Eu, Virtuoso
2 Segundo disparo - Canto e Danco
Notas iniciais
Olá, vejo que você está radiante hoje. O que achou do meu espetáculo? Incrível, não é? Eu mesmo não esperava por tamanha beleza. Hum? Por que matei inocentes? Ei, dei para eles um valor para suas existências. Você fala como se eu tivesse tirado suas vidas por simplesmente... tirar! Não... Isso é coisa de noxiano, eu apenas deixei suas vidas mais belas.
Olha, você é apenas um assistente de palco, ainda tem muito que aprender sobre a derradeira arte. É por isso que estou aqui, certo? Como um professor. Agora sem mais delongas, vamos preparar o próximo espetáculo. E particularmente não me lembro de estar aqui antes, será uma novidade para mim também. Isso não é ótimo? Esse povo terá a oportunidade de presenciar uma peça minha! Não iremos decepciona-los.
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Demacia, nação exemplar da humanidade. Possuidora da ideologia de justiça absoluta, por sinal uma enorme hipocrisia do estado perfeito, criado pela família Lightshield. Por que hipocrisia? É óbvio! Eles vivem uma ditadura consentida pela população demaciana. As ordens do rei são absolutas e qualquer crime é compassível de punição, independente do motivo. Todos, sendo nativo ou não, devem seguir a justiça absoluta.
Mal cheguei e não estou gostando daqui, espero que haja algum... Entretenimento interessante. O porto onde meu barco atracou é próximo a capital demaciana, o que significa que estou no coração da nação.
Outra coisa que não gosto nessa cidade, multidão. Eu gosto de me apresentar, mas odeio multidão, acho que já disse isso antes. Aonde quer que eu olhe só tem pessoas, chegam a doer os olhos. Soldados, mercadores, viajantes... Tudo misturado. Contudo há uma coisa que não nego, a diversidade de escolhas que tenho para minha apresentação.
Todos os tipos de atores disponíveis para qualquer ópera que eu imaginar, é magnífico! Será que alguém iria se voluntariar? Ah, acho que não. São poucos os que entendem a beleza de uma boa arte.
O problema são essas leis demacianas. Nenhum cidadão é corrupto, em verdade eles abominam qualquer ação de aproveitamento próprio. Todas as atividades são, principalmente, para o bem de todos. Convencer alguém será difícil, e achar um bom lugar também será complicado. Acredita que eles, realmente, denunciam qualquer pessoa que esteja fazendo uma infração da lei? Inacreditável, não é? Eu sei.
Ah... Minhas pernas estão me matando, preciso descansar. Vou procurar um lugar para hospedar, se não me engano o governo de Ionia havia me indicado um local, para assim ter mais facilidade de contato comigo, mas sabe... não quero incomodar eles. Vou procurar outra hospedagem, vamos brincar de procurar o tesouro. Eu sei é infantil, mas um artista também deve brincar, de vez em quando. Não fique tão sério.
“La Demacia Santa”; é o nome do lugar. Olha nada mal, se quiser construir um local para orações, agora para hospedagem, é forçar demais. Esse patriotismo pela nação é... Muito idiota. Mas isso não importa, se apenas tiver um quarto estar de bom tamanho.
Externamente é feita de pedras brancas e mármore, numa forma retangular na vertical. Espere, se eu parar para olhar ao redor, toda a cidade é feita de pedras brancas e mármore. E tudo tão limpo, talvez eu possa ver meu reflexo numa colher. Será que eles nascem perfeccionistas ou desenvolvem TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo)?
Por dentro da hospedagem tudo de madeira, das paredes, teto e chão. O balcão tão limpo que vi o interior dos meus olhos. Tudo perfeito demais! Deixa-me tocar essa campainha. Hummm... Ninguém ainda. Minhas pernas estão me matando. Mais uma vez... Finalmente.
Quem me atendeu foi um jovem garoto, talvez tivesse 19 anos. Pele clara, cabelos castanhos, olhos da mesma cor. Não muito alto, provavelmente, 1,73 de altura. Não sei se daria para uma boa pintura. Talvez precise de um pouco mais de... thum.
— Me desculpe a demora — ele disse. — Estava estudando.
— Pelo jeito estava bem concentrado, garoto. Sobre o que estudava?
— Estratégias de guerra — respondeu, com olhos cansados. — Logo irei fazer 18 anos e precisarei me alistar para o exército demaciano, e não só de músculos vence uma guerra.
