Eu estou aqui
1 Eu estou aqui
Eu andava de um lado para o outro enquanto alguns agentes do FBI remexiam minha casa em busca de provas. Ergui o olhar, enquanto passava as mãos pelos cabelos, e me deparei com os olhos verdes de uma das agentes, que estava vindo até mim. Suspirei e abaixei as mãos, colocando-as dentro dos bolsos da calça jeans.
— Sr. Baker? — Ela perguntou. Sua voz era calma e controlada, como se para me acalmar. Infelizmente não funcionou, mas mesmo assim eu sorri de leve.
— Por favor, agente. Me chame de Anthony — Pedi, me aproximando e estendendo-lhe a mão, a qual ela tomou entre as suas. Trocamos um aperto e ela me olhou.
— Anthony, eu sou a agente Murier, esses são os agentes Crof e Broner. — Ela falou, apresentando dois outros agentes, um homem alto e uma mulher mais baixa. Acenei para eles com a cabeça, voltando a ajeitar meus cabelos.
— Posso oferecer algo á vocês? Água, café? — Perguntei. A agente Murier negou com a cabeça e se aproximou da lareira, onde havia alguns porta-retratos.
— O que Henry é do senhor, Anthony? Irmão? — Ela perguntou. Sorri com isso, suspirando.
— Ele é meu esposo — Respondi, me aproximando e pegando um dos porta-retratos do batente. Emma apoiou uma mão em meu ombro.
— Nós vamos encontrá-lo. Você vai ver.
*
Os dias seguintes ao sequestro de Henry passaram se arrastando. Eu tentava me distrair, mas tudo em nossa casa me lembrava dele. As xícaras em que eu tomava meu café. Os livros com os quais eu tentava me distrair. Até mesmo as músicas que eu tocava no violino me lembravam de meu esposo, que geralmente me acompanhava no vocal ou no piano.
Todo toque de telefone fazia meu coração disparar. Toda hora que a agente Murier, com quem eu tinha feito amizade, me mandava mensagem eu relutava em abrir, com medo de que fosse o pior. Mas as mensagens se resumiam em perguntar se eu estava bem, e informar-me de que eles estavam fazendo o impossível para achar Henry.
Os dias se tornaram cinzentos para mim. Não importava quem me visitasse. Não importava o quanto Emma e os outros confirmassem que eles encontrariam Henry, em minha mente tinha medo que eles encontrassem ele morto. Eu tentava reprimir esses pensamentos sempre que os tinha.
Até que, em uma noite, no meio da madrugada, enquanto eu fazia um chá para mim — dormir tinha se tornado uma atividade difícil de se fazer — Emma me ligou. Com os dedos tremendo, atendi.
— Nós achamos o cara. Mas não sabemos se Henry estará lá... — Ela falou, e, ao fundo, era possível escutar o barulho de carros em movimento. Eles já estavam indo.
— Vocês... Vocês... — Eu não conseguia completar uma única frase. Minhas mãos tremiam tanto que eu quase derrubei a xícara de chá ao tentar pegá-la.
— Se acalme, Anthony. — Ela pediu depois de um tempo, tempo este em que eu percebi que ela colocava o colete. Meu coração — se é que isso era possível — disparava mais ainda a cada minuto.
— Emma... — Chamei baixinho, deixando meu corpo cair em um dos dois banquinhos que tinha ali.
— Anthony, eu preciso desligar — Ela falou, e escutei os carros pararem. — Vá para a base — Ordenou, e desligou.
Levou alguns minutos para que eu me arrumasse. Blusa de manga comprida preta, calça jeans e sapato fechado. Estava muito frio em Whasington, por isso também vesti dois moletons. Peguei as chaves do carro e, como um hábito antigo, joguei meu celular no bolso. Imediatamente senti um sorriso seguir em meus lábios, fazendo com que os músculos rígidos do meu rosto se esticassem.
