Eu estrelo você
30 Estrela supernova parte II
Gabriel POV
Uma semana se passou desde o meu encontro incrível com o Vini. Foi tão legal! Eu quero sair mais vezes com ele igual fizemos desta vez.
Ficamos tão juntinhos enquanto patinávamos que eu pensei que iríamos nos tornar um só. Brincadeira.
Segunda-feira, dia 12 de Abril de 2019 às 06:10 da manhã.
Eu já estava acordado há alguns minutos; acabei acordando sozinho, mas, estava com tanto frio e preguiça que parecia que eu ainda estava dormindo.
Meu despertador começou a tocar assim que deu 06:10, fazendo vibrar alto a quarta abertura de JoJo.
— Desliga... — Falou o Vini, que estava deitado ao meu lado.
— Você tá mais perto Vini, desliga você. — Respondi, virando pro outro canto da cama e ficando de costas para ele que estava na beirada.
— Aff. — Senti o Vini se movendo e desligando o despertador, mas, continuei em silêncio.
— ...
— Tu não vai levantar? — Perguntou ele.
— Levanta você... Primeiro. — Respondi.
Ainda estamos em Abril mas está tão frio hoje de manhã... É difícil levantar assim. Queria voltar a dormir, ahh...
— NÃO! LEVANTA! — Exclamou o Vini, fazendo a maior movimentação na cama e puxando nossa coberta até os pés. — FOLGADO.
— Que saco Vini, para de gritar logo de manhã e tá frio, aaaaa. — Falei.
— Pelo menos você dormiu de camisa! Eu que dormi sem tô aqui sem reclamar.
— Você é um tarado. — Insinuei, de forma grossa.
— E você coloca músicas idiotas como despertador.
— Não é idiota, é a opening de JoJo. — Falei.
— Nunca vi, zoado. — Afirmou o Vini.
— Zoado é você. — Afirmei, enquanto sentava na cama ao lado do Vini e dava soquinhos no braço dele, imitando o Jotaro.. — Ora ora ora ora ora ora ora!
— Para! Para! Vou te bater. — Resmungou ele.
— Oh não! Que destino cruel! Vivi por 16 anos da minha vida pra chegar agora e ser maltratado por esse anarquista! Temo que terei um futuro horrendo daqui em diante, meu príncipe, me salve! — Atuei, enquanto puxava a coberta e me deitava novamente, bem enroladinho..
— AH, MAS EU AVISEI! — Exclamou o Vini, me dando um monte de beliscadas.
— PARA, PARA, AI, QUE MERDA VINI!
Ele se levantou e ficou em pé na cama, puxando minha coberta com tudo e jogando-a no chão.
— LEVANTA! — Falou.
— NÃO, POR QUE VOCÊ NÃO DEITA? — Perguntei, metendo a rasteira na perna dele de forma que fizesse ele cair em cima de mim.
O Vini é tão lindo. Ah, no geral eu não acho ele tão bonito assim, mas, simplesmente por ser o Vini, considero-o como a pessoa mais linda do mundo.
Queria poder chamá-lo de meu Vini quando eu quisesse e sem nenhuma hesitação.
Queria que chegasse o dia em que ele realmente fosse meu.
Poderíamos sair juntos com mais frequência e ele poderia dormir aqui sempre que quisesse. Além disso, eu finalmente teria um namorado pra ir aos eventos de anime comigo.
Enquanto ele permanecia à cima de mim, bem perto, de forma que eu sentisse todo o seu corpo quentinho e sua respiração, decidi reparar cuidadosamente em seu rosto.
Eu e o Vini nos aproximamos bastante e eu sinto que é a primeira vez em que nos damos bem de verdade num sentido a mais que amizade, mas...
Mas mesmo assim, ainda não acho que ele me ame. Talvez precisemos de mais tempo um com o outro.
— No que você está pensando, Vini?
— Em nada, e você? — Respondeu ele.
— Estou pensando que seu rosto é lindo demais. — Respondi, enquanto colocava minhas mãos sob o rosto do Vini e fazia uma leve carícia em suas bochechas.
— Ah, é? E você é fofinho.
— Falso. — Afirmei.
— Como faço pra provar? — Perguntou o Vini.
— Me abrace e me solte só às 07:00 — Respondi.
— AÍ A GENTE PERDE A AULA! CADÊ? PENSEI QUE TU FOSSE NERD!
— Nerd, não CDF.
Vini então fez um gesto fofinho do qual eu não estava esperando que fizesse no momento; ele beijou o meu nariz, bem na pontinha.
Pude sentir o hálito fedido dele por ter acabado de acordar, mas, por ser algo bastante normal, decidi não falar nada sobre isso pra não estragar o momento.
É... Se eu e o Vini nos aproximássemos mais e chegasse um futuro onde dormiríamos juntos, significa que eu sentiria o bafinho dele todos os dias na hora de acordar.
Hihihi, eu teria que me acostumar com o bafinho do Vini.
Após me dar esse beijinho, Vini levantou e saiu do quarto.
Mesmo estando com preguiça e com frio, levantei da cama rapidinho e peguei a coberta que ele tinha jogado no chão, pra ir atrás dele.
Quando cheguei no banheiro, me deparei com a deliciosa e excitante visão do Vini molhando o cabelo com a mão, estando apenas de cuequinha.
A bunda dele é grande e gostosa demais, nossa. Me sinto com um pouco de pena por ainda não ter feito sexo com ele, as vezes, mas, eu também tenho um pouco de medo de fazer algo assim e depois ser trocado.
Abracei-o por trás e envolvi meus braços em torno da sua cintura, de surpresa.
— Ain, não faz isso que eu gamo... — Disse ele.
— Ah, é mesmo? — Perguntei, usando minha mão direita pra acariciar a barriguinha dele.
— ... — Ele ficou em silêncio. Aaah... Poder sentir a bundinha do Vini assim é tão bom. Queria comer ele todos os dias e encher essa bundinha de marcas.
— E que tal isso? — Perguntei, colocando dedo por dedo dentro da cueca dele pela parte da frente.
— DEPOIS EU QUE SOU TARADO! — Exclamou ele.
— Mas você é, bobo. — Falei, enquanto tirava os dedos antes de chegar a tocar o pênis dele. — Veja! Você ficou duro!
— ...E você também. — Disse o Vini, que estava sentindo bem o meu pênis cutucando seu bumbum.
Enquanto brincávamos de formas eróticas e saudáveis, penteamos nossos cabelos, escovamos os dentes lado a lado e saímos do banheiro em seguida.
— Seu pai já foi? — Perguntou ele.
— Sim, ele sai às 05:45. — Respondi.
— Já pensou ele cata a gente se abraçando no banheiro, hahahaha. — Comentou.
— Seria constrangedor Vini, mas depois eu não ligaria mais. — Falei.
Vini se sentou em uma das cadeiras na mesa e pegou um pão para cortar, enquanto eu preparava nossos leites.
— Tem mortandela?
— Se tem mortandela eu não sei, mas talvez você encontre mortadela se olhar dentro da geladeira. — Respondi, corrigindo a forma inadequada de falar que o Vini possuía para com algumas palavras.
— AFF, cu. — Reclamou ele, indo até a geladeira pra pegar a mortadela.
— A propósito, o que você vai fazer depois da aula hoje, Vini? — Perguntei.
— Hoje eu vou pra casa ajudar a Thalia com a limpeza, por que? — Respondeu.
— Entendi. Eu ia te chamar pra ir comprar um jogo de Xbox comigo, mas tudo bem, posso ir sozinho. — Falei. — Meu pai me deu dinheiro ontem de noite.
