Notas iniciais
*Os capítulos agora, terão os títulos como : "Estrela" alguma coisa, Ex: "Estrela suicida". *Um capítulo de tamanho colossal pra vocês, para compensar o tempo que demorei à postar... ;-; Eu falei que iria compensá-los x-x, esse capítulo equivale por três, então, aproveitem bem. Se quiserem, eu recomendo que leiam umas 2000 palavras por dia, pra não cansar kkkk *Esse capítulo apesar de enorme, ficou muito legal ! *---*, adorei escrevê-lo, e acho que foi o melhor da fic, talvez... Espero que gostem :3

Vinícius POV

O Gabriel se lembrou de mim ?? Eu estava certo ao achar isso ?? Como assim ??
De repente, justo quando estamos brigados, ele se lembra de mim ? Isso é muito estranho, é até difícil de se acreditar. A amnésia do Gabriel por si só, já foi algo estranho, desde o início. Tanto que eu vivia desconfiando se era um fingimento ou não, mas, agora é diferente.

Eu tentei fazê-lo se lembrar de mim de várias maneiras, mas, não consegui. Então por que, justo agora que ele está afastado, conseguiu se lembrar ? Não faz sentido !

— Sério ? — Perguntei por reflexo.

— Sim. — Respondeu ele.

— Quando foi que você se lembrou ?

— Segunda-feira. — Respondeu ele. — Depois que eu voltei da escola.

— Como ??? — Perguntei.

— Não sei, eu comecei à me lembrar "pedaços" sobre nossa amizade aos poucos. Do nada, vinha um flashback na minha cabeça, e isso ficou acontecendo pela semana toda. — Disse ele. — Creio que até teve um efeito colateral, pois a minha cabeça parecia que ia explodir. Mas segunda-feira, todas as memórias que faltavam vieram à minha cabeça, e eu me lembrei.

— ... — Fiquei quieto e de boca aberta. Não sabia o que dizer.
E se ele estiver tentando me enrolar ? E se ele só estiver dizendo isso, porque sabe que enviou o vídeo, e quer tentar se "esquivar" do assunto ?

— Para ! Você não vai me enganar ! Você acha que eu sou idiota ? — Perguntei.

— Sim, eu acho Vini, mas eu gosto da sua idiotice. Se não fosse ela, não seria divertido brincar com você. — Respondeu ele.

— Q-QUÊ !!!? ENTÃO VOCÊ ADMITE QUE SÓ TÁ BRINCANDO, É ?? SEU MALDITO !! — Exclamei, enquanto me levantava da minha cadeira e ia pro outro lado da mesa, onde Gabriel estava sentado. — ACABOU DE ADMITIR QUE VOCÊ É O CULPADO !

— Hã ? Eu só disse que você é idiota, e que gosto de brincar com você. — Falou Gabriel, dando um sorrisinho forçado. Algo parecia estar o incomodando.

— Eu sei, você adora envolver os outros nos seus joguinhos psicológicos, mas saiba que isso NÃO funciona mais comigo ! — Exclamei.

Esse idiota, acha que vai conseguir me enganar, até parece. Farei ele contar de uma vez sobre o vídeo.

Peguei o Gabriel pela gola da camisa, e o puxei com força pra cima, um pouco. O suficiente pra levanta-lo da cadeira, ao menos.

— Vai, é sério Gabriel. Você já deve ter percebido que eu não viria falar com você se o motivo não fosse sério. — Falei, num tom de seriedade.

— Claro, o motivo tem que ser muito sério pra você vir falar comigo, mesmo. — Disse ele, num tom desanimado. — Pois eu fui seu amigo por muito, muito tempo, e agora sou como um completo estranho pra você. É natural das pessoas não falar com estranhos, não é ?

— Foi você mesmo quem disse que era o fim, não foi ??? Então seja homem e não volte atrás da sua palavra. — Falei. — Não me diga que já se arrependeu !?

— Eu não sei se... A-aah... Me arrependi, mas... É muito triste te ver no intervalo, como um completo desconhecido. V-você foi o garoto que eu amei, e o amigo que eu sempre tive. Por algum motivo, a-aah... Tá doendo, Vini... — Disse ele.

Parei de segura-lo pela gola da camisa, e deixei-o terminar de falar, mas, ao invés de terminar, ele não disse nada.

— Vamos, diga, estou esperando. — Falei.

— Eu não sei... Não sei o que dizer. — Disse Gabriel. — Eu não sei como por em palavras o que eu estou sentindo, Vini. Acho que meus sentimentos nunca estiveram tão confusos antes.

Sentei-me novamente na cadeira em que estava antes, e tentei ajudar o Gabriel à falar.

Meio que eu o compreendia, pois eu senti o mesmo nesses últimos dias. Após aquela discussão no parque, passei à ter saudades da amizade do Gabriel, e de como as coisas eram legais antes. Não sei se esse sentimento foi causado pela culpa ou pelo arrependimento, mas, eu consigo entendê-lo.

— Você recuperou a memória mesmo ? — Perguntei.

— Sim, acredite em mim... — Respondeu ele.

Se ele realmente recuperou, então ele deve estar mesmo confuso, pois o Gabriel que eu conhecia antes, era bem diferente do Gabriel que brigou comigo no parque. Não, na verdade, eram iguais, a diferença entre um e outro, era : Que um me amava, o outro não.

Basicamente, ele se lembrou dos sentimentos que tinha por mim, e se arrependeu de brigar comigo ?

Não irei acreditar totalmente que ele recuperou a memória, mas, vamos ver.

— Nós já conversamos sobre tudo que tínhamos pra conversar sobre o passado, e creio que você já me falou tudo que tinha pra falar, no parque. — Falei. — Não acho que ficar remoendo tudo de novo, vai causar alguma diferença. Se você lembrou, okay, e ponto. Nada vai mudar.

— Me desculpa. — Disse ele.

— Hã ? Pelo quê ?

— Você quer saber o motivo de eu ter desmaiado na frente da tua casa, e batido a cabeça ? Quer saber o porquê de eu estar lá aquele dia ?

Nossa, que pergunta avassaladora digamos assim. Se ele conseguir explicar tudo direitinho, então será uma prova de que ele lembrou de tudo, e muitas coisas estarão esclarecidas.

Não hesitei um segundo, e respondi :

— Quero.

Gabriel me contou todo o ocorrido: como ele se sentia ao estar longe de mim, o que ele sentiu quando dei um soco nele, a fúria que eu despertei na Márcia, o sonho que ele teve comigo, a briga que ele teve com ela, no passado, os dias sem comer e a razão dele ter ido na minha casa. Contou tudinho, e eu acreditei em tudo. Não tinha como aquelas coisas serem mentiras, nem mesmo ele inventaria uma história tão grande, tão bem detalhada e tão bem coerente.

— Então você tinha ido na minha casa pra desabafar... ? Você ia me falar pessoalmente o quanto eu te fiz sofrer, pra tenta se libertar do teu sentimento ? — Perguntei.

— Sim, mas eu fraquejei muito na hora, e tive um abalo emocional muito alto. Esse abalo somado aos dias sem comer, resultou no meu desmaio, eu acho. — Disse ele.

Isso me fez perceber, que o sofrimento que causei ao Gabriel foi muito maior que o esperado.

Este sentimento que eu sinto agora, essa saudade da amizade dele, ele teve que sentir por um longo ano, sozinho, sem ninguém à recorrer.

Aliás, ele recorreu à Márcia, mas ela não conseguiu ajudar em nada.

— E como você está, agora ? — Perguntei.

— Confuso, como eu disse. Não sei mais o que eu sinto por você. — Respondeu ele.

— E agora você está brigado com a Márcia... — Murmurei. A Isabel foi atrás da Márcia, vai ser um esforço sem sentido.

