Eu estrelo você
32 Estrela cadente (Epílogo)
Notas iniciais
Nell POV
Três meses depois.
Dia 24 de Julho de 2019 às 11:00 da manhã, nas férias de meio de ano.
— Já fazem três meses que você nos deixou, Biel. — Afirmei, enquanto permanecia à frente da sepultura do meu amigo que faleceu, Gabriel Riquelme.
Eu estava sentada no meio do barro de pernas cruzadas, com a minha muleta em cima delas.
— Aquilo tudo foi muito ruim. Eu falo isso sempre que venho aqui, mas, não consigo deixar de repetir. Você deveria se arrepender por ter morrido num da aleatório como aquele. — Falei. — Você era para estar vivo até hoje. Daqui muitos anos quando eu morrer também, tenha certeza de que irei ficar uma eternidade abraçado com você quando te encontrar no outro mundo, seja lá onde for este mundo.
— Ei, não se esqueça que eu estou aqui hein. — Falou Vera, que estava em pé um pouco atrás de mim.
Vera é o jeito que eu chamo a minha Verônica. Nós estamos namorando agora.
Semana passada ela cortou o cabelo na altura do pescoço e ficou com um visual bem diferente de antes, mas, ainda não deixa de ser ela.
A propósito, agora eu estou enxergando bem. Eu e minha mãe encomendamos um óculos especial num oftalmologista para que até mesmo eu conseguisse enxergar.
Foi bem difícil de encontrar um lugar onde eles faziam, tanto que... Demoramos a minha vida inteira para encontrarmos.
Mas no fim, foi legal. A tecnologia está muito boa hoje em dia e eu comecei a ver as coisas numa visão 10/10.
Gosto de usar óculos, isso faz eu combinar um pouco mais com a Vera e ela é muito linda de óculos.
— Não precisa ficar com ciúmes sua boba, eu só estou conversando com meu melhor amigo. — Falei.
— Nossa, aqui está muito frio Nell. Sinto o vento passando até pela minha jaqueta grossa. — Disse Verônica.
— Estamos no inverno também, todos os dias têm feito frio.
— Eu sei, mas é frio demais. Madrugada passada fez -2 graus.
— Realmente. Parece que cada ano que passa, mais caem as temperaturas no inverno. — Comentei com ela.
— Seu cachecol, deixa eu arrumar ele pra você. — Falou Verônica, enquanto se agachava por trás de mim e ajeitava o cachecol preto que estava no meu pescoço.
— Então, Biel... As coisas mudaram muito desde que você se foi. — Falei. — A Isabel se transferiu da escola nessas férias de inverno porque precisou voltar a morar na capital com a mãe dela. Soube que ela têm precisado bastante de um emprego e que está se esforçando bastante para arrumar.
Naquele momento, na calçada da avenida Faria Lima, podia-se ver uma garota bem agasalhada passando a impressão de que era uma mulher adulta.
Ela usava uma bolsa e seus cabelos longos e castanhos eram o que mais chamavam a atenção quando alguém a olhava por trás.
Tal garota andava com sua bolsa no ombro enquanto desviava seu olhar em direção aos inúmeros prédios que haviam por ali.
— Já o Kaio, ele ficou bem triste por você também. Eu já falei que ele até veio te ver no seu enterro, não foi? Mas agora ele está vivendo bem, até arrumou uma namorada. — Contei ao Gabriel. — Ela é uma loira bem bonita.
Em uma das ruas de Suzano, era possível de se visualizar um casal bastante fofo andando um ao lado do outro. O garoto era alto e tinha o cabelo espetado no corte de moicano; ele também era bem magro, já a garota, era uma menina loira e baixinha, de cabelo ondulado que batia na altura dos seios.
Ela era levemente a cima do peso, mas era linda. Linda demais. Todos babavam e invejavam aquele garoto por namorar uma garota por deveras bonita.
— Também soube que o Gui está treinando num time de futebol oficial. Acredita que ele está jogando por Mogi das cruzes? Acredito que ele conseguirá entrar em um time maior, como o corinthians, já que é o time dele. Pelo visto, ele e o Pedro se acertaram e estão namorando pra valer agora. — Falei. Verônica então, levantou-se e colocou as mãos no bolso do seu casaco.
Naquela hora, um garoto com o perfil atlético estava deitado junto de outro na mesma cama. Os dois estavam totalmente pelados mas o cobertor cobria suas partes íntimas.