— Hummm — eu o analisei —, está ansioso para viver a guerra, garoto?
— Não sei, mas tenho que ir. Devo honrar minha nação.
— E o que pretende fazer depois de honrar sua nação?
— Quero ser um herói — seus olhos brilharam subitamente. — E, talvez, entrar pra liga dos campeões! Igual o Garen! Ele é demais... DEMACIAaa!
— Entendo — não nego que esse garoto era divertido. Mas dar para ver em seus olhos, ele não estar preparado. Suas mãos não estavam prontas para serem sujas de sangue. — Bem, desejo-lhe boa sorte. Agora me der um quarto, preciso descansar.
— Claro — ele disse, pegando uma chave. — Aqui, e seja bem-vindo.
Acenei com a cabeça e peguei a chave, tenho que recuperar minhas forças logo. Se for para fazer uma apresentação nessa nação perfeccionista, devo então ser perfeito também. Caso contrário eu estaria sendo mal educado com essa recepção alva e pura.
Só preciso esperar agora, até receber meus próximos alvos.
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Sou acordado com uma batida na porta. Droga, não se pode mais descansar em paz, isso é terrível. Quem pode ser nessa hora? A luz da lua brilhava alto no céu. Deve ser madrugada ainda. Com um pouco de dificuldade me levanto, num bocejo profundo ando até a porta. Destranco e abro. Ninguém, apenas uma carta no chão. Isso só pode dizer uma coisa... Trabalho para fazer.
Bem, é isso. Vamos ver quem é:
“A principal ameaça a Ionia não existe mais, mas nossa nação ainda está em risco. Em Demacia há dois alvos que precisam ser detidos. Por enquanto vamos nos concentrar apenas em um, depois revelamos o outro. Anos atrás uma garota nasceu em Ionia, mas seus pais lhe abandonaram e ela foi deixada num orfanato. Após anos de espera, teve uma família que lhe adotou, e lhe levaram para uma das famílias nobres de Demacia. Como ela já foi uma ioniana, ela ainda deve haver ligação com nossa nação e enviar informações para os demacianos. Mesmo que Demacia seja aliada, não podemos correr tal risco. O nome do seu alvo é Sona Buvelle, após cumprir esse serviço iremos lhe informar sobre o próximo alvo”.
Muito bem então, devo eliminar uma espiã de Demacia. Não me importo quem seja, apenas quero me apresentar. Droga! Agora estou sem sono. Talvez eu deva começar meu trabalho mais cedo. Qual peça proporcionarei dessa vez? Irei pensar em alguma coisa.
Passo meu olhar sobre minha maleta, onde guarda meus bens preciosos. Mal posso esperar para usá-las, já posso até sentir a tentação. É como um chamado divino ao paraíso, só junto delas, minha arma e máscara, que me sinto bem. Só em cada disparo que me sinto... vivo.
Meu coração está acelerado, sinto que cada parte de mim pede por uma nova emoção, o pincel clama pelo seu artista... E o artista anseia por uma obra de arte. Não... Não posso resistir aos meus instintos artísticos. Abro minha maleta... Lá estar. A máscara de couro apertada, suprimindo minha respiração de uma forma... maravilhosa. Na mão direita, minha arma sussurro, com um encaixe perfeito em minha mão. Não importava quantas vezes eu já a tenha empunhado, continuo tendo a mesma excitação. Sempre que empunho sussurro posso ouvir a voz dos meus atores recitando suas falas improvisadas de piedade e misericórdia... Sinceramente, fenomenal.
Dou uma última olhada no espelho, agora estou completo. Não sei se o público estar pronto, mas as vezes a beleza estar no improviso... no inesperado. Imagine só, a expressão deles quando eu aparecer. Certamente será inesquecível.
Vamos, não temos a noite toda.
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Olha, não estou muito feliz. Fui perturbado do meu sono e agora terei que buscar informações sobre Sona Buvelle. Quem é? Quais seus hobbys? Que tipo de beleza ela esconde? São muitos questionamentos. Minha obra faz perguntas, ela nunca obtém respostas. Bem, qual o melhor local para buscar informação? Não conheço sobre essa cidade.