— Estou, e por sua culpa ! — Exclamou ele. — Ela pensa que vamos começar à namorar magicamente, agora que recuperei a memória.

— Hunf. — Falei.

— Mesmo quando eu a tinha, antigamente, você não me dava bola. Por quê daria agora ? — Perguntou ele, me fitando com um olhar curioso, e ao mesmo tempo, me mandando uma indireta.

— É, por quê ? — Respondi com outra pergunta. — Mas então, eu não posso te ajudar com a Márcia horas, pois ela me odeia ! O que eu posso fazer ??

— Não pedi sua ajuda, só quis desabafar. — Disse ele.

— NOSSA ! PARECE QUE VOCÊ NÃO PAROU COM AS PATADAS ! TÁ BOM ENTÃO ! — Exclamei.

— Não Vini, não fica bravo, eu só disse instintivamente, não queria te dar uma patada. — Falou ele.

— Calma, tudo bem, eu sei. — Falei.

— Mas, por que você veio falar aqui comigo ? — Perguntou.

Depois de conversar tanto com ele, já havia desconsiderado que ele era o culpado. Como posso dizer ? Eu confio no Gabriel. Não me lembro de ele ter mentido pra mim uma vez se quer, desde que o conheci. Apesar de eu sempre desconfiar de algumas coisas sobre ele, eu sempre acabei errado em desconfiar, pois no fim, ele não havia mentido.

— Sabe aquele vídeo que você achou no meu tablet ? Aquele... — Falei.

Se bem que, pra uma pessoa que veio com a vontade de esganar ele, acho que mudei de idéia bem rápido. Eu sei que no fundo, eu não achava que era ele o culpado. Só fui induzido pela Isabel, que fixou essa hipótese na minha cabeça.

— A-ah... Sei. Mas que feio Vini ! — Disse ele.

— Calado. — Afirmei. — Então, alguém conseguiu pegar aquele vídeo de alguma maneira, e o enviou pra Verônica pelo Whatsapp. Ela está mostrando pra todo mundo agora, e provavelmente vai publicar no jornal.

— Nossa. — Disse ele, se mostrando bastante surpreso.

— O que ?

— Você está bem com tudo isso, Vini ? — Perguntou ele.

— Claro que não ! — Respondi.

— Mas pra mim, você tá parecendo normal. Eu pensei que você ficaria apavorado se algo assim acontecesse. — Disse ele.

— Eu estou apavorado ! Olhe pra minha cara de apavorado ! — Falei, fazendo uma careta.

— Isso não é uma cara de apavorado, é uma cara de polvo. — Disse ele.

— Cara de... D-de polvo ??

— Sim ! Só faltou os tentáculos.

— Eu não sou um polvo. — Falei.

— Eu sei, eu sei. Enfim, isso é um problemão, mas acho que a vida está te dando uma lição. — Falou Gabriel, enquanto ajeitava sua camiseta que eu baguncei mais cedo, ao pegá-lo pela gola.

— Por que ? — Perguntei.

— Você sempre me evitava com medo que as pessoas nos vissem, e agora você está sendo exposto da pior maneira possível. — Respondeu ele.

— Entendi, pode ser um castigo mesmo. — Falei.

— Mas por que você veio falar isso comigo ? Você achou que fui eu quem enviei o vídeo pra ela ? — Perguntou ele.

— Quem achou isso foi a Isabel, e ela acabou conseguindo me convencer. — Respondi.

— Mas não fui eu, Vini. A primeira vez que vi aquele vídeo, você estava junto, e eu não mexi mais no seu tablet depois daquilo. — Disse ele. — Sem contar que, eu não tenho celular pra usar whatsapp.

— Verdade.

— E agora, o que você fará ?

— Não sei... Preciso pensar... — Falei.

— Sinceramente Vini, você foi muito burro. — Disse ele.

— Por quê ?

— Se fosse mesmo eu quem tivesse enviado, o que você conseguiria vindo aqui falando comigo ? Você acha que eu iria falar pra você, assim, do nada ? Eu só admitiria se você me encurralasse o suficiente. — Disse ele. — Mas, você nem deve ter pensado nisso, né ? Francamente, você e a Isabel servem um pro outro, são dois patetas que agem diretamente e por puro impulso.

— VOCÊ VAI FICAR ME FUZILANDO AGORA, É ?

— Claro ! Você foi muito ingênuo ! — Exclamou ele. — Tsk tsk, esteve comigo por tanto tempo e não aprendeu nem um pouco. Acho que não tenho escolha.

— ... ? — Fiquei quieto.

— Eu vou te ajudar à acabar com a Verônica, e vou te ajudar à descobrir quem enviou o vídeo pra ela. — Afirmou ele.

Ele quer me ajudar, agora ? Mas eu não entendo, o que ele vai ganhar me ajudando ?

— Talvez você esteja se perguntando : "O que o Gabriel vai ganhar me ajudando ?". Bem, eu não irei ganhar nada, mas eu te ajudarei mesmo assim. Somos amigos, não somos ?

Quando ele disse tal frase, de imediato, não pude falar nada. Eu não consegui, mas automaticamente meu corpo respondeu-o com um gesto. Dei um sorriso pra ele, e depois concordei.

O sinal tocou e eu subi imediatamente pra sala de aula, para que pudesse contar as novidades pra Isabel.

Contei pro Gabriel que a Isabel tinha ido atrás de Márcia, e concluímos que poderia resultar em algo desastroso. Decidimos então, nos encontrarmos na saída, para decidirmos melhor o que faremos à seguir.

— Vadia ! Tenho um bafão pra te contar ! — Exclamou Isabel.

Me sentei na frente dela, como de costume, e me virei pra trás pra ouvir.

— Sério amiga ? Eu também tenho um ! Posso contar primeiro ? — Pedi, entusiasmado.

— Conte, conte ! — Ela parecia animada.

— Eu e o Gabriel voltamos a ser amigos ! — Exclamei, com um sorriso no rosto.

— É vadia ? Conseguiu recuperar o Boy magia ? Que bom ! — Isabel deu risada, e se mostrou contente com a notícia.

— Sim, eu consegui re... O-O-O QQ-QUÊ !?? BOY MAGIA ?? N-não ! Claro que não ! Até parece ! — Exclamei. — Como assim o Gabriel é um boy magia ? Nunca ! Ele é um garoto normal ué, boy magia é o Guilherme.

Fiquei surpreso pela Isabel se referir ao Gabriel como boy magia. Ela nunca havia se referido à ele desse jeito, antes.

— Hahahahahha, tá bom,tá bom, desculpa. — Disse ela. — Agora posso contar ??

— Pode, pode.

Isabel me contou sobre a discussão com a Márcia, sobre ela gostar do Gabriel, sobre a armadilha da Verônica e sobre o Nell ter acabado com ela.

Eu fiquei pasmo, muito pasmo.

— Não é maravilhoso ?? Agora você não tem mais que se preocupar com o vídeo ! Já era ! — Exclamou Isabel. — Só algumas pessoas viram, poucas.

Eu fiquei feliz com a notícia em si, mas fiquei um pouco chateado sobre a Márcia. Quer dizer que ela gostava do Gabriel, no fim de tudo ?

Acho que fiz mal à Márcia, mesmo que indiretamente.

— É maravilhoso sim, mas e a Márcia ?

— Deixa ela, logo ela melhora. — Respondeu Isabel.

— É que ela brigou com o Gabriel, e... — Fui falar, mas acabei interrompido por ela.

— A Márcia brigou com o Gabriel ?? Por quê ??

— Ela não falou ?

— Não.

Contei à Isabel tudo que eu conversei com o Gabriel, incluindo o fato dele ter recuperado a memória.
Não irei esconder mais nada da Isabel.
Os alunos e os professores adentraram a sala de aula. Eu peguei meus materiais da mochila e os coloquei sob a mesa, enquanto continuava à conversar com ela.

