Eu escolhi você!
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Capítulo 3
Naquele mesmo dia, como combinado, Finnick fez questão de levar Peeta a uma das melhores boates da Capital. Sua intenção era mostrar um pouco do que a cidade podia oferecer. Quem sabe não conseguiria convencer o amigo de que passar um tempo ali não era de todo mal.
A boate ficava numa das alas da mansão do presidente Snow. A maior delas. E era frequentada pela população extravagante da alta cúpula da Capital. Bem como pelos filhos e filhas dos prefeitos dos distritos, única excessão concebida pelo presidente.
O local possuía uma área ladrilhada no centro da sala que funcionava como pista de dança. Com um teto que ostentava um grande globo que emitia luzes estroboscópicas de todas as cores. E duas grandes caixas de som, cada qual de um lado da sala, que tocavam músicas com letras que possuíam muitas mensagens subliminares. Claro. Essa era uma das maneiras que o presidente utilizava para controlar seus "escravos capitalistas".
– Cara, tô apaixonado! — Finnick constatou para Peeta.
– Vigésima quinta. — Peeta disse de forma natural, depois de dar um gole em uma bebida brilhante que acabara de pedir no barzinho em que os dois se encontravam.
– Vigésima quinta? — Finnick perguntou com a testa franzida. — Vigésima quinta o quê? Não entendi.
– Vigésima quinta vez que me diz isso. — Respondeu Peeta, arqueando uma das sobrancelhas.
Finnick fez uma careta para o amigo, indignado e só não se chateou com a brincadeira porque sabia que no fundo o amigo estava certo.
– Cara, mas dessa vez é sério. Eu juro! Dá só uma olhada naquela ruivinha dançando no meio da pista. — Finnick apontou discretamente para o local com o queixo.
Peeta virou o rosto e percorreu com o olhar toda a pista de dança até encontrar uma garota ruiva no meio de tantas outras. Uma inclusive dançava com ela e ao perceber que ele olhava, acenou. Peeta desviou o olhar quase que imediatamente.
– É bonita. — Peeta falou.
– Bonita?! — Finnick quase gritou. — Ela é a menina mais linda que já vi na vida! E eu vou lá falar com ela.
– Tá. Vai lá. E que a sorte esteja sempre ao seu favor! — Peeta disse imitando um dos slogans usados pela Capital, arrancando uma risada divertida do amigo.
– Valeu! — Finnick agradeceu e saiu na direção da garota ruiva, enquanto Peeta continuou ali fazendo careta todas as vezes que tomava um gole da bebida.
– Tá sozinho? — Uma garota perguntou para Peeta ao ocupar o lugar que era de Finnick. Era a mesma que acenara para ela há cinco minutos atrás.
– Agora tô. Parece que meu amigo foi ali azarar a sua amiga.
A garota deu uma risadinha discreta.
– Pois é... Parece que sim. — Pausou e estendeu a mão. — Eu me chamo Madge.
– Peeta. — Respondeu ao apertar a mão da garota. — Pelas roupas que usa não me parece que você é da Capital. Acertei?
Madge balançou a cabeça em concordância.
– Sim. acertou. Sou filha do prefeito do distrito 11. E você?
– Doze. — Respondeu e tomou mais um gole da bebida. — Não vai beber nada?
– Com certeza não o que está bebendo. — Sorriu. Então Peeta deu uma risada e corou ao perceber que ela disse isso por tê-lo visto fazendo careta todas as vezes que dava um gole em sua bebida.
– É a primeira vez que bebo isso. E sinceramente ainda não consegui me acostumar com o gosto. Aliás, eu ainda não consegui me acostumar com nada que venha da Capital.
Madge sorriu com cumplicidade.
– Então somos dois. — Cruzou as pernas e Peeta não pôde deixar de perceber que a garota tinha um belo par delas. Ficou envergonhado por não ter conseguido desviar o olhar. A garota sorriu disfarçadamente. — Preparado para os Jogos Vorazes de amanhã?
– Sim. Mas espero que meu distrito não seja sorteado. Odiaria ser obrigado a me casar com alguém que fosse escolhida pela Capital. Não quero ser mais uma peça nos jogos deles!
– Nem eu. Queria ter o direito de me apaixonar... Assim como o seu amigo. — Apontou com o queixo para um casal no meio da pista que se beijavam loucamente. Tratava-se de Finnick e a garota ruiva.
