Eu Te Amo.
1 Único
Notas iniciais
E ficou pequena... bem pequena... @_@
O ser humano é tão complicado... Por que ele não consegue dizer o que pensa, o que sente? Por que ele simplesmente deixa as oportunidades esvaírem por entre seus dedos? Se... Naquele dia... Eu tivesse sido mais rápido... Se eu tivesse percebido tudo antes... Mas não...
Eu também sou um ser humano.
Me chamo Breno, descendente de japoneses, moreno, olhos negros, pele clara. Meu cabelo é curto e arrepiado. Tenho quase 1,90m. Sou magro... não tenho muitos músculos, mas meu corpo até que é definido. Vinte e cinco anos.
Eu tinha um melhor amigo. O melhor de todos.
Gian... Acho que devia ter em torno de 1,77m... Era magro, muito magro... Mas era bem popular entre as garotas. Nós eramos vizinhos desde pequenos. Crescemos juntos. Sua descendência, acho que era italiana... A família dele era muito misturada... Tinha português, russo, italiano, chileno, chinês, espanhol e húngaro! Seu cabelo castanho claro cobria o pescoço e tinha uma franja desfiada que chegava à altura do queixo. Ele dizia que era estilo “VK”... Mas sei lá... Nunca entendi muito disso. Ele tinha vinte e três anos.
Em mais uma noite qualquer em que passávamos numa casa noturna, algo aconteceu. Algo que mudou minha vida para sempre.
Pela primeira vez em todos esses anos...
Me senti incomodado com o rolo dele com uma guria.
Ela se esfregava nele de um jeito que excitaria uma pessoa normal... Um cara normal... Ela era bonita, boa de corpo... Mas não sei... Fiquei irritado.
Não sabia o que estava acontecendo comigo, furioso, sai de lá sem falar nada à ninguém.
Cheguei em casa chutando tudo que via pela frente... Sorte que morava sozinho... Ah, não... Ele morava comigo...
Começamos a dividir o apartamento, assim que ingressamos a faculdade. Não faríamos a mesma área... Mas a faculdade era a mesma. Eu já estava no último ano, e ele no terceiro. Mas seu curso era de quatro anos. Mais um e ele se formava. Sorte dele...
Joguei tudo o que vestia no chão e fui tomar um banho para me acalmar. Se eu soubesse exatamente o que acontecia comigo, não ficaria nesse estado. Que merda. Odeio isso. Na minha mente, apenas suas imagens... Seu sorriso, seu humor, suas piadas, sua raiva.... Seu jeito...
De banho tomado e um pouco mais calmo... Fui ler um livro para me acalmar de vez. Mas a única coisa que passava em minha mente era aquela cena dele... Dele com ela. Nem sei quanto tempo li e quanto tempo fiquei à pensar... Só sei que peguei no sono por causa do barulho irritante do meu celular me despertando.
Nem vi quem era e atendi... Era uma menina chorando desesperada. Ela dizia... Ou pelo menos tentava dizer... Que o Gian tinha sofrido um acidente e que estava muito mal.
Eu... Como sempre, não acreditei. Nunca acredito no que me falam a menos que me comprovem. E por infelicidade... Tive essa comprovação.
– Bê... ? — “Bê”... Era assim que ele me chamava... O único que me chamava assim... Quando eramos crianças, ele não conseguia pronunciar meu nome... — suspirei, era mesmo o Gian... Com uma voz falha e cansada... — Cara... Ouça, bem... Eu – ele falava devagar e tossia carregado – Eu... Não sei se vou conseguir... Voltar... — meu coração falhou... Como assim não sabe se ia conseguir voltar?
– Di! — é... Eu também não conseguia pronunciar seu nome, quando mais novo.
– Calma, cara! — ele tossiu novamente – Deixe-me... Deixe-me terminar... — ele ofegava... E meu peito apertava cada vez mais. — Eu... Queria ter tido mais coragem... — tossia novamente e pude ouvir o som alto da sirene e uma algazarra ao seu redor, o silêncio de sua voz me preocupava mas antes que eu dissesse algo, pude ouvi-lo – EU TE AMO! — ele gritou e mais uma vez ouvi seu silêncio... Eu não sabia o que dizer... Será... Será que eu também o amava? Será... Que era por isso que eu fiquei irritado? Eu... Eu senti ciúmes?! Não tive tempo de pôr meus pensamentos em ordem — .... Desculpe Bê... — ele sussurrou...