Henry sempre reclamava sobre esse meu hábito. "Você deveria viver menos no celular e mais na vida real, Smaug". Outro sorriso, dessa vez seguido de uma risada. Smaug. Ele me chamava assim por que eu parecia muito com o ator que interpretava o dragão nos filmes The Hobbit, o Benedict Cumberbatch. E eu o chamava de Bilbo, já que ele sempre me lembrava o Martin Freeman. Éramos dois loucos pelo universo Tolkiniano, e fora assim que, em uma Comic Con, nós nos conhecemos. Ele, vestido de Bilbo Bolseiro. Eu, fazendo cosplay de Sherlock Holmes.
Com as chaves na mão e um sorriso no rosto, desci as escadas de nosso pequeno apartamento e entrei no carro. Lá dentro, com o aquecedor ligado, dirigi vagarosamente pelas ruas quase desertas. Quando parei na porta da base, vi um rosto conhecido. Emma. Saltei do carro assim que tirei a chave do contato, e corri até ela.
— Emma... — Olhei ao redor dela, como se esperasse ver Henry. A agente me puxou pela manga da camisa, me colocando dentro de um carro do FBI. Arregalei os olhos. — Emma?
— Anthony, se você não se acalmar, eu juro que eu te bato — Ela reclamou, abaixando o freio de mão e pondo o carro novamente na estrada. Respirei fundo.
— O que está acontecendo? Henry...? — Meu coração voltou a disparar, e eu quase xinguei alto. Meus olhos pesavam, o sono me incomodava, mas mesmo assim não parava de me desesperar.
— Ele não estava na casa do suspeito — Ela falou, pegando uma estradinha de terra atrás de outro carro de mesmo modelo. Antes que eu falasse algo, ela prosseguiu — Mas sabemos que Henry está em um galpão, portanto só pode ser aqui.
Notei um enorme galpão de alumínio há uns cinco quilômetros. Henry estaria ali? Estaria vivo?
— O filho da puta que fez isso está ai dentro? — Perguntei. O que eu mais queria fazer era acabar com esse cara. Na realidade, o que eu mais queria fazer era ter Henry em meus braços novamente, e ai sim acabar com aquele cara.
Sem aviso, Emma parou o carro no meio da estrada, e olhou para mim. Seus olhos verdes estavam com olheiras, as mesmas olheiras que estavam de baixo dos meus olhos. Era prova de que ela pouco dormira naquela semana, assim como eu.
— Ele foi morto. Quando eu te liguei mais cedo ele estava indo para a casa dele. Nós o encurralamos, mas ele tentou atirar em mim. Legítima defesa — Ela explicou rapidamente. Conti um suspiro de agradecimento. — Mas Henry ainda está lá. Sabemos que ele está sozinho, e que está apavorado. Os níveis do que chamamos Hormônio do medo estavam extremamente altos nos outros corpos que achamos. O cara fazia com que eles ficassem aterrorizados.
— Mas ele está sozinho? Lá? — Perguntei, sentindo meu medo voltar a aparecer. Ainda havia uma pequena chance de que Henry estivesse morto. Fechei os olhos tentando conter esse pensamento e senti uma mão em meus ombros. Senti uma lágrima escorrer, e mais outra, e as sequei com a manga da camisa.
— Katherine, nossa analista, conseguiu hackear e entrar no sistema desse cara. Ele tem câmeras que gravam tudo o que faz — Ela falou — E é assim que sabemos com certeza absoluta que Henry está vivo. Mas sim, ele está sozinho.
Eu queria correr. Eu queria gritar. Eu queria chorar. Mas eu não fiz nada disso. No lugar, fiquei parado no banco de carona, os olhos ainda fechados, contendo as lágrimas de alívio por saber que ele estava vivo. Um soluço rompeu de meus lábios cerrados, e uma única lágrima escorreu até meu queixo, deixando um rastro quente em minha bochecha. Emma apertou de leve meu ombro.
— Eu devo te alertar. Ele provavelmente vai desenvolver PTSD, ou Posttraumatic stress disorder* — Ela falou, e me estendeu um cartão branco — Esse é um dos melhores psicólogos que temos, ele atende especialmente vítimas que sobrevivem e desenvolvem o PTSD. Talvez ele não aceite ir imediatamente no psicólogo, mas tente convencê-lo, tudo bem?
