Notas iniciais
Fiquei muuuuito feliz com todos os comentários! Mas quero mais, viu?!

Capítulo 7

– Então, eu fiz uma pergunta... — Peeta insistiu em resposta ao silêncio que se seguiu. — Quem é você?

– Eu posso responder, se você parar de apontar essa espada pra mim. — Katniss disse, com um leve tom de irritação na voz.

Envergonhado, Peeta baixou a espada. Pra ser sincero, ele estava tão atônito com a beleza da garota à sua frente que nem se deu conta do que ainda fazia.

– Peço desculpas. — Peeta disse, coçando a nuca e esboçando um sorriso sem graça. — Achei que era outra pessoa. — Pausou, pensativo. — Você deve ser uma das selecionadas, certo?

Katniss assentiu com a cabeça.

– Sou. Meu nome é Katniss. Katniss Everdeen.

Peeta arregalou os olhos. Então, por um instante quase infinito, ele foi arrebatado até um passado longínquo onde conhecera uma garota que nunca conseguira esquecer. E ao que parece, esta mesma garota se encontrava agora na sua frente, olhando para ele com aqueles mesmos olhos azuis cativantes.

Golpe do destino? Ou será que o seu coração, de tão apaixonado, teve o poder de atraí-la até ele?

– E você, quem é? — Ela perguntou, trazendo Peeta de volta ao presente.

– Você não me conhece? — Peeta questionou. Não que ele achasse que ela o reconheceria como o garoto do pão. Mas tinha quase certeza de que ela o reconheceria como Peeta Mellark, o seu pretendente.

– Não. Deveria te conhecer? — Katniss estranhou.

Peeta parou por um momento e começou a pensar se deveria ou não se revelar. Optou pela segunda opção.

– Não. Claro que não. Eu só disse isso porque tem muita gente que me conhece por aqui...

– Você trabalha aqui?

– De certa forma, sim.

Começou mentindo, agora iria até o fim.

– Que lugar é esse? — Katniss perguntou, olhando, com bastante curiosidade, para tudo ao seu redor.

– As pessoas da Capital chamam esse lugar de Centro de Treinamento. Aqui é onde os tributos treinam suas habilidades.

– E pra quê eles treinam?

– Não sei. Mas acho que o presidente Snow quer prepará-los para uma possível guerra contra os distritos. Sabe, para o caso de haver algum tipo de rebelião. Nós... Quer dizer, eles fariam parte do pelotão de frente.

Katniss fez uma careta.

– Esse Snow é um doente. Até quando ele acha que vai segurar essa paz disfarçada?

Os olhos de Peeta brilharam ao constatar que ambos compartilhavam da mesma opinião.

– Pra te falar a verdade, eu também gostaria muito de saber.

Agora foi a vez de Katniss admirá-lo, só que de forma disfarçada.

– Que tipo de armas, eles têm aqui? — Ela perguntou, pois não podia negar seu encantamento pelo arsenal que existia ali.

Peeta sorriu discretamente ao perceber o interesse dela.

– Todo tipo de arma que você pode imaginar. Vem cá, — Disse e, em um impulso, segurou a mão dela com a intenção de puxá-la. — Eu posso te mostrar cada uma delas e... — Parou de falar, quando ela se soltou dele, abruptamente. Ele voltou o olhar pra ela, que não ousou encará-lo. Ela era tímida, ele pensou. Um tipo de timidez que se escondia por trás de sua carranca. E mesmo que parecesse loucura, ele admirava muito. Por isso, resolveu ser mais discreto em seus arroubos. — Desculpa. Acho que acabei me empolgando.

– Tudo bem. — Ela disse com um fio de voz.

Ele deu um suspiro para quebrar o clima pesado que se seguiu.

– Bem, como você pode ver, aqui a sua direita, ficam os facões e espadas. — Ele começou a falar, caminhando e apontando para cada lugar. E apesar do momento constrangedor, ela se sentiu livre para seguí-lo. Parecia que aquele garoto conseguia lhe transmitir segurança. E, naquele momento, ela não conseguiu entender o por quê de se sentir assim. — Já aqui a sua esquerda, ficam as bolas de aço... — Ele virou o rosto para trás em direção a ela. — Acho que quando você estava escondida me espiando... Deve ter me visto jogando-as, certo?

Ela assentiu. E Peeta pôde presenciar, pela primeira vez, Katniss corando. Ficou ainda mais linda, pensou, encantado.

