Eu Te Amo, *censurado Pelo Nyah*!
3 Maldição
Os dias se seguiam sempre da mesma forma. Os batedores se encontravam na clareira, partiam para cada parte da floresta, Merida iria para a cascata de fogo e aguardaria a chegada de Soluço e Banguela, conversariam por um tempo, desafiariam-se em algum tipo de luta, discutiriam o tamanho de suas florestas, do mar, contariam algumas histórias e, quando chegava a hora, separavam-se, cada qual seguindo o seu caminho.
Já estava acostumada a chegar na clareira e encontrar os batedores sempre com as mesmas falas, ninguém encontrara nenhum viking, mesmo expandindo a área de busca. Estavam começando a se cansar da rotina, mas obedeceriam as ordens dos líderes e da princesa.
Após uma semana, Merida já não se preocupava que seus batedores encontrassem algo. Aparentemente, pela direção que Soluço sempre aparecia, eles estavam longe, muito depois do antigo castelo de Mor’du.
Um arrepio percorria sua espinha sempre que se lembrava de Mor’du, mas já se passaram 3 anos. Seu aniversário de 19 anos se aproximava e com ele a decisão de quem seria seu futuro marido.
Estava estressada. Antes de sair do castelo para continuar sua rotina diária como batedora – ninguém desconfiava que estava, na verdade, se encontrando com um viking – seus pais e os líderes dos clãs reuniram-se com seus filhos e vieram lembrá-la que logo o dia chegaria e que a escolha deveria ser feita.
- Isso é tão injusto! – Estava com tanta raiva que ignorou, pela primeira vez, a cascata e ficou apenas atirando com seu arco em um alvo improvisado.
A raiva era palpável ao seu redor, suas flechas acertavam o centro do alvo e já partira flechas sem conta. Ignorava o mundo ao seu redor e apenas atirava, tentando – em vão – tirar todo o ódio de dentro de si.
Sabia o que aconteceria caso não conseguisse se acalmar, então lutava contra o ódio dentro de si. Lutava porque não queria – nunca – repetir o que aconteceu há 3 anos.
- Você parece nervosa hoje, Rida...
A voz levemente rouca de Soluço fazia milagres em Merida. Ela sabia que isso só podia significar uma coisa: estava gostando do rapaz. Virou-se, ainda séria e observou o rapaz descer de seu dragão. Sempre se impressionava com a armadura de couro que ele usava – e agradecia a todos os deuses sempre que ele tirava aquele capacete horroroso, revelando um rosto que só podia ser caracterizado como lindo.
- Digamos que estou irritada.
E seu sorriso brotou facilmente em seus lábios. Ah, o sorriso do rapaz. Derretia o coração da garota em segundos, mas ela nunca assumiria isso para ele.
- Desculpe a demora, princesa, mas não consegui vir mais cedo...
A garota finalmente sorriu e sentou-se, escorando as costas na árvore atrás de si.
- E é claro que meus problemas todos giram em torno de você, não é, viking?
- E não giram, escocesa?
Sem conseguir se conter, deu uma gargalhada enquanto Soluço sentava-se ao seu lado. Banguela e Angus, após todo esse tempo, criaram uma certa amizade e estavam, no momento, rolando na grama. Os donos ficaram em silêncio, apenas observando a amizade – talvez dita impossível – entre seus animais. O moreno se aproximou um pouco mais da ruiva, encostando seu ombro no dela e empurrando-a de leve.
- E então? Quer me contar o que aconteceu?
A garota permaneceu por alguns instantes em silêncio, não era um assunto que ansiasse por compartilhar com alguém, ainda mais com Soluço, mas... Sentia ainda um resquício do ódio fervilhando em seu peito, e antes que pudesse perceber estava contando a história que sua mãe vivia repetindo: a lenda dos quatro irmãos.
Enquanto contava a história lembrou-se de Mor’du, sentiu o arrepio que sempre percorria seu corpo e, estranhamente, sentiu-se segura. Soluço permaneceu em silêncio durante toda a história, mas segurou a mão de Merida em algum momento e não a soltou mais.
- E isso significa que eu não posso tomar a minha decisão egoísta, mesmo que seja a única coisa que eu realmente queira...
Soluço apertou a mão de Merida e a fez levantar o rosto para ele.
