Eu Voltarei

1 Melanie, eu voltarei.


Melanie me acordara aflita, a angústia em seus olhos assustados me fazia hesitar em perguntar o que estava havendo. Ela levantou um pedaço de papel na altura de meu campo de visão, pude ver claramente o símbolo do exército. O nervosismo retorceu meu estômago que parecia dar nós que subiam até minha garganta me impedindo de falar, peguei com mãos trêmulas o papel das mãos dela que se sentava na cama lentamente ao meu lado.

“Senhor Matthew Ecox, o exército americano precisa de você, para defender nossa pátria, nosso glorioso país. Pensando no bem de sua família o chamamos para honrá-lo e torná-lo protetor de seus familiares, lutando gloriosamente para defender sua pátria.
Seus companheiros soldados estarão aguardando-lhe no décimo batalhão para partirem para o Iraque.”

Nunca me esqueceria daquelas palavras assustadoras, o exército precisava de mim, precisava da minha habilidade nula de combate para proteger minha pátria, meu país, minha família recém formada, Melanie era tudo o que eu tinha. Abracei minha amada fortemente, entre meus braços ela chorava como nunca havia visto antes, os cabelos loiros grudados em suas bochechas molhadas devido às lágrimas, ela soluçava de desespero, entre suas mágoas eu me deixei levar pela emoção tensa do momento, tinha medo de perdê-la, de nunca mais vê-la sorrindo para mim outra vez.

— Eu voltarei Mel – Minha voz falhou devido a um suspiro longo com propósito de impedir as lágrimas de rolarem sobre meu rosto. – Eu voltarei...

Ela então concordou com a cabeça, mas assim como eu, ela não tinha certeza de que eu estaria ali ao seu lado daqui seis meses. Eu repeti essas mesmas palavras durante os dias que correram até o dia marcado, o dia que eu partiria em um avião de carga do exército até a base americana camuflada no Iraque. “Eu voltarei”.

— Matt, eu te amo. – Ela me disse enquanto colocava uma corrente dourada em meu pescoço, possuía uma foto do dia de nosso casamento. A puxei anulando qualquer distância que poderia ter entre nossos corpos trêmulos e a beijei como se fosse o nosso último beijo.

Sem olhar para traz meus olhos brilhavam devido à camada de lágrimas que os envolviam, eu estava indo em rumo ao desconhecido proteger a minha pátria sagrada, porém toda aquela batalha só fazia sentido se eu estivesse lutando para proteger a pátria dela.

Depois de algumas horas cansativas e desconfortáveis ouvindo todos os terrorismos psicológicos que os tenentes e capitães colocavam sobre os desorientados e aterrorizados soldados que estavam partindo para a guerra, todos estavam na direção da morte por um único motivo: a segurança da família. Todos ali desejavam mais que tudo exterminar os bandidos daquele horrível filme realista e voltar para a casa onde seus familiares os esperavam de braços abertos e sorrisos largos nos rostos alegres.

Nosso avião fez um pouso surpreendentemente silencioso para não chamar atenção do inimigo que espreitava por todo o local. Logo fomos mandados para uma imensidão densa e verde, as florestas de lá eram bem diferentes das daqui. Usávamos modos desonestos para vencer as batalhas contra os soldados inimigos, porém estava funcionando, estávamos todos sobrevivendo. Eu recebia uma carta por semana, todas escritas por Melanie, eu respondia todas, a saudade era inigualável, talvez mais forte e dolorida que um tiro no peito, era algo que não curaria até eu tê-la nos braços novamente.

Robert, meu companheiro de missões adentrou meu quarto improvisado como se fosse explodir se não dissesse o que queria logo.

— Matthew! Matthew! O Comandante do nosso batalhão morreu, estão dizendo que você deverá ser o próximo.

— O que? Como?! – Era uma responsabilidade para qual eu não estava preparado, se ele havia morrido esse também seria o meu destino, sem escapatória, sem volta. Fechei os olhos por um segundo prolongado e avistei Melanie no fundo de minha mente, ela sorria para mim. Suspirei. – Tudo bem, serei o que desejam.

Eu era o Comandante agora, o líder das missões de nosso batalhão, cada homem ali era incrivelmente importante para mim, quando um falecia era como se um irmão estivesse partindo para sempre.

— Robert, siga com John para o norte, eu ficarei aqui para verificar se não há mais ninguém, alcançarei vocês no caminho. – Ordenei.

Robert corria para o norte para alcançar o outro que já estava a sua frente, logo comecei a procurar por algum soldado ferido, ou até mesmo um inimigo ainda vivo. Logo a minha frente estava um de meus soldados, William se não me falha a memória. Ele tentava falar alguma coisa, algo difícil de decifrar, seu rosto sujo de terra e sangue quase se camuflava com a paisagem inteiramente verde e marrom que girava sem falhas ao nosso redor. Aproximei-me de seu corpo baleado estirado ao chão coberto de folhas manchadas com seu próprio sangue. Quanto mais eu me aproximava, mais ele se desesperava, devia estar sofrendo, logo corri em sua direção sendo surpreendido. A vida passou por meus olhos repentinamente cegos pela explosão causada pela pressão de meu pé descuidado sobre uma mina explosiva escondida debaixo de uma das folhas traiçoeiras da floresta local que parecia rir dos estrangeiros americanos. O barulho foi ensurdecedor, rápido, mal pude sentir a vida parar de correr em minhas veias que se desmanchavam em pedaços junto com meus membros que espalharam-se pelo local. Melanie parecia sorrir para mim, como se estivesse ali comigo, pude sentir aquele último beijo pela última vez, logo eu estaria em casa de novo.

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