Eu, Você E Nossa Vida A Dois
17 Presente de Deus
Passar uma semana longe da minha esposa que está prestes a completar nove meses de gestação foi a pior coisa que fiz nos últimos tempos. Só o fiz por falta de opção, já que Robert havia adoecido e Rebekah estava em lua de mel.
“Ethan, meu amor, eu já disse um trilhão de vezes que estou bem.” Mia diz já se chateando com minha insistência.
“Eu só estou confirmando.” Digo.
“Não há nada que você não saiba, afinal, me ligou umas vinte vezes por dia.” Ela lembra.
Eu realmente o fiz, mas era a única forma de me manter presente.
"Não me culpe por sentir saudades."
"Não o culpo, só quero que você relaxe, deve estar exausto." Ela devia se preocupar mais com ela do que comigo, mas fico feliz quando pensa em mim também.
Me jogo na cama já exausto pela viagem, pelo horário, não sei bem, só sei que desejo dormir por doze horas seguidas se puder.
"Banho!" Mia me ordena.
Olho para ela simulando uma cara de aborrecimento.
"Você não vai se jogar na cama e dormir sem antes de um banho." Diz.
"Eu não vou dormir agora. Só quero ficar um pouco com você. Deite-se aqui." Chamo.
Ela caminha vagarosamente até a cama, mas com a mesma graça adolescente do dia em que a conheci.
"Ai!" Mia reclama enquanto está se sentando.
"O que foi?!" Me levanto assustado.
Mia começa a rir, mas não debochada e sim amavelmente.
"Foi só um mal jeito, uma dorzinha que veio e já foi. Você precisa parar de ser tão desesperado." Ela fala, enfim se deitando na cama.
Solto a respiração aliviado.
"Vou pegar alguma coisa para comer, ja volto."
"Isso é mal." Ela reclama. "Me faz deitar para se levantar em seguida."
"Dois minutos." Peço.
Não quero fazer nada demorado, estou sem paciência para cozinha hoje. Estouro um saco de pipocas, e despejo calda de chocolate por cima. Deve resolver minha fome.
Mia está de olhos fechados quando entro no quarto.
“Com sono?” Pergunto.
“Não.” Ela diz com um sorriso meio forçado. Está estranha.
Subo na cama e sento-me ao lado de onde ela está deitada.
Ela continua quieta.
Quando me movo um pouco na cama percebo que tem algo diferente, os lençóis estão todos molhados.
“Mia, você tem certeza que não está sentindo nada?” Pergunto.
Ela solta a respiração, acho que estava segurando todo o tempo.
“Um incomodo na coluna e uma pontada na barriga, mas veio e já foi, não precisa se preocupar.” Mia fala.
Coloco o pote de pipoca em cima da cômoda e me viro para ela.
“Não sentiu mais nada de estranho?”
“Não Ethan, eu já disse que não. Qual o problema?” Mia começa a se irritar.
“É que a menos que você tenha feito xixi na cama, a sua bolsa estourou.” Anúncio.
Os olhos dela ficam maiores do que já são normalmente. Ela passa a mão pelo colchão para finalmente compreender sobre o que estou falando.
“Eu ainda não tenho contrações.” Ela fala confusa.
O que significa que ainda vai demorar um pouco até o parto, mas precisamos ir ao hospital agora. Aviso a Dra. Greene, ligo para Grace, pego a bolsa de Mia e do bebê que está pronta há algumas semanas e vou com ela para a maternidade.
“Estamos com seis centímetros.” A doutora Greene informa.
Mia está no quarto a quatro horas. Ela não tinha dilatação e como estava demorando a doutora optou por começar a introduzir alguns hormônios que ajudam a induzir o parto.
“Pare de andar pelo quarto, está me deixando nervosa!” Mia reclama.
“Nem no parto as coisas são simples com você” Comento brincando.
“Ele é filho de pais complicados.” Ela complementa.
Ela nem parece uma mulher entrando em trabalho de parto. Volta e meia sente algumas contrações e faz força para ajudar a dilatar, mas fora isso continua calma e segura. Seus cabelos negros compridos estão presos em um coque e seu rosto tem uma leveza encantadora.
Me aproximo da cama.
“Só mais quatro centímetros.” Digo a ela.
“Poderia ser logo, eu odeio ter que ficar parada no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa, Joseph já deve estar entediado.” Mia fala.
Dou um sorriso a ela. Sempre Mia.
“Vamos aplicar a anestesia em alguns minutos e depois disso vamos precisar de muita força da sua parte.” Dra Greene diz enquanto deixa o quarto.
Mia profere algum palavrão quando ela sai, mas por causa da dor que a essa altura, segundo ela, está terrível.
“Até ela aplicar a anestesia aperta minha mão quando sentir dor.” Peço a ela.
Não preciso falar duas vezes, na próxima contração ela já está apertando minha mão com toda força possível. Aquilo dói, mas estamos nessa juntos. Além do mais, com certeza essa dor não é um por cento daquela que Mia está sentindo.
“É isso que vão aplicar em mim?” Mia pergunta quando o anestesista chega.
Viro-me para encará-lo e me assusto com a seringa em sua mão, deve ter uns dez centímetros. Olho para Mia e o olhar dela não é nada bom.
“Isso vai doer.” Ela diz manhosa.
“Isso vai aliviar a dor.” Corrijo.
“Eth...” Mia resmunga.
“Manha não combina com parto.” Falo sério para ela.
Ela faz seu tradicional beicinho e eu me afasto para deixar o anestesista fazer seu trabalho. Todos os resmungos de Mia somem na hora. Ela é mimada, mas sabe quando precisa ser firme.
A enfermeira me chama para me preparar para entrar na sala de parto enquanto os médicos levam Mia para lá.
Me posiciono ao lado dela, deixando minhas mãos sempre junto a dela.
“Quando eu contar três, você faz o máximo de força.” Dra. Greene pede a Mia.
Ela repete a contagem por quatro vezes, na ultima Mia faz tanta força que seu rosto se contorce em dor, mas é o suficiente para podermos escutar o chorinho do bebê que está nas mãos da doutora.
Joseph é tão pequeno, está se mexendo bastante, e o que é mais notável é sua quantidade de cabelos negros. Como os de Mia.
Dra. Greene se aproxima e o coloca nos braços de sua mãe que tem lágrimas escorrendo pelo rosto, assim como eu.
“Diga olá a mamãe.” A doutora diz.
“Oi Joseph, sou sua mãe e te amo muito.” Mia diz baixinho a ele. “E esse moço do nosso lado é seu pai, e ele ama muito a gente.”
Eu sou pai. Ouvir assim da boca de Mia parece algo surreal.
Quero falar algo, mas minha voz não sai, estou emocionado demais para conseguir dizer.
Me aproximo de Mia e lhe dou um beijo na testa. Quanto a Joseph ele é tão frágil que tenho medo de machucá-lo, terei que me acostumar. Só consigo mexer em suas pequenas mãozinhas e lhe dizer um breve “Oi.”
Depois precisam levá-lo para os procedimentos necessários, eu mal o conheço, mas vê-lo sair do quarto com a doutora e se afastar de nós já é doloroso.
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