- Sei que é uma história importante para vocês, mas nem sempre você deve se deixar guiar por histórias. – Ele deu um sorriso de canto enquanto observava os olhos claros de sua companheira – Existem momentos em que deve escrever sua própria história.
Ela não conseguiu deixar de sorrir e acariciar a mão que segurava a sua.
- Você diz isso, mas não sabe quais são as implicações dos meus atos. Não sabe o que eu fiz... O que eu devo fazer...
- Mas sei que é uma pessoa formidável, corajosa, bela e decidida. Não há motivos para temer tomar as rédeas de sua vida.
Um leve rubor tomou as bochechas de Merida enquanto ela observava Soluço. O rapaz, talvez decidido a mostrar que ela podia escrever sua própria história, começou a contar como começou sua carreira como treinador de dragões. Quem diria que os vikings pudessem criar laços com os seres que mais odiavam? Será que isso podia significar que eles tinham uma chance?
Calma... Eles? Quem eram eles? Ela já estava considerando que eram um casal? Como podia pensar em algo tão insano assim, sendo que ele nunca se mostrou nada mais do que um perfeito cavalheiro? Ela não poderia começar a analisar demais os pequenos atos dele, o motivo pelo qual ele gostava de segurar sua mão ao se sentarem juntos, ou de como ele sorria de canto, ou talvez como olhava dentro dos olhos toda vez que conversavam. Não... Ela não podia ler demais nesses atos porque Soluço era um perfeito cavalheiro. Viking, mas ainda cavalheiro.
- Rida?
- Eles querem que eu escolha um marido!
A garota tapou a boca com a mão e desviou o olhar. Não conseguia encarar os olhos verdes arregalados de seu amigo. Soluço permaneceu sem reação, apenas encarando a garota enquanto ela se levantava e se aproximava de Angus, que percebendo o estado em que ela se encontrava se levantou e relinchou baixinho.
Ela estava se odiando. Por que, pelos deuses, por que ela tinha que ter falado justo isso para Soluço? Ele não tem nada a ver com o seu problema, e não é como se ele pudesse encontrar uma solução, não é mesmo? Era esperar demais que um rapaz gentil, bonito, inteligente, cavalheiro e forte tenha se apaixonado por ela em questão de dias.
Sentia as lágrimas começarem a queimar em seus olhos. Não podia se permitir chorar na frente dele, nunca se perdoaria se fizesse isso. Angus cutucou seu ombro e abraçou o pescoço do cavalo, preparando-se para montar, fugir e nunca mais se encontrar com o viking, quando sentiu seu corpo ser envolvido em um abraço apertado.
- Fuja comigo.
Merida não podia acreditar nas palavras que ouvia. Tinha certeza que era a voz de Soluço, nunca poderia confundí-la. Ele estaria mesmo..?
- Você não precisa ficar aqui, não precisamos ir pra frente com essa guerra. – Ele exalava confiança – Fuja comigo.
- Soluço... Aqui é a minha terra, minha família... – Sua voz estava rouca pelo esforço para não chorar – Meu lar. Não posso simplesmente fugir.
Soluço a fez encará-lo, estava sério, como nunca antes Merida o tinha visto.
- E você quer que eu fique parado enquanto você se casa com algum idiota?
Aquelas palavras fizeram com que o coração da ruiva se despedaçasse. Por que os deuses eram tão cruéis? Por que a fizeram se apaixonar pelo seu inimigo?
- Obrigada... – Havia um sorriso por entre as lágrimas que corriam pelo rosto da garota – Eu ansiava por escutar essas palavras...
Eles se abraçaram fortemente, Merida entrelaçou suas mãos atrás do pescoço do rapaz e acariciou delicadamente seus cabelos. Os olhos verdes encaravam os azuis e sentiam o coração disparado. A respiração dos dois se tornou rápida, ofegante, não conseguiam mais segurar o que sentiam.
Os lábios se aproximaram vagarosamente, quase lento o suficiente para machucar diante de tanto desejo, quando se tocaram o beijo foi inocente, delicado e curioso. Soluço envolveu a cintura da ruiva e apertava-a contra seu corpo. Seus lábios se encaixavam perfeitamente, logo suas línguas começaram a se tocar, explorando a boca um do outro, tentando com afinco transmitir todo o amor, o desejo e a paixão desenfreada que sentiam um pelo outro.
Até que um rugido foi ouvido na clareira.
Uma garota loira, vestida para a guerra pousou seu dragão próximo de Banguela, correu para o casal e puxou os cabelos de Merida.