Acenei com a cabeça e guardei o cartão no bolso. Antes, meu olhar bateu sobre o nome no cartão. Dr. Cezar. Dei um leve sorriso antes de colocá-lo junto de meu celular.
— Agora me escute com atenção. — Emma voltou a falar, tornando a ligar o carro — Você não deve entrar no balcão.
— Mas... Mas eu preciso. Eu preciso salvá-lo — Pedi. Emma suspirou pesadamente, parecia já ter tido essa conversa com alguém.
— Você não pode entrar lá sem proteção. E você pode se desesperar, e só vai piorar tudo. Fique do lado de fora. — Quando ela viu que eu ia discordar, acrescentou — Por favor, Anthony. Nos deixe fazer nosso trabalho, eu juro que logo você terá Henry com você — Ela pediu. Suspirei profundamente, ainda estávamos longe do galpão.
— Tudo bem.
— Uma última coisa — Enquanto dirigia com uma mão, puxou com a outra um cobertor bege que estava embolado no banco traseiro do carro, ao lado de sua bolsa e o colocou em meu colo — Medo causa frio. — Ela falou. Eu sentia que ela estava escondendo algo, mas mesmo assim suspirei e segurou o cobertor como se fosse uma boia salva-vidas.
Acho que os piores momentos da minha vida foram os minutos em que eu precisei ficar do lado de fora do galpão, aguardando enquanto os seis agentes, liderados por Emma e Crof, entravam no balcão. Ouvi barulhos de correntes e alguém gritou um palavrão, mas eu não consegui escutar direito qual foi.
Os agentes começaram a sair. Primeiro a agente Hale, depois Broner. As duas se apoiaram na porta do carro mais próximo, soltando os cabelos. Emma me explicara que por uma questão de segurança, as agentes femininas deviam ficar de cabelos presos durante uma perseguição. Nenhuma das duas me olhou.
Depois, dois agentes, pelo que eu me lembravam eram Dipsei e Leger, uniram-se ás meninas, sorrindo uns com os outros.
Aquilo era um bom sinal, certo?
Crof saiu em seguida. Seu olhar cruzou com o meu e ele sorriu ligeiramente, antes de se juntar aos outros, passando um dos braços sobre os ombros de Broner. Ele disse algo que fez os outros rirem ainda mais, talvez estivesse falando que o jantar seria por conta dele.
Mas eu não conseguia me acalmar. Vi a porta do galpão sendo aberta, e Emma saiu de lá, abraçada á alguém mais baixo que ela.
Primeiro consegui ver alguns fios de cabelo cor de areia. Depois, olhos castanho-claros piscaram em minha direção. Era Henry, sem sombra de dúvidas. Mas ele estava tremulo, tanto de medo quanto de frio. Logo percebi o porquê.
Ele estava sem camisa. Alguns roxos eram visíveis, mas a maioria de seu corpo estava coberto com uma substância vermelha. Sangue. Sangue que não era dele, mas sim das outras vítimas, que tinha sido drenado e depois jogado em cima de meu esposo. Engoli em seco e me aproximei um passo.
— Henry... — Chamei baixinho. Emma o soltou, sorrindo, e Henry caminhou até mim, numa velocidade pequena. Ele mancava. Sem me importar com todo aquele sangue, venci a distância que nos separava, enterrando-o em um abraço caloroso.
— Anthony... — Sua voz chegou até mim enquanto eu fechava os olhos e escondia meu rosto em seus cabelos. Sua voz estava falha, fraca, e logo seus soluços sacudiam seu corpo. Mas não só os soluços. O frio também.
— Aqui — Falei, afastando-o ligeiramente e retirando os dois moletons que eu estava. O frio logo me envolveu, mas isso não importava. Eu passara os últimos sete dias em minha casa. Henry, em um galpão. Ele os vestiu, e eu sorri ao ver como ele tinha sumido dentro dos panos. — Henry — O abracei de novo, agora deixando-o mais perto de meu peito. Ele apertou os braços em volta de mim, seus olhos fechados. Acariciei seu cabelo, desfazendo com carinho os nós com os dedos.