— Saquei.
Depois de tomarmos café da manhã e de nos trocarmos, arrumamos o material e fomos pra escola juntos.
Chegamos entre 06:55 e 07:00, bem em cima da hora.
— Você vai subir pra sala? — Perguntou o Vini, assim que chegamos no pátio.
— Não, eu vou na sala do clube de jornalismo buscar o Nell. Ele fica lá agora quando chega. — Respondi.
— Tá bom, eu vou subir. Acho que a Isabel foi pra sala já. — Disse ele.
— Okay, até o intervalo Vini. — Falei.
— Até. — Afirmou, enquanto começava a andar em direção às escadas.
— Ei. — Chamei por ele, antes que subisse.
— O que? — Indagou, enquanto virava pra trás para ver o que eu queria.
— Eu estrelo você. — Respondi com um sorrisinho enquanto fazia um coração com as mãos.
— Um coração?! Você não deveria fazer uma estrela?! — Perguntou o Vini, de forma idiota.
— Hihihihihihi, como eu faria uma estrela Vini?
— SEI LÁ HAHAHAHA. — Respondeu ele, indo embora para a sala de aula.
Se eu soubesse como fazer uma estrela com as mãos, eu faria, seu idiota.
E então fui até a sala do clube de jornalismo para que pudesse subir junto com o Nell pra sala de aula. Eu não sei se mimava ele de mais como um amigo, mas já tinha me acostumado a sempre subir com ele. Não sei, acho que eu me sentiria com um peso na consciência se o deixasse subir sozinho só com a ajuda do inspetor. Ah, sei lá, é besteira.
Abri a porta do clube e me deparei com o Nell sentado em sua cadeira de rodas, à frente da mesa do Pedro. Ele estava digitando alguma coisa no notebook que o Pedro usava pra editar e escrever as matérias.
— Chegou atrasado, Gabriel. O sinal já vai bater. — Afirmou Verônica, que estava sentada em sua mesa enquanto editava uma manchete de jornal no computador.
— O que o Nell tá fazendo? — Perguntei.
— O Pedro faltou hoje, então a Verônica me pediu pra adiantar algumas coisas. — Respondeu ele.
— Desde quando coelhos conseguem mexer em notebooks? — Perguntei.
— Cala a boca, Bibi. — Afirmou ele.
— "Bibi"? COMO VOCÊ SABE DISSO? — Perguntei.
— Eu tenho um alien na cabeça. — Respondeu ele.
— Isso é impossível! — Exclamei.
— Eu sei, estou brincando.
— Vocês são sempre assim quando estão juntos? — Perguntou Verônica.
— Somos. — Respondi.
— Não. — Respondeu o Nell, ao mesmo tempo que eu.
— Não discorde de mim, seu coelho sapeca. — Falei, enquanto ia por de trás dele e bagunçava seu cabelo.
Assim que o toquei, Nell reagiu imediatamente pra tentar arranhar minhas mãos.
— ERROU. — Falei.
— Tch... Verônica, tira ele daqui. Ele está me atrapalhando.
— Tira você, coelho. — Disse ela, não dando muita atenção pra gente.
— A propósito, o Pedro não vai ficar bravo com você mexendo nas coisas dele? Ele pode sentir como se estivesse sendo excluído e como se você tivesse pegando o lugar dele. — Falei.
— Não se preocupa com isso, quando o Pedro falta sou eu mesma quem cuido do trabalho dele, então não faz muita diferença se eu pedir para o Nell fazer em meu lugar contanto que ele faça exatamente o que eu mandar. — Explicou a garota.
— Ahhhh, então tudo bem. — Afirmei. — Vamos subir, Nell?
— Ainda não terminei tudo Verônica, mas depois eu te ajudo, tá bom? — Disse Nell.
— Tudo bem, pode ir pra sala, obrigada pelo auxílio. Vou ficar aqui até o fim da primeira aula. — Falou ela.
Pular uma aula inteira?! Quantos benefícios esse clube recebe! Talvez eu até entre nele algum dia.
— Tchau Verônica. — Falei, enquanto segurava nos pegadores da cadeira de rodas do Nell e o guiava até a porta.
— Até mais Verônica. — Disse ele.
— Até... — Murmurou ela.
— A propósito, você não acha que está exagerando? — Perguntou Nell.
— No que? — Perguntei de volta, enquanto o guiava pelo pátio até o elevador.
— Vir atrás de mim todos os dias assim, você sabe que eu consigo subir sozinho, não é? E veja, já consigo mexer os meus pés. — Disse ele, mexendo os pés e parte das pernas bem melhor do que quando deu o primeiro passo.
— O que? Acha que eu tô te mimando? — Perguntei.
— Acho, tá ficando igual os meus pais. — Respondeu ele.
— Isso te incomoda?
— ............................Acho que está tudo bem se for você, contanto que não passe dos limites e tente controlar minha vida. — Disse ele.
— Hihihihi, credo Nell, não vou controlar sua vida, mas posso no máximo limpar a sua fraldinha quando você sujar ela. — Falei.
— Quer ser assassinado?! — Perguntou.
— Nope. — Respondi.
— Então quer que eu exploda sua casa?!
— Você é um creeper por acaso?!
Ao chegarmos no elevador, esperamos o inspetor vir para que então subíssemos para o andar onde ficava nossa sala. O sinal da escola tocou enquanto estávamos subindo.
Às 07:09, já dentro da sala.
— Você não vai mais tentar falar com a Márcia? — Perguntou ele, com o material já colocado sob a mesa.
— Não sei... Semana passada ela foi muita grossa comigo. — Respondi.
— E ainda não sabemos como ela brigou com o Kaio... Talvez devamos perguntar diretamente pra ele hoje. — Disse o Nell.
— Não, acho que eu não quero saber o motivo não. — Falei.
Eu me sentia um pouco constrangido em relação à briga do Kaio com a Márcia, porque...
Porque eu tinha medo que o motivo estivesse relacionado à mim.
Conhecendo a forma que ela tem agido nos últimos dias, é bem provável que fosse.
Talvez o Kaio esteja me odiando por causa disso.
Ele não conversou mais comigo pelo Facebook há um tempão, e também, não tem aparecido mais na biblioteca.
Aiai viu, que coisa.
— Ah, é mesmo? Entendi. — Afirmou Nell. — Mas você ainda quer voltar a falar com a Márcia, não é?
— Sim, eu quero muito, só que você sabe do ocorrido todo. — Falei. — Eu e o Vini estamos nos aproximando mais agora e eu acho que ela não vai aceitar isso. As coisas que eu falei pra ela na biblioteca, talvez tenham sido imperdoáveis no ponto de vista dela.
Flashback ON
— Márcia, se continuarmos assim, iremos acabar igual da última vez... — Falei. — Você quer mesmo encerrar nossa amizade, por causa de um ciúme bobo ?
— NÃO É CIÚMES, CARAMBA ! — Exclamou ela, enquanto dava um soco numa das prateleiras.
— Por que você não entende ?? Eu não voltarei à falar com ele !! Nossa história já se acabou !!
— Mentira ! Eu não confio em você ! — Exclamou ela, enquanto vinha até mim e colocava a mão no meu peito, pressionando as unhas com a intuição de me arranhar.
— Não confia... ? — Perguntei.
— Em relação ao Vinícius não ! Pois eu tenho certeza de que agora que você recuperou a memória, aquele Gabriel bobo e apaixonado vai ir saindo lentamente de dentro de você ! —Exclamou ela. — É só uma questão de tempo até você voltar à falar com o "Vini" !