- Então é isso que você faz sempre que some, Soluço?! Fica aos beijos com qualquer escocesinha de meia tigela?!
Era possível palpar a raiva da garota. Seu dragão rugia enquanto encarava Banguela, como se o desafiasse a fazer alguma coisa. Angus havia empinado e correu para a floresta.
- Astrid, largue a Merida!
Os olhos de Astrid se arregalaram ao reconhecer o nome da garota.
- Você tem se atracado com a princesa?! Soluço! Sabe que temos ordens para capturar a família real.
- Eu nunca concordei com essa guerra, Astrid. Não importa o que você, a vila ou meu pai digam. Eu não deixarei que você a machuque.
Astrid foi tomada por um ódio que nunca sentira antes. Soltou os cabelos de Merida apenas para entrelaçar suas mãos no pescoço da garota e começar a apertar, esganando-a.
- Veremos o que fará sobre isso. – E antes que Soluço pudesse fazer algo ela o encarou e disse em voz alta – Se eu não posso tê-lo, ninguém pode!
Merida sentia que logo perderia a consciência. Seus pulmões não estavam recebendo o ar que necessitavam para manter sua mente funcionando, a besta sobre controle. Sem conseguir pensar em mais nada apenas sussurrou uma palavra enquanto encarava Soluço.
- ...Fuja...
Soluço sacou sua adaga, tentando entender o que Merida disse e afastar Astrid da ruiva, mas o dragão da loira se interpôs entre ele e sua treinadora. Banguela rosnava perigosamente para o dragão, porém dragões são dedicados apenas aos seus treinadores, eles fariam tudo o que pudessem para salvar e proteger aqueles que eram seus companheiros.
Merida já não conseguia raciocinar, tentava em vão soltar as mãos que seguravam seu pescoço. Podia sentir o ódio animal se espalhando por todo o seu corpo, a dor característica da transformação a fez soluçar e apenas esperava que Soluço não se machucasse.
Sentiu quando seus ossos começaram a se alongar e tornar-se mais fortes, os músculos cresceram e seus olhos azuis, meigos e cheios de vida, tornarem-se nublados pelo desespero e ódio, esquecendo-se de sua parte humana e tornando-se um grande urso marrom sanguinário.
Sem esperar que a loira entendesse o que aconteceu o urso rugiu, jogando-a nas árvores mais atrás. Os dragões se descontrolaram, Banguela não sabia se atacava ou protegia Soluço, o outro dragão tentou morder o urso, mas o mamífero foi mais rápido, dando uma patada com força o suficiente para que o dragão acompanhasse sua treinadora e voasse nas árvores.
Os olhos azuis do urso não denotavam reconhecer ninguém, atacando dragões, humanos e tudo o que havia por perto. Angus entrou cavalgando na clareira, seguido de perto pelo (pretendente gay), que não conseguia acreditar em seus olhos.
- Merida!
Banguela soltou seu ataque na boca do dragão de Astrid, fazendo com que dragão e treinadora sumissem em direção ao acampamento viking. Soluço não deu um passo para montar seu dragão, que o encarava sem acreditar, apenas encarando o urso que se aproximava rugindo e atacando o chão à sua frente.
- Merida?
O (pretendente gay) galopou até o moreno, tirando-o do caminho de Merida. O urso correu então para a floresta e os dois rapazes ficaram se encarando.
- Sugiro que você vá embora, viking.
- O que aconteceu com Merida?
O (pretendente gay) suspirou e encarou o caminho que Merida havia tomado. Precisava alcançá-la antes que ela se acalmasse o suficiente para voltar ao normal. Voltou o olhar para Soluço e suspirou novamente.
- Há 3 anos, Merida amaldiçoou sua mãe, tentando fugir de suas obrigações. Quando ela conseguiu quebrar a maldição todos acreditamos que as coisas voltariam ao normal, mas a maldição voltou-se contra ela. – Sabia que estava contando apenas o necessário para que o viking entendesse, mas sabia o que ele significava para Merida, já os tinha visto juntos – Sempre que ela se descontrola com raiva ou quando é atacada, Merida transforma-se em urso.
O rapaz montado em seu cavalo e Angus seguiram o caminho feito pelo urso, deixando na clareira um rapaz incrédulo e seu dragão. O que aconteceria agora, só os deuses poderiam saber.
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