Eu estrelo você

16 Isabel e Eduardo


Isabel POV

Segunda-feira às 06:50 da manhã, eu havia chegado na escola adiantada.

O Vinícius faltou semana passada, todos os dias. O que será que houve ? Ele não logou no Face e nem em nenhuma rede social nesse tempo, também não atendeu o telefone e me mandou ir embora quando fui visita-lo.

Algo muito tenso deve ter acontecido...

Ele sempre me conta tudo com a maior facilidade, então por que ele está me escondendo as coisas desta vez ?

De qualquer forma, ele não conseguirá esconder para sempre, e uma hora ou outra terá que vir pra escola.

Aliás, já faz um bom tempo que eu conheço o Vinícius...

Um ano, talvez ?

Eu estudava numa escola particular, na capital. Eu estudei lá até o primeiro bimestre do primeiro ano, mas depois tive que ser transferida.

Eu morava com os meus pais num apartamento na capital, mas eles se divorciaram e me mandaram pra morar com minha avó, numa cidade da zona leste.

Esta cidade é a que eu moro e estudo atualmente, também é a mesma em que eu conheci o Vinícius.

Flashback ON ~~ há um ano atrás.

Eu estava no portão da nova escola e não conhecia ninguém. Os alunos entravam um após o outro.

Havia um terreno na frente da escola, provavelmente era uma fábrica, mas ela estava em ruínas. Eu me perguntava o que haviam feito com aquela fábrica, será que demoliram ?

— Errr, ficar pensando em coisas aleatórias não vai ajudar em nada. — Falei sozinha, num tom baixo.

Adentrei a escola e peguei um papelzinho que havia guardado na mochila.

Este era o papel que a diretora deu pra minha avó com as informações da matrícula, incluindo a minha sala e o meu número de chamada.

— Ei, você é nova ? Vai vir pra minha sala ? — Perguntou uma voz, que vinha de trás de mim.

Virei um pouco o rosto pra ver quem era, e enxerguei um menino. Ele estava prestando atenção no papel que eu segurava.

Achei ele bonito à primeira vista.

O garoto que falou comigo era loiro e possuía olhos azuis, não sabia se o cabelo dele era pintado ou natural, mas provavelmente era natural, afinal a raiz do mesmo não estava preta.

— Sou nova, mas não sei se sou da sua sala.

— 1ºA, é sim ! — Exclamou ele.

— Beleza então. — Falei.

— Você está brava ? Está com uma cara feia. — Disse o garoto.

— Não to brava, mas tipo, me sinto bastante tensa. — Falei. — Não conheço ninguém aqui.

— Sei, você veio de qual escola ?

— Você não conhece, era uma na capital.

— Ahhhhhh, então você mudou de casa também ?

— Sim. — Respondi. — Eu morava num apartamento com meus pais.

— E por que se mudou ? — Perguntou o garoto curioso. Mas por quê será que ele estava tão interessado em mim !?

— Não interessa. — Respondi friamente.

— Q-QUÊ ?? QUAL É A DESSA PATADA ?? — Exclamou ele, dando um chilique.

— ... — Fiquei quieta.

— Eu venho aqui de boas falar com você e você me dá uma patada ?? Tá bom, ignorante ! — Exclamou ele.

— Eu não sou ignorante ! Você não me conhece e não pode falar assim de mim ! — Exclamei.

— Eu estava tentando te conhecer agora se você não percebeu !

— Ah é ?? Pois pra mim você parecia um estranho que queria me cantar !

— HAHAHA, até parece ! — Exclamou ele, num tom irônico.

— Idiota. — Falei, enquanto deixava o garoto pra trás e ia procurar minha sala.

Subi pro primeiro andar e rapidamente a achei, nem precisava de ajuda, foi fácil. Aquele garoto devia pensar que eu era burra, só pode.

Ao entrar na sala, vi uma única pessoa lá dentro, era um garoto que estava sentado numa carteira da frente, com a cabeça baixa. Provavelmente estava pensando.

