Eu Sou o Seu Presente.

1 Único: a melhor parte do meu dia


Não era o ruído de um Cavaleiro inimigo surgindo das sombras, e muito menos o cosmo opressor de um deus decidido a destruir o Santuário.

Tampouco era um assaltante desastrado que tinha invadido aquela cozinha em plena manhã de quarta-feira.

Era apenas Hyoga, que em vez do tradicional bolo de aniversário, ele decidira preparar cupcakes de chocolate — sabia que Shun adorava, embora, para ser honesto, ele adorasse qualquer coisa que contivesse açúcar — e uma montanha de panquecas americanas.

Uma ideia simples. Na teoria. Porque, na prática, a cozinha parecia ter sido atingida por uma explosão termonuclear de ingredientes. Havia respingos de massa até no teto, cascas de ovos espalhadas pela chão como se fossem minas terrestres e, um punhado generoso de farinha grudado nos seus próprios cílios.

— Isso... Desse jeito — batia a massa com tanta fúria que quase fazia o recipiente voar.

Depois despejou a mistura marrom, perfumada e cheia de pequenas gotas de chocolate nas forminhas de silicone.

O cheiro que saía dali era incontestavelmente maravilhoso. Tão bom que acabou funcionando como um apito para atrair duas grandes "formigas" famintas.

Seiya e Shiryu tinham sentido o aroma de chocolate a alguns quarteirões de distância e surgiram na porta, guiados exclusivamente pelo nariz.

Agora, a dupla cercava Hyoga como tubarões na expectativa de enfiar as mãos na vasilha.

— Seiya, tira a mão daí — nem precisou olhar pra trás para saber o que o Pégaso estava aprontando.

Quando virou o rosto, deu de cara com Seiya com o indicador mergulhado até a segunda dobra na massa crua das panquecas.

— Ah, qual é! — protestou Seiya, chupando o dedo. — O Shun não vai se importar!

— O Shun pode não se importar. Eu me importo. — Hyoga estreitou os olhos azuis, fuzilando o amigo.

Shiryu aproveitou a distração para roubar um punhado de gotas de chocolate e jogar na boca.

— Você parece um pouco... nervoso — observou o Dragão, mastigando devagar.

— Eu não estou nervoso — rebateu Hyoga. Mas sua voz saiu mais aguda que o normal, e seu cosmo gelado oscilou de forma tão descontrolada que fez o suco de laranja em cima da mesa congelar dentro da jarra.

— Tá sim — alfinetou, dando um tapinha nas costas dele. — É só um aniversário.

Enquanto os dois trocavam farpas, Seiya aproveitou a menor brecha para esticar o braço surrateiramente e surrupiar a colher de pau melada que Hyoga tinha acabado de deixar sobre a mesa.

— Não é "" um aniversário. É o aniversário do Shun — Hyoga revirou os olhos. — Ele lembra da data de todo mundo, compra presente, faz cartão bonito... Por que seria diferente quando se trata dele?

O sorriso de Shiryu murchou. Seiya parou no meio do gesto de lamber a colher de pau e baixou os ombros, o olhar caindo para o chão.

— Você sabe que o Shun não quer comemoração... — murmurou Seiya, a voz perdendo toda a animação.— Não depois de tudo o que aconteceu na Guerra contra Hades.

— Eu sei. Sei que ele tá meio deprimido e não tá no clima para festas grandes — Hyoga passou a mão suja de massa pelos cabelos e espalhando ainda mais farinha pela testa. — Por isso tô fazendo isso. Algo simples... São só uns cupcakes e panquecas. Ele gosta. É confortante.

— É... Você tem razão — Seiya olhou para a bagunça na bancada, depois para o rosto coberto de farinha do Cisne, e um sorriso caloroso começou a reaparecer. — Se tem alguém que merece acordar com cheiro de panqueca e um pouco de paz, é ele.

​— O Shun passa a vida inteira garantindo que todos ao redor estejam bem — completou Shiryu, encostando na bancada. — Um café da manhã especial, sem pressão e cercado de quem ele ama, vai fazer um bem enorme pra alma dele

— Exatamente — Hyoga olhou para as forminhas assando no forno. — Na verdade, isso tudo ainda parece pouco perto de tudo o que ele já fez por nós. Mas é o meu jeito de dizer 'obrigado por existir'.

— E ele vai amar — afirmou Shiryu. — Até porque não é todo dia que o Cavaleiro de Cisne resolve trocar o Pó de Diamante pelo fogão.

— Cuidado com o tom, Shiryu. Você sabe que eu domino o manuseio do gelo... Não me faça congelar você até o ano que vem. — ameaçou Hyoga, ainda que o canto de sua boca se elevasse em um sorriso discreto.

Logo depois, virou-se para Seiya e tomou de volta a colher de pau, que o Pégaso já havia raspado até quase não restarem vestígios de massa.

— Devolve isso aqui! Você é um Cavaleiro de Atena ou uma lava-louças? — reclamou o russo, tirando o utensílio do alcance dele.

​— Eu tô é me sacrificando pelo bem do Shun, tá? É pra ter certeza de que o aniversariante não vai passar mal! — justificou, limpando o canto do lábio com o polegar.

​— O único que vai passar mal aqui é você se engolir essa colher inteira.

​— Beleza, "Mestre Cuca de Geladeirinha"! Mas, passa essa colher e a vasilha pra cá que eu ajudo a limpar o resto... com a língua!

​— Seiya!

Pégaso tomou a colher e a tigela de volta, praticamente enfiando a cabeça dentro do recipiente para raspar o fundo.

Hyoga não aguentou e acabou rindo junto com Shiryu.

Aos poucos, a cozinha voltou a ficar tranquila. Hyoga retornou aos preparativos do café da manhã especial. O aroma de chocolate começava a tomar conta do ambiente, misturado ao cheiro doce do mel e ao café quente que acabara de passar.

