Notas iniciais
Espero que gostem, ficou enorme o capítulo, mas foi bem legal de escrever.

Atordoado, em seus sonhos mais profundos, um garoto dormia forçado pela dor. Cada musculo doía como o diabo, respirar era difícil e todo o movimento trazia certa agonia. Seus olhos permaneciam fechados, não se importava de ser achado em sua roupa de Super-herói por outras pessoas, queria apenas que aquilo tivesse fim.

Sem saber o motivo, acabara levando uma das maiores surras da sua vida. Billy não sabia por que o outro herói se sentia tão incomodado com sua presença, não queria ferir ninguém ou prejudicar. Desejava apenas ser útil de alguma forma, ajudar os mais necessitados e sentir que seus poderes tinham algum significado.

A memória do rapaz divagava para tempos mais distantes, na época de seu jardim de infância. Lembrava-se de dias que passava escondido em baixo de mesas, em horas que todos deveriam estar brincando. Sentia-se isolado dos outros alunos e ninguém o queria por perto. Coisas ruins às vezes aconteciam ao seu redor, porque não sabia controlar seus poderes. Nem uma pessoa o permitia ficar próximo, todos se afastavam.

“Eu jamais me senti tão solitário em minha vida, enquanto olhava a janela do meu quarto eu contava meus dias. Não há nada destinado para mim no mundo que é para homens? Será que seguir em frente significa seguir o caminho da solidão? Porque não posso ser amado enquanto estou aqui? Porque simplesmente não posso voltar para algum abraço?”

Os pensamentos tristonhos de Billy eram interrompidos por uma sensação. Algo o tocava na testa, era úmido e gelado. Parou alguns minutos para sentir o que havia em baixo de seu corpo, notou que estava sobre algo macio e confortável, resolveu arriscar abrir os olhos, temendo encontrar algo hostil, porém só via o brilho da lâmpada.

–Ah... Você acordou, finalmente, achei que fosse dormir para sempre...

Quando o menino levou os olhos para quem pronunciava aquelas palavras, seu rosto empalideceu. Reconhecia a besta verde sentado em seu lado, o cômodo parecendo vagamente familiar (Porém no momento não importava). Fora sequestrado? Um Super-herói, mesmo que mirim, poderia esperar os piores destinos nestes casos. De humilhação à tortura, de dissecação à morte.

Billy ficou um tanto agitado, o corpo ainda não respondia tão rápido, porém ele se encolhia instintivamente. Não tinha em mente nada para ajuda-lo, ameaçava sair da cama e tentar alguma fuga, porém a criatura tentou tranquiliza-lo.

–Acalme-se, acalme-se Rock Star, não corre perigo aqui comigo... Escute... Espere... Diabos, deixe-me explicar.

Quanto mais Hulkling tentava falar, mais deixava o companheiro nervoso. Billy havia se levantado parcamente e agora se prostrava em posição de defesa, procurando alguma rota de fuga. Pelo canto dos olhos, Teddy notou que ainda estava em forma de herói, o que provavelmente causava aquele alvoroço.

–Vou provar pra você que esta tudo bem...

A boca de Billy quase ia ao chão, viu diante de seus olhos o monstro verde encolher de tamanho e tomar as proporções de um humano comum. Ele analisou os olhos e a fisionomia atual de Hulkling e seu coração gelou. Reconhecia a segunda identidade do herói, eram inclusive vizinhos.

–Teddy...

–Isso mesmo Rock Star, agora pode por favor se acalmar?

Apesar de ver o rosto de seu amigo, Billy não se acalmava, porém não estava enraivecido. Sentia os olhos incharem de lágrimas e bufou, queria ser forte o bastante para fazê-las rolarem para dentro de seus olhos novamente, pois não tinha raiva, e sim mágoa.

Ver lágrimas fez com que Teddy se desesperasse, não sabia como ligar com aquilo, porém tentou manter a compostura. Olhou com candura para Billy e estendeu a mão com delicadeza para limpar suas lágrimas, mas o gesto fora repelido prontamente,

–Não me toque... Não chegue perto, estou indo em bora agora mesmo!