A sala estava vazia, e eu me perguntava qual dos lugares não era ocupado por alguém.

Acho que os do fundo são vazios, mas eu não quero sentar no fundo.

— Ei, menino, você sabe qual desses lugares não é ocupado ? — Perguntei ao garoto de cabelos pretos e bagunçados, que estava sentado no seu lugar.

O menino apontou para um lugar perto da porta, bem na frente, e continuou apontando pra lugares perto daquele :

— Aquele, aquele, aquele e aquele.

— Mas são todos lugares da frente, tem certeza que ninguém senta aí ? — Perguntei.

— Aqui todo mundo senta no fundo, então os lugares da frente ficam vazios. — Respondeu ele.

— Ah, sério ?

— Uhum. — Afirmou ele.

— Obrigada. — Falei, enquanto me sentava no lugar mais perto da porta.

— Você já chegou ! — Exclamou o garoto loiro de antes, enquanto adentrava a sala.

— Sim, por quê ? — Perguntei num tom ignorante.

— Porquê eu pensei que você fosse se perder !

— Puta que pariu, cara, se toca. — Fale. — VOCÊ NEM ME CONHECE ! ACHA QUE EU SOU O QUE ? BURRA ?

O garoto loiro se sentou atrás de mim e falou :

— Tá, foi mal. Eu só queria ajudar.

— Hunf. — Suspirei.

— Qual é o seu nome ? — Perguntou ele.

— Isabel, e o seu ?

— Pablo Vinícius, mas me chame de Vinícius. — Respondeu ele. — Todos me chamam assim.

— Certo. — Falei.

— Você veio da capital, né ? Como era estudar lá ? — Perguntou Vinícius.

— Eu estudava numa escola particular, e ficava atolada nos estudos pras provas e nos trabalhos. — Respondi. — Era uma merda.

— Sei como é, tenho amigos que estudam em particular também, e todos sempre estão ocupados estudando. — Disse Vinícius. — É verdade que tem prova toda semana ?

— Bem, na minha escola, todo mês as duas últimas semanas eram usadas pra provas. — Falei.

— Caramba, duas semanas de prova por mês, que osso ! — Exclamou ele.

— Sim, nós precisávamos estudar nas duas primeiras, em casa e na escola com o auxílio dos professores.

— Mas você aprendia muita coisa ? — Perguntou.

— Claro, eu passava o dia inteiro estudando né filho. — Respondi.

— E por que saiu de lá ?

— Eu vivia pedindo pros meus pais pra ir para uma escola pública, eu odiava viver sob tanta pressão e estresse. — Falei. — Viver estudando sem ter tempo de mais nada era uma droga.

— Sério ? Meus amigos aparentemente amam estudar, os de particular, sabe ? — Perguntou ele.

— Aposto que odeiam, mas eles são manipulados pelos pais e almejam um futuro brilhante. — Falei. — Já eu não quero ser rica e nem possuir uma profissão de lucros e talz, então não tenha motivo pra ficar lá.

— Sei, o que você quer ser quando crescer ? — Perguntou Vinícius.

— Não sei, eu ainda não me decidi. — Respondi. — E você ?

— Também não me decidi, mas estou entre veterinário e arquiteto. — Disse ele.

— Sério ?? São duas profissões totalmente diferentes uma da outra. — Falei.

— Eu sei haha. — Disse o garoto.

Flashback OFF

Aquele foi o dia em que eu conheci o Vinícius, logo quando cheguei na escola ele veio falar comigo.

Nossa amizade durava bastante, ele era muito extrovertido e juntos arrumávamos novos amigos e amigas pela escola, mas... Havia algo que me incomodava.

Flashback ON ~~ Há um ano atrás.

Eu estava com o Vinícius na sala de aula, junto com todos os outros alunos.

Segunda aula, e o professor havia passado uma atividade.

— Por que aquele menino fica sempre sozinho ? — Perguntei. — Nunca vi ele falar com ninguém desde que cheguei.