Era o mínimo que podia fazer por Shun.

Por aquele garoto que, desde a infância, sempre encontrara uma maneira de fazê-lo sorrir. Que continuara ao seu lado durante a adolescência e que, agora, parecia carregar nos olhos o peso de tudo o que havia vivido.

— Vou ver se o Shun já acordou — disse Shiryu, afastando-se da cozinha.

​— Tá bom...

​Assim que ficou sozinho na cozinha — ou quase sozinho, já que o Pégaso ainda continuava ali, lambendo os dedos —, o loiro voltou sua atenção para as panquecas.

Seiya já estava novamente procurando alguma coisa para beliscar — e, de fato, metade da bancada já tinha sido saqueada. O Pégaso já havia provado até os morangos frescos e as cerejas em calda que Hyoga reservara para rechear os cupcakes assim que fizesse um buraco no centro de cada um.

— Seiya... — o repreendeu.

— O quê? — a boca dele estava visivelmente cheia, com um pedaço de morango quase escapando pelos lábios.

— O que eu vou usar para decorar os cupcakes se você continuar comendo tudo? — Hyoga apontou para a tigela de frutas com a espátula, desacreditado.

— Eu só estou provando a especiaria do chefe... — Seiya ergueu as mãos, fingindo inocência, mas as palmas estavam sujas de calda doce.

— "Especiaria"?

— Sim, ué! Controle de qualidade — Seiya sorriu de canto a canto, fazendo Hyoga rir novamente.

Hyoga então voltou a atenção para o forno. Pela pequena janela de vidro, conseguiu ver os cupcakes crescendo dentro das forminhas.

Ele deixou o forno trabalhar sozinho e voltou para as panquecas. A massa era simples, e Hyoga havia aprendido que o segredo estava em colocar apenas uma fina camada sobre a frigideira quente. Assim que despejou a mistura, ela começou a cozinhar.

Seiya, contudo, abandonou a busca por comida e caminhou devagar até a mesa.

— Como o Shun tá de verdade, Hyoga? — ele encostou o quadril na borda e cruzou os braços, a expressão brincalhona dando lugar a um olhar sério e preocupado

Hyoga continuou olhando para a frigideira, acompanhando atento o surgimento das primeiras bolhas que indicavam que ela assava rápido.

— Você sabe como ele tá, Seiya... Você é um dos melhores amigos dele, vê como ele tem passado por dias difíceis...

— É, eu vejo... Mas eu não sei o que se passa na cabeça dele...

— E por que você acha que eu saberia?

— De todos nós, você é o mais próximo dele. Às vezes parece que só você consegue realmente conversar com ele quando ele se fecha desse jeito.

Hyoga passou a espátula por baixo da panqueca e a virou no ar. Não era à toa que o vínculo entre eles havia crescido tanto; nos últimos tempos, tinham se aproximado ainda mais. Às vezes, Hyoga até dividia as mesmas cobertas com ele para ajudar a espantar os pesadelos da guerra, acolhendo-o enquanto tentava fazê-lo dormir com sussurros tranquilos, piadas bobas ou o que quer que Shun estivesse disposto a aceitar no momento.

— Talvez seja porque eu não cobro nada dele...

Seiya franziu a testa. Hyoga observou a massa dourando lentamente na frigideira.

— Eu não cobro que ele sorria. Não fico perguntando se está tudo bem quando sei perfeitamente que não está. E não exijo que ele finja que está bem só para me tranquilizar...

Ele fez uma pequena pausa, o olhar fixo no fumaça doce que subia da massa.

— Às vezes, ele só precisa de alguém que fique ao lado dele sem exigir que ele diga alguma coisa... É isso o que eu faço.

​— Faz sentido — Seiya coçou a nuca. — É que a gente fica preocupado, sabe? O Shun sempre foi o coração do nosso grupo. Ver ele pra baixo assim dá um aperto no peito, como se a gente estivesse falhando com ele.

​— Vocês não estão falhando — Hyoga sem tirar os olhos do fogão. — Ele só precisa de tempo pra juntar os pedaços. O Shun sente tudo com uma intensidade muito maior do que a nossa... Ele absorve a dor dos outros e esquece de curar as próprias feridas.

​— É verdade... — Seiya suspirou. — Mas é bom saber que você é a única pessoa que consegue acalmar o coração dele só de estar por perto.

​— É o mínimo que posso fazer — Hyoga concordou.

​— O Shun gosta muito de você, sabia? — Seiya disse, notando como os olhos do Cisne ganhavam um brilho diferente ao falar do virginiano.

— Ele gosta de todos nós, Seiya. — Hyoga respondeu, mas quase deixou a panqueca passar do ponto no fogo. Por mais que tentasse desconversar, lá no fundo ele não podia negar: gostava do Shun de um jeito que ia muito além da amizade, e sabia que o virginiano sentia exatamente a mesma coisa por ele.

— É, mas de você ele gosta de um jeito diferente.

Hyoga deu de ombros, virando mais uma panqueca.

— Somos apenas bons amigos.

— Ah, tá bom! — Seiya apoiou o queixo nas mãos, com os cotovelos fincados na mesa, bancando o detetive fofoqueiro — Amigos de verdade não costumam passar metade da noite deitados na grama vendo as estrelas, brincando de apontar para cada constelação. E amigos normais também não ficam olhando para as nuvens à tarde, tentando adivinhar os formatos e debatendo se elas têm gosto de algodão-doce.

​— Você... é bem mais esperto do que eu pensava — Hyoga sentiu o rosto arder. Ele não fazia ideia de que Seiya andava tão atento ao que acontecia nos jardins quando ele e Shun saíam para caminhar e espairecer.

​— Claro! Não é à toa que eu sou o mais emotivo do grupo!