— Ah, agora faz sentido, então era por isso que a Márcia estava deprimida quando eu cheguei, e é por isso que ela estava toda isolada lá na sala de aula, apesar de ser intervalo. — Falou ela.

— Eu não acho que o Gabriel vá se desculpar com ela, pois ele acha que ela é quem está errada.

— Eu também acho que ela é a errada. Verdade que ela só queria protegê-lo, mas convenhamos, ela tentou controlar ele demais.

— Eu discordo, eu acho que o Gabriel está errado.

— O Gabriel é gay, e ele gosta de você. Não tem como ele ficar com a Márcia, e ela deveria ter entendido isso.

— Mas eu acho que ele não deveria ter brigado com ela. Eu acho que ao menos, ele deveria ter escutado o que ela tinha à dizer de cabeça abaixada. Digo, ouvir palavras ruins da pessoa que a gente ama, machuca bastante. — Falei.

— Olha só quem está dizendo. — Disse ela, me provocando.

— Eu sei, eu sei. Mas agora eu sou diferente de antes, e por isso , fico do lado da Márcia. — Falei. — O problema é: como farei os dois voltarem à se falar, se a Márcia me odeia ?

— Que a sorte esteja à seu favor, amiga. — Disse ela.

— Não Katniss, você vai me ajudar. — Falei.

— Como eu posso ajudar ? — Perguntou ela.

— Diferente de mim, a Márcia não te odeia. — Falei. — Você poderia se tornar amiga dela, e apoiá-la agora que ela vai estar sozinha.

— Verdade, ela só tinha o Gabriel e o Nell como amigos...

— E o Kaio. — Falei.

— Quem é Kaio ?

— Um amigo deles.

Continuamos conversando sobre isso, enquanto fazíamos as lições.

Na saída, me despedi da Isabel e procurei pelo Gabriel, lá fora.

Ele estava na calçada do outro lado da rua, me esperando.

— Vamos ? — Perguntei.

— Sim, vamos. — Respondeu ele.

— O Nell te contou sobre a Verônica ? — Perguntei à ele.

— Contou sim. — Respondeu. — Acho que não vou mais precisar te ajudar, pois o Nell já acabou com tudo por mim.

— Verdade, mas ainda tem o negócio da Márcia. O que você vai fazer quanto à ela gostar de você ? — Perguntei.

— Hã ? A Márcia gosta de mim ?

— Sim ué, você não sabia ?

— Não.... — Respondeu ele.

Putz, acho que contei algo que não deveria. O Nell não deve ter contado essa parte pro Gabriel, pois achou que era uma tarefa da Márcia.

— Vixi, fiz merda. — Falei.

— Está tudo bem, eu já desconfiava disso, só não tinha certeza. — Disse ele. — Eu não tenho como corresponder a Márcia, mas não é por culpa dela, e sim da minha própria essência.

— Eu te entendo.

— Eu também te entendo. — Disse ele.

— Como assim ?

— Agora estou sabendo como você se sentia em relação à mim.

— ... — Decidi não falar nada.

— Só vou tentar não magoar mais a Márcia.

— Você vai se afastar dela ? — Perguntei.

— Não não ! Eu não quero que ela passe pelo mesmo que eu passei. Tentarei conversar com ela para que ela desabafe, e depois, verei o que farei. — Respondeu ele.

— Decisão sábia.

Fui conversando com ele até que chegou a hora de eu virar em outra rua, e seguir pra minha casa.

— É, o Gui me trocou completamente pelo Nell, hihi. — Disse ele.

— Não me surpreende, eles eram amigos de infância, não é ? Amigos de infância tem de ficar sempre juntos. — Falei, instintivamente.

Gabriel me olhou com seus olhos castanhos, com um sorrisinho no rosto.

— Sim, é verdade. — Ele concordou.

Eu retribuí o sorriso dele, com outro sorriso, e perguntei :

— Agora estou indo, você vai ir amanhã ?

— Vou. — Respondeu Gabriel.

— Até amanhã, então. — Falei, enquanto virava a rua e ia pro meu caminho.

— Ei ! Você vai me desbloquear do face ?

— Verdade, quase me esqueci. Vou desbloquear sim ! — Respondi, olhando pra trás de relance.

— Certo, até mais ! — Disse ele.

Andei até o fim da rua, e chegou a hora de virar novamente. Mas, antes de virar, eu olhei pra trás, e tive uma surpresa.

Vi o Gabriel lá atrás me olhando ir embora. Ele estava parado.

Assim que eu olhei pra ele, ele começou à andar indo pra sua casa, desaparecendo do meu campo de visão.

— Esse idiota... — Murmurei, com um sorrisinho no rosto.

Após andar um pouquinho mais, cheguei em casa, almocei, entrei no facebook, desbloqueei o Gabriel e fui jogar League of legends.

Comecei à jogar esse jogo semana passada, quando estive faltando na escola, portanto ainda sou meio noob.

Joguei três partidas, e já ia começar a quarta.

Quinta-Feira às 16:08 (entardecer)

— Eu joguei por um tempão e ainda sou de bronze, ninguém merece ! Quando diabos vou passar pra prata ? Olha que estou na divisão I, estou quase passando, mas mesmo assim não passo, aff. — Resmunguei comigo mesmo, quando uma visita inesperada abriu a porta do quarto.

— Vini. — Falou Gabriel.

Olhei pra trás de relance e tirei o headset da cabeça. Gabriel estava todo soado e ofegante.

— O que foi ? Por que veio aqui de surpresa ? Foi a Maria que te deixou entrar ? — Perguntei.
Pensei que o Gabriel não viria aqui tão cedo, mesmo tendo voltado à falar comigo. Pensei que ele teria uma vergonha enorme pra voltar, pois se lembraria de tudo que aconteceu, e hesitaria. Mas ele não fez isso, veio aqui no mesmo dia em que voltou à falar comigo.

— Te mandei convite no face e você não aceitou, tentei te ligar também mas só deu caixa postal. — Disse ele.

— Você veio aqui porquê eu ainda não te aceitei ?

— Não Vini ! Não seja idiota ! — Exclamou ele. — A situação é muito mais grave do que você pensa.

O espanto do Gabriel me deixou assustado, mas mesmo assim, perguntei sem hesitar :

— O que aconteceu ?

Ele olhou pra tela do meu computador, e chegou mais perto de mim.

— Você está todo soado. Correu uma maratona, foi ? — Perguntei.

— Esse jogo, por que você está jogando isso ? — Perguntou ele.

— Comecei à jogar semana passada, é legal. — Respondi.

— Mas LoL é jogo de viado, Vini. — Falou ele.

— Claro que não ! Nada haver ! — Exclamei.

— Você é um viado, e joga.

— É p-porqu... Aff, você veio aqui pra insultar meu joguinho, ou... ?

— Feche esse jogo logo, e entre no seu face. — Disse ele, como se estivesse me ordenando.

Dado o tom de voz dele, apenas obedeci, e tive uma surpresa gigante ao ver minha timeline.

5 minutos depois

Eu estava andando pra lá e pra cá dentro do meu quarto, inconformado. Já o Gabriel, estava mexendo no meu Facebook.

— E agora !?? Minha vida está acabada !! Você viu o tanto de gente que comentou essa publicação ?? Um monte de amigas minhas da escola, amigas das amigas, e até meus tios, tias e primos !! — Exclamei. — Tenho certeza que minha mãe já viu também, e agora Gabriel ? E agora ? Nós subestimamos a Verônica !
Dei um chute bem forte na minha cama, e a Maria ouviu.

— Quê isso ?? Vocês tão destruindo o quarto, é ?? — Perguntou ela, da cozinha.

— ME DEIXA ! — Gritei. — Já era, já era, minha vida acabou.