Será que esse povo “santo” bebe? Deve haver algum bar por aqui. Mesmo estando tarde da noite, não é possível que não haja uma taberna aberta nessa hora. E as ruas também estão desertas, apenas soldados de patrulha. Se eles me vissem, como eu iria me explicar? Ora, um ídolo não precisa se explicar. Sou apenas um civil procurando por algo belo, isso não é crime, certo?
Espere, estou ouvindo algo... Parece ser música, e não está muito longe. Que tipo de música é essa? Nunca ouvi algo assim. Posso sentir a essência do compositor, cada pedaço de sua alma em melodias harmoniosas. É o fundo musical que faltava para minha ópera de morte. Quem é? Quem é capaz de compor tal sinfonia? Eu preciso encontrar tal artista, farei com que transcenda para o belo!
Havia um estabelecimento onde as luzes iluminavam a rua, cores azuis vibrantes e logo mudavam para o verde, roxo e por fim amarelo, depois o processo de cores reiniciava. Cores hipnotizantes, que diferenciavam junto com a melodia tocada.
A entrada de pedras brancas e mármore, seguia o mesmo padrão da cidade. Não havia ninguém protegendo a porta, é como se dissesse que qualquer um podia entrar. Seria isso confiança no código moral dos demacianos ou apenas idiotice mesmo? De qualquer jeito, se estão nos convidando não iremos negar o convite, certo? Vamos entrar.
A taberna estava lotada, como sempre estão. Mesas redondas de madeira com aglomerações de cadeiras ocupadas por beberrões nativos e turistas de outras nações. O balcão ficava no canto da parede, onde podia ter visão de todos os clientes. As garçonetes estavam as pressas carregando suas bandejas com canecas cheias de cerveja. Elas não paravam por um segundo, mas elas aparentavam não se importarem, estavam sorridentes assim como todos.
Virei minha atenção para onde todos mantinham seus olhares, o palco da taberna. Havia uma garota tomava toda a atenção para si. As luzes hipnotizantes estavam sobre ela, cada cor era como uma aura em seu corpo. Os cabelos de mechas turquesa dissolvendo em fios dourados nas pontas de suas Marias Chiquinha; eles caiam sobre seus ombros juntando-se ao longo vestido, tomara que caia azul marinho, com um robe azul claro e dourado nas margens, ressaltando sua pele clara. Os olhos azuis como o oceano profundo, habitando feras misteriosas onde poucos arriscavam mergulhar. Os lábios vermelhos carnudos eram uma tentação para tocá-los. Sua expressão serena misteriosa como um presente, onde não se sabe o que tem dentro. O corpo magro, leve, com seios fartos e visíveis num decote tentador. Os dedos delicados desciam até o instrumento de cordas em suas mãos.
Um artefato que nunca havia visto antes. Era como uma retangular caixa de madeira onde se constituía três cordas, curvadas, brilhosas, o que proporcionava os sons harmônicos. Nas extremidades havia enfeites de asas pequenas e únicas, formando um par se juntando. Mais impressionante, não havia apoio para o instrumento, ela nem o segura e nem havia um suporte para tal serviço, estava... flutuando! Sem dúvidas era um instrumento mágico nas mãos de uma deusa grega.
Me aproximei do balcão, perguntei sobre o nome da mulher no palco. O atendente me olhou suspeito, mas com um sorriso no rosto, ele me respondeu:
— Seu nome é Sona, você só precisa saber disso.
Fiquei paralisado por alguns segundos, ora pela música ora por descobrir que meu alvo era alguém com tamanha beleza artística. Meu coração acelerou como há muito tempo não fazia. Diferente do encontro com Zed, onde eu era movido pela vingança, aqui meu nervosismo é algo anormal. Eu queria ficar ali, parado, apenas ouvindo-a. E então percebi que não havia voz, apenas o som do instrumento. Se ela cantasse seria mais bela ainda. Perguntei por que ela não cantava, e o atendente me respondeu que ela era muda.
Senti um peso no coração, não sei dizer se era tristeza, apenas que pesou como se alguém o apertasse. O único meio que ela tinha de transmitir sua existência era pela música, era tão poético. De repente, a dor no meu peito se esvaia. Me assustei por estar me sentindo tão bem. Novamente, olhei par Sona e ela me retribuía o olhar. A melodia calma e aconchegante, tirando o aperto que eu sentia. Era como um casal que se abraça para retirar suas dores. E eu sabia que ela era quem estava abraçando meu coração.