— Que menino ? — Perguntou Vinícius.

— O Gabriel. — Respondi. — Ele é autista ? Acho que não, né ? Me lembro que falei com ele no meu primeiro dia.

— O que vocês conversaram ? — Perguntou Vinícius.

— Eu só perguntei qual lugar estava livre, para que eu pudesse me sentar. — Respondi.

— Ah.

— E aí, por que ele sempre fica sozinho ? — Perguntei.

— Eu sei lá, ele é estranho. — Respondeu Vinícius.

— Chama ele pra vir aqui. — Pedi.

— Por que eu ?? — Perguntou.

— Porque você está na sala dele à mais tempo. — Respondi.

— Não, é melhor deixar ele quieto. — Falou Vinícius.

— Por que ?

— Porque sim.

— Tá bom.

Eu não dei muita bola para aquilo na hora.

Mas um dia, ouvi duas garotas da sala comentando que antes o Gabriel e o Vinícius eram amigos, e eu me intrometi no assunto e perguntei à elas.

— É verdade que você era amigo do Gabriel ? — Perguntei.

— Onde você ouviu isso ?

— Me falaram que vocês só andavam juntos desde a sexta série. — Respondi.

— Hm, ele era meu amigo sim, mas nós brigamos e hoje não nos falamos mais. — Contou Vinícius.

— Por que ? — Perguntei.

— Para de perguntar sobre isso, aff, eu não gosto de conversar sobre aquele menino estranho. — Respondeu ele. — É uma coisa desnecessária, é passado, já passou, hoje ele é só um estranho.

— T-tá... — Decidi não mexer no assunto, pois parecia ser algo tenebroso.

Flashback OFF

Eu achava injusto o Vinícius não me contar sobre o Gabriel, afinal, eu contei pra ele do meu "passado obscuro".

Flashback ON ~~ Há um ano atrás.

No intervalo da escola, eu estava com o Vinícius, comendo no refeitório. Naquela hora, eu estava falando sobre o meu passado.

— Eu sempre quis sair do colégio particular, e sempre brigava com os meus pais por causa disso. — Falei. — Houve uma vez que joguei meus cadernos escolares pela janela do prédio, de tão puta que fiquei. Eles me obrigavam à estudar e não me deixavam sair do quarto, mas eu sabia exatamente o motivo daquilo.

— Acho que eles só queriam o seu bem, os pais são assim, querem o melhor pros filhos. — Disse Vinícius.

— Não. Eles queriam que eu fosse que nem o meu irmão. — Falei.

Eu tenho um irmão mais velho, ele também estudava em escola particular e até fez um vestibular. Ele conseguiu entrar em duas faculdades e começou à cursar engenharia mecânica e arquitetura simultaneamente.

Ele era a solidificação do que meus pais sempre quiseram, um gênio, o filho perfeito que nunca deu trabalho e sempre lutou pelo futuro, mas............................................

Ele morreu. Foi atropelado como um nada, por um carro desgovernado.

Quando isso aconteceu, eu tinha apenas 6 anos.

— Você já me contou a história do seu irmão, eu lamento. — Disse Vinícius.

— Sim, e os meus pais eram muito apegados com ele, muito mesmo. — Falei.

— E você acha que eles querem que você seja que nem seu irmão ? Toda estudiosa ? — Perguntou Vinícius.

— Não só estudiosa, eles querem que eu seja um completo clone dele... — Falei. — Minha mãe por exemplo, vive me comparando com o Eduardo (nome do meu irmão que morreu), ela diz coisas como "você tem que estudar muito pra entrar em duas faculdades que nem seu irmão" ou "se você tirar notas altas, vai ter um caminho promissor igual o seu irmão". Tudo era meu irmão, tudo, tudo...

— Eita, e você não gostava nem um pouco disso, né ?

— Claro que não ! — Exclamei. — Era um cú !

— Aí você foi se tornando uma filha rebelde e começou a discordar dos seus pais, né ?