– Que é totalmente louco. Já que ele também corre o risco de ser sorteado amanhã.
– Acho que Annie não sabe disso. — Peeta franziu a testa — É o nome da garota que está beijando o seu amigo. Ela é filha de Seneca Crane, o braço direito do Presidente Snow.
– Braço direito do Presidente Snow... Ótimo. Então agora os dois estão metidos em uma grande encrenca.
Madge sorriu e se aproximou um pouco de Peeta, que se sentiu um pouco incomodado.
– Mas se apaixonar nem sempre representa uma encrenca. Concorda?
– É. Você tem razão.
Com aquela resposta, ela se aproximou ainda mais de Peeta, seus rostos a poucos centímetros de distância.
– E por acaso, você já chegou a se apaixonar alguma vez?
Peeta deu um sorrisinho de lado e seu rosto adquiriu uma expressão sonhadora.
– Acho que sim. — Madge fechou a cara. — Mas... Foi há muito tempo atrás. E... Acho que ela nem se lembra mais que eu existo. — Deu um sorriso triste.
Madge segurou a mão dele que estava apoiada no balcão a fim de consolá-lo.
– Que pena. Porque eu tenho certeza que a garota que ganhar o seu coração será a garota mais sortuda desse mundo. — Disse ela, que sorriu com segundas intenções.
Percebendo isso, Peeta deu um jeito discreto de retirar a mão que ela segurava. E virando o rosto em direção a Finnick, arregalou o olhar pra que ele compreendesse que já estava na hora deles irem embora. Mas Finnick, louco como estava por Annie, fez de conta que nem viu o amigo. Peeta quis matá-lo. Mas sem ter remédio, continuou conversando com Madge. Deixaria a morte lenta e dolorosa de Finnick para depois. Pensou ele, furioso.
Enquanto isso, no Distrito 12...
– Oi, Catnip! — Gale cumprimentou Katniss, que estava sentada em uma rocha, muito concentrada, rolando sua pérola entre os dedos.
Ao ouvir a voz do amigo, Katniss deu um pulo.
– Droga, Gale, quase me matou de susto! — Reclamou Katniss, que imediatamente tratou de guardar seu pequeno tesouro dentro de um dos dos bolsos de sua jaqueta.
Ele riu e mesmo sem ter sido convidado, sentou-se ao seu lado na rocha.
– Te peguei outra vez admirando essa droga de pérola! Sério que você nunca vai me contar quem foi que te deu?
Katniss revirou os olhos e bufou.
– Ninguém me deu. Já te disse um milhão de vezes que consegui ela no Prego. — Mentiu para o amigo. Sabia muito bem que ele não reagiria bem se contasse a verdade. — Mas se você não quer acreditar, o problema é seu!
Levantou, sacudindo a poeira da calça. E sem dizer nada, fez menção de ir embora. Mas antes que pudesse dar um passo, Gale a impediu, segurando seu braço.
– Tá. Desculpa! Mas é que... Tenta me entender, Katniss! Eu odeio saber que você possa chegar a se interessar por alguém. Sabe muito bem dos sentimentos que tenho por você.
Katniss suspirou e se voltou pra ele.
– E você sabe muito bem que eu não posso corresponder. Não agora. Não com os Jogos Vorazes à nossa porta.
A expressão de seu rosto ganhou um ar de tristeza.
– É. Eu sei. Mas e se... A gente se casasse?
Katniss arregalou o olhar para em seguida franzir a testa. Não. Ele não podia estar falando sério? Ou podia?
– O quê?! Tá louco, Gale! Casar?! Assim, do nada.
– Não é do nada... — Ela olhou pra ele com cara de interrogação. — Você sabe muito bem que essa é a única maneira pra você não ter de participar dos Jogos.
– Certo. Mas... Casar é um pouco demais, você não acha? Além disso, a gente nem sabe se é o nosso Distrito que será sorteado... Relaxa, Gale!
– Mas e se for...?! Você vai aceitar se submeter a um casamento por obrigação?
– Não. Claro que não. Mas também não vou querer casar com o meu melhor amigo só pra fugir de uma obrigação. Isso não seria justo nem comigo, nem com você.
A frase "melhor amigo" doeu fundo na alma de Gale. E ele não conseguiu disfarçar sua frustração.
