Eu Te Amo, *censurado Pelo Nyah*!
2 Batedores
Merida retornou ao castelo DunBroch, sorriu para seus pretendentes e deixou Angus em sua baia. Respirando fundo entrou no salão onde seus pais e os líderes dos clãs se encontravam.
- Onde estava, Merida?
Com o rosto impassível a garota se sentou ao lado da mãe.
- Treinando, pai.
- Sua filha está certa! Mandarei que (pretendente gay) treine com você, Merida.
- Tenho certeza que ela gostará mais de treinar com o (pretendente burro), afinal foi ele que ganhou o desafio de clãs há três anos.
- Tecnicamente quem venceu o desafio fui eu. – Sabia que deveria ficar calada, mas quando os três líderes começavam a discutir o seu futuro, se irritava. Muito.
- Vamos agora. Todos sabem que ela prefere a companhia do (pretendente gordo).
E amava ainda mais quando era ignorada. Virando os olhos esperou que seu pai tomasse alguma atitude. Fergus riu alto e colocou as mãos – com um baque surdo – sobre a mesa, Elinor sorria e Merida fingia que não era com ela.
- Não briguem irmãos, ela logo decidirá com quem treinará com frequência.
Antes que mais algum comentário desnecessário fosse feito, a ruiva resolveu que já passara da hora de mudar de assunto.
- Pai, como estão organizados os batedores? Já sabemos onde os vikings estão?
Tinha medo da resposta. Temia que encontrassem Soluço, mas sabia que isso não fazia sentido. Será que era o medo de que o dragão-banguela fizesse algo contra um de seus conterrâneos?
Estavam diante de um mapa da região, já demarcado com o local onde as tropas escocesas se encontravam.
- Ainda não. Acredito que os vikings terão muita dificuldade em transpor as florestas que circundam o castelo. A não ser que venham pelo mar, e então estarão completamente visíveis.
Ou se vierem pelo ar, e então não teremos nenhuma chance. Merida apontou para a floresta depois de observar o mapa por algum tempo.
- Porém, se eles tiverem tempo o suficiente poderão usar a floresta para se aproximarem sem que os percebamos.
O silêncio caiu na sala. Parecia, como várias vezes já havia percebido, que os líderes dos clãs – seu pai incluso – se sentiam melhor quando o assunto era lutar, não planejar.
- Ela está certa, Fergus.
- Por que não organizamos os batedores como Merida disse?
Fergus coçou a sua barba r observou os pontos onde deveria mandar batedores. Pensava em quem deveria mandar, os escoceses gostavam de ação, não de procurar rastros, além do que não havia muitos escoceses que conhecessem tão bem aquela floresta.
- Pai?
Merida chama seu pai delicadamente, parecia perceber perfeitamente o que se passava por dentro da mente dele. Fergus levantou o olhar para a filha.
- Posso liderar os batedores?
Todos sabiam que a garota seria a escolha perfeita, mas havia algo no olhar do ruivo que o impedia de tomar essa decisão.
- Fergus, vamos, você sabe que ela conhece a floresta melhor do que ninguém.
Às vezes Elinor agia de forma estranha. Quem diria que ela é a mesma Elinor que não queria ver sua filhinha com um arco. As coisas realmente mudaram para ser ela a pessoa que insistia em mandar Merida para o perigo iminente.
- Está bem, Merida, os batedores são sua responsabilidade. Tome cuidado.
Com isso a garota sorriu e quebrou o protocolo da reunião dando um abraço no pai.
- Obrigada, pai! Não vou decepcionar vocês!
Ficou definido que Merida, os três filhos dos clãs e mais alguns escoceses seriam os batedores, sendo que a garota lideraria o grupo. A ruiva saiu correndo da sala, pensando em como faria para liderar os batedores, ao entrar em seu quarto, posicionou-se em frente ao espelho e encarou seus olhos. Seu reflexo parecia mais pálido que o normal e tinha um olhar perdido.
- O que você está pensando em fazer, Merida?
O reflexo não lhe deu respostas, então deitou-se em sua cama e deixou que seus pensamentos vagassem para o encontro que teve na floresta e o que – diabos – faria caso encontrasse o viking e seu dragão novamente.
