Notas iniciais
Espero que gostem :)

Eu estava sentada na minha cama. Eu apertei os lençóis com força, enquanto sentia raiva e frustração tomarem conta de mim. Eu olhei pela última vez para o vazio do meu quarto, apesar de ele estar mobilado. Olho para as paredes, pintadas de várias cores. Estava muito escuro, havia apenas uma fraca luz que descendia de um abajur velho com uma lâmpada que zumbia de forma irritante. Mas mesmo se o Sol estivesse num pote no meu quarto, o meu mundo ainda estaria a preto-e-branco.

Este mês, fazem 4 anos que convivo com a Ana.

A Ana é a minha melhor amiga. Ela vive no outro lado do espelho e comunica-se comigo pelos números da balança. Á noite, quando todo o mundo dorme, e só se ouve ás vezes o som das corujas.

Á noite quando eu me olho no espelho, e vejo toda aquela gordura, que toda a gente diz não existir.

Eu tinha apenas 10 anos quando conheci a Ana. Eu sempre fui a menina ‘’ maior ‘’, ou seja, a mais gorda e consequentemente, o alvo de humilhações. A minha mãe sempre me dizia que eu tinha que perder peso, tinha que começar a viver de forma mais saudável e tudo mais. Um dia eu decidi: Tudo bem: eu vou fazer isso.

Eu comecei a me exercitar e a comer menos. Eu estava a fazer uma dieta saudável e em quatro semanas eu comecei a ver progressos... Mas não era suficiente... Eu ainda era bulliada, e humilhada.

Então, eu estava me exercitando muito e comendo muito pouco. As minhas refeições resumiam-se a 2 maçãs, algo assim. A minha mãe, uma mãe ocupada, o dia todo fora de casa e um pai que fingia não notar nada. Era assim a minha vida.

Eu cheguei em uma altura em que eu acordava com pavor de comida. Eu não queria ganhar mais calorias, a minha vida resumia-se a checagem de IMC, peso, quilos, gramas, tudo. Eu já não comia nada, todas as minhas refeições resumiam-se a um copo de água ou dois. Eu não podia dar o meu melhor na escola, eu estava sempre esfomeada. Eu estava tão, mas tão magra, depois de 3, 4 meses nisto.

E é assim que eu estou, hoje.

Eu já fui hospitalizada vezes sem conta. Inclusive, saí ontem do hospital, depois de uma internação de 3 semanas. Eu voltei a comer e tudo mais, mas eu sei que vai voltar, a Ana nunca me abandona.

Hoje, eu sinto-me especialmente fraca e fria. Estava bastante zonza e mal conseguia andar. Eu não disse nada para não preocupar os meus pais, mas eu estava mal, e eu sabia que provavelmente eu iria de novo para o hospital. Eu dei aquela checada básica nas minhas pernas, que eram só ossos cobertos de pele, e alguma carne. Eu ainda apertei e senti essa carne, então eu pensei: Preciso de a perder. Eu levantei-me e fui para a frente do espelho, que estava tapado por uma toalha. eu destapei, e eu comecei a apertar a barriga, para saber aonde eu precisava de perder peso. Eu estava tão gorda, a Ana dizia. Eu era uma vaca gorda, feia e lerda, a Ana dizia.

Até que algo aconteceu: Eu caí para o chão e bati a cabeça. Eu estava me sentindo muito zonza, muito mal. Eu tentei gritar, mas nenhum som saiu. Eu comecei a ver tudo a ficar negro. A minha mãe apareceu no quarto, talvez por conta do barulho que eu fiz, e ela começou a chorar de uma maneira desesperadora. Eu estava a fechar os olhos, quase completamente cega, e a perder todos os meus sentidos. Eu já nem mesmo sentia o chão... Eu conseguia ouvir ao longe, os gritos da minha mãe desesperada, o choro da minha irmã, o meu pai a chamar por mim, a implorar que eu ficasse.

Mas eu não fiquei.

Porque a Ana, também conhecida por ANorexiA Nervosa, ficou por demasiado tempo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!