Deitei na minha cama e me encolhi todinho nela.

— Isso é estranho... Entrei no meu face aqui e estou falando com o Nell. — Disse Gabriel. — Ele ficou pasmo quando viu o post.

— Você já me desmarcou, ao menos... ? — Perguntei.

— Já, o post não está mais na sua timeline. — Respondeu ele.

Não consegui conter o choro por mais um segundo sequer, e desabei em lágrimas.

— A-aaahh, p-por quê essas coisas a-acontecem comigo... ? Por quê justo comigo... ? — Falei sozinho, enquanto chorava.

— Postaram o vídeo e te marcaram, para que ele aparecesse na sua timeline às 13:22, acho que você já tinha começado à jogar LoL, e por isso não viu. — Disse ele, enquanto se levantava da cadeira do computador e sentava-se na minha cama, perto de mim. — O Nell ficou desesperado, pois tinha certeza que havia calado a Verônica de uma vez por todas. Ele agora está se sentindo culpado, por ter acabado forçando-a à fazer uma coisa daquelas.

— N-n-não é culpa dele... A-a culpa é minha, d-droga... — Murmurei, enquanto dava uma fungada.

— O nome do contato que postou o vídeo, é "FourAfternoon Bridge". O único amigo na lista de contatos dele, é você. Ele também não possui nenhuma foto ou post em sua timeline, e o facebook dele foi criado este ano. — Disse Gabriel. — Você aceita todo mundo que te manda convite, não é ?

— S-sim, d-droga..... — Falei.

— Se lembra de quando aceitou esse tal Four ?

— N-não...

Esse contato chamado "Four", postou o meu vídeo pessoal, na minha timeline. O vídeo em que eu chupava um vibrador.

— Isso é muito suspeito. — Falou Gabriel.

Eu já estou brigado com a minha mãe, e agora, como vai ser ? Se ela viu esse vídeo, já era pra mim. Eu não terei mais como me defender dela, e ela vai usar o fato de eu ser gay como uma desgraça suprema.

Pior ! Ela pode acabar me mandando pra Minas Gerais pra morar com meus outros avós !

Não, eu não quero ir...

E a escola ? Como o povo vai me olhar ? E os professores ? Eu agora serei o assunto da escola ! E por culpa da Verônica !

P-por quê ela é tão cruel ?? Por que ela fez isso comigo...? Como teve coragem ??

— Pare de chorar Vini, seja forte. — Disse Gabriel.

Continuei encolhido na cama, e falei :

— Não chorar ? Ser forte ? Minha vida está acabando, e você me pede isso ? Eu não terei mais ninguém agora. Ficarei completamente sozinho, e com todos falando de mim. — Exclamei.

— Você só está se fazendo de vítima. — Falou ele.

— Não estou me fazendo de vítima, eu sou a vítima.

— Eu já fui "vítima" várias vezes, e nem por isso fiquei reclamando. Também passei grande parte do tempo sozinho, sem ninguém à recorrer, absolutamente sozinho. — Disse ele.

— Mas você é você, e eu sou eu. A-agora eu t-também estou.. Absolutamente s-sozinho... — Falei. — Até a M-Maria vai me odiar...

— Você está errado, Vini. Você não está sozinho. — Disse ele.

— Como não ?

— Você tem a mim. — Falou Gabriel.

— S-se te v-verem comigo, vão te envolver em tudo, e você será mal falado t-também... — Falei.

— Eu não ligo. — Disse ele.

Me levantei e me sentei na cama, ficando ao lado do Gabriel.

— Como não ?? V-você voltou à falar comigo ainda hoje. Não estamos tão bem assim à ponto de você se prejudicar por mim. — Falei, olhando bem nos olhos do Gabriel.

— Eu realmente não ligo Vini. Te deixar sozinho que eu não vou, pois isso dói muito. — Disse ele. — Mesmo que o mundo inteiro fique contra você, eu ainda ficarei ao seu lado, e enfrentarei o mundo inteiro por você.

Estar olhando dentro dos olhos do Gabriel quando ele disse tal frase, foi algo inesquecível, pois os olhos dele pareceram brilhar, quando ele falou.

Não, os olhos dele não brilharam, foi o oposto. É como se eles estivessem ficado mais escuros.

— Seus olhos são pretos... — Falei.

— Nossa, você só percebeu agora... ? — Perguntou ele.

— Eu pensei que fossem castanhos. — Respondi.

— E eu pensei que você já estivesse percebido a cor deles à tempos.

— N-não, não fique chateado Gabriel, desculpa, é que é difícil notar isso olhando de longe.

— Tudo bem Vini, tudo bem. Pelo menos você notou agora.

O destino é algo bastante traiçoeiro. Quando o meu mundo parecia estar desmoronando, o Gabriel era o único que estava lá pra me emprestar seu ombro amigo, e agora, quando o meu mundo está literalmente desmoronando, ele é novamente, a única pessoa que eu tenho.

Não era pra ele estar aqui agora. Era pra estarmos brigados, ainda. E se ele não tivesse recuperado a memória ? Eu duvido que ele estaria aqui, agora.

Talvez tenha sido um milagre, eu ter voltado à falar com o Gabriel justamente no dia em que eu mais iria precisar dele.

Isso chega à ser um pouco suspeito, também, mas tenho certeza que seria muito rude da minha parte, desconfiar dele.

Eu tenho é que agradecer por ele estar aqui, agora.

Encostei minha cabeça no ombro dele, exatamente como eu fiz na vez que ele me protegeu da minha mãe, mas desta vez, ele mostrou alguma reação; ficou completamente vermelho.

— C-como você vai e-encarar sua mãe, hoje ? — Perguntou ele.

— Nem me pergunte... Eu queria achar um jeito de fugir dela, tipo fingindo estar dormindo, mas acho que é impossível. Quando ela chegar, mesmo que eu esteja dormindo ela virá me acordar pra conversar sobre o vídeo. Tenho certeza. — Falei.

— Fugir é inútil Vini, uma hora ou outra vocês terão que conversar sobre isso.

— Eu sei... Mas queria ao menos adiar. — Falei.

— Hm... — Ele se mostrou pensativo, e logo sugeriu: — Quer ir dormir lá em casa, hoje ?

É uma ótima ideia ! Se eu convencer minha vó à me deixar ir, poderei dormir lá, e quando minha mãe chegar em casa, já estarei longe.

O problema é que, só poderei dormir uma noite, pois minha mãe provavelmente vai contar do vídeo pra minha avó, e ela ligará na casa do Gabriel pra falar com o pai dele, para que eu vá embora.

— Mas, há a chance da minha avó ligar pro seu pai e conversar com ele sobre o vídeo. Isso não vai te prejudicar ? — Perguntei.

— Verdade, nesse caso, eu mesmo conversarei com meu pai com antecedência sobre o assunto. — Respondeu ele.

— Você vai contar tudo ??

— Sim.

— Ele não vai ficar bravo ?

— Talvez, quem sabe ? Mas e aí, vai querer ir ou não ? — Perguntou ele.

— Vou, claro que eu vou ! — Respondi.

— Mas, prepare-se pra ter que enfrentar sua mãe, amanhã à noite. — Disse ele, enquanto passava a mão no meu cabelo, fazendo um rápido carinho.

— Eu sei... — Falei.

— E mais, amanhã preciso que você venha à escola, também.

— DE JEITO NENHUM ! VOU FALTAR NA ESCOLA POR UM MÊS ! — Exclamei.

— Não, você não pode, pois já faltou por uma semana inteira, sem contar que fugir e fugir não vai resolver nada. — Disse ele. — Não seja egoísta, como você mesmo disse, voltamos à nos falar ainda hoje, então não dependa tanto de mim assim.

— M-mas Gabriel, se eu for amanhã, todos estarão falando de mim, e...

