Eu escolhi você
1 Cansada
Notas iniciais
LEAH POV
“Parem de falar sobre isso”
“Mas a gente precisa comemorar, Sam”
“Acha que Leah está nos ouvindo?”
“O que eu não posso saber, Embry?”
O silêncio que veio a seguir durou apenas alguns segundos, mas foram os meus últimos momentos de paz.
“Sam vai ser pai”
Sam vai ser pai. Sam, o meu Sam, meu ex Sam. Ele vai ser pai. Minha prima Emily está grávida. E eu achando que nada podia ser pior que viver no mesmo lugar que meu ex e sua esposa que, por sinal, era minha melhor amiga quando nós dois estávamos juntos.
“Embry é um boca aberta”
“Boca de sacola”
“Você bateu a cabeça em alguma árvore, não é possível”
“O que o Embry fez dessa vez?”
“Também cheguei agora, o que aconteceu?”
Ao ouvir a voz de Jacob e Seth, resolvi que estava na hora de me desligar da matilha. Eu sabia o que viria a seguir. Seth ia me procurar com aquela cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança, dizer que sentia muito e fazer uma gracinha ou outra para tentar me animar. Enquanto isso Jacob ia ficar me avaliando como um psicólogo faria pra tentar arrancar de mim qualquer confissão do quão merda eu estou me sentindo.
Estou cansada de reviver essa história todo dia um pouco mais, a cada vez de uma forma diferente. Eu sou a pobre coitada abandonada pelo namorado porque ele achou alguém melhor dentro da mesma família. A prima da ex. Eu sou a amargurada que não consegue aceitar que o imprinting é um sentimento muito forte que não podemos lutar contra.
Eu nunca sou Leah Clearwater, nunca apenas a Leah. Eu sou a ex de Sam, a prima de Emily, a irmã de Seth, a subordinada de Jacob, a filha do falecido Harry Clearwater. Eu sou sempre o que os outros fazem de mim, nunca eu mesma. Estou cansada de tantos títulos que eu não quero usar, tantos nomes e histórias que eu não queria ter.
Antes de voltar pra casa, passei um tempo sentada na praia.
Houve sim um tempo em que eu era feliz. Eu era eu mesma. Não existia lobo, matilha, alfa ou pelo menos na nossa mente tudo não passava de uma lenda aterrorizante. Existia eu, Sam, nosso namoro, nossos amigos e nossos planos para o futuro. Eu estava feliz. Tão feliz. Hoje nem sei mais qual foi a última vez que consegui sorrir.
Enquanto minha mente relembrava o passado, ouvi passos se aproximando. Que ótimo. Sempre infeliz e sempre na frente de uma plateia.
— LEAH! — ouvi Seth gritando ainda distante. Olhei em direção a sua voz e Jacob caminhava junto com ele. Agora está perfeito.
Me levantei voltando para o caminho de casa. Queria fugir de outro sermão, mas logo os garotos me alcançaram e continuamos a andar juntos. E em silêncio. A cada passo eu me sentia mais derrotada sabendo que nos próximos meses os olhares de pena estariam de volta.
Ao chegar em casa, fui surpreendida mais uma vez. Minha mãe estava lá. E acompanhada de Emily. Eu devo ser odiada pelo universo, não existe outra explicação pra minha vida ser essa piada ruim.
— Ainda bem que chegaram! Já ia pedir Sam para procurar vocês! — disse minha mãe enquanto puxava a mim e Seth para um abraço. — Acabei de tirar uma fornada de biscoitos. Podem sentar e comer.
Seth e Jacob ficaram parados olhando para mim enquanto eu encarava a mesa. Estava sem coragem de olhar para minha mãe e deixá-la perceber que de novo eu me sinto quebrada. E eu não queria olhar para Emily. Nem Sam. E muito menos saber sobre a família feliz que eles estavam formando.
— Vão ficar olhando pra minha cara? Podem comer o que tiver, não estou com fome. — avisei Jacob e Seth. Prontamente eles me obedeceram. Pelo menos o respeito por ser a mais velha ainda existia nesse lugar.
— Senta aqui, Leah! Emily tem novidades e estava esperando você chegar! — disse minha mãe enquanto me puxava para sentar na cadeira que estava posicionada bem ao lado de minha prima.