​— Agora eu entendo por que você chora assistindo Marley & Eu

​— Pô, mas matar o cachorro no final é sacanagem! — Seiya protestou.

​Hyoga riu alto, Mas, logo em seguida, a expressão do Pégaso mudou, dando lugar a um olhar caloroso e surpreendentemente maduro.

​— Mas falando sério agora... O presente de aniversário que o Shun tanto recusou esse ano não vai ser os cupcakes, as panquecas ou o café quente... A sua presença é o verdadeiro presente que ele vai receber.

— Desde quando você ficou tão emotivo e começou a dar conselhos de coach?

— Quando a gente conhece a dor de perto, Hyoga... a gente aprende a observar as coisas mais simples. Tipo o amor que floresce em silêncio entre dois amigos.

— É mais complicado do que parece, Seiya...

— Não é, não. ​ Pra falar a verdade, acho que você gosta do Shun desde que a gente era moleque. Ou vai me dizer que esqueceu?

​— Me esqueci do quê?

​— De como você sempre protegia ele! E não vem com essa de que era só porque ele era o mais novo — Seiya apontou o dedo. — Quantas vezes você não peitou o Tatsumi só pra não deixarem o Shun fazer tarefas pesadas demais? Sem falar naquelas tardes congelantes em que você tirava o seu próprio casaco pra dar pra ele, preferindo passar frio só pra não ver o seu amigo tremer.

​— Ele era o mais novo... — justificou o loiro.

​— Era carinho, Hyoga — Seiya corrigiu.. — O amor de vocês não nasceu ontem. Ele só foi se fortalecendo, ganhando espaço a cada batalha, até virar essa certeza bonita que vocês têm hoje.

​— Você tá ficando mais meloso que calda de caramelo, hein...

— Eu tô tentando dar um empurrãozinho em dois amigos que são completamente apaixonados e morrem de medo de dar o primeiro passo.

— A gente não tem medo — Hyoga retrucou, ajustando o prato de panquecas. — A gente só sabe respeitar o tempo um do outro.

— Pois não perde tempo, Hyoga. Se tem uma coisa que a gente não tem nessa vida, é tempo — Seiya disse. — A gente anda com um pé na cova em cada batalha, quantas vezes não passamos a um passo de morrer? Não deixa pra amanhã. Você não precisa nem confessar tudo em palavras... só mostra pra ele. Demonstra que ama ele, do seu jeito.

— Às vezes eu esqueço que, por trás dessa barulheira toda, você pensa — Hyoga deu um sorriso, reconhecendo a verdade naquelas palavras.

O Pégaso desferiu um soco camarada em seu ombro, quebrando o clima solene.

— Posso pegar um pouco disso? — Seiya esticou o pescoço e apontou para o pote de mel que Hyoga pretendia usar nas panquecas.

— Pode, sua abelha sem colmeia — respondeu Hyoga. — Mas pega só um pouco!

Seiya já havia se aproximado da bancada e furtado uma colherada generosa, lambuzando a boca toda de mel antes de sair saltitante.

— Até mais, Mestre Cuca! — despediu-se o Pégaso.

Hyoga continuou virando as panquecas, garantindo que ambos os lados dobrassem de tamanho e ficassem com uma cor dourada.

Empilhou-as cuidadosamente em um prato, deixando o monte alto e suculento, e derramou a calda de mel por cima, molhando cada camada. No mesmo instante, o cronômetro do forno apitou.

Ele correu para retirar a assadeira de cupcakes, que tinham crescido perfeitamente, assados de forma homogênea por dentro e por fora. Colocou as forminhas sobre um prato e usou um sopro sutil de seu cosmo gelado para esfriá-los de maneira antinatural. Com a massa em temperatura ambiente, fez um pequeno furo no centro de cada um, arrancou os miolos e usou uma bisnaga para recheá-los até quase estufarem.

Organizou tudo em uma grande bandeja de madeira: o prato de panquecas banhadas em mel, alguns dos cupcakes recheados e os quatro últimos morangos que haviam sobrevivido à Seiya. Não dava para decorar todos os bolinhos, mas sabia que Shun adorava frutas frescas de qualquer jeito. Colocou também um pequeno pote extra de mel, caso o aniversariante quisesse adoçar ainda mais a refeição.

Para completar, posicionou no canto da bandeja uma xícara de café recém-passado, finalizado com uma camada fina de leite vaporizado por cima, e duas fatias de pão de forma.

Quando se preparava para suspender a bandeja e equilibrar o banquete, Shiryu retornou à cozinha. O Dragão arregalou os olhos diante da montanha de comida;

— Hyoga, por acaso o Shun tá indo para a Guerra Santa de novo? Tem comida aí para alimentar um batalhão de Cavaleiros de Ouro.

— Tá muito? Eu achei que estivesse pouco...

— Você exagerou! Vai transformar o garoto em um barril antes mesmo do Natal — Shiryu riu. — Você sabe que o Shun é educado demais e vai comer absolutamente tudo o que você oferecer.

— Sério? — Hyoga encarou a bandeja. — Então é melhor eu remover alguma coisa... Ele gosta de panqueca? É, ele gosta. E quanto ao pão? Ele gosta de pão de forma, apesar de odiar as bordas.

— Como é que é?

— Eu reparei nisso — explicou Hyoga. — Ele sempre tira as bordinhas do pão antes de comer.

— Impressionante... — murmurou Shiryu, surpreso.

— Quer saber? Acho que vou tirar o café com leite — continuou Hyoga, prestes a recolher a xícara. — Apesar de estar exatamente do jeitinho que ele gosta.

— E qual é o jeito que ele gosta? — indagou o dragão, curioso.

— Meio amargo, com três partes de café para uma de leite integral e sem nenhuma colher de açúcar, porque ele prefere o doce das panquecas para acompanhar.