— E DAÍ ?? SE EU VOLTAR À FALAR COM O VINI, SERÁ PROBLEMA MEU, E NÃO SEU ! VOCÊ É UMA PARANÓICA CIUMENTA E POSSESSIVA ! SERÁ QUE VOCÊ NÃO ENTENDE, MÁRCIA !? VOCÊ NUNCA VAI ROUBAR O LUGAR DO VINI DENTRO DO MEU CORAÇÃO ! — Exclamei.
— Eitaaaa, que gritaria é essa aí !!??? — Perguntou a tia da biblioteca, de lá da frente.
Fiquei com a respiração acelerada por causa do grito e da mudança de estado. Estava até ofegante.
— ... Certo, eu já entendi. Seja feliz. — Disse Márcia, enquanto ia pra saída da biblioteca.
Eu deixei ela ir, e não a segui. Seria melhor assim.
Flashback OFF
— Tch, que irritante. Fazer o que? Pelo menos você está tentando Gabriel. Se ela não conseguir aceitar a realidade, então não poderemos forçar isso nela. — Disse Nell. — Ela só está sendo egoísta.
— Pois é, eu também acho. Eu acho que estou certo, porque ela estava cuidando de mais da minha vida própria e eu não preciso disso.
— Entendo como é, são como os meus pais querendo me proteger. É irritante.
— Mas você me deu uma boa ideia Nell. Vou tentar falar com ela de novo, igual tentei semana passada. — Afirmei.
— Isso, tente só mais uma vez. Se ela ainda agir como antes, então o jeito vai ser esperar até ela perceber como está agindo e vir até você por conta própria. — Disse ele.
Levantei do meu lugar e fui até onde a Márcia estava sentada, na fileira da parede, bem longe.
A professora ainda não tinha entrado na sala e metade dos alunos estavam no corredor.
— Márcia. — Falei.
— O que? — Perguntou ela.
— Você pode conversar comigo agora?
Semana passada eu havia perguntado para a Márcia o que havia acontecido entre ela e o Kaio naquele sábado em que eles foram ao Shopping com o Daniel, mas, ela agiu de uma forma esperadamente grossa e não falou mais comigo. Distorceu todo o assunto até chegar no Vinícius, para então, jogar na minha cara novamente que eu estava sendo trouxa.
— Não. — Afirmou ela, de um jeito frio.
— ...Ah...Tudo bem então. — Afirmei, enquanto dava a volta e retornava pro meu lugar.
— Espera. — Disse ela.
— Hã? — Perguntei, me virando em direção à Márcia.
— Desculpa pelas coisas que eu falei semana passada. — Respondeu ela.
— ... — Fiquei em silêncio, esperando que ela continuasse a falar.
— Olha, eu não me sinto... Pronta pra falar sobre essas coisas a-ainda, mas... Eu vou me desculpar da maneira certa com você, tá bom? Por tudo. — Disse ela. — Só espera um pouquinho.
— Ahh, certo! Vou esperar, Márcia. — Falei.
— Obrigada.
— E aí, como foi? — Perguntou o Nell.
— Um avanço positivo, finalmente! — Respondi. — Ela me pediu um tempo e disse que vai se desculpar quando estiver pronta pra conversar.
— Hm... Muito bom.
— Você, teve um dedo seu no meio disso, não é? — Perguntei.
— Então você descobriu? Há, acertou.
— Nell, seu bobo, você é o melhor coelho de estimação que alguém pode ter. — Falei.
— ...!
— No intervalo, vou te dar um abraço tão forte que os seus ossos serão quebrados.
— ......!
Apesar de tudo, a Márcia só estava brava comigo. Nada a impedia de conversar normalmente com o Nell. Eles ainda se falavam com frequência e tinha até vezes em que ele ia se sentar com ela.
— Obrigado Nell. — Falei.
— Mas mesmo assim, ela ainda não me contou sobre o ocorrido com o Kaio. — Disse ele. — Confesso que estou curioso pra saber.
— Entendi, mas ei, me conta de você e da Verônica. — Falei. — Você tá gostando dela, não é?
— C-c-c-c-como você...
— Vocês se aproximaram estranhamente desde o lance do vídeo que o Dan publicou. Acho esquisito porque quando vejo você com ela, vocês parecem bem distantes um do outro, mas... Por você ter me contado que andaram saindo juntos nesse fim de semana, então pensei que talvez fosse possível. — Falei.
— Então, a Verônica não costuma demonstrar seu lado normal quando está perto dos outros. — Disse ele. — Mas, quando fui na casa dela, ela me provou que há muito mais dela do que parece ter, é como se existisse uma Verônica totalmente diferente dentro daquele corpo.
— Hm...
— E quando ficamos sozinhos, ela costuma conversar bastante e demonstrar mais do seu "verdadeiro eu" comigo.
— Será que ela também gosta de você, então? — Perguntei.
— Não sei. — Respondeu ele. — Mas a gente já marcou de sair de novo no próximo fim de semana. Desta vez, iremos com a mãe dela fazer um passeio no campus da UMC em Mogi das cruzes.
— Já estão pensando na universidade que vão escolher, né? Legal. Tenho que ver isso com o Vini também. — Falei. — Se possível, gostaria de ir pra mesma universidade que ele.
— Vocês... Vocês dormiram juntos. Aconteceu alguma coisa...?
— Não, nada de mais. — Respondi.
— Mesmo?
— Mesmo, nem mesmo o beijei ainda. — Falei.
— Entendi, mas, você acha que está tendo algum progresso com ele?
— Sim, acho! — Exclamei.
— Mas não tem certeza. — Afirmou Nell.
— ...Acho que não. Mesmo depois de tudo com o Dan, eu não sei né.
— O Daniel é uma pessoa intrigante, eu gostaria de falar com ele algum dia.
— Sério? Você quer ser amigo dele? — Perguntei.
— Talvez. Se eu me tornasse amigo do Daniel, você ficaria bravo?
— Não. Eu não tenho ressentimentos por ele. Talvez os únicos que tenham sejam o Vini e a Isabel.
— Entendi Biel, então você também seria capaz de tornar-se amigo dele? — Perguntou o Nell.
— Aí eu não sei, isso depende do Vini. Se ele não quiser que eu me aproxime do Dan, então eu não vou me aproximar. — Respondi. — Mas acho que não tem problema apenas conversar com ele.
— Realmente. Nenhuma pessoa é totalmente má, todos nós somos variáveis entre o bem e o mal. Mesmo que o Daniel tenha uma raiva muito forte pelo Vinícius e tenha feito o que fez à ele por causa disso, não significa que ele nos odiará também. — Falou o Nell. — Quem sabe? Eu descobri que a Verônica não era o que parecia ser e isso foi uma grande lição para mim, então talvez devamos dar uma chance ao Daniel também. — Disse ele, dando um belo e fofo sorrisinho.
E então, o tempo se passou. Depois das primeiras aulas, descemos pro intervalo.
Ficamos eu, a Verônica e o Nell na sala do clube de jornalismo, conversando sobre coisas aleatórias e ajudando a Verônica na preparação do jornal.
Ela acabou me arrastando pra vários serviços, então acabei não podendo ir no refeitório ver o Vini.
Depois do intervalo, várias salas foram dispensadas porque certos professores haviam faltado naquele dia.
A minha sala, a sala da Verônica, a sala do Gui e mais outras foram embora cedo, exceto a do Vini e do Kaio.