– E aqui... — Continuou, ele. — É onde ficam os arcos e as flechas.

Peeta ia seguir em frente para mostrar o resto do lugar, mas percebeu que Katniss parou, mirando um dos arcos, que se encontrava pendurado em um dos suportes. Era um arco prateado. Um dos melhores e mais valiosos da sala.

– Sabe atirar? — Peeta perguntou, quando os dedos de Katniss deslizaram delicadamente pelo arco.

Ela voltou a encará-lo.

– Dá pro gasto. — Katniss respondeu com modéstia.

Ele pegou uma das flechas que se encontrava dentro da aljava e ofereceu para ela.

– Me mostra. — Pediu ele, com um meio sorriso de lado. E Katniss se deu conta de que gostaria de vê-lo sorrir assim mais vezes.

Para escapar daquele pensamento, ela pegou, abruptamente, a flecha da mão dele. Mas mesmo o gesto sendo rápido, os dedos deles acabaram por se roçar de leve, o que provocou um agradável choque nas mãos de ambos. E seus olhares se encontraram.

Katniss nunca havia sentido aquilo. Nem mesmo com Gale, que achava — apesar de nunca ter aceitado namorá-lo — ser o garoto certo pra ela. Isso a desconcertava de sobremaneira. E ela não gostou nada disso. Nada mesmo. Precisava afastar-se daquele garoto de olhos e sorriso perfeito o mais rápido possível, pois corria um sério risco de... Não. Não gostava nem de imaginar.

Então, para espantar outra vez aquele tipo de pensamento, ela posicionou a flecha na corda, esticou-a em direção aos lábios, em um ângulo perfeito com o cotovelo. E, fechando um dos olhos, atirou em direção ao alvo que ficava a alguns metros de distância. A flecha voou e para satisfação dela, foi parar bem no meio. Pontaria perfeita. Como sempre.

– Caramba! — Peeta ficou estupefato com a habilidade daquela garota. — Katniss, isso... Isso foi incrível! Ninguém nunca conseguiu acertar o alvo antes. E, na boa, eles treinam bastante.

Katniss abriu um sorriso, orgulhosa de si mesma. Depois explicou:

– Lá no meu distrito, eu uso arco e flecha pra caçar. E o Gale me ensinou a sempre acertar bem no olho das presas. Acho que acabei pegando jeito.

Gale? Quem é Gale? Peeta teve ciúmes dele, sem nem mesmo saber de quem se tratava.

– Gale... Ele é o seu namorado? — Perguntou. Tinha de perguntar. Mesmo que a resposta pudesse quebrar o seu coração.

Ela deu um sorrisinho tímido.

– Não. Ele é só um amigo.

– Que bom. — Ele soltou sem sentir. E se pudesse, teria engolido de volta aquelas palavras, mas saiu sem querer, e já era tarde demais.

Ela corou e o sorrisinho que deu foi ainda mais tímido. Tudo bem. Tudo por um sorrisinho como aquele, pensou ele.

Um clima constrangedor se formou, contudo, foi quebrado pelo som de passos. Peeta foi o primeiro a escutar. E tremeu nas bases ao se dar conta de quem poderia ser.

– Katniss! — Ele quase gritou. — Se esconde. Rápido! — A garota permaneceu parada, sem compreender. — Vai logo, antes que ele chegue! Confia em mim. Se esconde!

Katniss assentiu, ao mirar o rosto de Peeta que expressava terror. Então, sem mais delongas, ela correu o mais rápido que pôde e se escondeu atrás de uma das colunas.

– O que tá acontecendo aqui? — Perguntou uma voz estrondosa, ao abrir a porta, quase derrubando-a.

De onde estava, Katniss conseguiu vê-lo. Tratava-se de um homem grisalho e bastante forte. Ele trajava uma roupa que lembrava a de um pacificador, mas com alguns detalhes diferentes.

– Nada. — Peeta respondeu, enquanto arrumava algumas flechas na aljava, para disfarçar. — Algum problema?

– Eu é que pergunto. — O homem se aproximou, fuzilando-o com o olhar. Mas Peeta permaneceu firme. — Algum problema por aqui?

Peeta deu de ombros.

– Que eu saiba não. Eu só estou aqui terminando de arrumar as armas pra ir embora, como sempre faço.