Shiryu piscou algumas vezes, profundamente impressionado com a capacidade do amigo de notar detalhes tão minuciosos e cotidianos. Quando Hyoga esticou a mão para remover o prato de pães, o Dragão o segurou pelo pulso.

— Não, não... Não tira nada. Está tudo perfeito.

— Tem certeza? — Hyoga olhou para ele.

— Tenho certeza absoluta — Shiryu sorriu calorosamente. — O Shun vai adorar cada detalhe.

Hyoga sorriu, mas logo a preocupação falou mais alto.

— E ele já acordou? Ele dormiu bem? — A pergunta saiu rápida, revelando que seu verdadeiro receio não era a quantidade de comida na bandeja, mas sim o bem-estar e o descanso do virginiano.

— Por que você não pergunta diretamente para ele? — sugeriu Shiryu.

O cosmo de Shun se aproximava suavemente pela casa. Era uma energia inconfundível. Enquanto o cosmo de Hyoga era frio e distante, o de Ikki era quente, febril e quase agressivo como chamas fora de controle, o de Shiryu era sereno como águas tranquilas e o de Seiya transbordava uma vibração impetuosa e cheia de vida, o de Shun era acolhimento. Era uma aura morna, suave e envolvente, como uma brisa que abraçava a todos ao redor.

— Bom dia, Shiryu... — murmurou, a voz ainda aveludada pelo sono.

Shun apareceu na porta da cozinha coçando os olhos devagar. Seus cabelos verdes estavam presos em duas tranças folgadas para não embaraçarem enquanto dormia, dando-lhe um ar incrivelmente jovem e calmo.

— Bom dia, aniversariante... Quer dizer, bom dia, dorminhoco! — corrigiu-se Shiryu a tempo, cumprindo o combinado de não fazer alarde sobre a data. — Dormiu até mais tarde hoje, hein?

— Fazia tempo que eu não dormia tão bem... — Shun sorriu, lembrando-se da noite anterior. Havia adormecido com os dedos de Hyoga deslizando por seus cabelos, enquanto ele lhe contava uma antiga lenda nórdica sobre estrelas que guiavam os viajantes de volta para casa.

Hyoga, no canto da bancada, sorriu de canto ao ouvir aquilo, satisfeito por ter ajudado a afastar os pesadelos dele.

Shun então virou o rosto na sua direção, os olhos brilhando com a luz da manhã:

— Bom dia, Hyoga...

Hyoga quase derrubou o prato que segurava. A saudação "feliz aniversário" quase saltou da sua boca, mas ele se atrapalhou no meio do caminho, soltando um desajeitado:

​— F-Feliz aniver... Digo... Bom dia! Que o seu dia seja... muito feliz!

Shun revirou os olhos. Antes que a conversa avançasse, Shiryu aproximou-se:

​— Shun, eu tenho uma coisa para você.

​— Shiryu, eu disse que não queria presentes este ano... — o menor começou a recusar, com um sorriso envergonhado.

​— Não é um presente — interrompeu e tirou do bolso uma delicada pulseira feita de pequenos galhos e cipós trançados com. — É um amuleto de boa sorte.

​Shun olhou para a peça, o rosto iluminando-se, visivelmente contente com o detalhe e o carinho do gesto.

​— Posso colocar em você? — perguntou Shiryu, erguendo a pulseira.

​— Pode, pode... pode sim! — respondeu Shun, estendendo o pulso.

​Shiryu ajustou o amuleto ao redor do braço do amigo, amarrando o trançado com paciência, explicar:

​— Fiz com ramos da árvore mais antiga de Rozan. Na cultura chinesa, essa madeira traz proteção, afasta energias pesadas e renova as forças de quem a carrega.

​— Shiryu... não precisava, de verdade — disse, admirando o trabalho artesanal no próprio pulso, tocando a textura da madeira com os dedos. — Mas é linda. Obrigado.

— Para quem viveu a vida quase toda na China, até que eu entendo um pouquinho das tradições de lá, não acha? — brincou o Dragão. Ele deu um tapinha afetuoso no ombro de Shun, piscou discretamente para Hyoga e começou a se retirar da cozinha. — Vou deixar vocês aproveitarem o café. Licença.

— Tchau, Shiryu! Obrigado de novo! — disse Shun, acenando enquanto o amigo saía.

​Hyoga observou o detalhe do trançado no braço do menor.

​— Ela é linda, Shun... combina muito com você — elogiou o loiro.

​— Pois é... — Shun sorriu. — Bem que eu estava precisando de um pouco de sorte ultimamente.

​Hyoga olhou para a pulseira no pulso de Shun e depois para a sua própria bandeja. Um pontada desanimada brotar, fazendo-o encarar o prato de panquecas com uma pitada de insegurança. Afinal, como é que ele iria competir com um amuleto sagrado feito à mão com madeira milenar chinesa?

Alheio aos pensamentos do russo, Shun encarou a montanha de comida equilibrada na bandeja.

— Isso tudo... é para mim?

Hyoga olhou para o banquete de panquecas, cupcakes, pães e café.

— Não! Quer dizer... Sim. Eu... você acha que eu exagerei?

Shun olhou da bandeja para os olhos azuis de Hyoga e soltou uma gargalhada, a mais sincera que havia dado em semanas:

— Pensei que a ideia fosse alimentar os Cavaleiros de Bronze, ressuscitar os de Ouro e ainda chamar os de Prata para comer com a gente!

— Me desculpa... — Hyoga baixou o olhar, envergonhado, passando a mão na nuca. — Você sabe que eu não tenho noção nenhuma de quantidade.

— Ah, Hyoga, eu adorei tudo... Tudo, mesmo. — Shun pegou um cupcake e deu uma mordida generosa, fazendo o recheio escapulir pelo canto da boca.