Depois da aula, fui pra minha casa tomar um banho e colocar uma roupa normal pra ir no centro da cidade comprar o meu jogo de Xbox. Aproveitei pra ir de chinelo também, afinal estava calor e eu não gosto muito de andar de tênis. Enrolei em casa até o meio dia pra só depois sair. Levei o celular comigo, seria bom aproveitar que iria lá pra pegar alguns pokémons e girar alguns pokéstops.
Às 12:38 da Segunda-feira:
Cheguei no lugar onde compraria o jogo, no centro da cidade.
Veran, um dos supermercados que têm por aqui. Ele foi construído num local elevado, então devemos sempre subir uma rampinha para chegarmos em sua entrada. No caminho desta rampa, há alguns comércios como farmácia, lanchonete, loja de conveniências, lotérica e até mesmo a loja de games onde eu compraria meu jogo.
Subi esta rampa e fui até a loja de games, que é uma das últimas antes de se chegar na entrada do mercado.
Haviam dois clientes lá escolhendo seus jogos nos grandes porta CD's que ali havia. Havia cerca de três porta CD's com jogos de cada console, e também, não era caro.
Jogo pirata né, tem que ser barato.
Havia também um terceiro cliente escolhendo seu jogo na estante de jogos, porque na estante estavam apenas os jogos originais.
...
Ao ver o semblante por trás do garoto que estava escolhendo os jogos da estante, imediatamente percebi que era uma pessoa conhecida.
Não sabia se era uma boa ideia falar com ele ou não, mas, antes que eu pudesse decidir, ele se virou em minha direção e falou comigo.
— O que você... Está fazendo aí? — Indagou.
— Vim comprar um jogo. — Respondi.
— Não. — Afirmou. — Estou falando sobre estar aí parado na minha frente. Eu preciso pagar por estes jogos que peguei, sabia?
Levei meu olhar aos jogos que ele segurava e me dei conta que eram jogos que eu sempre tive vontade de jogar.
— Final Fantasy XV e Good of war IV?! Não acredito! Você tem o mesmo gosto de jogos que eu! — Exclamei. — Eu pensava que você jogasse League of legends com o Vini...
— Por que diabos eu jogaria aquele lixo? Eu hein. — Afirmou Daniel, dando a volta por mim e indo até o atendente no balcão.
— Você tem um ps4??
— Não, imagina, vou pagar 150 reais nestes jogos pra fazer um ritual satânico e tentar jogar eles pelo Ps1.
— Grosso. — Afirmei.
— Oras! Você que está falando comigo como se fôssemos amigos. Eu não me lembro de ter feito amizade com você em momento algum. — Afirmou o garoto dos cabelos carmesins. — Além disso, você não deveria ter raiva de mim pelo que eu fiz?
— ...Talvez, mas não tenho raiva de você. — Afirmei, indo até o lado dele no balcão. — Foi graças à você que eu consegui me entender com o Vini, além disso, acho que ele vai melhorar muito em cima das coisas que aconteceram.
— Ah, é? Então é isso. Entendo.
Posso estar parecendo muito ruim por ter dito isso, mas, acabei soltando. Isso era o que eu pensava de tudo aquilo. Aquela situação toda foi beneficente tanto para mim quanto para o Vini. Sim, eu afirmo isso ignorando toda a coisa ruim que aconteceu com ele do vídeo e tudo mais, mas... Acredito que tenha sido uma boa lição para que ele não faça mais nada parecido novamente.
— Claro, eu não estou tirando sua culpa pelo vídeo e muito menos tentando ser seu amigo. Não consigo me imaginar como amigo seu, ainda, mas pelo menos eu posso ser um colega.
— E por que eu aceitaria isso? — Perguntou ele. — Aliás, por que VOCÊ iria querer isso? Isso é forçado demais. Ser meu colega? Não brinque comigo.
— Você acha uma má ideia? — Indaguei.
— ...As coisas não são tão simples assim. Primeiro, você acha que o Vinícius ficaria bem com você sendo meu colega? Segundo, não me lembro de ter dito o que eu sinto em relação à você. Você não sabe se eu te odeio, se te invejo, se sinto ciúmes ou qualquer outra coisa. Terceiro, você não deveria ser mais hesitante em relação à mim por conta desses outros dois motivos??
— ...Não sei como o Vini iria ficar, mas sobre o resto... Não acho que você sinta essas coisas todas por mim, talvez no máximo um pouco de ciúmes por eu ser mais próximo do Vini, mas, pensei que você tivesse exigido minha presença naquele viaduto para que pudesse me conhecer. — Falei.
— ...?!
— ...? O que?
— ... — Ele ficou em silêncio, enquanto entregava os jogos pro recepcionista junto com o dinheiro que os mesmos custavam.
— Talvez. Se existisse a oportunidade de eu ter te convidado só pra te conhecer, o que isso mudaria? — Perguntou ele.
— Mudaria que você teria interesse em mim, ué, e não é como se você me conhecesse só por causa daquilo. — Falei. — Se você quisesse me conhecer, ainda teria um longo caminho pra explorar.
— ...Ah, é mesmo? Talvez seja assim, então. — Afirmou ele. — Mas e você? Você tem algum interesse em me conhecer?
— Sim. — Respondi.
Respondi sem pensar duas vezes, de uma forma curta e objetiva.
Era a verdade.
Eu tive interesse no Daniel desde que conversamos no viaduto, porque, ele era parecido comigo.
Ele passou por uma situação semelhante de um jeito diferente e foi rejeitado pelo Vini da mesma forma que eu.
Penso que, se fosse eu no lugar dele, talvez eu tivesse feito... A mesma coisa.
O Daniel não fez aquilo do vídeo porque queria se vingar do Vini, ou porque tinha raiva. Era o oposto.
Ele fez aquilo porque ainda gosta dele e queria um pouco de atenção.
Daniel queria ser notado.
Ele queria um lugar no coração do Vini, desesperadamente, e também, queria mudar totalmente o jeito do Vini que o fez sofrer.
Bom, é só o que eu acho; só o que EU penso sobre ele e sobre tudo isso, mas, se for mesmo verdade, então Daniel teve um sucesso muito grande no seu plano.
Vini está mudando e está deixando de ser superficial. Sinto que ele não fará mais essas coisas pervertidas com qualquer estranho da internet, e também, sinto que ele está começando a desenvolver um verdadeiro senso de valor na sua vida.
— Certo, então acha que não há nada nos impedindo. Se você conseguir conversar direito com o Vinícius depois sobre isso, então não tem problema. — Afirmou ele.
Viu? Ele se importa muito com o Vini, eu acho.
— Aham, eu falo com ele que te encontrei e que conversamos. — Falei.
— A propósito, que jogo você veio comprar aqui? — Indagou.
— Vim sem nenhum em mente. Eu só tenho um Xbox 360 em casa e geralmente jogo sozinho, então, pensei que poderia encontrar algum RPG para jogar aqui.
— RPG? Temos de monte, por que não compra o nosso Skyrim? Ou o Dark Souls? — Perguntou o vendedor.
— Esses eu já tenho. — Respondi. — Ah! Acho que irei levar o Tomb Raider.
— Tomb Raider? Beleza. — Afirmou o vendedor.
— Já finalizei todos os Tomb Raiders de play 2 e o de play 3 também. — Disse Daniel.
— E o de Ps4? — Perguntei.
— Ainda não comprei, mas, vi a pré-venda dele vendendo lá no shopping sábado passado.
— Aqui o seu jogo. — Disse o vendedor.
Entreguei uma nota de 10 reais para ele e ele me devolveu 5 de troco.