— Tu tá muito delicioso hoje, sabia? — Perguntou Guilherme, que estava por cima do Pedro.
— Você também, A-aaah... — Respondeu Pedro.
— Quer tomar mais forte, quer? Quer?! — Indagou Gui.
— P-por favor, me fode até o fundo.
E então, Guilherme levou seu rosto até Pedro e o beijou intensamente.
Pedro puxou a coberta de forma que tapasse completamente os dois, para que tudo ficasse por baixo das cobertas, literalmente.
Apesar dele preferir fazer por fora.
— Bom pra ele não é mesmo? De todos nós justo o Guilherme ficar rico, mas que injustiça. — Disse Vera.
— Ele ainda não está rico. Talvez ele fique se a carreira dele der certo, mas...
— Ele vai ficar, com toda a certeza. Aquele cara joga demais. Sei disso porque já o vi jogando várias vezes com o Pedro pra por no jornal da escola. — Falou ela. — Ele também joga no time da escola, no inter-classe.
— Quando vai ser o próximo inter-classe? — Perguntei.
— Em outubro. — Respondeu ela.
— Hm, então está longe.
— Um pouquinho. Aliás, estou curiosa sobre uma coisa.
— Com o que, Vera?
— Sobre aquela menina que era sua amiga, a Márcia. Você teve alguma notícia dela? — Indagou Verônica, enquanto se sentava do meu lado no chão de barro.
— Não tive. Depois que o Gabriel morreu, ela abandonou a escola e nunca mais voltou. — Falei. — Ela também não entra mais no Facebook dela.
— Pois é... Abandonou mesmo.
E então, uma garota de touca podia ser vista dentro de um restaurante asiático, toda arrumada, comendo com bastante proeza utilizando os hashi.
No anúncio de publicidade no local estava escrito: Sushi de Jandira.
Na companhia da garota estava um homem mais velho, ele era chinês e tinha o rosto beem redondo. Os dois estavam comendo juntos enquanto conversavam e trocavam olhares.
A propósito, aquela menina, por de baixo da touca, era totalmente careca. Não porque tinha câncer e fazia quimioterapia, mas sim porque ela mesma arrancou seus cabelos com as mãos.
— Se eu tiver alguma notícia dela, você vai ser a primeira a saber. — Falei.
— Certo.
— Mas por que perguntou da Márcia tão de repente? — Indaguei.
— Achei que devia contar ao Gabriel sobre ela também, afinal eles eram muito amigos.
— Ah... Entendi. A propósito, quem mais que falta? O Daniel? É mesmo! Biel, eu me tornei amigo do Daniel, acredita? Pois é, eu já tinha comentado isso com você aquele dia, mas, demorou até antes das férias pra eu conseguir conversar com ele. — Falei. — Ele é meu amigo mais próximo da atualidade, já que não tenho mais você e nem a Márcia aqui comigo.
— O Daniel conversou com o Gabriel no dia que ele morreu, não foi?
— Foi, parece que eles haviam virado colegas também.
— Que trágico. — Comentou Verônica.
Naquele momento, havia um garoto sentado dentro do trem num acento da janela. Ele observava com seus belhos olhos, toda a paisagem que passava enquanto ouvia música através dos seus fones de ouvido.
Tal garoto possuía cabelos pretos, mas, as pontas e algumas mechas dele estavam vermelhas devido ao fato dele não ter retocado a tinta vermelha.
Ele vestia uma camiseta xadrez de cor vermelha e preta e parecia estar bastante distraído.
— Seria legal se você ainda estivesse aqui. Provavelmente estaríamos todos juntos: Eu, você, a Vera, a Márcia, o Pedro, o Daniel, o Vinícius e o Guilherme. O clube de jornalismo seria o mais divertido de todos os tempos. — Falei.
— Também fizemos um novo amigo, ele se chama Wesley. — Disse Verônica.
— O Wesley é bem legal, aliás, ele é gay também. — Contei.
— Mas acho que você não iria gostar do Wesley, Gabriel, porque ele é bem diferente de você.
— Pois é.
Acabei fazendo a Vera conversar com o Biel também, sem querer.
Hahahahaha. Ela disse que não fazia isso porque se sentia incomodada mas parece que acabou cedendo, não é? Essa vera... Ah, ela é fofa demais.
Eu tive muita sorte.
Ela é a mulher ideal.
A mulher perfeita que todo cara sonha ter.
O sorriso dela, noossa, o sorriso dela é tão... TÃÃO...