— Opa... Já cheguei fazendo lambança — rindo com a boca cheia.

— Deixa que eu limpo — Hyoga usou a ponta do polegar para limpar o chocolate no canto do queixo do menor.

— Obrigado... — Shun agradeceu, olhando-o nos olhos.

— De nada — Hyoga sorriu, retribuindo o olhar.

— Isso aqui está muito bom! De verdade!

— Sério? Olha que eu fiz de qualquer jeito, nem prestei atenção...

— Não minta, Hyoga. Você não sabe mentir — rebateu Shun, balançando balançando o bolinho no ar. — Você pode até fingir que é frio e não sente nada, mas mentir você não sabe.

— Tá bom... Eu acordei às três da manhã para dar conta de fazer tudo a tempo.

— Horário do diabo! — brincou Shun, dando mais uma mordida no bolinho.

— Pois o diabo que estava aprontando nessa cozinha não tinha pele vermelha, rabo ou chifres — Hyoga apontou para o próprio cabelo ainda cheio de farinha. — O diabo da cozinha tem cabelos loiros salpicados de neve e um avental improvisado que não serve pra nada!

— E o nariz sujo de mel! — completou Shun, rindo.

— Como assim? — Hyoga não entendeu.

— Hum... Delícia! — Shun passou o indicador na calda de mel da panqueca e espalhou uma gotinha bem na ponta do nariz de Hyoga e depois levou o dedo à própria boca para lamber o excesso.

— Que bom que está aprovado pelo controle de qualidade... — disse Hyoga, corando levemente, limpando o nariz.

— Muito aprovado! — Shun pegou o garfo e a faca para cortar um pedaço da panqueca. Ao provar, fechou os olhos e soltou um murmúrio satisfeito: — Hum... Mmm!

— Ficou bom mesmo? — Hyoga ficou curioso com a reação.

— Ficou perfeito! — Shun engoliu e olhou para ele. — Como é que se diz "gostoso" em russo mesmo?

Vkusno — respondeu o Cisne.

Shun tentou repetir, mas deu uma tropeçada na pronúncia:

— Fukuzno?

— Quase lá, mas não exatamente — Hyoga falou bem devagar, enfatizando o som das sílabas: — V-kus-no. Junta o som do V no começo.

Shun concentrou-se, prestou atenção nos lábios do russo e tentou de novo, com o sotaque certinho:

Vkusno!

— Isso! Perfeito! — comemorou Hyoga, abrindo um sorriso radiante de orgulho.

Shun riu, meio sem graça com a empolgação exagerada do amigo, e escondeu o rosto atrás da xícara de café quente.

— Você quer sentar?

— Não... Eu tô bem em pé — Shun bebericou mais um gole do café, pegando novamente um pedaço da panqueca.

— Mas você sempre fala que nós não somos cavalos para comer em pé! — lembrou Hyoga, puxando uma das cadeiras para o amigo.

— E você por acaso já viu algum cavalo com uma bandeja de panquecas e cupcakes, Hyoga? — Shun retrucou finalmente cedendo à insistência do russo, ele se sentou na cadeira que lhe fora oferecida.

Hyoga sentou-se exatamente na sua frente, cruzando os braços sobre a mesa. Ficou ali, apenas observando Shun desfrutar do café da manhã. Assim como Shiryu havia prevendo, Shun era gentil demais: experimentou e comeu de tudo um pouco para não fazer desfeita. Comeu as panquecas, os cupcakes e até o pão de forma — ficando visivelmente impressionado ao notar que Hyoga tinha tirado as bordas. Era um detalhe tão imperceptível para a maioria, mas que o russo guardara na memória há tempos.

Depois de terminar quase tudo, Shun pegou o último morango e o levou à boca.

— Hyoga... Você não precisava ter feito tudo isso.

— Não precisava, mas eu fiz — Hyoga o encarou. — E não é só porque hoje é seu aniversário, mas porque você merece ser cuidado assim todos os dias, e não apenas em uma data do ano.

— Eu nem sei o que dizer... Tá tudo perfeito, de verdade. Eu acho que nunca me senti tão mimado no meu aniversário como hoje.

— E ainda não acabou.

— Meu Deus... — Shun arregalou os olhos. — Você pretende fazer um almoço que alimente todos os participantes do Torneio Galáctico? Ou um jantar tão grande que vai me fazer descer as doze casas do Santuário rolando?

— Por mais que eu quisesse testar meus limites na cozinha, meu próximo presente não é comida — respondeu Hyoga, apoiando o queixo na mão.

​— O que é, então?

​— Você tá bem curioso, né?

​— Não tô... — Shun tentou disfarçar, tomando um gole de café com cara de paisagem.

​— Tá sim! Você tá se mordendo de curiosidade... Olha pro seu nariz, tá até tremendo igualzinho a um coelhinho pedindo cenoura!

​— Eu não tô tremendo nada! — Shun riu, balançando a cabeça até as tranças acompanharem o movimento. — Eu só quero me preparar! Até porque eu hoje acordei com o barulho de um bicho estranho no jardim...

​— Do que você tá falando, Shun? — Hyoga ficou surpreso. — Você por acaso viu o Seiya sonâmbulo cavalgando no jardim?

​— Não! — Shun chacoalhou a cabeça, rindo. — Olhei pela janela do quarto e... adivinha o que eu vi?

​— O quê?

​— Tenta adivinhar... Tem o dedo do Seiya e do Jabu no meio.

​— Não me diga que o Seiya e o Jabu finalmente acharam um unicórnio de verdade na Grécia?

​— Então você sabia que eles pretendiam me dar um animal exótico?!

— Eu sabia... Quer dizer, não sabia ao certo! O Seiya e o Jabu comentaram algo, mas quem é que acredita no que aqueles dois falam? E você tinha dito bem claro que não queria presentes nem comemoração... Não achei que eles fossem ter a audácia de quebrar uma ordem tão explícita.