— E os seus estão aqui. — Falou o vendedor, entregando os jogos de Daniel numa sacola.
— Você vai jogar eles ainda hoje? — Perguntei.
— Vou chegar em casa e jogar até de noite. — Respondeu ele. — Por que? Por acaso você quer ir jogar comigo?
— Você está me convidando?
— Primeiro diga se quer ir.
— Você é o Quico?!
— Tristeza. Estou brincando. — Disse ele. — Tenha mais senso de humor.
— Hunf, é que eu achei isso estranho né.
— Mas estava na cara que era mentira. Até parece que eu te chamaria pra minha casa, sua formiga que come folha. — Afirmou ele.
Isso foi... Um insulto?
Digo, as formigas comem folhas, não comem?
Aaah, eu não entendi...
— Desculpa. — Falei.
— Bom, eu vou embora agora. Até outro dia. — Disse Daniel, enquanto saía da loja de games.
— Espera, você vai a pé? — Perguntei, enquanto saía atrás dele.
— Vou.
— Eu preciso ir na praça dos eventos. — Afirmei. — Podemos ir juntos, já que ela também fica do outro lado.
— O que você vai fazer lá, Gabriel?
— Vou pegar pokémon. — Respondi.
— Ah, é? Já faz um tempo que não há atualizações nesse jogo. Percebi que poucos estão jogando no momento. — Comentou Daniel.
— Pois é, isso tem suas vantagens e desvantagens. — Falei, enquanto chegava na calçada junto com ele após descermos a rampa que levava ao marcado.
— ...Você gostaria de saber algo interessante? — Perguntou o Daniel, que trajava o uniforme da escola e carregava sua mochila. Ele provavelmente tinha saído no horário comum e havia passado na loja de games logo após a escola.
— ??? O que? — Perguntei.
— Sobre a Márcia e o Kaio. — Respondeu ele.
— Sim, mas, você pode me contar? — Perguntei.
— Na realidade não. Os dois me pediram para manter segredo, mas como eu estou com vontade de falar, então vou dizer. — Respondeu ele.
Uau, ele sim é um anarquista. Vou me lembrar de não contar meus segredos ao Daniel, ele deve ser do tipo riquinho e mimado que faz o que quiser.
— Então conta. — Pedi. No fim das contas, eu também estava curioso. Eu só não queria saber através da Márcia e do Kaio porque tenho certeza que seria uma má ideia.
— Resumidamente, eles discutiram por sua causa. — Disse ele.
— ...Eu sabia, droga.
— Imagine uma situação com nós três sentados lado a lado numa sala de cinema, comigo no canto, quando de repente...! Os dois começam uma discussão em voz baixa. — Disse ele. — Primeiro a Márcia comentou que talvez você gostaria daquele filme, segundo o Kaio falou que ela só vivia pensando em você e que estava usando ele pra te esquecer, terceiro ela disse que não era verdade e que não gostava mais de você por você ser um incompetente. Etc. Não preciso falar mais nada, você já entendeu.
— Eu já imaginava que era algo assim, aaah... Agora o Kaio está aborrecido comigo. — Falei.
— Aquela garota é irritante, digo, a Márcia. Falei com ela pela primeira vez naquele dia e já comecei não gostando dela. Ela parece do tipo que distorce muito a verdade em benefício dela própria; é egocêntrica demais.
— ... — Não comentei nada sobre o que ele havia dito.
— Deve ser difícil ser amigo de alguém assim.
— A Márcia tem seus defeitos como todos os seres humanos né, mas, ela também tem boas qualidades. — Falei.
— Quais são? — Perguntou ele.
— O que?
— Quais são as qualidades da Márcia? Me conte.
— B-bom... Ela... É gentil, pensa sempre nos outros antes de pensar nela mesma, não gosta de machucar as pessoas, é bastante disciplinada, etc. — Falei.
— Tristeza. Então você discorda do que eu disse no fim das contas.
— Sim. Mas você não pode falar muito dela, afinal só ficou com ela por um único dia e numa situação bem complicada ainda. — Afirmei.
— Você tem razão, isso é verdade. Bom, quem sabe? Talvez eu ainda tenha alguma oportunidade de conversar com ela algum dia.
— Claro que vai ter, nós somos da mesma escola. — Afirmei.
— Aliás, eu sei que a Márcia odeia o Vinícius por sua causa. Talvez eu e ela nos déssemos bem em cima dessa raiva em comum.
— Para de falar: "por sua causa" isso, "por sua causa" aquilo. Além disso, raiva em comum? Tenho até medo do que poderia surgir de uma amizade dessas.
Parece até que ele está tentando me manipular pra fazer eu achar que tudo é minha culpa.
— Montaríamos um clube: Fim do Vinícius. — Afirmou ele.
— ...
— Brincadeira.
— Você brinca com coisas desagradáveis, se continuar com isso vai acabar realmente levando alguém ao suicídio.
— Claro que não, eu nunca deixaria algo assim acontecer. — Afirmou ele. — Ora, você não sabe? Já se esqueceu? Eu sou a pessoa que têm mais sentimentos em toda a escola.
— Você é... Meio idiota, não é?
— Nope. A propósito, vou aproveitar essa ofensa para nos separarmos aqui. — Disse Daniel. — Eu odeio atravessar por este buraco, prefiro subir pela passarela da estação.
— Você não pode abrir uma exceção dessa vez?
— Nunca, que nojento. Passar num buraco apertado cheio de pobres e mendigos pedindo coisas e cantando músicas idiotas enquanto estão sob efeito de álcool, que pesadelo, eu nunca mais vou passar naquele lugar de novo, porque eu não quero.
— Errrr, tudo bem, então até amanhã. — Falei.
— Não há garantia nenhuma que nos falemos amanhã, então, não seja apressado. — Disse ele, enquanto atravessava a rua e ia pela calçada em direção à estação de trem.
Você não sabe Daniel, mas há garantia sim. O Nell tem vontade de te conhecer e já que ocorreu a coincidência de eu te encontrar aqui, então agora fica mais fácil de apresentá-los. Você que nos aguarde amanhã, seu anti-social metido.
Às 13:07 cheguei na praça dos eventos, já com o celular em mãos. Estava calor, bastante calor.
A partir do ponto que me separei do Daniel, abri o Pokémon Go e fui jogando até a praça enquanto recolhia os pokéstops e os pokémons que encontrava pelo caminho.
Já fazia um tempinho que não jogava esse jogo, desde bem antes de perder a memória, pra ser mais exato.
Passei pelo caminho em torno do espelho d'água e fui em direção ao playground infantil, onde havia um pokéstop com lure.
Ao chegar lá, me deparei com uma pessoa conhecida: ela estava sentada no balanço com a cabeça baixa e com o celular em mãos.
— Pedro? Você tá jogando Pokémon também? — Perguntei.
— Aaaa! Oxii Gabriel, que coisa, não me assuste assim. — Disse ele.
— Mas eu cheguei tão normalmente. — Falei. — Você que tava no mundo da lua aí. Quem raios se assusta desse jeito nos dias de hoje? Parece aquelas atrizes de novela que se assustam só pra encher o roteiro.
— Você está me zoando?
— Sim, estou. — Falei. — E aí, tá jogando ou não? — Perguntei, enquanto me sentava no balanço ao lado do que ele estava.
— Não, eu não jogo mais. Faz tempo que não tem atualizações então eu desinstalei do meu celular. — Afirmou ele.
— Ah, é? Eu peguei um Cyndaquil antes de chegar aqui. — Falei.
