
— Eu tenho que chamar o Garcia, ele nos dará uma carona, porém tenho que passar no meu quarto primeiro. Kiba só me perdoara depois de ter uma prova viva que explique todo esse mal entendido.
****
Durante todo o trajeto até o aeroporto testemunhou o abatimento de Shino. Pegaram um grande engarrafamento durante o percurso.
— Dará tempo, Shino... creia.
— Se ao menos eu tivesse falado com ele, sobre o...
Garcia ao volante os olhou pelo retrovisor. A expressão dele dizia: Eu te avisei seu idiota.
— Chegamos – avisou, assim que estacionou o carro no aeroporto. – Toma – disse Garcia, ao que, entregava uma caixa de papelão que estava no banco do carona – Vai atrás do homem que tu ama, e desfaz toda essa confusão.
Encarou Shino por alguns instantes. Era nítido que ainda gostava dele.
— Vamos Shino – chamou Hinata.
— Obrigado Antônio. Por tudo – despediu-se do ex com um aperto de mão.
Antônio Garcia percebeu o quanto sentia falta de ser chamado daquele jeito pelo homem que ainda gostava, no entanto, não morava mais em Konoha e seu tempo havia passado. Shino estava apaixonado pela primeira vez na vida.
— Vá com sua amiga. Nos vemos por aí.
— Hay. Nos vemos por aí.
Não demoraram em achar Kiba. Literalmente, só precisaram seguir o cheiro da comida. Subornaram o gerente do fast food para entrarem com a caixa de papelão que portavam, entretanto, o que o convenceu foram os motivos que possuíam para fazê-lo.
Da entrada viram Kiba quase chorando sobre um belo prato de galeto com fritas. Hinata deu um tapinha nos ombros de Shino e incentivou.
— Chegou a hora.
Shino fixou o olhar no amor de sua vida. A alegria característica do garoto, não estava lá. Ele somente emitia tristeza e dor. Fez uma nota mental de nunca mais lhe fazer sofrer. Parou a poucos passos da mesa em que o outro se achava, chamando a atenção das pessoas nas mesas vizinhas. Foi notado por quem lhe interessava.
— O q-que você...?
Pela recepção as coisas não seriam fácies, Shino resolveu apelar logo.
— Kiba... me desculpa. Você entendeu tudo errado, eu e o Garcia não estávamos... – Não completou a frase e sentiu-se ser atingido por uma coxa de frango.
— Maldito! Como tem coragem!
Mais uma coxa de frango veio ao seu encontro, essa, acompanhada de batatas. Se esquivou, ao que, tentava proteger a caixa de papelão que trazia consigo. Os gritos do Inuzuka ecoavam pelo ambiente e revelavam a raiva que o dominava.
— Você disse para aquele bostinha que sou mal humorado e impulsivo – Mais batatas voaram sobre Shino. – Selvagem – Frango e guarnições.
— Nós não estávamos falando de você...
— Disse que não me quer convivendo com seu pai! – Teve que desviar de um copo com suco – Tampouco me levar para sua casa!
A essa altura todos ao redor já debandavam do fest food. Com certeza, se Shino sobrevivesse aos ataques ninjas que recebia, teria que pagar os prejuízos.
— Por favor, me ouça. Eu posso explicar tudo! – gritou e kiba pareceu se assustar com a atitude incomum, Shino aproveitou a brecha para se ajoelhar e colocar a caixa no chão. O gesto fora tão comedido que chamou a atenção do amado.
— Você, só tem um minuto.
Shino olhou para a porta e percebeu que Hinata resolvia a situação com o gerente e alguns seguranças. Levantou-se. As portas estavam sendo fechadas e praticamente estavam só eles ali. Devagar foi abrindo a caixa, sem retirar os olhos do Inuzuka nem por um segundo.
Um ganido invadiu o espaço. De dentro da caixa, uma bolinha de pelo branca se revelava e olhava tudo ao redor.
— O que...?
— Eu o encontrei na sexta pela manhã, quando fui a praia com o Garcia, estava muito ferido e acuado, dentro dessa caixa de papelão. Acabou por me morder. Deve ter sido abandonado...
Retirou o cachorrinho da caixa, e este logo foi na direção de Kiba, que s agachou-se para pega-lo.
– Eu o levei a uma clínica veterinária. Os veterinários que cuidaram dele, disseram que o mandariam para um canil, visto que, não posso ficar com ele.
Kiba arregalou os olhos em pânico. Não podiam deixar o bichinho num canil. Shino continuou sua fala:
— O Garcia sugeriu que o levássemos conosco, contudo não teríamos tempo para lidar com burocracias, viajaríamos amanhã pelo nosso cronograma...Se te contasse, iria sofrer em deixa-lo sujeito a própria sorte neste país– Um silêncio se fez, enquanto Kiba abraçava o cachorrinho que agradecia lambendo-lhe o rosto – Kiba, vocês são duas criaturinhas únicas. Assim como aconteceu com você, eu me apaixonei por ele à primeira vista. Não conseguiria deixa-lo aqui.
O Aburame estendeu para Kiba uma autorização que lhe permitia levar o cachorro para Konoha.
— Shino, está dizendo que...
— Eu amo você Kiba – Foi se aproximando do outro. – Te amei desde a primeira vez que te vi – Colocou a mão em sua nuca e lhe deu um selinho nos lábios.
— Você me beijou? – Kiba parecia atordoado.
— Hay. Te beijei.
— Isso é o que estou pensando?
— Não sei. O que está pensando? – Shino franziu o cenho.
— Que a gente, é tipo que... namorados a partir de agora? – Kiba perguntou apenas para confirmar o obvio.
— Pode ser, se você quiser, eu topo.
Outro ganido interrompeu o papo dos dois.
— Akamaru, você ouviu isso?
— Akamaru? – Shino questionou divertido. Seria impossível separar aqueles dois a partir dali.
— Gostou do nome?
Shino apenas acenou um discreto sim e abraçou o agora namorado. Após o gesto continuou com o braço sobre seus ombros, indo de encontro a amiga que os aguardavam na porta. Pelo sorriso dela e do gerente, Hinata usou da influência de seu sobrenome e de uma bela gorjeta, para resolver os problemas acarretados pelo piti dado por Kiba...
— Resolvido o problema do cachorro, agora é começar a pensar, no casamento e nos dois filhos, olhos puxados.
Hinata sussurrou no ouvido do Inuzuka assim que o amigo passou por ela. Kiba lhe lançou uma piscadela.
Aquele era somente o início de uma longa história de amor. Decerto a viagem ao Brasil ficaria para sempre guardadas em suas memórias.
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