— Desculpa. Pela nossa briga. Eu não te odeio. Eu te amo — Ele falou baixinho, a voz abafada. Sorri fraco, e ergui seu queixo, o fazendo olhar para mim.
— Eu também te amo. — Respondi baixinho. Ele sorriu para mim, um sorriso que eu sentira tanta falta. Aquilo fez que eu começasse a chorar e pedisse desculpas.
Tínhamos brigado no dia em que ele fora sequestrado. Eu não me lembrava o porquê, algo bobo com certeza, mas que tinha feito com que ele dissesse que me odiava e sair andando. Percebi que tinha algo de errado algumas horas depois.
— Eu nunca mais vou largar você. Eu estou aqui agora. — Falei quando me acalmei o suficiente. Eu sabia que ainda haviam muitas pessoas ali, inclusive paramédicos e os agentes, mas não me importava. Deslizando a mão carinhosamente por seu pescoço, ergui seu queixo e o beijei.
Eu estava lá. E não sairia mais.
*
Emma, 03:45 am:
Como ele está?
A mensagem de Emma não me acordou. Eu mesmo estava acordado, sentado na cama com a cabeça de Henry em meu colo. Ele dormia profundamente, enroscado no cobertor, enquanto eu passava os dedos em seu cabelo.
Eu não me lembrava direito como tínhamos chego em casa. Sei que Henry adormecera no carro onde Emma nos dava uma carona, com a cabeça em meu ombro. Ao chegarmos em casa eu havia ligado a banheira, onde ele tomou um banho enquanto eu preparava uma sopa para que comecemos. Depois, direto para nosso quarto. Eu sentado na cama, Henry deitado em meu colo. Eu havia tocado algumas músicas no violino até perceber que ele adormecera.
Foi quando meu celular acendeu, jogando luz em meu rosto. Era Emma.
Eu, 03:46 am:
Ele está bem... Pelo menos parece bem. Ele está dormindo.
Eu jurava que ele não conseguiria dormir...
Digitei aquilo e voltei a acariciar os cabelos de Henry, que se mexeu ligeiramente. Olhei para seu rosto, sereno, os olhos delicadamente fechados, e novamente voltei a me apaixonar.
Emma, 03:46 am:
Com o carinho que eu sei que você está fazendo,
até eu dormira. E olha que eu não pego
no sono rapidamente.
Ri com isso. Emma era hilária, e uma das melhores em sua área, pelo que eu ficara sabendo. E era uma grande amiga. Crof me disse que era raro Emma se envolver tanto em um caso, a ponto de não dormir um só minuto por três dias seguidos. Ele disse-me que só fazia isso quando o caso envolvia sua família e amigos.
Eu, 03:47 am:
Isso é normal? Eu não consigo pregar o olho
É como se... Se meu sono tivesse sumido
E era a verdade. Eu estava com sono antes de reencontrar Henry, mas toda a loucura de o reencontrar, choro, paramédicos, casa... Toda aquela confusão havia levado meu sono embora, e tudo o que eu conseguia fazer era olhar para o pequeno humano que eu amava.
— Está falando com a Emma? — Uma voz sonolenta perguntou, me sobressalteando. Henry riu.
— Não queria te acordar, desculpe. — Pedi, baixando o brilho da tela. Henry se sentou na cama, deitando a cabeça em meu peito.
— Eu quero que você durma, Anthony. Eu já estou aqui, agora. — Ele bronqueou. Era a cara de Henry fazer isso.
O que não era a cara dele era roubar meu celular. Mas ele o fez. Roubou meu celular, digitou uma mensagem rápida e o desligou, voltando a se deitar. Suspirei e deitei atrás dele, envolvendo-o em um abraço apertado. Respiramos ao mesmo tempo, e logo ambos estavam dormindo.
Apenas na manhã seguinte que eu pude ler a mensagem.
Eu, 03:48 am:
Estou roubando meu marido de você, por que quero dormir.
Mas você e sua equipe estão convidados
a virem jantar aqui em casa, amanhã.
Obrigada por me salvar.
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