–Calma ai, porque esse acesso de fúria repentina? Sou eu, o Teddy! Sabe que não precisa ter medo de mim, e como vai embora com o corpo nesse estado?
Por um momento, o loiro acreditava ter vencido o diálogo com seus argumentos, estendeu novamente à mão para o garoto, mas foi rejeitado uma vez mais. O que ouviu em seguida fez seu coração dor de remorso, havia esquecido um fato crucial.

–De quem é a culpa por meus ferimentos?

Teddy ficou momentaneamente petrificado, sentia remorso por suas ações e se torturou em cada minuto da inconsciência de companheiro. Repetia mil vezes para si mesmo que faria tudo para se acertar com o colega, devia isso a ele. Sempre fora cabeça quente, e às vezes se descontrolava, toda via não tinha intenções de realmente machucar.

–Acho que isso põe um fim em tudo, no diálogo e em nossa amizade.

O coração de Billy doía, sentia-se traído por seu amigo. Entristecia o fato que à pessoa em quem mais confiou, mesmo sem saber, usou dos punhos para machuca-lo. Igual outros no passado fizeram, sem motivo algum, e como no futuro parecia ser.

Billy já colocara a mão na maçaneta e se preparava para sair do ambiente quando algo o segurou. Sentiu o abraço poderoso de Teddy o envolver, com sutileza o menino fora jogado novamente na cama e agora tinha o corpo do loiro em cima de si.

–Escuta Rock Star, eu juro que não fiz por mal... Sei que fiz tudo errado mas... Você é meu amigo, e até se esforçou para cozinhar para mim. Desculpe-me ok? Sei que errei e vou compensar depois, mas não quero andar sozinho de novo!

Por uma reação extremamente passional por parte de Teddy, ninguém esperou. Billy colocava seus pensamentos no lugar e aos poucos tentava superar sua tristeza. Lentamente suspirou e passou os braços em torno do amigo. Sentia que algo umedecia o tecido da cama, pequenas lágrimas caiam na trama do tecido, que vinham do garoto loiro de olhos azuis.

–Tá bem Teddy, tudo bem... Vamos esquecer isso por hora, estou feliz de estar aqui com você.

Teddy cerrou ainda mais o braço em seu companheiro segurava-o como uma das maiores joias do mundo, seu coração se acalmava aos poucos. Percebia que os carinhos que fazia também eram retribuídos, suspirava uma última vez e sorriu.



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Do lado de fora as árvores tinham suas folhas sopradas para longe, as nuvens pareciam cansadas e deixavam a chuva cair. O vento uivava por uma janela, dois garotos estavam se abraçando ternamente, um segurando o outro com mais desespero. Tantas palavras não ditas estavam por vir...



–Billy, você me perdoou mesmo?

–Claro... Estamos abraçados, não estamos?

Teddy aninhava Billy em seu peito, segurava-o com mais forças. Obrigava-se a não deixar mais nem uma lágrima rolar, não sabia direito o motivo, porém não queria deixar o amigo ir. Imaginou diversos motivos, nada o acalmava mais do que ter o outro herói em seus braços.

–Promete que esta tudo bem? Eu... Eu tenho medo...

–Medo de que?

Naquele momento o loiro fora pego desprevenido, seu inconsciente dizia que ele possuía medo, porém não sabia direito do que. Olhou para o alto e divagou na resposta, corou um pouco para formula-la, depois disse:

–Tenho medo de ficar sozinho, que nunca mais eu encontre alguém para estar ao meu lado. Algo me diz que... Que se eu o deixar ir, talvez um vazio grande esteja por vir...

Billy ficou em silêncio com a resposta, o rosto colado no peito de Teddy. Não sabia o que responder, porém sabia que perdoara o garoto, no momento em que foi abraçado. A escolha mais lúcida, naquela noite insana, permanecer ao lado de seu agressor.