Hipnotizado pela sua existência, arrisquei me aproximar mais. Ela sorriu de leve, e num gesto rápido com a mão, mudou a melodia para algo eletrizante, dando energia e coragem para mim. Diferentes de outros momentos em que eu me irritava com a multidão ao redor, agora eu não sentia mais esse desconforto. Ali, naquele momento, era apenas eu e ela.
Sona mexeu uma de suas cordas em direção a um homem sentado na primeira fileira. Ele se levantou alegre e saiu do lugar, deixando o local vago para mim. Ali eu fiquei, sentado, apenas apreciando sua beleza e melodia. Ela mudou a melodia para algo suave, deixando minha mente calma.
Por alguns segundos esqueci onde eu estava e me via num campo flórido de lótus crescentes. Era um cenário tão belo que quase me esqueci do motivo de eu estar ali. Neste momento, a melodia ganhou um tom dramático. Supus que ela podia ler minha mente, e com essa nova sinfonia pude confirmar essa hipótese. Não sei se fico feliz com alguém dentro de mim, desse jeito.
Num movimento repentino me levantei, ficando frente-a-frente com ela. Os que estavam ao nosso redor ameaçaram algum movimento brusco, mas Sona mexendo em suas cordas musicais os fez entrarem num transe, totalmente inertes.
Me pergunto se ela já sabe o que vim fazer aqui. E ela tocou uma das cordas em resposta afirmativa, senti uma sensação agradável, por isso pude supor que era afirmativo:
— Você despertou algo em mim — eu disse, simpaticamente. Obviamente ela não pôde me responder em palavras. Apenas me fitou com aquelas orbes azuis em sua face. — Você sabe o que eu faço?
Ela acenou, com a cabeça, positivamente. Seus olhos eram melancólicos, o que fazia meu coração doer mais ainda. Num gesto para me tranquilizar, ela moveu uma das cordas, novamente abraçando-me por dentro. Ficamos alguns segundos em silêncio, Sona movimentou outra corda criando um som que me despertou dúvida, como se ela me fizesse uma pergunta:
— Quer saber como eu faço? — perguntei, e ela me respondeu positivo com a cabeça. — É muito simples, eu atiro e eles dançam. — Pude ver em seu rosto que ela não havia entendido minhas palavras. Empunhei minha sussurro, o que lhe assustou. — Solte a música e farei com que dancem.
Mostrando um sorriso, ela moveu suas cordas mágicas e uma melodia rápida começou a tocar na taverna. Todos os presentes, agora despertos do transe, me olharam assustados por estar empunhando uma arma. Antes que pudesse soltar alguma palavra, disparei próximo do pé de um, fazendo-o com que saltasse; outro disparo o fez repetir o movimento. Logo, ele começava a dançar em pulos na esperança de não ser atingido.
Era divertido fazer aquilo, estavam tão assustados em não serem atingidos que não conseguiam fugir. Olhei para Sona, que mostrava um sorriso inocente e alegre, pelo jeito também estava se divertindo. Sim, veja meus fantoches dançarem. Ouvindo os gritos deles junto à melodia de sua música, não pude resistir:
— Eles cantarão, eles dançarão... eles morrerão — mirei minha sussurro para o coração de um deles, não resisti em puxar o gatinho. O sangue espirrou para todos os lados, dei outro disparo silenciando outra voz. O quarto disparo atingiu dois de uma vez, tingindo completamente a parede de madeira em vermelho carmesim.
Voltei meu olhar para Sona, esperando sua reação. Ela não estava espantada, mas não mostrava mais aquele sorriso alegre. Imediatamente cessei os disparos. Os clientes da taverna, muitos deles soldados e aventureiros, ergueram suas armas contra mim. Mas Sona, num movimento rápido de cordas, os fez entrar em transe, novamente.
— A arte requer certa crueldade — eu disse, sem receber uma resposta. — Talvez você não entenda, assim como muitos. Mas a arte deve aterrorizar... a arte compensa a dor!
Ela apenas me desferiu um olhar inexpressivo. Será que estava triste? Ou talvez nervosa pela apresentação que eu acabara de lhe proporcionar.
— Não sei se acontece com você. Eu fico nervoso antes de cada performance — falei tentando lhe transmitir mais confiança —, mas preciso disso. Não precisa ficar nervosa.
Contudo, Sona não me respondia mais. Eu já começava a ficar irritado.