Autocontrole é algo que nunca está em falta aqui. Se fosse qualquer outra pessoa — ou outro lobo — a casa já teria ido abaixo. Me sentei em silêncio e mentalmente fui me preparando para ouvir da boca de Emily que ela seria mamãe. Comecei a ensaiar um sorriso e uma expressão surpresa e feliz para que essa tortura passasse logo, mas o que veio a seguir foi um soco no meu estômago.
Madrinha. Emily tinha acabado de me pedir para ser madrinha do seu bebê? Eu devo ter escutado errado. Muito errado. Não tem como uma pessoa como Emily ser tão burra a ponto de achar que está tudo bem chamar a ex do seu marido para ser madrinha do filho dele. O filho que eu nunca poderia ter.
— Não é incrível, Leah? — perguntou minha mãe animada.
— O quê? — perguntei ainda absorta. Tive que piscar algumas vezes para me situar onde estava e qual era mesmo o assunto do momento. Eu quero muito ter entendido errado.
Olhei ao meu redor e vi Jacob e Seth com a boca cheia, as mãos sujas das gotas de chocolate dos biscoitos da minha mãe estavam paradas no ar. Parecia que eles estavam lendo a minha mente naquele momento, mas se eles estivessem mesmo, teriam impedido Sam, Paul e Embry de entrar na cozinha neste exato momento.
— Ah meninos! Tem mais biscoitos saindo do forno, podem sentar e ficar tranquilos! Ninguém fica sem comer nessa casa! — exclamou minha mãe enquanto ia até o forno e tirava outra remessa de lá.
Sam se aproximou de Emily acariciando seu ombro enquanto me encarava. Nesse momento eu percebi o quanto estava mil vezes mais cansada disso tudo. Mais do que eu achava ser possível. E eu só precisava que de uma vez por todas me deixassem em paz.
A melhor opção era sair correndo daqui e ir parar no Canadá como Jacob já fez um dia. Passar um tempo longe, talvez uns 7 meses já que a barriga de Emily não era visível daqui. Ou quem sabe não voltar mais. O problema é que antes que eu tomasse essa decisão, ouvi mais uma vez um convite absurdo.
— E então, Leah? Você aceita ser madrinha do nosso bebê? — perguntou Emily segurando minha mão. — Eu conversei com Sam e não poderia haver uma madrinha melhor que você.
Ouvi um som alto e descontrolado demais saindo de dentro do meu peito. Era um grito disfarçado de uma risada histérica. E olha que faz tempo que eu não consigo rir assim, mas essa piada merecia um esforço maior da minha parte.
— Leah? — ouvi Jacob me chamando meio incerto enquanto se aproximava de mim. Bastou um olhar pra ele saber que nada ficaria bem, mas que era melhor me deixar ter o meu momento aqui.
— Sam concordou com isso? Até minutos atrás ele nem queria que eu soubesse do seu novo título. — disse de forma amarga olhando para Emily. — Não é mesmo, papai?
— Leah, só responda o que Emily te perguntou. — respondeu Sam entre os dentes.
— Não, Emily. Eu não serei a madrinha do seu precioso bebê. — cuspi enquanto tirava minha mão do aperto dela.
Percebi que minha mãe tentou falar algo. Iria tentar apaziguar a situação como sempre fez, mas o olhar de choque de todos me fez continuar a falar como se o mundo fosse acabar ainda hoje.
— O quê? Vocês estão chocados porque não quero ser madrinha do filho do meu ex noivo? Ou assim como eu estão achando um absurdo minha prima sugerir uma merda dessas? — perguntei furiosa enquanto levantava da mesa e me afastava de Emily. Tudo que eu não precisava no meu currículo era um tópico de agressão a uma mulher grávida.
— Leah… — olhei para minha prima e seu olhar de decepção me fez rir mais uma vez.
— Não, Emily! Alguma vez na vida você tem que parar de pensar apenas em você e na sua história de contos de fadas! — gritei. — Eu sou a melhor opção para ser madrinha do seu filho porque eu sempre fui sua melhor amiga. Sua única amiga, Emily. E olha onde estamos! Você está vivendo a minha vida como se estivesse brincando de boneca!