O sono lhe veio como um velho amigo, permitindo que descansasse por toda a noite sem nenhum sonho para incomodá-la. Acordou revigorada e com um plano quase totalmente traçado. Vestiu-se, tomou o arco em mãos, encontrou um mapa das redondezas que não estivesse sendo usado e saiu para encontrar os batedores. Seus batedores.
- Bom dia batedores, vamos ao plano.
Evitou manter contato visual com os três filhos e começou a explicar seu plano, onde cada um dos batedores deveria se posicionar e qual seção da floresta iriam explorar. Ficou decidido que de 3 em 3 horas iriam se encontrar na clareira dos marcos para passarem as informações entre si e de onde um dos lutadores de seu pai iria manter os líderes informados do que descobrissem.
Obviamente selecionou para si a parte da floresta onde encontrara com o viking, esperando – talvez ansiosamente – que ele continuasse no mesmo lugar, mesmo sabendo que a possibilidade não seria lá tão grande, afinal seu dragão voava. Às vezes se parabenizava pelo plano com tamanha possibilidade de falhas, mas era a única coisa que poderia fazer, além de esperar que nenhum outro batedor encontrasse com os vikings antes.
- Entenderam?
Recebeu confirmações de todos e cada um montou seu cavalo – menos o (pretendente gordo) que não gostava de cavalos (e o sentimento era recíproco) – e partiu para sondar a sua área. Angus já parecia saber para onde ia, batendo os cascos e resfolegando a cada metro ganho.
- Vamos, Angus. Você consegue ser mais silencioso que isso.
O cavalo pareceu relinchar – de irritação – e continuou com mais calma e silencioso. Seguia pelo mesmo caminho no qual treinava com seu arco, porém hoje não seria apenas pelo ar lúdico da coisa. Sabia que poderia estar entrando em uma armadilha, ou talvez apenas se arriscando à toa.
Ao se aproximar do local onde encontrara o tal Soluço, respirou fundo e certificou-se que seu arco estava armado e tinha flechas de sobra em sua aljava. Contrariando toda a cautela usada até então, comandou que Angus se aproximasse da linha limite de árvores e saiu no gramado, a marca de onde o dragão deitou no dia anterior ainda visível.
Apeou do cavalo e procurou por algum tempo algum tipo de trilha que pudesse seguir, mas, como havia previsto, não havia nenhuma. Nenhum sinal de movimentação – fora dos passos dados por ela e pelo viking – além da presença nítida do dragão. Sentou-se no meio do gramado, observando a vista – a cachoeira de fogo bem próxima – e resolveu que talvez, apenas talvez, devesse aceitar que eles não apareceriam ali e continuar com seu trabalho.
Após alguns minutos – que para ela pareceram segundos – decidiu que iria subir ao topo da cascata de fogo. Já fizera aquilo por incontáveis vezes e sabia que Angus se manteria próximo à cascata, provavelmente reprovando sua atitude, e beberia água o suficiente para descansar seus músculos.
Estava se aproximando do topo quando percebeu uma mancha em sua visão periférica. Só podia ser sua sorte mesmo, esperava que conseguisse terminar a subida e que não fosse atacada antes do final do percurso.
- Wow! Você é mesmo corajosa, Merida.
O timbre rouco do viking lançou um arrepio por seu corpo, que logo foi creditado ao vento e à água que caía à sua volta. A garota apenas sorriu com o elogio e esperou que o dragão pousasse ao seu lado.
- Eu não tentaria subir essa rocha mesmo se tivesse minhas duas pernas.
Com um suspiro a ruiva deixou as armas no chão e se sentou, esperando que o cavaleiro descesse de seu dragão. Assim que se viu sem seu domador, Banguela se jogou no ar e se aproximou perigosamente de Angus.
- Ele não fará mal ao meu cavalo, não é?
Soluço lançou um olhar preocupado para os dois, mas sorriu e acentiu com a cabeça.
- Não. Ele sabe que para você, o cavalo é seu dragão.
Não que a frase realmente fizesse sentido, mas acalmou o coração da garota. Ficaram então se encarando por algum tempo, enquanto ouviam o som calmante da cascata e cavalo e dragão se “comunicarem”.