— Eu tinha a última evolução dele. — Disse Pedro.
— Hm... — Falei, enquanto bloqueava meu celular e o guardava no bolso. — Sabe, a Verônica colocou eu o Nell para trabalharmos hoje no seu lugar. Ela foi bem rígida. — Contei a ele, enquanto começava a me balançar.
Eu gosto dos brinquedos de playground.
Quando eu era criança, poderia ficar o dia inteiro brincando se me deixassem.
Se bem que não gosto muito das balanças porque eu passo mal. Além de ficar com tontura, me dá vontade de vomitar.
— Ela é assim comigo também mas eu aprendi a aguentar ela já. — Disse ele, enquanto continuava mexendo no celular, parado em seu balanço.
— O que você está fazendo aqui, afinal? Por que faltou na escola? — Perguntei.
— ...É que... — Murmurou ele, guardando o celular. — Eu tive uns rolos com o meu crush e quis faltar pra não ver a cara dele.
— Seu crush? Então, o Guilherme?
— Sim.
— O que aconteceu? Quer falar sobre isso? — Perguntei, não mostrando muito interesse no assunto dos dois.
— Na verdade eu quero. — Respondeu ele.
— Pode falar.
— Eu peguei o celular do Gui desbloqueado quando ele saiu pra fazer outra coisa, daí, não resisti à curiosidade e olhei as conversas que ele estava tendo. — Contou Pedro. — Você acredita que além de ter o Tinder instalado, ele ainda tava marcando uns rolê com os boys?
— Ah, então foi isso? É bem a cara dele. — Afirmei.
— Eu fiquei muuuito chatiiado... — Disse Pedro. — Pensei que ele fosse ficar apenas comigo.
— Mas vocês ainda não estão namorando, certo? Então eu diria que está tudo bem pra ele pegar os garotos que quiser. — Falei.
— Eu sei disso, mas... Mas... Puxa vida. — Ele abaixou a cabeça e colocou as mãos nas correntes do balanço.
— Ao invés de ficar aí chateado, por que não tenta conversar com o Guilherme e dar um ultimato nele? — Perguntei. — Algo como: "O que você quer de mim?? Pra você eu sou só um peguete? Você não gosta de mim? Não quer tentar nada mais sério comigo? Porque se for isso, então eu não quero mais continuar com você". Ou algo assim. — Falei, tentando imitar a voz do Pedro.
— A gente já teve uma conversa tipo essa mas eu não cheguei a falar tudo isso. — Disse ele. — Tenho um pouco de medo dele dizer que eu só sou mais um na vida dele.
— Entendi. Mas se esse for caso, você tem que superar né Pedro. Você é tão bonitinho, consegue arrumar um "boy" num estalar de dedos. — Falei.
— Mas é qui eu não queria um boy, eu queria o Guilherme. — Disse ele, enquanto levantava o rosto e começava a olhar pra frente.
Minha cabeça voltou de repente voltou a doer bastante, provavelmente devido ao balanço, então cessei a balançada e permaneci apenas sentado.
— Então conquiste o Gu-Guilherme... M-mostre pra ele que você... Que você... É diferente dos outros e que é especial. — Falei.
— Oxii, que isso? Você tá legal? — Perguntou ele.
— Estou, só fiquei com um pouco de tontura. — Respondi.
— Ah, nossa, será que é labirintite?
— ...Não. — Afirmei.
— É o que, então?
— Não é nada. A propósito, com quem você estava conversando no celular? — Indaguei à ele.
— Pra que você quer saber?
— Nada, é só por curiosidade. — Respondi.
— Tava conversando com meu irmão, não era nada de mais. — Disse ele. — E seus pokémons? Não vai mais caçar?
— Tem um pokéstop aqui com lure ativado, mas não gosto de jogar enquanto estou conversando. — Respondi.
— Ah, entendi. — Falou o Pedro. — Oxiiiii.
— O que foi?
— Você não tava namorando com o Vinícius? — Perguntou ele.
— Não, a gente tá meio que nem você e o Guilherme, mas ainda não ficamos de verdade. — Respondi.
— Aaaa. — Falou ele.
— Por que?
— Porque ele acabou de chegar junto do coréia. — Respondeu Pedro.
E então, levei meu olhar em direção à entrada da praça, logo após o caminho em torno do espelho d'água. Realmente, Vini tinha acabado de chegar na presença de um cara bastante... Extravagante. Quem era aquele? Nunca o vi na vida.
— Você conhece ele, Pedro? — Perguntei.
— Sim, é um cara que fica indo no portão da escola as vezes. Conheci ele pelo Gui.
— Ele é gay?
— Acho que é bi.
O Vini vindo aqui com esse cara estranho à essa hora? Pensei que ele fosse ajudar a Thalia com os afazeres domésticos, porque eu chamei ele pra vir comigo mas ele não quis.
Isso quer dizer que o Vini mentiu? Ou será que mudou os planos de última hora?
O cara é bi? E daquele jeito?
É bem do jeitinho genérico que o Vini gosta......
Nossa... Não acredito...
Não pode ser verdade.
Quando eu estava finalmente pensando que ele tinha mudado;
Que ele talvez fosse gostar de mim;
Que iríamos ficar juntos para sempre e sempre... Aí isso acontece e eu caio do cavalo.
Droga...
Estou muito triste. Está doendo de mais.
Acho que eu só estive me enganando esse tempo inteiro, tentando acreditar e ter esperanças em algo que era impossível.
— Nossa mas eu não consigo acreditar que o Vinícius tenha conseguido um boy logo depois do escândalo do Vídeo. — Disse o Pedro.
— Acho que esse cara foi atrás dele... Justamente pelo escândalo do vídeo... — Falei.
O cara esquisito e bombado então, foi comprar um saco de pipocas no vendedor, deixando o Vini sozinho por um instante.
— Por que não vai lá falar com o Vinícius? Você não gosta dele? Talvez não seja bem isso também. — Disse Pedro.
— Eu estrelo o Vini... — Falei.
— Hã?
— Quis dizer que o amo de mais.
— Então oxi! Conversa com ele! — Exclamou.
— Não preciso. Vamos olhar pra ver o que eles vão fazer. — Falei. — E-eu não tenho n-nada com o Vini ainda. Não q-quero atrapalhar o-os c-casos dele, então, não tenho o d-direito de ir l-lá interromper.
— Que safado! Nossa! Aff! Ele é igual o Gui! Igualzinho! Mesmo que vocês não estivessem namorando ainda estavam bem próximos! Tá vendo? Você tá passando pelo mesmo que eu. — Falou ele.
— Eu sei....... Eu tô vendo......
— C-calma, não chora ainda, a gente nem tem certeza se eles vão mesmo ficar...
— E daí?! Por que motivos o Vini sairia com um cara desses, sozinho, em segredo, se não fosse pra ficar com ele?? — Perguntei. — Tá na cara Pedro, eu já não tenho mais que ficar me iludindo. Essa é a minha realidade.
Após comprar a pipoca, o cara retornou até onde o Vini estava e eles começaram a andar em direção à área do palco.
— Olha, eles tão indo pra um lugar deserto...
— Vou atrás deles. —Afirmei, me levantando do balanço.
— E vai fazer o que???
— Vou só olhar pra ter certeza, porque mesmo falando, ainda tem um lado meu que não quer acreditar nisso. — Falei.
— Vou com você. — Disse ele, se levantando e vindo comigo atrás dos dois.
— Você não precisa vir! — Exclamei.
— Mas você tá chorando e tá triste! Por saber exatamente como é, não quero deixar que você passe por isso sozinho! — Exclamou ele.