O homem o encarou, desconfiado. E mais ainda, quando olhou de lado e viu a flecha fixada no alvo.

– Quem era que estava aqui com você? — Questionou, com uma voz de fúria.

Peeta tremeu nas bases. Sabia que ele tinha visto a flecha. E agora, como explicar?

– Ninguém. Eu estava sozinho. Ah, mas o Boggs deu uma passadinha aqui. Inclusive foi ele quem acertou aquela flecha no alvo. — Apontou. — Incrível, não é?

Droga! Tinha de encontrar Boggs o mais rápido possível. Ele tinha de sustentar aquela mentira senão Katniss e ele corriam um sério risco.

O homem cerrou o olhar, fulminando-o.

– Coronel Boggs, pra você! — Retrucou ele. E Peeta sentiu alívio por sua mentira ter dado certo.

– Sim, senhor. Peço desculpas.

– Desculpas aceitas. Mas que isso não volte a repetir. E trate de terminar logo com isso para se recolher ao seu aposento! Já está tarde.

– Sim, senhor. Farei isso imediatamente, como o senhor manda.

Peeta tentou ser o mais obediente possível para que ele não viesse a ter desconfianças.

Antes de sair, o homem ainda deu uma última olhada ao redor do Centro, fazendo Peeta ficar com o coração na boca.

– Vinte minutos. — Ele disse, do nada. — Você tem vinte minutos para se recolher, até que um pacificador venha trancar o portão. Entendeu?

– Sim, senhor. Perfeitamente.

O homem balançou a cabeça pra cima e pra baixo, e sem mais, foi embora.

Peeta deu um suspiro aliviado. E depois de se certificar de que ele havia mesmo ido embora, foi a procura de Katniss.

– Katniss, pode sair. Ele já foi embora.

– Quem é? — Katniss perguntou ao sair de seu esconderijo e se dirigir até onde Peeta estava.

– O nome dele é Thread. Ele é o chefe dos pacificadores. E pelo que você conseguiu perceber, o pior deles.

Katniss arqueou as sobrancelhas.

– Será que ele desconfiou de alguma coisa?

– Acho que não. Mas, por via das dúvidas, é melhor a gente ir embora. Você ouviu... Vinte minutos.

– Ouvi sim. É melhor mesmo. — Katniss concordou e sem mais dizer nada, os dois saíram de lá.

Katniss ainda esperou Peeta fechar o portão, para em seguida, ambos se dirigirem até o elevador.

Quando Peeta apertou o botão para chamá-lo, Katniss fez cara de interrogação.

– Você mora em algum desses apartamentos?

Peeta arregalou o olhar. Tinha esquecido completamente de que ela não sabia quem ele era de verdade.

Coçou a nuca, como sempre fazia quando ficava nervoso com alguma situação.

– Ahm... É que eu pensei em... Te acompanhar até o seu apartamento.

Katniss franziu a testa. Quais seriam as reais intenções desse garoto?

– Não precisa. Eu sei como chegar.

– Mas eu faço questão. — Retrucou e resolveu provocá-la. — O que foi? Não está com medo de mim, está?

– Não! — A resposta veio de imediato. Ponto pra ele. — Claro que não. Eu só acho que... Thread pode voltar e...

– E... Eu sei lidar com ele, Katniss. — Ela quase odiou o nome dela saindo dos lábios dele com tanta intimidade. — Pode ficar tranquila.

O elevado chegou e quando a porta se abriu, Peeta esticou o braço para segurá-lo para que Katniss pudesse entrar primeiro. E foi o que ela fez, com ele entrando em seguida.

Katniss apertou o seu andar e Peeta ainda esticou o braço para apertar o dele, mas se lembrou a tempo, e para disfarçar, passou a mão no cabelo.

– Então, ansiosa pra conhecer o seu pretendente? — Peeta perguntou, puxando assunto, enquanto o elevador subia.

– De jeito nenhum. — Foi a resposta seca dela, que foi como um balde de água fria para ele. — Não estou aqui por ele.

– E está pelo quê?

Ele teve medo que essa perguntasse pudesse estar invadindo a privacidade dela. Mas que se danasse! Ele queria saber o porquê dela não estar ali por ele.

– Estou pelos mantimentos que a minha família receberá. Portanto, preciso me manter o máximo de tempo possível para conseguir o suficiente para que a gente possa fugir pra bem longe desse sistema manipulador. Só isso. E quanto a esse tal de Peeta Mellark... Eu quero mais é que ele vá pro inferno!