Merida estava ansiosa por encher o viking de perguntas, mas estava decidida a esperar. Quem ficasse mais tempo calado teria o comando daquela conversa.
- Então...
O que aparentemente não passara pela cabeça do viking. Será que ela realmente deveria estar ali, tentando conversar com o inimigo?
- Então?
O rapaz coçou a cabeça, nitidamente tímido, e continuou.
- Por que escalou a pedra?
Não seria sua primeira escolha de pergunta, mas deu de ombros e apontou para o horizonte.
- Digamos que eu gosto da vista.
A boca de Soluço se abriu um pouco, incrédulo.
- Você arrisca a sua vida subindo nesse mísero pedaço de pedra apenas pela vista?
Merida sorriu de canto e apontou as nuvens.
- É uma vista e tanto.
Eles trocaram um sorriso e o viking não pôde deixar de contar – um pouquinho – de vantagem.
- Não se compara com voar em um dragão.
E como se fosse a deixa, Banguela deu um rasante sobre eles, batendo na água da cascata e os molhando.
- Imagino... – Ela respirou fundo, seria muito arriscado perguntar o número de vikings, ou quantos têm dragões? Ela só podia supor, mas antes que pudesse perguntar algo foi interrompida pelo rapaz.
- Eu poderia te mostrar.
A garota encarava o sorriso calmo do viking incrédula. Seria algum tipo de plano? Estava desconfiada praticamente da sua própria sombra, mas o rapaz transmitia uma paz, uma segurança que a estava – lenta e paulatinamente – desarmando.
Queria mais que tudo aceitar, voar parecia simplesmente maravilhoso! Mas tinha receio, sabia que tudo poderia ir por água abaixo – literalmente – caso tomasse alguma decisão precipitada.
Respirou fundo e levantou o olhar séria para Soluço.
- Você... Realmente não tem medo de que eu seja sua inimiga?
Ele deu de ombros e apenas a encarou sorrindo de canto.
- Não é como se você fosse a princesa da Escócia, não é mesmo?
Sentiu um leve tom de ironia nas palavras dele, mas não pôde evitar rir, recebendo um olhar divertido do viking, Merida suspirou.
- Então você sabe quem eu sou...
O vento bateu em seu rosto, levantando seu cabelo por todos os lados. Mal percebeu o toque da mão de Soluço em seus cabelos.
- Não tinham dito que era tão...
Seus olhares se cruzaram e se sustentaram por um tempo indefinido. O dragão soltou um rosnado, tirando o casal de seu momento hipnótico.
Merida levantou os olhos para o sol e soltou um palavrão.
- Estou atrasada.
A garota apenas se levantou e começou a descida. Banguela sobrevoou a pedra, buscando Soluço e planando ao lado de Merida.
- Carona?
- Não, obrigada.
Logo chegaram ao chão e Merida montou Angus, preparando-se para correr.
- Espere!
A voz ansiosa do viking a fez olhar para trás.
- Quando eu a verei novamente?
Deu de ombros.
- Amanhã, talvez.
O sorriso que o rapaz lançou, balançou seu coração, mas ignorou.
- Até amanhã, princesa.
Durante todo o percurso até a clareira dos antigos deuses permaneceu pensando no que ocorrera. O que foi aquele aperto em seu peito? Não estaria se tornando muito amigável com o viking, estaria?
Aproximando-se da clareira fez Angus diminuir o passo, ainda mais preocupada do que o normal. O que diria se questionassem o seu atraso? Respirou fundo e adentrou a clareira, percebendo ser a única ali. Estaria tão atrasada que a reunião já ocorrera?
Mal pôde conter sua alegria e alívio quando ouviu os cascos dos cavalos se aproximando da clareira. Observou quando os seus batedores adentraram a clareira e se aproximaram. Nenhum vira nada de diferente, apenas os animais da floresta, um ou outro Will’o’Wisp, mas nenhum deles teve a coragem de segui-los.
- Certo, Grizel, por favor, leve o que encontramos para nossos líderes.
A garota loira acenou com a cabeça e se dirigiu à fortaleza DunBroch. Enquanto os batedores – e cavalos –, cansados, se dirigiram com calma para o acampamento. Agradecia aos deuses por não ter se entregado, não ter perdido a reunião e por ninguém desconfiar de nada.
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