— Eu sei, mas você não tem alternativa. Sinto muito Vini, só que você vai ter que aguentar tudo isso. — Disse ele.

— De jeito nenhum.

No fim, eu e o Gabriel convencemos a Maria para que deixasse eu dormir na casa dele, e eu fui pra lá.
Desligamos o telefone da casa dele também, pra garantir que minha mãe não ligasse.

Ele só foi conseguir me convencer à ir pra escola, no último minuto. Isto é, na hora de levantar cedo e ir.

Eu realmente não queria, mas realmente não tinha opção.

Fomos andando juntos pra escola, saindo da casa dele. Tentei me esconder duas vezes, mas ele me achou facilmente.

— Vini, essa atitude não vai ajudar em nada ! — Exclamou ele, me dando uma bronca.

— Você não entende o quanto é difícil pra mim, por isso está tão relaxado... — Falei.

— Não, eu não entendo, pois o meu senso de vergonha é bem menor que o seu. — Disse ele.

— Então você é um sem vergonha.

— Sim, eu sou um sem vergonha, e sou muito mais sujo do que você pode imaginar. — Ele concordou comigo, mas tenho certeza de que falou ironicamente.

Após andar mais um pouco, chegamos na frente do portão da escola.

Já pude notar alguns olhares diferentes vindos em minha direção, e risadinhas à parte também, mas abaixei a cabeça e tentei com todas as forças ignorar.

— Temos que procurar pelo Nell, Vini. — Disse Gabriel, que me puxou pelo braço pra dentro da escola.
Chegamos no pátio e mais olhares e risadas puderam ser percebidos.

Márcia POV

No caminho da escola, vi o Vinícius e o Gabriel indo juntos em direção à mesma, e fui os seguindo escondida até que os mesmos adentrassem o pátio.

Por quê o Vinícius estava voltando pra escola junto com o Riquelme ? Eles voltaram à se falar ? Eu sabia ! Sabia que isso iria acontecer ! Eu tinha certeza ! E mesmo assim, ele me garantiu que não iria voltar à falar com esse desgraçado !!

E-eu não acredito.........

Vinícius POV

— Mano, olha aquele moleque ali, tu viu o vídeo que tão compartilhando ? — Perguntou um menino, falando com o amigo. Eu pude ouvir mais ou menos eles conversando.

— Eu vi cara, viadão. — Respondeu o outro.

— Não dê atenção, Vini. — Disse Gabriel, me levando rapidamente.

Quando encontramos Nell, ele não estava sozinho. Ele estava na companhia de Verônica e de Isabel.

— Nell ? — Perguntou Gabriel.

— Gabriel, não foi a Verônica quem postou o vídeo na timeline do Vinícius. — Disse o garoto albino, em sua cadeira de rodas

— É verdade Vinícius, não foi ela. — Falou Isabel.

— Como não foi ela ? — Perguntou Gabriel.

— Eu só mostrei o vídeo pra algumas garotas, e pros membros do clube de jornalismo. E eu dou a minha palavra que não o passei pra ninguém. — Respondeu Verônica.

— Ninguém mexeu no seu celular e pegou ? E quanto ao notebook do clube ? — Perguntou Gabriel.

— Ninguém mexe no meu celular, fora que tem senha nele e na galeria. Quanto ao notebook, eu apaguei o vídeo dele e da lixeira, assim que fui seguir a Isabel. — Respondeu ela.

— Você tem certeza ?? — Perguntou Isabel.

— Tenho, já falei que não fui eu ! Se fosse, eu falaria ! — Respondeu ela.

Eu estava com muita vergonha, e também não estava em posições de falar nada.

— Eu acho que sei quem foi. — Disse Gabriel. — É só uma hipótese, mas... Talvez tenha sido o próprio garoto que recebeu o vídeo do Vini.

O Dan ? Não, eu duvido. Ele morava no Piauí, é impossível que ele tenha conhecimento sobre meus amigos reais ou sobre minha escola. Não teria como ele conhecer a Verônica, por exemplo, pois na época em que eu era apaixonado por ele, nem mesmo eu conhecia ela.

— Impossível... O Dan morava no Piauí... — Falei.

— E se o "Dan", na verdade, estiver mais perto do que imaginamos ? — Perguntou Gabriel.

— É uma hipótese, não podemos desconsiderar nada em nossa situação, mas... Como iremos encontrar o culpado ? E o que faremos se o encontrarmos ? — Perguntou Nell.

— Não é óbvio ? Se eu encontrá-lo, enfio canetas em seus dois olhos, para que ele nunca mais consiga ver as nossas vidas. — Respondeu Gabriel.

— Eu acho melhor deixarmos isso pra lá. Não iremos ganhar nada indo atrás dele, e agora que o vídeo já foi publicado, não há mais nada a ser feito, apenas esperar a poeira abaixar. — Disse Nell. — Há não ser que ele tenha mais vídeos à publicar...

Todos olharam pra mim no instante em que Nell falou aquilo, e eu imediatamente me lembrei.

O vídeo de eu chupando um vibrador, não foi o único que eu enviei ao Dan, quando gostava dele.

Eu também o enviei um vídeo de eu me masturbando, e outro onde eu dançava K-PoP usando a calcinha da minha prima, apenas.

Fiquei encurralado, e com medo que ele publicasse esses outros dois, decidi falar. Mas, falei apenas sobre o vídeo onde eu dançava K-PoP, e decidi manter o de eu me masturbando, em segredo.

— O QUÊ !!!??? VOCÊ SE FILMOU DANÇANDO K-POP !? — Exclamou Verônica, se mostrando surpresa e animada, como se quisesse por as mãos em tal vídeo à qualquer custo.

— Segura o forninho Verônica, não acho que o FourAfternoon Bridge, ou Dan, irá te mandar outro vídeo depois da tua falha com o primeiro. — Disse Nell.

— Gabriel ? Você tá chorando ? — Perguntou Isabel.

Quando ela falou, olhei rapidamente pro Gabriel, e vi que ele estava lacrimejando.

— N-não, é-é q-que... E-eu queria ter visto o Vini dançando de calcinha também... — Disse ele.

— Eu sabia que você era um pervertido. — Falou Nell.

— Hahahaha, é só você esperar um pouco, que logo o vídeo será publicado. — Disse Isabel.

Gabriel POV

— N-não, não podemos deixar. Temos que achar um jeito de encontrarmos esse ser desgraçado.

Estávamos numa situação muito delicada. Sério, não sei como o Vini pôde ser tão descuidado pra fazer aquelas coisas. Agora ele está dançando nas palmas da mão desse tal FourAfternoon Bridge.

— Eu tenho um jeito. — Disse Verônica.

— Jeito ? Que jeito ? — Perguntou Nell.

— Eu anotei o número da pessoa quem me enviou o vídeo, no whatsapp, por garantia. — Respondeu ela.

— Mas ele deve ser cuidadoso, ele não irá atender e também não vai responder as mensagens. Sem contar que, o chip deve ter sido um chip fake. — Disse Isabel.

— Talvez não. Não custa tentar. — Falou ela.

— Eu acho que é uma ação inútil, mas estamos sem escapatória. — Disse Nell. — O número dele está com você agora ?

— Não, está na minha casa.

— Certo, eu irei com você na sua casa, e veremos isso. — Falou Nell.

— É falta de educação se convidar para ir à casa dos outros, sabia ? — Perguntou Verônica.

— Cadê o Vinícius ? — Perguntou Isabel.

Olhei aos arredores, e o Vini havia evaporado.

— Ele está mega incomodado com toda a situação... — Respondi.

— Ele foi embora na hora que a Isabel brincou falando que o vídeo seria publicado. Eu vi ele indo. — Disse Verônica.