Peeta arregalou o olhar. Decepcionado? Magoado? Humilhado? Não sabia dizer.

– E eu posso saber por que você tem tanta raiva assim de mi... Quer dizer, dele?

– Acha pouco o que ele fez? Ele se voluntariou pra essa droga de Jogos Vorazes!

– Mas ele deve ter os seus motivos... — Peeta queria contornar a situação. Katniss não sabia o que realmente havia acontecido. Estava sendo injusta. Muito injusta com ele. — Parece que foi pra salvar um amigo.

Katniss sorriu friamente.

– Motivo nenhum justifica isso.

Peeta baixou a cabeça, derrotado. Mas já ia argumentar se não fosse ter ouvido o bip do elevador, indicando que eles haviam chegado.

Como um cavalheiro, Peeta saiu primeiro e segurou a porta para que Katniss pudesse sair. O olhar dele já não expressava alegria. E ela percebeu. Mas não quis se envolver. Já tinha se envolvido demais para uma noite. E ela estava apavorada com aqueles sentimentos se misturando dentro dela.

Foi aí que ela enfiou o cartão no dispositivo, e dessa vez deu certo, a porta se abriu. E ela já ia entrar sem nem ao menos se despedir, mas se lembrou de algo importante. Então se voltou pra ele, que estava com as mãos enfiadas no bolso, em uma posição que fez ela ficar com as pernas bambas. Droga! Essa sensação outra vez!

– Ahm... Brigada. — Ele franziu a testa, sem entender. — Por ter me protegido lá embaixo do tal de Thread.

Ele deu um meio sorriso de lado. Aquele que que ele deu em uma dado momento e ela se derreteu.

– Não foi nada.

– Fico te devendo essa. Certo? — Ela disse de maneira informal para quebrar o clima, mas foi pior. Bem pior.

– Certo. Então a partir de agora vai ser assim... A gente protege um ao outro.

Aquela frase dita daquele jeito calou forte no coração de Katniss, que acelerou.

– Ok. — Ela concordou, tentando soar o mais natural possível. — Boa noite. — Despediu-se e se virou, mas Peeta a impediu, segurando seu pulso.

– Espera, Katniss. — Ele pediu, e a garota ia recuar. Sim. Ela ia recuar. Ela ia tirar a mão como fez da outra vez, e ia recuar...

Mas não conseguiu.

E ele se aproveitando disso, segurou a mão dela com carinho e se curvando, beijou o dorso de sua mão — tal qual um cavalheiro dessas novelas de época — sem tirar, nem por um segundo, o olhar, que estava cravado no dela.

Ela ficou sem ação. Pela primeira vez em toda a sua vida, Katniss Everdeen ficou completamente sem ação. Odiava aquele garoto! Odiava com todas as suas forças! Ou será que não?

– Por que você fez isso? — Foi só o que ela conseguiu perguntar.

Ele sorriu, sabendo do efeito que causou.

– Não sei. Acho que foi uma maneira que eu encontrei de te dizer que eu gostei muito de te conhecer, Katniss. — Pausou. — Everdeen.

Katniss o encarava, e tentava a todo custo decifrar aquele garoto. E o efeito que ele lhe causava.

– Eu também. Boa noite. — Falou rápido, ao mesmo tempo em que abria e fechava a porta atrás de si. Com força. Com bastante força.

Quando ela trancou a porta, ainda permaneceu um pouco ali, parada, olhando pra porta, como se pudesse enxergá-lo através dela. E se deu o direito de sorrir, já que não tinha ninguém para ver.

Ao mesmo tempo do lado de fora, Peeta, também olhando para porta, sorria de canto a canto da orelha, feliz, muito feliz, como nunca havia ficado em toda sua vida.

Depois disso, ele apertou o botão para chamar o elevador e lá dentro apertou no onze, um andar acima do dela. Sim. Ela estava ali perto dele, finalmente.

A garota de tranças estava ali pertinho dele, como tantas vezes ele havia sonhado.

Só que dessa vez, ele não a deixaria escapar...

Nunca mais!

Notas finais
E aí, gostaram? Spoiler: Próx capítulo, Katniss irá descobrir a verdade. E uma certo alguém vai colocar olho gordo em Katniss. Alguém beeeeem perigoso! Beijinhoooooos