— Olha, sinceramente, eu era sim rebelde, mas minha rebeldia sempre foi controlada, eu só discutia, birrava e fazia coisas mínimas. — Contei à ele. — O que me levou à desistir de tudo de uma vez, jogar os cadernos pela janela e parar de ir à escola foi...

— Você ficou puta com seus pais, não foi só isso ?

Hesitei muito em contar aquilo ao Vinícius, mas mesmo assim decidi contar, afinal já havia chegado à aquele ponto.

— Não, antes de ficar puta com eles, algo aconteceu. — Falei. — Eu encontrei meu irmão.

— Seu irmão ?? — Perguntou Vinícius, fazendo uma cara esquisita.

— Sim, você acredita em espíritos ?

— Não sei. Eu nunca vi um.

— Eu me encontrei com o espírito do meu irmão. — Afirmei.

— Sério isso ?

— Sim. — Falei. — Eu estava no meu quarto lendo os livros de estudo, rabiscando todas as folhas de raiva, enquanto lia.

— Rabiscando por que ?

— Eu estava tão estressada que não aguentava nem ver aqueles livros na minha frente, e eu rabiscava pra descontar minha raiva. — Expliquei. — Mas continuando, enquanto eu rabiscava aquelas páginas preciosas e caras, o meu irmão me observava de trás. — Contei.

— ... — Vinícius ficou quieto.

— Quando me levantei da cadeira, vi o Eduardo sentado na minha cama, me olhando sem parar. — Contei.

— E você gritou ??

— Não, eu peguei o livro e taquei nele. — Falei. — Mas obviamente foi inútil, pois o livro o atravessou.

— ...

— Eu já estava brava por causa de toda a pressão que estava recebendo, e joguei tudo na cara dele, eu falei que era culpa dele eu estar passando por aquilo. — Contei.

Flashback ON (Flashback dentro do flashback)

— Por sua causa, os meus pais estão me colocando essa pressão toda ! — Exclamei. — Você morreu e eles querem que eu seja uma "substituta" sua !! Por sua culpa, por sua culpa !! — Fiquei jogando canetas e lápis nele.

— Não é verdade, Isabel. — Disse Eduardo.

— Não venha com essa !

— Você só está sendo que nem eles, e só está pensando em si mesma. — Falou ele. — Em algum momento você já tentou pensar em como eu me sentia ?

Quando ele disse aquilo, eu parei de arremessar coisas.

— Assim como você, nossos pais me colocaram uma pressão enorme pra estudar desde pequeno, sempre me orientando e sempre me impedindo de ver meus amigos. — Contou ele. — E eu não tinha nenhum irmão mais velho na época, você entende agora ? Mesmo que eu não existisse, nossos pais fariam o mesmo com você, a única diferença seria que eles não teriam alguém pra comparar.

— ... — Pensei um pouco, e depois decidi falar. — Está dizendo que, de qualquer maneira eles iriam colocar pressão em mim ?

— Sim, mesmo que eu não existisse. — Disse Edu.

— ...

— Na sua idade, eu fiquei tão estressado quanto você. — Contou ele. — Mas eu adorava filosofia e sociologia, e eu tinha aprofundado muito meus estudos nessa matéria. Com os conhecimentos que eu tinha, achei que a razão deles colocarem tanta pressão em mim, poderia ser algo relacionado ao passado deles.

— O passado dos nossos pais ?

— Isso, você sabe, não é ? Eles já devem ter comentado que quando pequenos, queriam estudar e não podiam, pois moravam num lugar horrível do Amazonas. — Contou ele. — A escola ficava à quilômetros de distância, e o caminho era deteriorado.

— Sim, eu sei disso, nossos pais só foram terminar os estudos depois de adultos, assim que vieram pra cá. — Falei.

— Exato. — Disse Edu. — Eu refleti muito sobre o passado deles, e cheguei à conclusão que deveria continuar estudando e me tornar o que eles queriam, pois eles já haviam sofrido muito e só queriam o meu bem. Eu não quis magoa-los.