– Nã....! — não deu tempo de dizer nada além disso... Logo a voz da guria estava em meus ouvidos novamente. Ela chorava e gritava para que eu fosse logo pra lá! Ele não iria aguentar muito tempo... Não sei de onde tirei forças, não sei nem o que passava pela minha cabeça... Aliás, a única coisa que passava, era o sorriso do Gian. O mais doce e belo sorriso que já vi em toda minha vida.
Cheguei razoavelmente rápido, corri para dentro do hospital e logo encontrei os pais do Gian na porta de uma sala. Pelas suas expressões... Eu não podia esperar pelo melhor... Corri até eles e eles se espantaram um pouco ao me ver... mas sorriram melancólicos e abriram a porta para que eu entrasse....
– Ele precisa de você, querido.... — sua mãe me dizia com os olhos marejados.
Engoli seco e entrei... Não sabia o que me aguardava... Não sabia como ele estava....
O quarto era iluminado apenas com algumas luzes do criado mudo. O barulho alto de meu coração me irritava. Ele não podia... Ele tem que estar bem!
Cheguei bem perto de sua cama e quase não o reconheci. Ele estava inchado. Estava vermelho e arroxeado. Haviam cortes por todo seu corpo. Seu pescoço estava imobilizado e seu braços e pernas engessados. Eu.... Eu não sabia o que fazer...
Nem percebi que lágrimas fluíam pelos meus olhos... A dor que eu senti naquele dia, naquele instante, eu não desejo à ninguém.
– Bê... — ele sussurrou e por um instante eu tive esperanças.
– Não diga nada Di... — eu tentei disfarçar o máximo que podia, para que ele não percebesse que eu estava chorando... Mas não deu muito certo...
– ... Mas eu preciso... — ele sussurrou... Sua voz falhava e parecia sair cada vez menos, o obrigando a forçar sua saída cada vez mais – Me... Me desculpe pelo que eu te disse... — finas lágrimas escorriam por seu rosto... Por mais inchado que estivesse, por mais desfigurado que estivesse, ele sempre será belo... Sempre o meu Di... — Deve ter sido um choque ouvir isso... — ele tentou rir, mas não conseguiu...
– Não esquenta com isso agora Di... Apenas se recupere logo, cara! — eu realmente estava chorando – Você... Você não pode nos deixar assim.... — ... Me deixar assim....
– Desculpe, cara... Acho que isso... Eu não vou conseg.... — daqui para frente, minha mente se perdeu em apenas imagens e o som alto do aparelho que acompanhava seu coração.... Foi tudo muito rápido, mas para mim, parecia que tudo correra em câmera lenta...
Muitas pessoas adentraram o quarto, médicos e familiares, todos correram até ele, seus pais estavam desesperados, e os médicos fechavam-se num círculo ao seu redor. Gritavam, nos impediam de chegar mais perto. Eu estava em choque, não conseguia pensar em nada que não fosse “isso não pode estar acontecendo”. Meu peito doía e um desespero que nunca pensei que sentiria em toda minha vida, mostrava-se presente. Fomos obrigados à sair enquanto tentavam reanimá-lo... Esperançoso, olhei para ele novamente e a última cena que vi... E que cravei em minha memória foi, mesmo daquele jeito... Ele ter forças para me olhar... E sorrir.
Que ironia... Depois de tanto tempo de convivência... Me dar conta, somente agora...
Eu nunca me imaginei gostando de um cara... Sempre fui muito mulherengo e tal. Nunca senti nada além de amizade por outro cara. O Di sempre foi especial. Ele é especial. Colocando tudo na balança hoje, percebi que meu mundo sempre girou ao seu redor. Eu sempre o mantinha perto de mim. Insisti para que ele cursasse a mesma faculdade que eu, para que pudéssemos dividir o apartamento. Fui eu que sempre o obrigava a sair, para que ele não ficasse sozinho em casa. Chegávamos até a tomar banho juntos... Nada malicioso... Apesar da idade, eramos muito crianças... Pensando agora... Acho que eu só queria passar o máximo de tempo possível com ele... Tudo que eu fazia, tudo que eu pensava... Sempre envolvia o Di...
Mas... Por quê? Por que justo com ele?! Por que eu não percebi isso antes?! Por que ele teve que sofrer tanto em silêncio por minha causa?! Por quê?! Eu fui muito burro! Como eu não percebi isso?! Que raiva que sinto de mim mesmo. Eu... Eu não consigo me conformar! Como?! Meu deus... Como eu pude ser tão cego?! Ele sempre esteve ao meu lado, sempre, sempre, sempre... Meu peito não dói mais e de meus olhos, lágrimas escorrem. Lágrimas estas, que assim como o ácido destrói o que toca, corroem minha alma.