— Agora, falta o Vinícius. — Disse Verônica, quebrando meus pensamentos.
— ...Sim, o Vinícius. — Falei. — Ele está afundado, Biel. Depois que você morreu, o Vinícius afundou de vez.
— Aquele menino, ele é muito egocêntrico. Acho que foram as próprias ações dele que levaram ele ao que ele é hoje. A culpa é dele próprio, tanto que ele nem merece ser ajudado. — Comentou Vera.
— Não diga isso, o Biel pode se sentir chateado. — Falei.
— Mas é verdade Nell.
— ... Então, o Vinícius quase morreu naquele dia do seu enterro. Ele tentou se suicidar com uma faca de cozinha, mas, falhou. Encontraram ele desmaiado no viaduto e fizeram os primeiros socorros para que ele não morresse de hemorragia. — Contei. — Acho que ele ia se jogar, mas desmaiou antes de conseguir.
— Acho que não tem muito sentido ele estar vivo agora, afinal, ele ficou um caco. — Disse ela. — Talvez ele tente se matar de novo, no futuro.
— O Vinícius, ele... Sempre achei que ele nunca seria capaz de amar ninguém. — Falei. — Nem mesmo você, Biel, me desculpa por não ter te falado isso antes.
— Claro que não, aquele menino não tem nem amor próprio. É impossível ele amar alguém nessa vida. — Disse Verônica. — Ele nunca vai amar ninguém e nunca vai ser feliz. Vai viver a vida cometendo um erro após o outro, sempre achando que as coisas giram em torno dele próprio, e claro, sempre vai cair e quebrar a cara.
— Também acho. — Falei. — Talvez você tivesse conseguido salvar o Vinícius do destino cruel dele, mas, ainda duvido que ele conseguiria te amar em troca.
É verdade.
O Biel errou na escolha de quem amar.
O Vinícius com certeza era a pessoa errada, e eu sei que aquele amor nunca iria se realizar.
Seria algo destrutivo, porque era um sentimento envolto apenas de coisas ruins.
— Ele não foi pra escola mais antes das férias porque ficou em repouso do ferimento, mas, não sabemos se ele retornará pra lá ou não depois das férias. — Disse Verônica.
— Se ele for, tentaremos ajudá-lo. — Falei. — E farei isso por você, porque não me considero amigo do Vinícius. Claro que, se ele se tornar meu amigo no processo, então passarei à fazer isso por ele, mas tudo depende.
— Aaahh... — Resmungou Verônica, enquanto se levantava e limpava as calças do barro. — Acho melhor irmos agora. Você acabou de voltar da sua consulta médica, é melhor comer alguma coisa, Nell.
— ...Verdade, vamos embora. — Falei. — Adeus meu amigo. Até depois.
— Tchau Gabriel, até depois. — Disse Verônica, enquanto dava a mão para que eu pudesse me levantar.
Me levantei do chão e saí andando de mãos dadas com ela, enquanto segurava com a outra mão, minha muleta, para que pudesse manter o equilíbrio das minhas pernas.
...
...
...
E então, naquele momento, podia ser visto o semblante de um garoto loiro sentado numa cadeira à frente do computador.
Havia uma aba de League of Legends aberta, e a outra era de um Facebook fake que ele havia criado para usar com os amigos do jogo.
"Eaí Vinícius." — Escreveu alguém no chat do Facebook, para o Vinícius.
"Oiie Victor 'u'"— Escreveu o garoto loiro.
"Bora uma conf no Skype hj?" — Perguntou o Victor.
"Bora :3 :3, vai rolar oq hein?" — Indagou o garoto.
"Tudo que tu quiser '-' :3"— Respondeu Victor.
"Ain, eu quero um beijo grego 'u', tu sabe fazer?"
"Sei..."
"auaeuhauehaue"
"Quer ver o meu pau tbm?"
"Lógico :v, ele é mtu grande omg, aquele dia que você mandou eu fiquei tipo: WHAAT" — Disse Vinícius.
"Hehehehehe"
"Curto caras tipo vc, com o seu corpo e tal, acho bonito." — Comentou Vinícius.
"Também curto os tipo vc"
"...Legal..." — Falou Vinícius, que estava com olheiras e com a cara extremamente sem expressões, como se não houvesse nada em sua vida.
Como se tudo fosse vazio.
E assim, ele seguiria sua vida, até o dia em que fosse morrer.
Viveria como um fiasco incapaz de amar... Qualquer pessoa.
Não continua.
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