— A gente nem conversa direito Pedro.
— Então é só a gente começar a conversar bastante a partir de agora, oxi.
— T-tá bom.
— E se eles forem primos?
— Não são. — Afirmei.
— Puxa vida...
— Tudo bem, está tudo bem, eu já me conformei antes para o caso de algo assim acontecer e também já falei ao Vini que aceitaria. — Falei.
— ... — Pedro ficou em silêncio, então, tomei a liberdade de continuar falando expressivamente.
— Eu não tenho a escolha à não ser aceitar, não é mesmo? Se o Vini é assim e não vai mudar, o que eu posso fazer? — Perguntei. — Eu tenho certeza que acreditei por muito tempo que eu poderia mudar ele; que meu amor e meu carinho poderiam fazê-lo perceber que eu era importante e não esses outros caras bestas e aleatórios.
Eles só vão fazê-lo sofrer.
Aliás, talvez não. O Vini não é do tipo sentimental, certo? Ele ainda é frio por dentro.
Significa que não importa o que os caras façam, ele não irá se magoar, talvez seja o oposto: ele magoará os caras que tentarem algo com ele.
Um após o outro, coração após coração. A fim de proteger à si mesmo, a fim de manter a muralha em seu coração levantada, o Vini irá destruir todos aqueles meninos que se aproximarem dele.
Entendi, agora eu entendi. Eu entendi a verdade sobre o Daniel.
Flashback ON
— Certo, então acha que não há nada nos impedindo. Se você conseguir conversar direito com o Vinícius depois sobre isso, então não tem problema. — Afirmou Daniel, poucos minutos atrás.
Flashback OFF
Quando ele tinha insistido para que eu conversasse com o Vini que me encontrei com ele, não foi porque ele se importava com o Vini e queria que ele não cometesse nenhum mal entendido a respeito de nós dois, mas sim, porque ele queria que o Vini ficasse ciente que as coisas não giram apenas em torno dele.
Egocentrismo; isso com certeza, é o que o Vini mais tem. Daniel deve ter percebido isso há mais tempo do que eu, então, acabou ficando claro o motivo dele ter dito aquilo. Se eu conversasse com o Vini sobre o Daniel amanhã e mostrasse que haveria a chance de nos tornarmos amigos, ele provavelmente... Ficaria em choque.
Porque o Vini é egocêntrico.
Ele vai ter a realidade esfregada na cara de que as coisas não acontecem só em torno dele, e, eu e o Daniel virarmos amigos, com certeza é algo que ele nunca imaginou.
Entendi, entendi. Realmente, o Daniel odeia o Vini. Talvez eu deva tomar cuidado pra não ser usado pelo Daniel como forma de destruir o Vini.
— É mesmo né, então eu acho que o melhor seria vocês se afastarem. — Falou Pedro, após ficar um tempinho quieto.
E então, Vini e aquele garoto sentaram-se no meio do asfalto da rua fechada da praça, um do lado do outro, enquanto comiam pipoca e conversavam sobre alguma coisa. Eles estavam sentados de costas pra gente e de frente pro esgoto e pra ponte.
Eu e o Pedro ficamos encostados numa parede que caso você tentasse subir, ficaria em cima do palco de show.
Fiquei olhando pela beirada da parede junto com o Pedro, observando atentamente aqueles dois.
— Me afastar do Vini?
— É, oxii. Se não vai dar certo entre vocês e ele só está te iludindo, então joga a bola pra frente e segue sua vida. Sabe, é bastante triste, de verdade, mas muitas vezes a gente precisa enterrar nossos próprios sentimentos pra poder seguir nossas vidas. — Afirmou Pedro. — As coisas não duram pra sempre e sempre temos que dar adeus à algo, até mesmo à um amor que não floresceu.
Pedro falou algo bastante certo e que eu mesmo já sabia, há muito tempo. No entanto, eu sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre e sempre insisti e lutei pelo Vini. Talvez tenha sido um erro fazer isso. Me iludir? O Vini nunca me iludiu; fui eu mesmo quem me iludi, desde o começo.
A realidade é que eu criei uma versão do Vini que não existia e me apaixonei por ela; apaixonei fortemente, acreditando que algum dia eu poderia transformar o Vini real na versão que existia em minha cabeça.
Eu não segui em frente, eu só corri em círculos.
Eu sei...
Eu sei disso...
Por causa disso, talvez, eu...
Nem mesmo ame o Vini,
De verdade.
Talvez tudo, tudo tenha sido uma farsa, desde o começo.
Eu amava estar com ele.
Eu amava ver ele sorrindo e amava quando eu era o motivo do sorriso dele.
Eu amava brincar com ele.
E eu amava pensar na possibilidade que um dia ele poderia me amar.
Mas, mas... Eu no fundo nunca gostei do jeito do Vini em relação à mim.
Ele sempre me tratou mal e ele nem mesmo aceitava o meu amor.
Ele me disse coisas terríveis e magoou meus sentimentos diversas vezes; isso me fez ficar afundado em tristeza todas as vezes, mas também, em raiva. Eu tinha raiva do fato do Vini não me amar e do fato dele não ser como eu queria que ele fosse. Isso era irritante, e aí, a todo o custo, eu tentei mudá-lo. Eu tentei realizar minha fantasia.
— Eu... Nunca pensei nisso tão a fundo. — Falei.
— No que? — Perguntou Pedro.
E então, o barulho de um trem passando à cima da ponte ecoou pelo local, enquanto o cara com quem o Vini estava colocava o braço sobre o ombro dele.
— Na verdadeira verdade sobre tudo e sobre meus próprios sentimentos. Acho que a única pessoa que esteve iludindo alguém aqui fui eu mesmo. — Afirmei, enquanto fechava os olhos por três segundos e os abria em seguida, continuando à fitar aqueles dois.
— Nossa, olha lá. — Afirmou Pedro.
— Haha, eu já estou vendo. — Falei, soltando um sorriso.
Eu não estava mais chorando. As lágrimas já tinham secado no meu rosto, mas, acho que meus olhos ficaram um pouco avermelhados devido ao pequeno choro que eu tive.
— Que ruim. — Disse ele.
Foi quando de repente, o "Sato" virou o rosto e olhou por cima dos ombros em direção à nós dois.
Aquilo me assustou.
Afastei meu corpo rapidamente pra trás e esbarrei no Pedro.
Por conta disso, perdi o equilíbrio e caí de bunda no chão, sozinho.
— Eeeeita, cuidado. — Falou Pedro, que estava em pé atrás de mim. De alguma forma, ele conseguiu se safar do tombo.
— Meu chinelo arrebentou. — Afirmei, enquanto olhava para os meus pés e percebia que a alça do meu chinelo esquerdo tinha arrebentado.
O peguei com a mão e tentei consertar, mas, não havia mais conserto. Só se eu colocasse um prego ou colasse, mas, não tinha nada daquilo naquela hora.
— Aqui, você derrubou sua sacola. — Disse Pedro, me entregando a sacola com meu jogo.
Me levantei e retirei meu outro chinelo, para que pudesse jogar logo os dois no lixo.
— Vamos sair daqui, eu não quero ver mais nada. — Falei, enquanto tornava à andar por aquela imensa área de paralelepípedos.
— Tudo bem. — Afirmou ele, vindo atrás de mim.
Eu realmente não sei porquê motivos o Pedro veio aqui comigo.
Será que ele é fofoqueiro que nem a Verônica?
Se for, isso será um incômodo.
