Eu estava lá também...
1 Coloque a sua mão sobre a minha...
Notas iniciais
Em itálico, são lembranças.
A chuva não dava tréguas para o céu de Atenas. Caía forte e constante há algumas horas, entrando pela noite e início da madrugada. Para alguns, aquele barulho da água caindo, batendo nas janelas e persianas e correndo pelo piso de pedra das 12 casas, tinha um efeito parecido como o de um sonífero. Mas não para ele. Na realidade, desde que voltara à vida junto de seus companheiros de armas, comandados por ele, que não conseguia conciliar muito bem o sono. E sabia que não era o único, aquela insônia constante era compartilhada por pelo menos mais dois ou três cavaleiros, cada qual por um motivo diferente.
Preocupava-se com isso, pois como soldados precisavam ter mente e corpo descansados e sãos para uma possível batalha, ou mesmo para missões ao redor do mundo em que fosse necessária a presença de algum dos santos de Atena. Mas também não podia negar que, por um de seus companheiros em especial, sua preocupação era redobrada.
Parado junto à janela de seu quarto, no 13º templo, soprou levemente a fumaça do chá que tomava, enquanto quem com seus olhos castanhos claros, com uma leve coloração violeta, observava a sétima casa ao longe. Era provável que seu morador estivesse insone também. Ou, dormindo, mas com sua mente tomada por pesadelos e duras lembranças das guerras e mortes que havia enfrentado ao longo de 200 anos...
Se houvesse algo que pudesse fazer para acalmar mente e coração daquele homem, certamente já o teria feito. No entanto, precisava ele também de algum alento. Bem... Já que pelo visto aquela seria mais uma noite perdida, de que adiantava ficar trancado em seu quarto? Colocando um robe de microfibra por cima do pijama que usava, ajeitou os longos cabelos esverdeados em um rabo de cavalo baixo e então foi para a antessala, onde costumava relaxar assistindo a filmes ou com jogos de tabuleiro, ou ainda... Um leve sorriso ao pousar os olhos sobre o piano de cauda que ficava em um canto da sala, não seria uma má ideia tocar um pouco, afinal, já fazia algum tempo que não se dedicava ao instrumento.
Sentou-se de maneira austera na banqueta, tirando a faixa de veludo vermelho que protegia as teclas do piano. Estalando levemente os dedos, começou a dedilhar o instrumento e, instintivamente, fechou os olhos ao tirar as primeiras notas de uma canção que lhe era tão marcante, de instrumental e letra extremamente fortes e que lhe falavam muito ao coração. E também às lembranças...
A guerra santa finalmente havia chegado ao fim, mas o Santuário estava destruído. Assim como seu coração e espírito. Seus companheiros de armas, homens, e também mulheres, valorosos e amigos, haviam caído durante as batalhas. No entanto, não havia tempo para lamentos, era preciso reerguer o Santuário e preparar uma nova geração de santos guerreiros que, no futuro, lutariam novamente ao lado de Atena.
Com certa dificuldade, afinal estava ferido e ainda cansado, o jovem cavaleiro de ouro de Áries adentrou o 13º templo e, para sua grata surpresa, notou que o piano de cauda que ficava na antessala dos aposentos do Grande Mestre estava intacto, apenas coberto por poeira e terra.
Sentou-se à frente dele e quando começou a tocar, percebeu que não estava sozinho no local. O cavaleiro de Libra, o único outro sobrevivente da elite dourada, estava parado junto ao que havia restado do pórtico de entrada do aposento. Com um leve menear, sem deixar de tocar, o ariano o chamou para perto e então o outro se sentou ao seu lado na banqueta, em silêncio. Apenas ouvindo atento à canção que o amigo tocava.
—Eu me lembro bem desta canção... – a voz em tom solene falou e o Grande Mestre abriu os olhos, observando o recém-chegado – Eu estava lá também, Shion...
