Eu Te Amo

1 Capítulo Único


- Chega. Chega, eu não aguento mais.

- Você diz isso agora! Mas vai se arrepender.

- Não vou. Estou dizendo, não vou. É definitivo.

- Não pode ser. Eu te amo! Eu te amo, droga!

- Acabou. Vá embora. É o melhor para nós dois.

- Não é! Não é! Por que está fazendo isso comigo? Por que está fazendo isso conosco?

- Por favor, pare. Não fale mais nada. Um pouco de dignidade para nós dois. Agora, vá embora.

O homem olhou extenuado para a mulher. Em seus olhos, era visível que ele parecia não compreender.

O tom dos seus olhos azuis fazia com que as lágrimas ali tivessem um brilho a mais.

E ele não conseguia; seus pés não lhe obedeciam. Ela tinha razão, era importante haver um pouco de dignidade agora. Era o mínimo que poderiam fazer um pelo outro. O problema é que ele não queria o mínimo. Não queria se contentar com o mínimo.

Como poderia? Se o que tiveram, desde sempre, fora o máximo? O transbordante, o excedente, o derramamento de tudo o que eram, que sempre parecia mais do que poderiam suportar, resistir, aguentar.

Desde o princípio, eles queimaram. Era fogo, e como fogo queimou. Paixão ardente, desesperadora. Juras de amor, trocadas no calor do momento.

E o calor do momento fora o que sempre tiveram. Ele não sabia ser diferente. Não mais. E a culpa era dela.

O fogo sempre existiu dentro de si, ele sabia. Por isso mesmo, durante tanto tempo, conteve-se. Não é bem que ele tivesse medo. Não era homem de ter medo. Mas tinha cautela. Conhecia o poder destrutivo de seus sentimentos. Quando foi que lhe explicaram que deveria ser cuidadoso? Que não poderia explodir; que, se sucumbisse às sensações, nada restaria de si? Aliás, alguém teria explicado isso a ele? Ou simplesmente, ele soube? Desde sempre? Desde que se entendia por gente?

Não importava. Agora, nada mais importava. Estava perdido. Ela fizera com que se perdesse. E não saberia mais voltar. Não reconheceria os passos que o pudessem levar de volta. O caminho estava distorcido. Ele não se reconhecia. Agora, sentia que só poderia se reconhecer nela. Seus passos eram os dela. Seu caminho a ela pertencia.

Fora assim desde o princípio. Naquele baile, naquela dança... A fita azul que enlaçava o vestido branco pela cintura... A fita desenhava o caminho a ser trilhado pelos olhos azuis dele. Ela rodopiava, leve, linda, risonha. Atraía; distraía. Os pés calçavam sapatinhos azuis. Os passos eram certos, tão certos, que ela não parecia dançar. Ela indicava, com seus passos, o caminho. Uma vida. Aquela dança seria sua vida a partir de então; estava preso e era para sempre.

Os olhos azuis, encantados, encontraram por último o olhar castanho e feiticeiro. O olhar dela era imponente e subjugava. Prendeu-o e ele não se importou. Entregava sua liberdade por espontânea vontade, contanto que aqueles olhos fossem para sempre seus.

Ele a tomou para dançar consigo, mas sentia que era ela quem passava a dominar toda a sua existência. Seus olhares trocaram confidências. Intenso, o momento foi único. O primeiro encontro foi feito de olhares, que rápido se pertenceram. E assim que a música deixou de ecoar pelo ambiente, deixaram o salão e fugiram do mundo, onde somente eles poderiam existir. O que sentiam era forte, ambos sabiam. E era tão grandioso, tão poderoso, que no mundo caberiam apenas os dois e aquele sentimento que povoava todo o resto.

O segundo encontro foi, portanto, das mãos. Toque íntimo, delicado. Mãos entrelaçadas, o calor de um corpo passando ao outro. E então o terceiro encontro. Os lábios traçaram conhecida trajetória. Encaixaram-se, encontraram-se, descobriram-se. Já faziam parte um do outro, antes mesmo de sabê-lo.

O jogo de encaixe prosseguiu naturalmente. Com que prazer compreendiam que se preenchiam com perfeição. As lacunas deixavam de existir. Ele era pleno, ele existia nela. Seu sangue corria nas veias dela. Ela sentia seu coração pulsar no peito dele.

Deixou para trás a cautela, o cuidado. Para quê? Nunca se sentira tão vivo, tão realizado em toda a sua vida! Com ela, tudo passava a ter sentido. A vida deixava de ser mistério, o enigma era decifrado. Era assim que deveria ser.

Permitiu-se queimar dolorosamente no fogo dessa emoção. Consumiu-se sem resguardo, sem pensar no que seria de si no dia seguinte. O dia seguinte, por sinal, deixou de existir. A vida se vivia no agora, ela dizia. Ele concordava. Enquanto ela sorrisse, e ele pudesse beber daqueles lábios frescos, não haveria discordância.

Aprendera muito com ela. Aprendera tudo com ela. Afinal, não soubera existir de fato até que ela surgisse em sua vida. Desde o começo, tinha sido assim. Naquela primeira dança, ele tropeçara nos pés incautos dela. Mas ela lhe ensinou. Ensinou a dançar. Ensinou a viver.

Abandonou as observâncias que tinha em relação à própria vida. Não queria mais ter de se preocupar. Poderia ser livre, poderia queimar, poderia levar tudo ao extremo.