— A menos que o animal fosse fofo, eu realmente não iria contestar. Mas você sabe o que eles me deram?

— O quê?

— Uma alpaca! Embora, para ser honesto, eu ache ela perfeitamente parecida com um camelo miniatura.

Shun soltou um risinho, um som doce que pareceu aquecer toda a cozinha.

— E o pior: eu nem posso devolver! Se eu disser que não quero, vou ter que mandar o Seiya e o Jabu empacotados junto com ela direto para o Egito!

Hyoga sorriu de canto, com o absurdo da história.

— Bom, olhe pelo lado positivo: se o Ikki resolver aparecer irritado de surpresa, a gente coloca a alpaca na frente dele. Dizem que elas têm um cuspe certeiro... Pode ser mais eficiente do que a sua Corrente de Andrômeda!

Shun abriu um sorriso espontâneo, e Hyoga apenas o acompanhou. Aos poucos, a conversa foi diminuindo e o russo ficou apenas ali, parado, admirando os traços tranquilos do amigo.

— O que foi? — perguntou Shun, estranhando o olhar demorado que o loiro lhe lançava.

​— Nada — respondeu Hyoga. — Só fico feliz quando vejo você sorrindo de verdade. Faz bem olhar pra você assim.

​Shun corou. Envergonhado, baixou os olhos para as próprias mãos na mesa, mexendo no contorno da pulseira de madeira para disfarçar a timidez.

​— Bom... — Hyoga tomou a iniciativa de novo, aproveitando o momento. — Você ainda quer saber qual é o seu segundo presente?

​— Sim, quero muito... — Shun admitiu, erguendo o olhar de novo, curioso.

​— O seu presente sou eu. — Hyoga deu um sorriso convencido e encostou as costas na cadeira.

​— O quê? — Shun piscou algumas vezes, dividido entre a surpresa e a vontade de rir.

​— Não quero ser nada modesto — continuou o Cisne, cruzando os braços. —, mas eu sou uma excelente companhia..

​— Claro... quando não está congelando a mobília toda — pontuou, provocando-o.

— Eu não faço mais isso!

— Não... Só quando tá zangado, triste, preocupado... — listou o menor, contando nos dedos. — E principalmente quando fica entusiasmado ou empolgado demais com alguma coisa.

Eu posso congelar tudo ao meu redor, mas quando fico do seu lado... eu sempre me controlo. Você me acalma, Shun.

— É irônico ouvir isso de alguém com o cosmos de gelo —Shun ficou mais rubro do que a cor dos morangos na bandeja. — Mas é bom saber que eu tenho esse tipo de controle sobre você.

— Não abusa do poder, Andrômeda.

— E como é que eu faço para usufruir desse presente? — Shun mordeu o lábio inferior e apoiou o queixo na mão:

— Bom, o pacote do presente físico inclui a minha presença constante durante o seu dia inteiro — anunciou Hyoga. — Isso contempla passeios pelo jardim, escolta pessoal pela casa e um tour guiado de altíssimo nível pelo Santuário.

— Eu não preciso de tour, Hyoga. Já conheço cada canto daqui, inclusive os segredos mais profundos e antigos do Santuário. — Shun agora cruzou os braços, contendo o sorriso. Qual era a graça de ganhar de presente um loiro bobão que só ia ficar andando pela casa com ele?

— Mas eu sou um guia turístico excelente!

— Por que excelente? —sobrancelha verde quase bateu na testa.

— Porque eu minto que é uma beleza! — Hyoga apontou com o indicador para um vaso de cerâmica genérico que estava em cima do balcão. — Está vendo aquele vaso ali? Se você fosse um visitante, eu diria que ele pertenceu diretamente a um Faraó egípcio e foi resgatado de uma tumba sagrada por cavaleiros lendários.

Shun desmentiu o amigo na mesma hora, rindo do absurdo.

— Que Faraó o que nada, Hyoga! O Seiya comprou isso num brechó qualquer. É um vaso super vagabundo, e a gente só não jogou fora ainda porque tem valor sentimental, já que foi ele quem deu.

— Viu só? Eu sou um guia espetacular! Deixei a história mil vezes mais interessante! — Hyoga abriu os braços, todo orgulhoso da própria lábia.

Shun não aguentou o cinismo do russo. Passou o indicador devagar no mel que tinha sobrado no canto do prato e esticou o braço, melando a ponta do nariz de Hyoga, completando o gesto com um leve tapinha na bochecha dele.

— Você é um enrolador, isso sim! — riu Shun, vendo a cara de espanto do Cisne ao sentir a gosma doce na pele.

— Ei! Isso é desacato ao seu guia. — reclamou Hyoga, limpando o nariz com o guardanapo. — Enfim... O senhor Andrômeda já está devidamente alimentado e pronto para o seu tour exclusivo?

— Eu posso recusar esse presente?

— De jeito nenhum. Esse não aceita devolução e não tem garantia — Hyoga respondeu.

— Tá bom, tá bom... Eu me dou por vencido — Shun levantou-se da cadeira. — Só me dá alguns minutos para eu tirar o pijama e trocar de roupa. Não acho que um tour com um "guia espetacular" combine com calça de algodão e pantufas.

Shun deu a volta na mesa e seguiu em direção ao corredor, deixando Hyoga para trás esperando na cozinha.

Pouco tempo depois, o virginiano retornou à cozinha. Seus cabelos verdes agora estavam soltos, caindo sobre os ombros, e ele vestia roupas leves e confortáveis. Um sorriso tranquilo repousava em seu rosto.

Hyoga levantou-se da cadeira e ofereceu o braço. Shun aceitou, e os dois saíram caminhando de braços dados pela propriedade.