— E por que não falou nada !? Sua vadia ! — Exclamou Isabel. — Agora ele deve estar bravo comigo !

Enquanto isso:

Guilherme à pedido do Nell, foi fazer perguntas ao Pedro, pra ter certeza se não foi a Verônica quem publicou o vídeo. E eles acabaram se tornando amigos.

— O vídeo do Vinícius acabou se popularizando na escola mesmo, hein. — Disse Pedro.

— Não foi a Verônica quem publicou ele na timeline do cara ? — Perguntou Guilherme.

— Oxi ! Claro que não ! O menino lá, o Nell, conseguiu apagar ele do celular dela. — Respondeu Pedro.

— Iixi, eles devem estar quebrando a cabeça agora. — Disse Gui.

— Eu nem ligo, a culpa é do Vinícius por não se preservar nem um pouco. Ave Maria, fez aquele vídeo parecendo uma puta. — Falou Pedro. — Me desculpa pelo palavrão, eu não falo, mas o uso foi merecido...

— Haha, eu não ligo não mano, eu falo palavrão direto também, de boas. — Disse ele.

— Eu tinha um colega que SÓ falava palavrão, e ainda falava tudo errado, hahahaha. — Contou Pedro, soltando uma risadinha.

O garoto usava uma camisa xadrez, como de costume, e segurava tua mochila através de uma única alça, que ficava enrolada no ombro direito. Pedro aparentemente, não gostava de andar com a mochila nas costas, e sempre a carregava num único ombro. Isso era ruim, pois poderia acabar desestruturando a coluna dele.

— Cara, todos os meus amigos são assim, praticamente. Não, beleza, eu erro algumas coisas, mas não tenho aquele sotaque de marginal. — Disse Gui.

— Não tem mesmo não, você tem voz de homem, e esses aí costumam ter voz de moleques mesmo. — Falou Pedro.

— Foi um elogio ?

— Claro !

Márcia POV

Eu estava sentada na área aberta do pátio, sozinha.

Agora o Vinícius voltou à falar com o Riquelme, e ele não vai dar a mínima atenção pra mim. Ainda mais com o estouro daquele vídeo vergonhoso. Tenho certeza que o Riquelme, gentil do jeito que é, não vai sair do lado dele.

Até mesmo o Nell está andando com eles, agora...

Eu não tenho mais ninguém...

— Márci ! — Exclamou um garoto, enquanto vinha em minha direção. Um garoto alto, magro, e que vivia usando um moicano bem grande como penteado, mas havia algo diferente nele, desta vez.

Kaio não estava usando o uniforme da escola, e ele havia mudado o penteado também. Aliás, não, ele não mudou. Só não estava usando moicano.

O cabelo dele caído pra baixo, era algo bem diferente do habitual, e ele estava bastante animado, diferente de mim.

— Oi Kaio. — Falei.

— O que houve ? Por que você parece estar tão chateada ?

— Eu... Briguei com o Riquelme.

Eu respondi, apenas respondi instintivamente, como se não estivesse mais suportando aquele fato. Faz apenas um dia desde quando briguei com o Riquelme, mas mesmo assim, eu não estou conseguindo mais suportar isso dentro de mim. Não pude conversar direito com a Isabel ontem por causa da Verônica, e agora estou com vergonha de olhar na cara dela, pois ela acabou descobrindo sobre o meu segredo.

O pior é que a Isabel poderia contar tudo ao Vinícius, e isso é de alguma forma, nostálgico. Eu não queria que ele soubesse tanto sobre a minha vida, mas acho que não tem jeito. Ela com certeza contará.

E agora que o Riquelme voltou à falar com aquela coisa, ele provavelmente vai ficar à par dos meus sentimentos. Me pergunto como ele agirá quando souber...

Sei que não tenho a menor chance, e foi por isso que fiz de tudo para manter esse sentimento preso dentro de mim. Pensei que se ninguém soubesse, estaria tudo bem, pois ele iria passar mais cedo ou mais tarde. Só que infelizmente, não foi isso que aconteceu.

— Sério ?? Por que ?? — Perguntou ele, enquanto sentava-se do meu lado, no chão. Estávamos encostados numa parede, na área aberta do pátio, onde a luz do sol da manhã nos atingia.

— Porque eu fui uma idiota. — Respondi.

Eu não ia contar ao Kaio sobre eu gostar do Riquelme de maneira alguma ! E então, apenas procurei por uma maneira de contornar e esconder o foco da história.

— O que você fez ?

— Eu agi muito por conta do ciúmes com ele. Você sabe que ele é apaixonado pelo Vinícius, não é ? — Perguntei.

— Sim, ele tinha me falado . — Respondeu Kaio. — Faz tempo já.

— Pois é, mas o Vinícius só fez mal à ele, e sempre o magoou. Eu, como amiga, tentei protegê-lo, e fiz de tudo para que ele se afastasse do Vinícius. — Falei. — Claro que as minhas intenções eram boas, mas eu acabei me intrometendo muito na vida dele, e ele me reprimiu. Disse que eu era muito ciumenta, acredita ??

— Sim. — Disse Kaio.

— Eu só tentei proteger, mas acho que fui longe demais, e meus esforços foram em vão. Agora ele voltou à falar com o Vinícius e vai me abandonar completamente. — Falei. — E você viu o vídeo dele que está sendo compartilhado no Face ? Aquele vídeo é a prova de que o Vinícius continua sendo um pervertido, tarado e desprezível. Tenho certeza de que ele vai ferrar com os sentimentos do Riquelme, de novo ! — Exclamei.

— Eu vi o vídeo, eca mano, gay demais. — Falou ele. — Nem mesmo minhas amigas mais taradas fazem aquilo.

— E não é ?? — Perguntei.

— Mas sabe o que eu acho ?

— O que ?

— Que você deveria deixar o Gabriel lá com o Vinícius. Como você mesma falou, ele acabará caindo do cavalinho de novo, e no fim, vai ficar sozinho. — Disse Kaio. — Você deve deixar ele provar disso pra aprender a lição.

— Mas o Riquelme já passou por isso antes. Ele já sofreu muito, e ele não merece isso. — Falei.

— Por que você se preocupa tanto com ele ? — Perguntou Kaio. — Se ele não aprendeu no primeiro tombo, precisa cair mais uma vez pra aprender, e também vai precisar se reerguer como um homem.

Acho que até o Kaio está desconfiando do meu senso de proteção ao Riquelme. Talvez eu seja a errada nessa história, por insistir tanto no bem de uma pessoa que não me dá a mínima. No fim, não sou diferente dele com o Vinícius. Só estou sendo muito ignorante. O Kaio tem toda a razão.

— É verdade, acho que preciso desapegar do Riquelme. — Afirmei. Sim, eu critiquei muito ele por não desapegar do Vinícius, e ficar agindo dessa maneira está contradizendo tudo que eu falei à ele. Para que eu tenha o direito de aconselhá-lo à desapegar do Vinícius, eu primeiro, tenho que desapegar dele.

— Desapega, desapega, OLX. — Disse Kaio, num tom de brincadeira.

— É, vou por o Riquelme pra vender na OLX. — Falei, num tom de brincadeira também. Obviamente, eu não sou capaz disso.

— Hahahaha. — Ele riu.

Me levantei do chão, e estendi a mão pro Kaio se levantar também.

— Muito obrigada Kaio, você me ajudou bastante. — Falei.

— Sério ?? — Perguntou ele, enquanto pegava a minha mão e se levantava.

— Sim, sério ! — Respondi. Aproveitei e dei um beijinho na bochecha do Kaio também, por ter me ajudado.

— ... — Ele ficou sem palavras, apenas deu um sorriso.

— Você pode ficar comigo no intervalo hoje ? — Perguntei.

— Claro ! — Respondeu.

