Sentado em uma cadeira na enfermaria, Teddy mantinha uma enorme carranca no rosto. Socorreu o mais rápido que pode à seu colega, mesmo assim ainda acreditava que fez pouco. Um caso como aqueles, naturalmente chamou a atenção da direção escolar, a diretora pessoalmente foi saber o que aconteceu.

Não havia motivos para mentir, e ao menos o corpo docente não parecia compactuar com os pensamentos dos jovens estudantes. Explicada toda a situação, e porque Billy estava desacordado em uma maca, ao lado de Tommy, que se recuperava de uma surra um tanto mais leve. Infelizmente não era surpresa que algo assim acontecesse.

-Entendo que queira proteger seu novo colega, mas violência não é solução. Sinto pelo que aconteceu e vou trabalhar para que não ocorra novamente, farei vista grossa com você, senhor Teddy, já com Tommy...

A mulher saiu andando da enfermaria, acompanhada do responsável por todo aquele tumulto. Tommy mantinha um olhar pesaroso e tinha certeza que entrou em problemas, pena que era tarde demais para mudar as coisas.

Com a saída de duas pessoas, agora a sala permeava-se pelo silêncio. As horas passavam devagar e Teddy sentava-se impacientemente ao lado do Leito de Billy, a enfermeira disse que os ferimentos não eram graves e que apesar do soco no rosto (que deixou um leve inchaço na maçã da face do rapaz), não existiam riscos maiores. Tudo que ele precisava era um analgésico e descanso.

Billy se encontrava em sono tão profundo, depois de tanto apanhar havia ficado muito sonolento. Lembrava-se vagamente de ser ajudado a ir para à enfermaria, sentira os pés serem suspensos e a cabeça tombada. Um tempo depois, suas costas foram amparadas em algo macio, a dor diminuía gradativamente, nunca pensou que apanharia tanto, sem ter feito nada ruim para alguém.

Teddy se culpava por aquilo, acreditava que ele deveria ter deixado seus afazeres para depois, e acompanhado seu amigo à lanchonete. Jamais passou pela cabeça dele, que a aversão aos recém-chegados nesta escola, poderia assumir um nível tão crítico e perigoso. Ninguém jamais o atacou, obviamente por se intimarem com seu porte, ele não era exatamente o homem mais forte do mundo, porém jamais cairia em combate sem levar alguém junto. Pobre Billy, não que ele fosse uma espécie de camarãozinho ou algo assim, mas nem de longe chegava a impor respeito com seu físico modesto.

Os ponteiros do relógio se mexiam tão vagarosamente, que chegavam a parecer parados no tempo. Billy virou-se na maca, sentiu que algo segurava fortemente sua mão, algo quente e muito macio. O primeiro ímpeto do rapaz foi pressionar o que estava em sua palma, passado alguns minutos assim. Preparando-se para abrir os olhos, notou que agora não segurava mais nada, despertou sentindo falta daquilo.

-Bom dia Rock Star, um baita susto no seu primeiro dia de aula.

-Ai... Minha barriga dói tanto... Você que me salvou, Teddy?

-Quem mais salvaria o seu traseiro daqueles canalhas?

-Ah... muito obrigado.

Teddy estava muito feliz que seu colega recobrara os sentidos, aquilo o aliviava em muitos dos sentidos. Olhava a figura acidentada de Billy, isso fazia seu coração se apertar. Um instinto protetor crescia dentro do loiro, vendo no outro aquilo que deveria ser salvo dos perigos. Não entendia bem a razão disso, porém não pensava muito, acreditava que por hora tudo estava certo.

-O que você está fazendo?

Billy aproximara do rosto, a mão que Teddy passara várias horas segurando. Levava-a as faces e se afagava como se fosse a coisa mais macia e gostosa do mundo. Uma tremenda serenidade era expressa em seu rosto, como se aquela mão o reconfortasse de toda a dor.

-Não sei porque, mas acho que alguém segurou minha mão, ela ainda esta quente.

Aquele pequeno punhado de palavras, fez com que Teddy corasse violentamente. Virava o rosto para longe do alcance da visão de Billy e pigarreava. Ponderou sobre aquilo por um momento e decidia omitir tudo.

-Você estava sonhando, deixe de ser idiota.

-É... Talvez, mas senti que alguém me dava a mão enquanto eu dormia. Devia ser um sonho mesmo.

-Você dormiu todos os períodos possíveis, mais um pouco e eu realmente acharia que entrou em coma! Peguei nossas coisas, consegue voltar para a casa?

Billy sustentou o olhar para seu amigo, assentiu com a cabeça e jogou as pernas para fora da maca, porém fez tudo tão depressa que perdeu o equilíbrio. Antes de ir ao chão, foi escorado pelo companheiro loiro, que prontamente estava à seu lado.