Cheguei a pensar que talvez, eu estivesse confundindo as coisas... Afinal, sempre fomos amigos... Mas não... Eu já gostei de muitas mulheres... Sou muito racional. Sei melhor do que ninguém de meus sentimentos, e pelo menos por enquanto, nunca tive problemas em lidar com eles. Se eu gostava de alguém, eu gostava e pronto. Não tinha porque eu ficar "Não! Não pode! Não é possível". E por mais que eu fizesse qualquer coisa por elas... Tem uma coisa que eu nunca faria, mas por ele faria sem hesitar...
… Morreria em seu lugar.
Eu realmente estou abalado... Minhas estruturas foram destruídas como uma pirâmide de baralho desmorona com um soprar. Perder seu melhor amigo assim... De repente, não é uma coisa muito bem aceita pelo ser humano. Ninguém consegue aceitar uma coisa dessas logo que acontece... Na verdade... As pessoas se acostumam com essa ideia com o passar do tempo, mas aceitar... Aceitar de verdade, ninguém consegue.
Assim como eu nunca me imaginei gostando de um homem, nunca imaginei que doeria tanto.... Que dói tanto saber que ele nunca saberá disso... Por mais que eu grite, por mais que eu me esforce.... Ele nunca me ouvirá... E nunca saberá... Isso é muito cruel... Mal descobri esse sentimento e você me abandonar assim.
Céus... Há um turbilhão de coisas passando por minha cabeça... Muitas cenas confusas, passado e presente se misturam dando um nó em meu cérebro. Mas a única coisa... A única coisa que é nítida em todos eles... É o meu remorso.
Hoje já estou com trinta e sete anos. Se me recuperei? Não... Nunca vou me recuperar. Suicídio? Sim, pensei nisso. Eu não aguentava tamanha tristeza que meu coração carregava. Mas uma luz veio até mim e com certeza, foi você que a enviou. Não me casei, mas adotei uma criança... Um de seus rolos havia dado fruto. A moça não queria a criança, pois não tinha como sustentá-la, então eu a adotei. Era um menino. Um lindo menino. Eu ainda não tinha muitos recursos naquela época, mas meus pais e os pais dele me apoiaram nessa decisão. Me desdobrei em cinco, trabalhei como louco até conseguir chegar ao que sou hoje.
Meu serviço é estável e eu ganho bem. Muito bem. Trabalho em casa e assim posso cuidar de meu pequeno.
– Pai! O que é isso? — meu filho, agora com doze anos me perguntando sobre um medalhão velho.
– Era do seu pai, filho. — seus olhos brilharam e fiquei emocionado ao ver como eles eram parecidos.
– Posso ver? — ele perguntou manhoso e eu ri, realmente eram muito parecidos.
– Claro, filho. — sorri gentil.
Aquele era o medalhão que ele nunca tirava do pescoço... E também, nunca me deixou ver o que tinha dentro.
– Nossa, pai! Era você?! — ele indagou surpreso com a foto envelhecida – Você era jovem! — ele gritava espantado. Aquela era uma foto minha de quando eu ainda tinha o cabelo mais comprido. Antes de entrar na faculdade. Um dia antes de me mudar para o apartamento, nós havíamos saído para uma balada. Tínhamos acabado de voltar e fomos numa lanchonete qualquer comer... E eu, com aquela cara de quem não dormiu nada...
Fato.
– Claro, filho! E eu já fui um bebê também! — disse divertido pegando o medalhão.
– Pai... Você gostava mesmo dele, né? — ele indagou abraçando minha cintura e me olhando de baixo.
– Não, Gian... — afaguei sua cabeça — Eu o amo.
Sim... Eu não o amava, eu ainda o amo e sempre irei amar. Hoje eu sei que tudo o que eu senti naquele dia, foi por finalmente ter descoberto que eu nutria um sentimento além da amizade por ele. O amava mais que um amigo, mais que um irmão. Se eu pudesse voltar no tempo. Se eu pudesse vê-lo novamente. Pudesse falar com ele novamente... Pudesse finalmente lhe dizer o que eu sinto... O que tanto queria ouvir... O que eu tanto quero que saiba.
Essa... É a única coisa que eu nunca irei me perdoar.
Você ter partido sem me dar tempo de te dizer, com todas as letras...
Eu te amo.
Fim.
Notas finais
Muitíssimo obrigada, à quem leu e espero profundamente que tenham gostado. E quem sabe, até a próxima! =]
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