— Você completou o ensino médio na melhor escola da capital, tirou uma nota incrível no vestibular e entrou em duas faculdades, só pra não magoar nossos pais. — Falei. — Você foi o caso mais clichê de "filhinho de papai" que existe.

— Acho que sim, você me odeia por isso ?

— Eu te odeio, mas não apenas por isso. — Falei. — Eu te odeio por ter me feito ser sua sombra ! Mesmo que você não existisse e as coisas fossem quase iguais, haveria sim uma diferença ! Eu não seria comparada com o brilhante Eduardo !

— Me desculpe. — Disse ele.

O Edu fez tudo e aguentou todo o estresse só pra deixar nossos pais felizes, ele nunca sequer nem gostou de arquitetura ou engenharia, ele gostava de filosofia e sociologia ! Por que ele não se tornou um psicólogo ou coisa do tipo ?? Por que ele teve que obedecer cegamente os nossos pais ?? Foi por pena ? Por amor ? Por quê ?

— Por que você não se tornou um psicólogo !? Você adorava esse ramo ! — Exclamei.

— Eles queriam ter um arquiteto. — Falou ele, friamente.

— E você os obedeceu só por isso ???

— ........ Isabel, eu não vim aqui pra falar da falha que eu fui. — Disse ele. — Eu realmente era o filho mais obediente e bondoso o possível, mas eu nunca esperava que isso poderia ser a escolha errada. Eu deveria ter escolhido o meu caminho e mostrado aos meus pais, quem EU era.

— Sim, você deveria. — Falei.

Quando eu era criança, me lembro da imagem do meu irmão estudando sozinho no seu quarto escuro, ele arrumava um jeito de me enrolar e me colocar pra fora, sempre que eu ia o ver.

Também me lembro dele chegando em casa com a mochila pesada nas costas.

Eu vivi 6 anos com o meu irmão, mas não me lembro de ter brincado nenhuma vez com ele, nunca.

— Você nunca me deu a mínima atenção... — Falei. — Nunca, nunca.

— Me desculpe.

— Você me via como uma inferior, não é ? Eu era um incômodo pra você, pois só iria atrapalhar seus preciosos estudos. — Falei.

— Me desculpe. — Repetiu Eduardo.

— VOCÊ FOI O PIOR IRMÃO DO MUNDO ! — Exclamei.

Ficamos alguns minutos em silêncio, ele continuava sentado na minha cama de cabeça abaixada.

— Você não deve seguir o meu exemplo. — Disse ele. — Nossos pais vivem falando pra você ser como eu, mas por favor, não faça isso.

— Eu não vou ser como você ! Não preciso que você me diga isso ! — Exclamei.

— Sim, não seja, nossos pais sempre quiseram controlar os filhos com suas correntes, eles querem que sejamos o que eles quiserem, sem mudança alguma. — Disse Edu. — Se você pensar dessa forma, nós somos iguais, pois passamos pela mesma coisa.

— É... — Murmurei.

— Você precisa quebrar isso, você precisa mostrar à eles quem é você, quais são seus gostos e preferências, você precisa se libertar da vontade deles. — Disse Eduardo.

— ... — Fiquei quieta.

— Você não és uma mulher que se tornará o que os pais querem, uma boneca, e você não sou eu. — Falou ele. — Então, quem é você ?

Pensei por alguns segundos, mas logo entendi o que ele queria.

— Eu sou Isabel. Meu nome é Isabel. — Respondi.

— Do que VOCÊ gosta ? Qual é o SEU sonho ? Qual o SEU objetivo ? — Perguntou ele.

— Eu gosto de ouvir música, curto muito o estilo roqueiro. — Respondi. — Gosto do som da bateria, da guitarra. Gosto de comer salgadinhos, doritos pra ser precisa. Gosto dos meus amigos, gosto dos meus primos. Gosto de camisetas com desenhos maneiros, gosto de bolsas detalhadas e de brincos pequenos. Gosto de paisagens urbanas e de livros, adoro ler. Ainda não tenho um sonho ou um objetivo, mas eu quero muito encontra-los. — Falei.

