Eu era a Alice
1 Único
Notas iniciais
Quando eu era pequena eu costumava brincar de Alice no País das Maravilhas, sozinha. Antes de ir para escola e nos dias que não havia aula, eu ficava sozinha, eu fui uma criança sozinha e cheia de imaginação. No fundo do quintal da casa onde morava minha imaginação ganhava vida, pé, cabeça... Cor, gosto e cheiro. As árvores, as flores e as criaturas me ajudavam. Era incrível, era mágico, era real, pelo menos para mim.
Eu seguia o Coelho Branco até encontrar aquele buraco e entrar naquele mundo... Maravilhoso. Mas... Por que?
Assim como na música eu me encontrava naquele mundo, meu mundo. Em meus sonhos, eu me sentava à mesa junto ao Chapeleiro, à Lebre e tomava chá. Ao som de uma música antiga, das boas, na vitrola e enquanto o relógio fazia tic-tac, conversávamos sobre o tempo, o quão precioso ele é para as pessoas como nós, malucas. Falávamos sobre o destino, qual seria o nosso? Essa era a grande indagação! Qual o problema conosco? E a sociedade? Por que tão apressada, estressada e sem... Imaginação? Por que não se juntam à nós e tomam um maravilhoso chá? Era bom aquele tempo com eles, isso me lembra que a qualquer dia os farei uma visitinha, sinto falta dos velhos tempos, quando tinha tempo para visitá-los, vê-los e matar a saudade. Noto também que me tornei mais um daqueles que eu, nós, costumávamos reclamar... Eu cresci.
Encontrava o Gato de Cheshire, dávamos um sorriso e juntos desaparecíamos. Viajávamos, cantávamos sua canção. Meu desejo era desaparecer para sempre, sumir... Simplesmente.
Ali, com eles, com minha loucura e em meu mundo, minha fantasia, eu era alguém, eu era livre para ser quem quiser, para ser feliz. A inocência me embalava e me fazia sonhar. Isso era real? Isso era meu? Pois, sim. Eu era o que eu queria, a heroína, a maluca — junto ao meu amado Chapeleiro. Eu era capaz de desafiar a Rainha de Copas se necessário fosse. Eu ficaria lá para sempre, sendo quem realmente sou, quem realmente quero ser. Lá encontrei a felicidade e a liberdade que tanto sonhei. Eu deixaria o mundo considerado "normal", abandonaria tudo e todos por eles... Pela imaginação, pela fantasia de viver em um lugar só meu.
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