Gabriel POV

Por sorte, todos nós havíamos chegado adiantadamente na escola. Ainda eram 06:50, e faltavam sete dez para bater o sinal.

Vini desapareceu e eu com certeza já sei o motivo. Não acho que ele tenha ido embora, pois aí a Verônica teria nos alertado, então ele deve estar na sala dele, sozinho, pra pensar um pouco. Ele recorreu ao mesmo que a Márcia.

Subi as escadas correndo e fui direto pro segundo andar. A sala do Vini ficava no fim do corredor.

Visualizei um garoto parado no meio do corredor, o que era bem esquisito, mas o ignorei, e passei do lado do mesmo.

— Aonde você está indo ? — Perguntou o garoto à mim, assim que passei ao seu lado.

Parei de andar e fiquei o encarando, sem dar resposta. Fiquei confuso com aquele garoto estranho ter me parado de repente, e fiquei me perguntando se já o conhecia.

Ele possuía cabelos vermelhos, num corte social. Usava o uniforme da escola, mas não estava carregando sua mochila.

— ... ? — Não falei nada, apenas balancei a cabeça como se estivesse com dúvida.

O curioso garoto, apontou o dedo direito pra cima, e logo falou :

— Ele está no terceiro andar. — Disse ele.

Do que ele está falando ? Ele sabe que estou procurando por alguém ?

— É melhor você ir logo, antes que seja tarde. — Falou o garoto, enquanto dava as costas pra mim, e ia em direção as escadas, pra descer pro pátio. — Pessoalmente, eu queria observar a cena, mas acho que não é uma boa ideia não. Ao invés disso, estarei esperando por vocês dois amanhã.

Após falar aquilo, o garoto desceu as escadas e sumiu da minha vista.

Não parei pra pensar na hora, pois eu precisava à todo custo encontrar o Vini.

Subi correndo pro terceiro andar, e logo o vi sentado em cima de um muro, que separava o corredor de um "abismo". Se Vini caísse ali, ele iria se esborrachar lá no pátio.

Logo me lembrei das palavras do garoto suspeito que vi mais cedo, onde ele falava algo como : "antes que seja tarde."

Olhei pro rosto do Vini, e vi que ele estava absurdamente desesperado, ali, sentado em cima daquele muro, pronto pra pular diretamente do terceiro andar, no pátio.

O Vini está pensando em... Se suicidar ?

— Vini ! O que você está fazendo ? — Perguntei, enquanto encarava o rosto dele cheio de lágrimas. Vini estava trêmulo e soluçando por causa do choro, que não cessava um segundo se quer. Seus olhos estavam avermelhados, e seu rosto também.

Vinícius, o garoto que foi meu melhor amigo por anos. Aquele quem impediu que eu ficasse sozinho, e me proporcionou anos e anos de amizade. Se bem que, eu me lembro que na época que eu era amigo do Vini, antes de eu descobrir sobre minha sexualidade, eu não considerava a nossa amizade tão importante assim.

Exato, eu não ligava pro Vini na época. Provavelmente, não me importaria se ele me deixasse sozinho. Eu fui muito ingênuo ao pensar aquilo, pois a amizade do Vini me era muitíssimo importante, e só fui descobrir isso, quando a perdi de vez, no momento em que ele me empurrou no parque e foi embora.

Concluí que aquele ditado público que diz : "Nós só damos valor às coisas, quando não as temos mais" é verdadeiro.

Passei à amar o Vini, e continuei sustentando esse amor mesmo quando ele me deixou. Por algum motivo que eu não sei.

Aliás, não, eu sei sim. A resposta é : amor.

Amor é amor, e não precisa fazer sentido pra ser amor.

Um amigo virtual me disse uma vez, que o motivo de eu insistir tanto no Vini, é que eu gosto de sofrer. Eu pensei muito à fundo nisso, mas no fim, não achei que fosse verdade.

Não acho que eu seja do tipo que goste de ser rejeitado. Se bem que, existem pessoas assim.
Pessoas que preferem ficar num amor não correspondido eternamente, para sentir o sofrimento e continuar com o mesmo dentro de si. Será que posso chamar isso de masoquismo ?

Enfim. Eu não sou masoquista. Se um dia o Vini me corresponder, e eu deixar de gostar dele por causa disso, entrarei em pânico, pois todos os meus princípios que eu acreditava ter, seriam postos em cheque. Isso seria horrível, e duvido que aconteça.

Eu apenas amo o Vini. Mesmo depois de tudo, continuo à amar.

Sim, eu estou conjugando isso no presente, pois percebi nesse dia que passei com ele, que o meu sentimento não se esvaiu. Ele apenas havia adormecido por causa da amnésia.

Será que ficarei num amor não correspondido para sempre ? Será que não importa o que eu faça, o Vini nunca me amará ? Será que eu estou errado insistindo nisso ? Será que devo ? Será que não devo ? Será que peço a ajuda da Márcia ? Será que me desculpo com ela ?

Tantas dúvidas ! Mas eu não sei o que fazer. Deixarei os meus pensamentos lógicos de lado, por hora. E permitirei que o meu coração me guie. Se eu sofrer mais, é porquê mereço, e aceitarei esse sofrimento de braços abertos.

Acredito que, se nós sofremos hoje, é por causa de algo que fizemos nas nossas vidas passadas, ou talvez, é como um pagamento adiantado para a bela recompensa que iremos receber no fim.

Mas, nada disso que estou pensando irá ter algum significado, se o Vini se matar agora.

O fato dele estar ali em cima do muro, literalmente, me fez entender forçadamente o quanto era a dor e o medo que ele carregava, de ser exposto. Talvez isso também fosse algo vindo da vida passada dele, ou não.
Pensar agora, não adianta de nada. Eu tenho que agir instintivamente e ser convincente nas minhas ações, ou o Vini pode se jogar.

O que devo dizer ou fazer, pra mostrá-lo que eu entendo o sofrimento dele ?

— V-v-você v-vai t-tentar m-me t-tirar d-daqui, é... ? — Perguntou ele, gaguejando.

Pensar menos e agir mais. Pensar menos e agir mais ! Devo mostrá-lo o quanto eu o entendo ! Devo mostrá-lo o quanto preciso dele ! E devo prová-lo que o meu amor é real !

— Não Vini... — Respondi. — Sinceramente, eu estou muito chocado com você estar aí em cima, pronto pra pular. Eu não esperava isso, m-mas, não irei te impedir.

— N-não ?? Você n-não se importa, não é ?? Se eu m-morrer ou não, n-não faz d-diferença alguma ! Nem p-pra você, e n-nem pro p-povo da escola ! V-vão só p-pensar : "Que bom que aquele gay morreu". — Disse ele, totalmente desesperado. — A-aaaahh... — Ele chorou mais ainda, dando um grito abafado e desesperado, que só eu pude ouvir.

— Errado, eu não vou te impedir, mas, também não é como se eu não me importasse. — Falei, enquanto subia no muro também. Eu estava à 2 metros do Vini, e fui me aproximando dele lentamente, me arrastando sentado por cima do muro.

Ele olhou pra mim com um olhar de quem pularia se eu me aproximasse mais, com a guarda totalmente alta.

— O que v-você está fazendo !!? — Perguntou ele. — Vai tentar mesmo me impedir, n-no fim, não é !??? Olha que eu pulo !

Seja natural, Gabriel. Seja você mesmo. Prove ao Vini.

— Não, na verdade não. Eu estou pensando em pular junto com você. — Falei.

— ... — Vini ficou quieto por alguns segundos, perplexo, mas logo fez uma pergunta :

— Por que você faria isso ? — Perguntou ele.

Me aproximei mais um pouco dele, e continuei à me aproximar enquanto falava. Não estava o encarando enquanto dizia. Na verdade, estava olhando lá pra baixo, morrendo de medo de escorregar e cair.