Para consolá-lo, Katniss se aproximou e fez um carinho no rosto dele.
– Você me ama? — Perguntou ele, sem encará-la.
Katniss engoliu a seco antes de responder.
– Não sei, Gale. Eu nunca parei pra pensar nisso. A nossa vida aqui no Distrito é muito complicada pra gente se dar ao luxo de ser romântica.
– E se a gente não morasse aqui? — Insistiu ele.
– Mas a gente mora. — Disse ela, seca, tentando acabar com o assunto.
Gale deu um suspiro profundo.
– Conseguiu alguma coisa hoje?
Katniss sorriu aliviada pela mudança de assunto.
– Uma ave apenas. E você?
– Dois esquilos. Posso dividir um deles com você, se quiser.
– Não. Obrigada. Ainda tenho o resto da ave que abati ontem.
Depois disso, um silêncio ensurdecedor se fez entre os dois. Mas foi quebrado por Katniss.
– Acho melhor a gente ir. Já está ficando tarde. E amanhã é dia de sorteio. Precisamos acordar cedo.
– Claro. Vamos sim. — Concordou Gale, retirando os dois esquilos da armadilha enquanto Katniss escondia seu arco em uma árvore oca.
Então os dois começaram a caminhar rumo as suas respectivas casas. Mas quando Katniss estava prestes a se baixar para atravessar a cerca, Gale a impediu quando começou a falar.
– Katniss, eu só espero que nosso Distrito não seja sorteado amanhã para que você não tenha que participar da seleção.
A garota voltou-se para ele sorrindo e foi pega totalmente de surpresa quando Gale segurou seu rosto entre as mãos e tascou um beijo demorado em seus lábios. Ela arregalou os olhos quando o beijo cessou. E não fazia a menor idéia do que falar. Nem conseguia distinguir o que sentiu naquele momento.
– Desculpa... Eu precisava muito fazer isso. Foi uma maneira maluca de te dizer que a idéia do casamento tá de pé.
Katniss continuou calada, tão atordoada estava com aquele beijo. Então ele acabou indo embora, deixando a garota sozinha com seus pensamentos.
Enquanto isso na Capital...
– Peeta! Peeta! — Finnick chamou o amigo que a essa altura estava no seu décimo sono. — Peeta, você tá acordado? — Cutucou o amigo.
Para azar de Peeta, os dois dormiam no mesmo quarto, uma cama do lado da outra.
– Huuuum. — Gemeu. — Não. Tô dormindo. E é o que você deveria está fazendo também. — Peeta respondeu ainda com os olhos fechados.
– Num tô conseguindo, cara. Não paro de pensar na Annie.
Peeta bufou. Mas sabia que o amigo não descansaria enquanto ele não respondesse. Por isso, se desfez do lençol e mesmo com sono, sentou na cama.
– Finnick, você tem idéia de quem ela é filha? — Bocejou. E só aí percebeu que Finnick ainda vestia a roupa que usara para ir à boate. Concluiu que a noite tinha sido longa com Annie. Ficou preocupado. Altamente preocupado.
– Ela me contou. E eu não estou nem aí pra isso!
– Mas e se você for sorteado amanhã? O que você pretende fazer?
– Eu fujo com ela pra bem longe daqui onde ninguém possa nos encontrar.
– Cara, você sabe muito bem que isso é impossível! Os pacificadores te achariam de um jeito ou de outro.
– Vale a pena correr esse risco. — Ele finaliza e levanta da cama na intenção de se trocar para ir dormir.
Peeta fica sem saber mais o que argumentar. Não podia deixar o amigo cometer uma besteira como essa. Mas como faria para ajudá-lo? Se ele fosse sorteado, o que ele, Peeta, poderia fazer? Não. Isso não aconteceria. Decidiu ser otimista.
Mas e se ele fosse? Essa pergunta martelou sua noite de sono inteira. E quando a resposta veio a sua mente, paralisou.
Será que teria coragem de fazer o que pensou? Será que sua amizade com Finnick era tão forte assim a ponto de... Droga! Não conseguiu nem pronunciar aquela palavra. O melhor que fazia agora é ir dormir. E pedir a Deus que a sorte estivesse a favor do amigo porque se não estivesse... O azar recairia todo sobre ele.
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