— Cante pra mim... Dance pra mim! — disparei um dos projeteis de sussurro próximo de seus pés. Mas ela não fez nenhum movimento, como se soubesse que eu não iria atingi-la.
Ela me desferiu um olhar frio, me surpreendendo com uma leve aura assassina. Eu sabia que não podia fazer nada para pará-la. Sona apenas, num movimento gentil de seus dedos, começou a tocar uma melodia triste. De repente seu braço começara a se mover sozinho, eu não tinha controle sobre meu corpo.
Meu braço vinha contra mim, logo com a sussurro mirando em minha face. Pela primeira vez senti o temor que é ter tal arma contra si. Era essa a sensação que meus atores sentiam antes de eu fechar as cortinas? Não! Eu fui pago para dar um espetáculo de matar. Não é aqui que tudo acaba.
— Sabe? Às vezes o silêncio é ruidoso — falei tentando ganhar algum tempo para pensar em algo. O palco estava pronto e todos estavam em seus lugares... apenas preciso do momento certo. Minhas palavras parecem ter atingindo algo nela, sei que ela deve ansiar por uma voz. O silêncio é pesado demais para uma única pessoa. — Eu invejo o silêncio, pois devo ser estrondoso!
Percebendo que ela havia baixado a guarda, pus toda minha força em meu braço erguendo-o contra as luzes no teto. Disparando o quarto projétil mágico de sussurro, num poderoso impacto, todas as lâmpadas foram destruídas deixando apenas as luzes laterais, que não eram muito potentes, iluminando nosso cenário. A taverna ficou escura, as poucas lanternas restantes formavam sombras, dos clientes em transe, nas paredes ensanguentadas.
Os cacos de vidro caíam sobre a única pessoa em cima do palco. Sona rapidamente moveu seus dedos no instrumento mágico, uma forte nota ecoou pela taverna. Uma vibração tremeu pelo ar, e um surto de fios como foices estilhaçavam qualquer fragmento de vidro que se aproximasse dela.
— Em uma coisa somos parecidos — eu estava na sua frente, com minha sussurro totalmente carregada. — Sou um cantor sem voz, um dançarino sem pernas.
O primeiro disparo lhe atingiu o estômago, e mesmo sem transmitir sons de dor, suas expressões faciais não podiam ser escondidas. O segundo disparo foi um pouco mais acima, sem atingir nenhum órgão vital.
Sona tentou tocar uma nova nota, mas antes que pudesse alcançar seus dedos no instrumento, dei um terceiro disparo no equipamento mágico, abrindo um buraco na madeira. As cordas foram partidas e o instrumento caiu em seus pés. As lágrimas foram inevitáveis, ela ficou de joelhos, observando seu sangue, manchando o vestido azul e tingindo os pedaços do precioso instrumento musical que tanto apreciava.
— Minha sussurro é meu instrumento de música — falei me ajoelhando, ficando ao seu lado. Os olhos azuis, que antes brilhavam tanto, logo perdiam a cor para uma tonalidade escura. Seus lábios vermelhos se tornavam arroxeados e sua pele mais pálida e fria, lhe revelando seus últimos momentos. — Por isso, cada bala é uma canção. Cada bala será uma dança... Cante pra mim!
O quarto disparou foi em sua garganta. Diferente da última que destruiu as luzes, esse projétil mágico, lhe perfurou a carne, criando uma chama vermelha que saia pelo orifício do disparo e pela sua boca, numa bela fumaça avermelhada. Borboletas prateadas, com leves tonalidades azuis, se formavam da fumaça, como se sua alma estivesse ganhando uma nova forma... Celestial.
O corpo de Sona caía lentamente para trás, mas eu lhe peguei pela cabeça e fui lhe deitando gentilmente. Seus olhos permaneceram serenos até o fim, e lentamente foram se fechando. Meu coração apertou, numa dor terrível, entretanto dessa vez eu não teria quem me abraçasse.
— Quando te descobrirem irão chorar — falei juntando suas mãos em seu peito.
Em seguida me afastei, indo para a saída. Repentinamente, uma melodia melancólica ecoou pela taverna, eu não confundiria essa sinfonia mesmo que minha audição fosse retirada. Virei-me para trás, o instrumento mágico flutuava próximo ao corpo de sua mestra... Sozinho, ele tocava um profundo réquiem. Novamente a dor veio em meu peito:
— Que doce tristeza há de matar... Esse é o meu amor.