-Opa, peguei você “Rock Star”, acho que sua turnê pela escola já foi um sucesso. Alice Cooper deve estar te invejando.

-Hahahaha... Morri de rir Teddy, estou bem... só meio dolorido.

–Imagino que sim, vamos.

Teddy carregou ambas as malas, mesmo sobre inúmeros protestos e súplicas para que não fizesse isso. Ele ainda não entendia, porém acreditava firmemente que devia proteger Billy, pois este aparentava ser muito frágil e quebradiço. O loiro passou a mão pelo ombro do colega de cabelo escuro e o ajudou a ir para casa.

-Lar doce lar não? Pena que vou ter de deixa-lo sozinho por algumas horas.

-Aonde você vai?

Era no mínimo curioso, saber que Teddy já tinha compromissos depois da aula, uma namorada secreta talvez? Será que apenas os meninos foram atingidos pela xenofobia regional? Realmente, alguém ali tinha o físico perfeito para ser popular com as garotas de qualquer colégio.

-Trabalho, como vou me manter se não tiver um tostão no bolso? Tenho que dar duro para sobreviver.

A frase não fora pronunciada amargamente, Teddy já se conformara com sua situação e nem se importava com isso. Achava difícil trabalhar todos os dias depois da aula, em qualquer bico ou emprego de meio-período possível, toda via não reclamava da sorte, tirava sarro dela.

-Ah sim... Você é órfão, desculpe Teddy... Não sei nem o que dizer...

-Esta tudo bem Rock Star, acontece com milhares de pessoas em todo mundo, e não me incomoda nem um pouco.

Teddy tentava animar seu amigo de alguma forma, afinal de contas ser órfão não era motivo de pena. Ele despediu-se deixando Billy dentro de casa e correu para arrumar-se, ficaria fora até o anoitecer e ganharia bem por isso. Mais algumas horas jogadas fora com o novo amigo e uma patrulha pela madrugada, o programa do dia já se montara.

Billy trancou-se no lar, permitiu um suspirar e jogou a camiseta para o lado, não tinha conseguido examinar todos os ferimentos adquiridos hoje. A barriga, peito e a região próxima da virilha estavam habitados por inúmeras marcas roxas, o rosto tinha um leve inchaço em um dos lados. Tudo doía um pouco, porém o que mais incomodava era o tornozelo.

-Ai... Acho que torci quando me deixaram cair no chão, será que demora pra sarar?

Pensar no processo de cura, obviamente não o aceleraria, havia coisas muito mais úteis para serem pautadas que aquilo. A geladeira encontrava-se perigosamente vazia, os estoques de comida do armário eram inexistentes. Alguém tinha que fazer compras urgentemente, ou morreria de fome.

Trocando-se o mais rapidamente que conseguia, Billy saia de seu uniforme e colocava suas vestes casuais. Ignorava as dores agudas que o acompanhavam e saiu mancando ligeiramente, dirigiu-se para a zona comercial das proximidades, levando consigo um punhado de dinheiro.

O mercado da cidade não era muito grande, porém independente disso, tudo que era necessário para boas refeições existiam lá. O rapaz não comprava muita coisa, apenas o que conseguiria carregar até sua casa, por hora bastaria. Dirigiu-se ao caixa, distraindo o olhar para todas as direções.

-Bem vindo senhor, espero que tenha encontrado tudo que queria.

-Ah sim, claro...

Quando Billy virou-se para seu atendente, os olhos quase saltavam s órbitas. Conhecia muito bem o homem sentado do outro lado do caixa, eram inclusive vizinhos!

-Teddy, aqui que você veio trabalhar?

-Pin pon, acertou na mosca. Pensei que ficaria em casa repousando, mas pelo visto já está bem...

Billy corou um pouco, não queria deixar alguém preocupado com seu estado, assentiu timidamente com a cabeça e respondia em voz baixa.

-É que não tinha nada pra comer em casa, ainda não sei viver de luz...

Teddy ria de maneira controlada, somava os produtos que tinha em sua frente e depois entregava o troco para Billy.

-Você já promoveu um jantar de boas-vindas para mim, que tal comer hoje em casa, como retribuição?

-Tem certeza disso?

A pergunta foi um pouco repentina, mas Teddy estava realmente contente de ser convidado para fazer algo. Pouco tempo atrás, parecia que ele estava sozinho em uma terra de idiotas, porém agora já tinha uma amizade e até planos! As coisas saiam melhor do que poderia querer.

-Claro que tenho, assim que sair daqui, estarei te esperando em casa! Não aceito menos que um sim.

Billy sorria, convencera o companheiro a jantarem juntos, despediu-se de Teddy e parava de pensar no horrível incidente da manhã. Agora tudo já estava superado, tanto faz ser recente ou não, por alguma razão ele ficava muito contente com a companhia do loiro.