Sorriu, ao ver que Dohko estava parado junto ao pórtico de entrada dos aposentos. Tinha olheiras e o rosto meio amassado e usava uma de suas túnicas chinesas. Sem deixar de tocar, o chamou para perto com um menear, mas o cavaleiro de Libra não se junto a ele na banqueta, preferindo sentar-se em um confortável sofá há alguns metros de distância.
—Não consegue dormir novamente, meu amigo?
—Foi mais um início de noite conturbado... – O libriano disse, entre suspiros – Mas quando tudo parecia ser igual há tantas outras noites, eu ouvi sua canção ao longe.
—Está dizendo que, com essa chuva e distância, me ouviu tocar? – Shion parou por um momento, virando o corpo na direção do sofá onde Dohko estava sentado, um tanto incrédulo.
—Não me olhe com essa cara, não sei como isso aconteceu, mas eu o ouvi tocando claramente... E não faz ideia de como isso me deixou mais calmo, apesar do instrumental da canção que tocava ser vigoroso.
—Posso tocar uma canção mais tranquila para você, se quiser...
E antes que o libriano respondesse, Shion começou a tocar uma nova canção, mais suave e de letra também mais calma, que ele cantava em tom que mais se assemelhava a um sussurro. Dohko fechou os olhos verdes, deixando-se levar por aquela canção, aquele momento que, quase que instantaneamente, o carregou para algumas de suas lembranças...
Ao final da canção, Shion tinha os olhos vermelhos de lágrimas que ele recusava a derramar. Não podia se deixar levar, ou mesmo se mostrar fraco. Era o Grande Mestre do Santuário agora, e tinha que se portar de maneira austera e forte como tal.
Dohko, ao perceber a postura do amigo, apenas pousou sua mão direita sobre a mão esquerda do ariano, que estava sobre as teclas do piano, entrelaçando seus dedos com firmeza. Ele tentava se conter também, pois assim como Shion, ele também era portador de uma nova missão como cavaleiro de Atena.
Em breve, partiria de maneira definitiva para Rozan, onde passaria os próximos anos vigiando a Torre onde estavam presas as almas dos espectros de Hades. Com um suspiro, ele acabou chamando a atenção de Shion, que lhe encarou por um breve momento. Olhos nos olhos, testas unidas, um leve sorriso nos lábios...
As mãos deixaram as teclas do piano por um breve instante, para se colocarem à nuca, ombros, pescoço... Aproximando os corpos, as bocas que se uniam em um beijo, as línguas em dança e provocações, em carícias que ambos sabiam que, provavelmente...
Não voltariam a se repetir...
Quando se afastaram, estavam ambos corados e deixando as lágrimas correrem por seus rostos. Então, silenciosamente, Dohko se levantou e partiu de volta à Libra. E, enquanto caminhava, pôde ouvir a canção suave que Shion tocava...
Quando terminou, Shion percebeu que Dohko, agora deitado de maneira um tanto torta no sofá, dormia. Levantando-se, ele colocou a faixa de veludo de volta nas teclas do piano e, com um pouco de força e sua telecinese, levou o libriano para seu quarto, deitando-se com ele em sua cama. Envolvendo-o em um abraço, beijou-lhe a testa e apagou as luzes.
Pela primeira vez desde que haviam voltado à vida, ambos teriam uma boa noite de sono...
Notas finais
E, vejam só, desta vez não classifiquei o olhar de nenhum dos dois...
A capa é um fanart cujo link é este abaixo, créditos à autora:
https://www.pixiv.net/en/artworks/76543595
A primeira canção que Shion toca é "Skyfall", da Adele e tema do filme de mesmo nome do 007
https://www.youtube.com/watch?v=DeumyOzKqgI
A segunda é "Só os loucos sabem", do Charlie Brown Jr. mas na versão da Agnes Nunes com a Família Lima
https://www.youtube.com/watch?v=G6J0jSSxI6M
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