Não deveria ter aceitado a presença dele aqui, se bem que, eu não poderia fazer nada. Foi uma coincidência e estamos num lugar público.
— A propósito, você vai ficar legal Gabriel? — Perguntou ele.
— ...E você e o Guilherme, Pedro?
— Oxiii, o que tem a gente?
— Você ama ele?
— Não, eu só gosto.
— Ah, entendi. Então é por isso que você seria capaz de seguir em frente caso algo acontecesse entre vocês dois, não é? — Perguntei.
— Sim, seria, mas...
— Mas você não está seguindo em frente nesse momento. — Completei a fala dele, de forma direta e um pouco arrogante.
— P-puxa vida, não fica bravo comigo, eu te dei um conselho bom mas isso não quer dizer que eu consiga fazer isso com tanta facilidade... — Disse ele, fazendo um tom de voz entristecido.
— Eu sei como é isso, me desculpa. É que eu... Você viu, né. Eu estou um pouco abalado. — Falei.
— E você vai embora descalço? — Perguntou ele.
— Vou. Quando eu chegar em casa, irei ligar pro meu pai trazer chinelos novos para mim. — Respondi.
— Ah, tá bom, mas toma cuidado pois pode ter algum espeto nas calçadas.
— Se eu sobrevivi ao Vini quebrando meu coração tantas vezes, vou sobreviver à um espeto.
— Nossa, você tá malzão mesmo.
E precisa ficar falando isso?!
O Pedro consegue ser bem inconveniente.
Ou será que é apenas lerdeza???
— ... — Preferi não dizer mais nada.
Assim que saímos da praça dos eventos, me despedi do Pedro e fui embora para a minha casa sozinho. Na volta, fui pelo viaduto onde eu e o Vini conversamos com o Dan semana passada.
Também joguei meus chinelos numa lixeira aleatória no caminho. Não quis ficar andando com um pé descalço e outro calçado porque seria mais esquisito do que andar descalço. Preferi me desfazer do par inteiro de uma vez.
Cheguei em casa às 13:58 daquela segunda-feira do dia 12 de Abril de 2019.
A primeira coisa que fiz foi jogar meu jogo, meu celular e minhas roupas na cama, pra depois ir direto pro banheiro.
Como eu ficava a tarde inteira sozinho em casa, tinha bastante liberdade pra tirar as roupas aonde eu quisesse.
Andei pelado até o banheiro e então abri o chuveiro. Meus pés estavam completamente imundos e também ardiam um pouco por causa da caminhada descalça.
— Amanhã eu vou ter uma conversa séria com o Vini. — Falei comigo mesmo.
Eu não vi muito sobre o que aconteceu entre ele e aquele Sato. Não quis ficar pra ver até o final, mas, independente do que tenha ou não acontecido, nós precisaremos conversar direito sobre isso.
Se ele estiver interessado naquele cara, eu juro que não vou mais insistir nem um pouco. Irei deixá-lo ir, e então, encerrarei meus sentimentos pelo Vini.
Se ele não estiver interessado no cara e tiver sido apenas um mal entendido meu (pensamento que parece mais como uma falsa esperança e nova ilusão para mim), então irei reconsiderar e conversarei com ele tudo que eu acho sobre tudo.
A verdade é que, não importa qual das situações seja, o resultado será o mesmo.
Eu sempre estive com essa pedra me afundando mas sempre tentei ignorá-la. Foi o Dan que deixou tudo explícito, mas mesmo assim, nós três, incluindo o próprio Vini, ainda consideramos que algo como o que ocorreu hoje poderia ocorrer.
E agora, agora que ela afundou junto comigo, eu não sei se vou conseguir mais mudar minha visão sobre o Vini.
Eu... Não sou um santo.
Eu cheguei ao limite.
Eu finalmente cheguei ao limite do que poderia aguentar.
Claro, não estou fazendo pouco caso das coisas boas que aconteceram entre mim e o Vini na última semana, mas...
Eu só estou de saco cheio desse sofrimento.
É um saco. É uma droga.
É quase que imperdoável.
É tão difícil assim encontrar alguém que nos ame...?
Não, talvez não seja.
Fui eu quem insisti em alguém que nunca me amou.
Eu nunca procurei alguém que me pudesse me amar.
Mas... Mas agora chega. Estou esgotado.
Lavei meu cabelo com bastante shampoo e com a água bem quente. O chuveiro estava tão quente que o vapor que ele soltava já tinha tornado a visibilidade do banheiro quase nula.
Tudo o que ocorreu hoje fez minha dor de cabeça voltar, ou talvez tenha sido o sol quente lá fora, não sei ao certo, mas, dor de cabeça é outra coisa que me incomoda 7 dias na semana.
Também estou farto dela. Até quando vai continuar doendo?
Assim que terminei meu banho, desliguei o chuveiro e percebi que tinha esquecido minha toalha no varal.
Sequei o banheiro e joguei no lixo a quantidade anormal de cabelos que estavam caídos sob o ralo. Meus cabelos têm caído muito ultimamente. Muito mesmo. Quando esfreguei ele com o shampoo, haviam uns 400 fios em meio ao sabão que ficou nas minhas mãos: isso só na primeira vez que esfreguei.
Abri a porta e saí descalço junto da enorme quantidade de vapor, estando totalmente molhado.
Andei até a lavanderia que ficava dentro de casa mesmo, bem do lado do banheiro, mas, ao invés de pegar minha toalha, parei em frente ao espelho que eu havia quebrado semana retrasada. Haviam as marcas das minhas duas mãos nele, um pouco a baixo.
Grande parte dele estava rachada; pra ser preciso, do meu peito pra baixo.
Pelo menos o meu rosto, eu conseguia ver nitidamente na parte superior do espelho que não estava despedaçada.
O chão de casa estava bem gelado.
— Vini... Vini... Vini... — Sussurrei.
O Vini,
Me ensinou a amar.
O Vini,
Me ensinou a sentir por alguém.
E a partir de amanhã, eu tenho certeza que abrirei meus olhos...
Para que eu possa encontrar alguém digno de receber todo o meu amor.
Alguém que não seja o Vini.
Alguém que eu tenha a confiança de dar o meu primeiro beijo.
Alguém que eu tenha a confiança de dar a minha virgindade.
Alguém que me ame verdadeiramente e que me faça feliz.
Eu... Preciso crescer.
Como o Pedro disse, eu preciso seguir em frente e preciso dar adeus à minha história com o Vini.
Preciso fazer essa história de amor virar apenas passado.
— Há... Hahahaha. — Dei risada, assim que me lembrei de alguém.
Da Márcia.
Ela poderá ficar feliz com isso.
Agora que eu me entendi melhor, acho que... Também preciso dar adeus ao antigo Gabriel.
Eu nunca mais vou fazer a mesma coisa de novo. Nunca mais vou me enganar e nem me iludir. Nunca mais eu vou me apaixonar por uma pessoa que não existe e nunca mais irei insistir pelo amor de alguém.
Coloquei minha mão direita no espelho, com o palmo aberto.
Amor tem que ser livre e espontâneo, não é?
Então talvez... Eu precise também, dar adeus à estrela.
Eu estrelar o Vini? Isso é... Um termo que eu só posso usar com ele.
Se eu me apaixonar por outra pessoa, nunca direi: "eu estrelo você" para ela, porque me lembrarei do Vini.
Significa que, isso também deve ser morto.
O Vini nunca disse que me estrelava, então acho que não tem problema.
A verdade é que...
Nem mesmo as estrelas vivem para sempre.
Continua no capítulo 31 (FINAL).
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