— Acho melhor irmos embora… — começou Sam.
— Eu também acho! Vocês deveriam voltar pra casa de vocês, a casa que eu concordei que fosse nossa, Sam! A casa que eu ajudei a decorar porque um dia seria da família que eu queria ter!
Nesse ponto eu já chorava tudo que não me permitiram chorar nos últimos anos. Fique feliz por sua prima, Leah! Você não poderia ser feliz sem um imprinting. Foi melhor isso acontecer antes de vocês se casarem. Imagina o desastre? Pois o desastre estava bem aqui na minha frente.
— Eu não sabia que você ainda se sentia assim, Leah. — disse Emily. — Eu sinto…
— Você sente muito? Você sente muito, Emily? Era isso que você queria me dizer? — perguntei exasperada. — Por que você sente muito? Por ter ficado com meu noivo nas minhas costas? Por ele ter sofrido um imprinting por você? Por ter aproveitado tudo que era pra ser meu? O noivo, a casa, a decoração do casamento, até minha mãe? Ou talvez você sinta muito por dar a ele um filho que eu nunca poderei ter.
Meu corpo tremia. Não mais de raiva ou rancor, mas de alívio por finalmente colocar para fora tudo que eu pensava dessa situação de merda. E eu ainda estava longe de acabar.
— Não precisa sentir nada, Emily! Eu preciso que você pare de sentir qualquer coisa por mim, porque aqui dentro — disse enquanto colocava a mão em meu peito — não resta mais nada. Nem por você, nem por Sam. É um vazio completo há anos.
Seth me abraçou de lado da sua forma meio desengonçada. Era a primeira vez que eu me mostrava como realmente era. Quebrada. Cansada. Vazia. Perdida. E o choque no rosto de cada um revelou que eu fui uma ótima atriz nos últimos anos. Ou talvez eles sempre tenham sido péssimos como família. Era a minha hora de reconhecer isso.
— Olhem pra vocês! — gritei apontando para cada um. — Vocês estão surpresos por eu me sentir assim? Como vocês acham que qualquer pessoa ficaria depois de ser trocada como eu fui? Depois de perder o meu pai? Depois de descobrir… de descobrir a natureza estranha que pertencemos? Esses anos todos eu fingi tão bem que não me importava ou vocês nunca quiseram lidar com o que eu sentia?
— Filha…
— Não, mãe! Chega! — dei um basta. — Até levar Emily para Sam você levou! Nunca passou pela sua cabeça a dor que eu sentia por ver meu casamento acontecendo bem ali sendo que não era eu a noiva? Você nunca pensou em como foi cruel me deixar aqui enquanto você construía a sua vida com Charlie depois que perdemos meu pai?
As lágrimas que escorriam dos olhos de Emily e Sue eram um reflexo do tormento que estava em meu rosto. Pela primeira vez na vida vi Sam sem palavras e de cabeça baixa. Paul não tentou soltar nenhuma provocação por menor que fosse, Embry parecia nem existir acuado no canto da sala. Seth ainda me abraçava sem jeito e Jacob tinha a mão sobre o meu ombro como se dissesse que sabia o que eu estava sentindo.
Mas ninguém sabia. Ninguém nunca saberia como era ser eu, porque minha história era complexa demais, uma corrente de desgraças, perdas, desencontros. Nem o cinema conseguiria retratar tamanha má sorte.
— Leah… eu…
— Não quero mais ouvir suas desculpas, Sam. Estou cansada delas. Não há nada que suas palavras possam consertar aqui, nem tente. — respondi entre os dentes.
Me soltei de Seth e me virei para ir até o meu quarto. Quando estava prestes a colocar a mão na maçaneta, ouvi Paul tentando consolar Emily e Sam.
— Vai ficar tudo bem. Nós somos família, sempre fomos.
Ri com escárnio. Eu nunca fui família para eles. E nunca vou querer ser.
— Nós não somos iguais, Paul. — respondi em alto e bom som para que os ouvidos humanos também compreendessem. — Vocês me machucaram repetidas vezes e chamaram isso de vários nomes, amor, cuidado… imprinting. Nunca entenderam o que realmente era: egoísmo.
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