“Só se vive no extremo”. Era o que ela sempre dizia.

Deixou-se transbordar desse sentimento. Era incontinente, não se fecharia mais. Estava aberto e a vida poderia preenchê-lo ao máximo, deixando que fosse eternamente assim, excedente.

Exceder de amor. Não poderia haver nada melhor.

Abandonou a âncora que o mantinha preso. Seria livre para navegar por águas desconhecidas.

Ela era fluida, como água. Como águas agitadas. E ele desejava perder-se no mar que ela lhe representava.

Deixou para trás a vida que conhecia e quem ele mesmo era. E viveram. Viveram tanto, viveram muitas vidas. O tempo foi amigo de ambos, por um período. O tempo que passava era proporcional ao amor que fundia suas almas, mas isso não podia ser até o fim. O fim existiu, sempre existiria.

Talvez tenha queimado rápido demais. É difícil controlar o fogo. Ele queima e as cinzas começam a se agigantar antes que se possa tomar devido conhecimento disso.

Ela não suportava mais. Não conseguia respirar. Do fogo, restava agora apenas a sensação de sufocamento.

Ela não era de meias palavras; nunca fora desse tipo. Não iria buscar um término brando, natural, talvez ocasional. Não, tudo sempre queimava com ela. Se o início tinha sido turbulento, o fim também teria de ser caótico.

“O fim havia chegado”, ela disse. Não dava espaço para discussões, não havia argumentações. Ela o queria fora de sua vida.

Ele não podia aceitar, não podia partir. Especialmente, não entendia. Como ela conseguia simplesmente dizer adeus? Uma taça de vinho na mão e dali o líquido rubro entornou, devido à comoção dele. Sua mão trêmula se pôs sobre o braço dela e o gesto brusco fez com que o vinho tinto se derramasse sobre o tapete. Ela, tão firme, não derramava nada. Nem uma lágrima. Nem um mísero sentimento de compaixão entornava daquele corpo agora tão desconhecido. Não era capaz de lê-la nesse momento. Seu corpo sempre lhe fora um mapa, mas não mais. Aquelas pernas, às quais tantas noites se vira entrelaçado, eram-lhe companheiras tão antigas e cativas, que sempre transmitiram a ele tudo de que precisava saber sobre ela. Era capaz de descobrir o segredo de sua alma pelo simples contato quente daquela carne, que deslizava sobre suas pernas, em uma carícia, em um pedido, em um desejo mudo ou em um silêncio ensurdecedor. Eles se sabiam, sempre se souberam daquele modo.

Agora, porém, as pernas dela cruzavam-se elegantes sobre a cadeira. Nada lhe diziam. Negavam-se a informar-lhe o motivo, o porquê. Eram sóbrias, por debaixo da meia-calça preta. Não se comunicavam mais.

Toda ela parecia uma esfinge. Fixa, firme, imóvel, ilegível. Enigmática. E a ele não era mais oferecida a chave para quebrar esse mistério.

Ele pareceu enfim compreender. Não havia volta. Ela estava decidida.

Ela decidiu quando começaria. E agora ela decidia que acabava.

O homem foi para o quarto, onde ainda era capaz de sentir o amor que declararam ardentemente um para o outro, por tantas vezes, por tantas noites.

Estava ferido, mas continuou a caminhar. Tentava continuar, tentava seguir, embora estivesse perdido, embora não soubesse para onde.

Abriu o armário e dali começou a retirar suas roupas aleatoriamente. Não enxergava, não conseguia se descobrir, não sabia onde estava.

Estava perdido.

Súbito, quando sua mão tocou o paletó daquela noite, ele parou. Os olhos azuis voltaram a ter um pouco de vida. Um brilho luziu brevemente ali, antes de se apagar outra vez. Ele reconheceu. Era o paletó usado naquela dança, de quando a vida lhe brotara e nascera tão dolorosamente daqueles braços macios que o envolveram para sempre.

O seu paletó, da forma com que se via pendurado, parecia abraçar o vestido branco. O mesmo vestido branco, com fita azul na cintura.

Eles dançavam ali, naquele armário embutido. Dançavam talvez eternamente. Ali seria para sempre.

Não interromperia o eterno que ali poderia ser o que não poderia ter.

Fechou o armário e carregou sua mala com pesar.

Atravessou a sala. Ela não estava mais lá.

Deixou a casa, sentindo a noite aguçar todos os seus sentidos. A solidão o envolvia e também lhe preenchia. Estava vazio por dentro e por fora.

Refugiou-se no bar de um hotel próximo. Estava tarde, havia poucas pessoas ali. Um homem tocava preguiçosamente ao piano, enquanto outros, assim como ele, pareciam ocupados demais dos próprios pensamentos. Bebiam apenas.

Ele virou mais um copo com conhaque e pediu outro. O rapaz que lhe servia olhou-o com pena, mas nada disse. E o homem, fugindo do olhar de piedade, vagou os olhos azuis embaçados de dor pelo salão. Depois olhou além conseguindo enxergar a recepção. Pessoas que iam e vinham. Chegavam e abandonavam. Aquilo era a vida. Não se fica. Ou se vem, ou se vai.

Porém, ele não sabia para onde iria. Tinha de partir, compreendia. Mas se não era capaz de enxergar o seu caminho, como havia de partir...?

Não sabia.

Por isso, ficou.

Nunca partiu.

Mas também, jamais voltou...

******

Eu Te Amo (Chico Buarque)

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.

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