— E aposto que um dia você vai conseguir, com sua própria força e com sua própria vontade. — Disse ele. — Afinal, você é você, Isabel.

— Hm... — Falei, emocionada.

— Eu tive uma morte repentina e não pude mudar nada, quem iria imaginar que um carro com freio quebrado passaria naquele lugar, justo naquela hora ? — Perguntou. — A culpa foi minha por abaixar a guarda só porquê estava atravessando na faixa e com o sinal verde.

— Foi realmente muita falta de sorte. — Falei, ainda emocionada.

— Não foi falta de sorte, foi uma casualidade. — Disse ele. — O trânsito é assim, não perdoa ninguém, um simples e pequeno segundo de descuido pode causar sua morte.

— ... Fiquei quieta.

— Então por favor Isabel, me prometa que sempre vai prestar atenção ao atravessar a rua.

— Eu prometo.

Abri os olhos e reparei que eu havia dormido, em cima do livro enquanto estudava. Era dia 26 de março, época do primeiro bimestre escolar.

Lágrimas escorriam dos meus olhos, molhando o livro.

— Edu... ? — Falei sozinha.

Limpei os olhos e olhei pra trás. Vi a minha cama, mas não havia ninguém em cima dela.

Saí do quarto e fui pra sala falar com meus pais.

Já era de noite, então eles já haviam chegado.

Morávamos no nono andar do apartamento.

Flashback OFF (Flashback dentro do flashback, Off)

— No final era um sonho, né ? — Perguntou Vinícius.

— Sim, eu sonhei com o meu irmão morto conversando comigo, e naquela noite quando acordei, tive uma árdua conversa com meus pais. — Falei. — No fim eu não consegui convencê-los, então fiquei puta e joguei tudo pelos ares.

— Sua cara fazer isso. — Disse Vinícius.

— Haha, sim, aquela foi a primeira vez que eu senti que era eu mesma, Isabel. Acho que só consegui aquela coragem por causa do sonho que tive com o meu irmão. — Falei. — Após aquilo, parei de ir pra escola, e os meus pais, com medo de eu me prejudicar mais ainda pelas faltas, me mandaram pra cá, pra morar com minha avó.

— Eles se divorciaram também, não foi ?

— Sim, mas não foi por minha causa, foi por uma história paralela. — Falei.

— Você ficou triste por eles terem se separado ?

— Um pouco, mas a felicidade de vir pra cá morar com minha avó cobriu a tristeza.

Flashback OFF

Sim, eu contei a história toda pro Vinícius, algo que eu normalmente não conto a ninguém... E mesmo assim, ele nunca me contou sua história com o Gabriel inteira.

Ele sempre dizia coisas vagas e desviava do assunto. Aquela praga só foi me contar que era gay depois de 2 meses que nos conhecemos.

Quando a Márcia tacou a cabeça dele no espelho aquele dia, e quando o Gabriel perdeu a memória e ficou morando na casa dele, o Vinícius me deu curtas e leves explicações, cheias de buracos ainda por cima ! Ate hoje não sei ao certo qual é a história dele com aquele garoto, apenas tenho minhas especulações.

E agora, falta por uma semana inteira e não me conta nada ! Aff, quem ele pensa que é ?

Vinícius adentrou a escola, às 06:59, e eu fiquei observando ele vir até mim.

— Oi Isabel. — Disse ele.

— VADIAAAAAAAAAA !! — Exclamei, enquanto abraçava o Vinícius, esmagando-o.

— AHHHH !!! TÁ DOENDO !!! — Exclamou ele.

— EU VOU QUEBRAR TODOS SEUS OSSOS ! — Exclamei.

— SOLTAAA !! — Pediu ele.

Continua no capítulo 17.