O russo era um completo bobo. Inventava as mentiras mais absurdas e cabeludas pelo caminho, arrancando risadas de Shun, que há tempos não se sentia tão leve e em paz.

​A caminhada continuou até chegarem ao jardim, parando diante da pequena fonte da mansão onde alguns passarinhos banhavam-se e bebiam água.

​— E aqui — anunciou Hyoga, impostando a voz como um historiador refinado — temos a lendária Fonte dos Desejos do Santuário. Diz a tradição que quem joga uma moeda aqui ganha um desejo... e quem beber da água ganha uma diarreia instantânea.

​Shun olhou para o pequeno jorro d'água, depois para os passarinhos batendo as asas na borda.

​— É por isso que o Seiya passa mal direto? Ele achava que era água potável e não a fonte dos desejos?

​— Ei! Não estraga a minha narrativa histórica! — reclamou Hyoga e Shun rolou os olhos. ​— Vai em frente, pede alguma coisa — incentivou o Cisne, tirando uma moeda do bolso e entregando na mão dele.

​— Posso pedir para você parar de falar por cinco minutos?

​— Negativo. Nunca na história do mundo existiu um guia turístico mudo.

​— Uma pena... Seria o meu maior desejo de aniversário — rebateu Shun, segurando a moeda entre os dedos enquanto encarava a água límpida da fonte.

Shun lançou a moeda na água. Um suave plash ecoou pelo jardim antes de a superfície voltar a se aquietar. Ele fechou os olhos, uniu as palmas das mãos em frente ao peito e entrelaçou os dedos, fazendo o seu pedido.

​— O que você pediu?

— Se eu contar, não se realiza.

— Bom, a fonte não é mágica de verdade... Mas se você me contar o que pediu, eu posso dar um jeito de transformar em realidade.

Shun olhou para ele, o vento suave movendo seus cabelos.

— Eu pedi para que este dia demorasse um século para acabar.

— Se eu fosse você, não pediria isso.

— Por que não?

— Porque a vida é bonita demais para você ficar preso em um dia só — Hyoga ergueu a mão devagar, seus dedos frio tocando o queixo de Shun. — E se você permiti que o tempo corra, eu prometo que amanhã, e em todos os outros dias, vou fazer de tudo para você se sentir exatamente assim.

— Com você prometendo isso... eu nem me importo se o tempo passar rápido demais.

Os olhares que trocaram naquele instante já não eram mais de dois simples amigos.

— Que bom — o loiro acariciou sua bochecha. — Porque eu pretendo cumprir essa promessa nos mínimos detalhes.

— Eu acho que flertes não estavam incluídos no pacote turístico de presente de aniversário — provocou Shun.

— É um mimo adicional. Cortesia da casa. — Hyoga ergueu o queixo de Shun mais para a sua direção.

​— Hyoga... — Shun balbuciou, os lábios ligeiramente abertos.

— É errado o que eu estou pensando em fazer agora... — O polegar de Hyoga deslizou pela pele macia da bochecha de Shun, fazendo um carinho circular que deixou o menor ainda mais rubro.

​— Por quê? — perguntou Shun, o olhar preso nos lábios do outro.

​— Porque eu quero te beijar... — confessou Hyoga, com os olhos fixos na boca de Shun, desejando intensamente tocá-la, prová-la e umedecê-la com a sua.

​— Então me beija — pediu o virginiano, envergonhado com a própria ousadia, mas já ficando na ponta dos pés. — É o único presente que eu realmente quero de você.

​Hyoga aproximou-se e finalmente juntou seus lábios aos de Shun em um beijo carinhoso, carregado de todo o afeto e amor que ambos guardavam no peito desde a infância.

​Shun correspondeu , fechando os olhos e retribuindo o toque, enlaçando o pescoço do Cisne. Os lábios do virginiano eram mais doces do que qualquer mel que Hyoga havia usado na cozinha naquela manhã — um doce suave, perfeito, que não enjoava e que deixava no russo a vontade incontrolável de continuar beijando-o por muito tempo.

​Eles só se separaram quando o ar faltou, com os lábios se desprendendo devagar à procura de fôlego.

​— Hyoga... — Shun apertou os ombros do loiro, dando um último selinho carinhoso.

​— Desculpa, eu... eu não deveria — Hyoga tentou se explicar, sentindo o gosto irresistível de Shun ainda vivo em sua boca.

​— Sim, você deveria... Deveria muito — interrompeu Shun. Ele segurou o rosto do russo e o puxou para mais um beijinho rápido. — Meu dia está sendo incrivelmente especial.

​— É você quem faz o meu dia especial, Shun...

​Shun sorriu e o abraçou apertado pela cintura, escondendo o rosto no peito do Cisne.

​— Na verdade... eu só queria dizer que... — começou Hyoga, prestes a declarar com todas as letras o quanto o amava.

​— Eu já sabia — interrompeu Shun, abafando sorriso contra o peito do outro.

​— Sabia? Que eu amo você?

​— Desde quando eu tinha seis anos — revelou Shun.. — Quando eu caí no treino, ralei o joelho e você me carregou até a enfermaria desesperado, como se fosse um ferimento gravíssimo.

​— Mas era grave!

​— Um joelho ralado não era uma emergência, Hyoga — Shun riu, acariciando o rosto dele. — Obrigado... por tudo de verdade.

​— Eu é que agradeço por ter você na minha vida — respondeu Hyoga, retribuindo o sorriso com ternura.

​— Está sendo o melhor dia da minha vida.

​— Eu garanto que posso deixá-lo ainda melhor — prometeu Hyoga, abraçando-o com força, enquanto a manhã calma do Santuário os envolvia.

Ajustando o passo, os dois continuaram a caminhada pelo jardim até encontrarem um gramado macio. Eles deitaram-se lado a lado na grama fresca para olhar o céu, com as cabeças tão próximas que as mechas loiras e verdes se misturavam na vegetação.