–Não vou para lugar algum Teddy, vou ficar aonde você quer que eu esteja.

Os dois garotos sustentaram os olhos na altura um do outro. Billy sentia-se desconfortável e tentou virar o rosto, porém antes que conseguisse, Teddy encostou a testa na dele. A temperatura de pele do loiro parecia estar elevada.

–Vai me perdoar por mais um atrevimento hoje?

Antes que Billy pudesse responder, Teddy encostava seus lábios nos dele. Por algum motivo inexplicável agora estava sendo beijado. Os dois pareciam ansiar por este momento, se acariciavam e tentavam unir os corpos.

Teddy passava sua enorme mão pelos cabelos negros do companheiro. Depois de olha-lo, sorria um pouco, mal terminava e voltava à outro beijo. Algo em seu cérebro dizia que era errado beijar um garoto, ainda mais com tanta paixão, o coração do loiro mandava à razão calar à boca.

–Para... Espera, o que estamos... O que estamos fazendo?

Com gestos um pouco bruscos, Billy empurrava a Teddy, tentando dar uma boa distância entre os dois. Respirava fundo, os cabelos despenteados e os lábios violados. Sentava-se na cama e cruzava as pernas. Puxava um travesseiro para si e o abraçava.

–Onde estamos com a cabeça?

O loiro se sentava a uma curta distância de sei companheiro, inclinava o corpo para à direção dele e o olhava de maneira cética. Pensava por um instante: “Não é óbvio? Estamos consumando o que devíamos ter consumado quando você ficou bêbado”.

–Não está na cara Rock Star? Você está sendo seduzido por um dos seus fãs. Devo admitir que foi mais fácil do que pensei.

Naquele momento, parecia que a surra ao outro herói era página virada. Teddy se sentia livre para voltar ao seu ar brincalhão e debochado de sempre, o que só contribuía para que Billy perdesse a postura.

–Somos dois garotos seu idiota, vai querer mesmo beijar alguém do mesmo sexo de você?

–Acho que sim, fiz isso agora pouco e farei de novo você querendo ou não. Aliás... Você tem gosto de abacaxi.

O último comentário deixava à Billy, vermelho feito um tomate amadurecido. No que Teddy estava pensando? Sem saber o que responder, o garoto de cabelos negros empunhava o travesseiro com o qual se aninhava e batia no outro rapaz.

–E quem disse que quero? E se eu não quiser ter uma vida gay?

–Não tem problema, eu também não estava esperando me apaixonar por você... Só que você aceitou meu beijo, significa que no fundo está me querendo.

Teddy ria, enquanto era cruelmente atacado. Usava os braços para proteger as faces contra as investidas do travesseiro. Não se preocupava muito com o termo “gay”, na verdade até achava engraçado despertar esse lado, depois de vários anos. Billy ficava cada vez mais corado, aliviava-se por não estar parado e deixando isso transparecer.

Com um movimento rápido, o loiro virava o jogo em seu favor. Segurava os pulsos de Billy e o forçava a deitar-se na cama. Usava o próprio corpo para prensa-lo sobre o colchão, não o permitindo escapar.

–Não tem problema não querer, porque eu vou te fazer me amar, eu vou fazer você virar Gay se precisar.

O rosto de Billy era uma soma de expressões pela metade, não sabia se corava ou chorava, se ficava feliz ou enraivecido. Resolvera ser sincero para com o outro e consigo mesmo, virou os olhos para o companheiro e disse com firmeza:

–Esse trabalho você não vai ter, eu já sou gay, e talvez eu realmente esteja gostando de você.

Não houve mais tempo para palavras, e pouco as importava. O casal recém-formado voltava a se beijar freneticamente, saciando desejos já enraizados a algum tempo. E realmente, Teddy teve certeza que Billy tinha o sabor de Abacaxi.



Notas finais
O que está embaixo
além da porta do oceano
tranquilo é o beijo
subindo para o azul profundo
dormindo cada vez mais
Naiad- Tarja turunen