— Ah, eu tenho muitos motivos para isso, sabe... — Falei. — Minha vida ser ruim, eu ter um azar enorme no amor, não ter mais a minha mamãe pra cuidar de mim aqui, e etc.

— ... — Ele não falou nada, apenas ficou me olhando.

Me aproximei dele o máximo que podia, e parei assim que minha mão tocou a dele. Ficamos à uns 40 centímetros um do outro.

— Você me prendeu num ciclo de sofrimento enorme, Vini. Nunca tive o meu amor correspondido por você. — Falei. — Fiquei muito tempo insistindo nesse amor, e acabei desperdiçando muito tempo da minha vida, que poderia ter gasto me divertindo ou fazendo novos amigos. Acho que me arrependo disso... Minha vida foi cheia de erros meus, então talvez seja melhor começar uma nova.

— C-como você sabe !? V-você n-não s-sabe o que vai acontecer depois que morrer ! — Exclamou ele.

Não pensar, agir naturalmente, convencer o Vini, falar a verdade.

— Verdade, mas isso não importa. Veja, pense o quanto seria romântico se eu morresse junto com você agora. — Falei. — Seria como no romantismo, onde as histórias amorosas eram muitíssimo dramáticas.

— ..... Você é louco ? — Perguntou ele.

— Não quero ouvir isso vindo de você... Olhe só a situação em que você se colocou. É tão louco quanto eu. — Falei, enquanto desviava meu olhar de lá de baixo, e olhava nos olhos azuis do Vini.

— Mas eu tenho motivos ! Virei uma piada total na escola, e o mundo inteiro está me rejeitando ! —Exclamou ele.

— Então eu também tenho um motivo. Se o amor da minha vida morrer, eu não aguentarei viver sem ele, e provavelmente me matarei também. — Falei. — Mesmo que eu não morra agora com você, eu irei me matar depois.

— T-tsk... P-por quê... ?

— Hm ?

— Por que você sacrificaria sua precisa vida por alguém sujo como eu ? — Perguntou ele, segurando o choro, tentando falar normalmente, sem mudar seu tom de voz, que ainda era o de alguém que estava prestes à chorar.

— E eu preciso responder ? — Falei, enquanto pousava minha mão sob a mão do Vini, ali, em cima daquele muro.

— Sim. — Insistiu ele.

— Porquê eu estrelo você, Vini.

—... — Ele ficou calado por alguns segundos.

— Você sabe disso, pois eu já te contei antes. Não é nenhuma novidade. — Falei. — Eu te prometi que ficaria com você pra sempre, não ? Olha, eu até me lembrei do meu sonho pro futuro. Acredita que era me casar e ter uma vida feliz com você ?

— Se morrermos aqui, esse sonho não vai ser realizado...

— Verdade, será uma pena. — Falei, enquanto tirava a mão dele do muro, e intercalava teus dedos com os meus.

— C-como você consegue............... ?

— O que ?

— Abrir mão da sua felicidade, dos seus amigos, da sua família, dos seus sonhos e da sua vida por mim ??? O que eu fiz pra merecer isso ?? — Perguntou ele, inconformado.

— Não sei. — Respondi. — Acho que sou um tolo apaixonado, daqueles bem clichês.

— Isso não é ser clichê, isso é ser medonho... — Disse ele.

— Enfim, Vini. Estou aqui com você agora, na sua hora de morte. — Falei. — Se você pular, eu cairei junto por estar segurando a sua mão. E aí, como será ?

— Você acha que meu espírito teria paz se te matasse junto comigo, por um egoísmo meu ? — Perguntou ele.

— Não sei. — Respondi.

— ...

— ...

— Eu não mereço ser tão amado assim. — Disse ele. — Nunca mereci...

— ... — Fiquei apenas escutando.

Vini pressionou sua mão esquerda contra o muro, e eu pude sentir o pressionamento. Logo, seu corpo começou à se mexer de forma suspeita pra frente. Ele ia pular, ele realmente ia pular ! E me levar junto !

Mas, foi um alarme falso. O Vini só fez força pra frente, para que pudesse pegar impulso e cair pra trás. Sim, ao invés dele se jogar pra frente comigo, se jogou pra trás, e caímos juntos no chão do corredor.

— ... — Fiquei quieto, após a queda.

— ... — Ele também ficou.

— A-aaahh... A-aaaahhhhh ! — Comecei a chorar, muito. Não consegui segurar as lágrimas.

— Aaaaahh... — Ele também voltou à chorar.

— E-eu pensei que você f-fosse m-mesmo pular V-Vini ! — Exclamei, chorando e tremendo. — Pensei que fôssemos morrer !

— E-eu t-também... Também pensei isso. — Disse ele.

— Eu não q-queria morrer de v-verdade ! Eu q-queria viver ! E-eu queria poder aproveitar m-muitos dias de vida, do s-seu lado ! — Exclamei, em prantos. Eu realmente fiquei muito desesperado estando ali em cima do muro. Muito mesmo !

— E-eu não teria c-coragem p-pra me m-matar, s-seu idiota ! E-eu sou um c-covarde ! — Exclamou ele, também em prantos.

— Mesmo assim, i-isso foi assustador, Vini ! Muito a-assustador ! N-nunca mais faça d-de novo !

— Desculpa... E-eu não vou mais fazer...

— A-aaaahhhhh, f-foi tão medonho...

— Sério... D-desculpa Gabriel... Me desculpa, me desculpa, me desculpa... — Murmurou ele. — Corri o risco de jogar a minha v-vida fora p-por c-causa desse m-maldito v-vídeo...

— Viado ! Desgraçado ! Maldito ! Idiota ! Besta ! Tonto ! Filho da puta ! Arrombado ! V-você f-foi um tolo ao tentar algo assim ! E por um motivo besta ! — Desabafei todos os xingos que eu tinha para falar à ele, desde muito tempo atrás. Até falei palavrões.

— Pode x-xingar, e-eu aceito... F-fui mesmo t-tudo isso, droga... !

— Eu j-já t-te disse a-antes ! V-você NÃO está sozinho ! Mesmo que o mundo inteiro f-fique contra você, você ainda terá à mim ! — Falei.

— Eu sei. A-agora eu entendo... — Disse ele, enquanto limpava as lágrimas do rosto.

— E-entende o que ?? — Perguntei, dando um soluço.

— Q-que você é um anjo e-enviado pelos céus pra proteger um desgraçado c-como eu. — Respondeu ele.

— H-hã ? N-não... A-acho que n-não é algo t-tão mágico assim... — Falei.

— Talvez seja... Seu amor em si por mim, já é uma m-magia pura. — Disse ele.

— ... — O que ele disse acabou me envergonhando, e eu fiquei quieto.

— Obrigado Gabriel. M-muito obrigado mesmo. M-muitíssimo obrigado. — Falou Vini.

— N-não me agradeça, isso não é necessário, besta. — Limpei as lágrimas do rosto também, e continuei deitado naquele chão frio do corredor, segurando a mão dele.

— Eu não irei mais continuar s-sendo um retardado como sempre fui. — Disse ele. — Se isso serviu de alguma coisa, com certeza foi pra me abrir os olhos de vez.

— Hm... — Murmurei.

— Pararei de ser um idiota, e aceitarei o presente que os céus me enviaram. Cuidarei dele pela minha vida inteira, e sempre ficaremos juntos. — Disse o Vini, virando o rosto pro lado, direcionando seu olhar pra mim.

— Q-que presente, Vini ? — Perguntei.

— Você. — Respondeu ele.

Após eu ouvir aquilo, o sinal indicando o início das aulas tocou. Eram 07 da manhã. E pensar que tudo aquilo durou apenas 7 ou 8 minutos. No meu ponto de vista, foram os 7 minutos mais longos da minha vida.

Continua no capítulo 24.