— Aquela nuvem ali... — Shun apontou para o alto, observando as formas alvas contra o azul. — Parece que tem gosto de algodão-doce.

— Acho que deve ter gosto daquela raspinha de gelo do congelador que a gente raspava escondido com a faca e fingia que era sorvete.

— Que nojo, Hyoga! — Shun riu, dando um tapinha no braço dele.

— Você não achava nem um pouco nojento quando a gente usava o banquinho para subir e roubar gelo da geladeira sem o Tatsumi ver.

— Faz tanto tempo isso... — sussurrou o virginiano, nostálgico.

— Eu sei...

Eles voltaram a focar no céu, com o vento trazendo o perfume das flores.

— Aquela dali... tem formato de um gato? — Shun apontou para uma nuvem mais gordinha.

— É claramente uma lontra — decretou Hyoga.

— Lontra não tem orelha apontada para cima daquele jeito! É um gato sentado.

— Onde já se viu gato sem rabo? É uma lontra nadando de costas, Shun!

A discussão bobinha continuou por vários minutos, num debate sério sobre a anatomia das nuvens, até que a suposta lontra começou a se desmanchar no vento, virando algo que parecia um pão de forma gigantesco.

Aproveitando a distração de Shun, Hyoga deu um giro rápido no corpo, virando-se sobre a grama e posicionando-se por cima dele, apoiando os cotovelos de cada lado da cabeça do menor.

​— Ei... — Shun soltou, pego de surpresa pelo movimento rápido.

​— É a única forma de fazer você admitir que era uma lontra...

​Shun sorriu e se inclinou, calando-o com mais um beijo.

​— Você tá apelando só para quebrar e acabar com a discussão! — acusou Shun entre risinhos, assim que suas bocas se separaram.

​— E você pode me culpar? É o melhor modo de encerrar qualquer debate.

​Eles se beijaram de novo. Os dedos de Shun afundaram nos cabelos loiros do russo, puxando-o para mais perto enquanto saboreava seus lábios.

— Eu adoro estar aqui com você — Hyoga interrompeu o beijo para roçar suavemente o nariz no de Shun. — Obrigado por existir, Shun.

— Eu que agradeço por você ser exatamente assim... a minha melhor parte do dia.

​A atmosfera romântica, porém, durou pouco. Hyoga sentiu um puxão no tornozelo e uma mastigação insistente na ponta do seu cadarço. Ao olhar para baixo, deu de cara com a alpaca que Seiya e Jabu haviam dado de presente, encarando-o com olhos enormes enquanto mastigava o cadarço do seu tênis

— Mas o que é isso?! — Hyoga deu um pulo para o lado, assustado, saindo de cima de Shun e rolando na grama.

— Calma! Ela é mansa. Vem cá, amiguinha... — Shun fez um estalo com os dedos, e o animal se aproximou devagar, encostando o focinho na mão dele.

— Eu não acreditei que aqueles dois realmente trouxeram essa coisa para cá — resmungou Hyoga, sentado na grama.

— Deixa de ser medroso, Hyoga!

— Eu só não quero levar uma cuspida na cara no meio da tarde — brincou o Cisne. Vendo o carinho de Shun, acabou caindo na tentação e esticou a mão devagar para afagar a cabeça felpuda do bicho. — É... olhando bem, ela até que é bonitinha.

​E bem nessa hora, como se tivesse entendido o comentário, a alpaca soltou um som nasal e deu uma cuspida em cheio no ombro de Hyoga.

​— Ei! Menina má! Menina má! — reclamou Hyoga.

​— Hyoga! Tadinha dela, não fala assim! — defendeu Shun, enquanto o animal ignorava o russo e começava a esfregar o rosto fofo no pescoço do virginiano.

Eles passearam pela propriedade com a alpaca os seguindo como um cão de guarda felpudo. Trocaram empurrões brincalhões e, em um momento espontaneidade, Hyoga pegou Shun no colo e o rodopiou no ar, — até que os dois perderam o equilíbrio e caíram juntos no meio do canteiro de flores.

— Ai meu Deus! — exclamou Shun, olhando ao redor. — O Tatsumi vai nos matar! Essas eram as flores preferidas dele!

— Se ele reclamar, a gente diz que a alpaca invadiu o canteiro e devorou tudo — rebateu Hyoga sem o menor remorso, fazendo Shun rir novamente.

Eles se beijaram mais uma vez ali mesmo, cercados por pétalas amassadas, enquanto o animal apenas os observava com cara de poucos amigos, mastigando uma folha solta.

Quando a noite caiu, o ar fresco da Grécia trouxe um céu completamente limpo. Eles voltaram para o gramado, cobriram-se com um manta e ficaram deitados observando as constelações. Hyoga apontava para as estrelas, recontando histórias antigas, mas o verdadeiro presente de Shun não era a vista, e sim a presença constante, aquecida e protetora do russo ao seu lado.

O cansaço e o conforto finalmente venceram Shun, que adormeceu com a cabeça apoiada no peito de Hyoga, ouvindo as batidas tranquilas do coração do Cisne.

Pela manhã, Shun despertou sentindo um puxão leve no topo da cabeça. Ao abrir os olhos devagar, percebeu que a alpaca estava mascando suavemente uma ponta de suas mechas verdes.

Ele deu um sorriso, sentindo o corpo um pouco dolorido pelas picadas de inseto e o orvalho da manhã. Shun nunca imaginou que acordar ao relento, no meio do mato e sendo mastigado por um bicho exótico pudesse ser a melhor sensação do mundo. Mas havia sido a noite de sono mais profunda e tranquila em meses: sem visões da guerra, sem pesadelo, sem sombras. Apenas a paz e a certeza de que, acontecesse o que acontecesse, Hyoga estaria ali.

Fim.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.