No momento que saio da taverna, a música cessa. Pude ouvir os gritos e choros dos clientes que avistaram sua musa caída no palco, morta. Palavras de ódio e maldições romperam o silêncio. Virei-me e avistei aqueles que sempre estavam presentes em minhas peças:
— Me digam, que tipo de espetáculos vocês gostam de ver?
Mas eles não me responderam, nunca me respondiam. Me pergunto se não eram apenas alucinações de minha mente. Somente me encaravam, com seus olhos brilhosos como o céu estrelado. A silhueta branca ressoava uma canção enquanto o vulto negro sorria sadicamente. Eu não queria ficar mais tempo ali, precisa me retirar antes que alguém pudesse me ver. Cada passo que eu me afastava era um a mais que eles davam para dentro da taverna.
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Demacia ficou em luto por dois dias.
Sona Buvelle, era um garota órfã que havia sido adotado por uma nobre de Demacia, recebendo além de uma boa família um nome de grande importância para a nação. A morte de um dos nobres sempre comovia os demacianos, pois eram eles os símbolos da nação. Seu talento musical já chamara a atenção de reis e generais, e suas melodias tocavam diretamente o coração daqueles que precisavam esquecer suas dores. Sentir apenas a tranquilidade, paz e harmonia, mesmo em outra nação, o sangue de Ionia ainda corria em suas veias.
E não podemos esquecer que é um membro da Liga dos Campeões, possuía amigos e conhecidos famosos por toda Valoran. Na cerimônia de enterro, fiquei observando a longa distância. Meu rosto estava despido e minhas roupas eram casuais, me misturei na multidão em luto.
Avistei muitos rostos conhecidos, a líder da casa dos Laurent, Fiora; A líder da casa de Shauna, Vayne; Os Crownguard, Garen e Luxanna. Os amigos, mais próximos, também haviam comparecido como o Senescal de Demacia, Xin Zhao e o ex-demaciano, agora escudeiro de Valoran, Taric. O rei Jarvan III e o príncipe Jarvan IV também faziam suas homenagens. Por fim, sendo a guarda de proteção estavam Quinn e sua inseparável ave, Valor; uma de olho pela terra e a outra pelo ar.
Sua mãe adotiva, Lestara Buvelle, estava em lágrimas, assim como muitos dos presentes. Não conseguiam acreditar no que acontecerá e agora... Demacia ficou em silêncio profundo, com apenas o som dos soluços de Lestara ecoando. Jamais haveria de existir alguém com os talentos musicais de Sona.
Mesmo que Sona não tenha sido uma soldada de Demacia nas guerras, sua participação na Liga dos Campeões em nome da nação lhe trouxe grande reconhecimento, assim Sona Buvelle teve seu nome gravado no Salão de Valor, onde guerreiros demacianos mortos eram lembrados por seus sacrifícios.
Depois de horas, e quando todos os nobres foram embora, foi aberta uma visita para a população dar seu último adeus. Ninguém se questionou o que uma nobre estava fazendo numa taverna sozinha, nem pelo qual motivo tal tragédia havia ocorrido. Demacia é uma nação que preza a justiça e agora, tal justiça era a vontade de todos. A ordem era absoluta, caçar e capturar o assassino de Sona para ser levado para o tribunal da justiça.
A multidão em furor rondavam as ruas de Demacia procurando por pistas e suspeitos, estavam frenéticos. Uma chama havia acendido em seus corações, algo que há muito tempo não ocorria. Apenas a nação rival, Noxus, havia conseguido criar tamanha comoção nacional. Mas agora toda a atenção e maldições estavam voltadas apenas em um único homem.
Quanto a mim? Eu segurava um buquê de rosas coloridas, azuis, verdes, roxo e amarelo. De algum jeito eu sabia que eram as preferidas dela. Ajoelhei-me com leve dificuldade, pus o buquê e em especial deixei uma rosa dourada, lembrando-me do seu robe que tinha a mesma cor. Sabe? Dourado é minha cor do poder. Em meio a tantas rosas, que os civis haviam entregado, vi o nome de Sona grafado no metal prateado no monumento do Salão de Valor:
— Sua música carece da crueldade de uma obra-prima — sussurrei, sem permitir que alguém pudesse me ouvir. — Agora sai dos meus holofotes — uma última lembrança da melodia de Sona veio em minha mente, agora só havia silêncio... um silêncio perturbador —, isso se chama som ambiente.
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