Eu Sou Sua Escuridão
5 Capítulo 5
Bill estava confortavelmente deitado. Havia pegado no sono sem perceber. Respirou fundo e decidiu que era hora de abrir os olhos.
Estava deitado na cama de Eric, ainda no apartamento. Eric dormia profundamente e seu corpo se encontrava perfeitamente encaixado as curvas do corpo de Bill. A cabeça do garoto repousava no peito de Bill e o único som presente era o da respiração pesada dos dois.
Bill estendeu a mão direita em direção aos cabelos do garoto que dormia, mas hesitou. Percebeu que até aquele momento ele não havia se apresentado á ele, apesar de ter invadido a sua casa. Não tinha a menor intimidade para um gesto como aquele, mas mesmo assim sua mão percorreu o caminho até a cabeça dele e o afagou. Ele parecia tão inocente e alheio ao mundo enquanto dormia. Aquela aura negra que o cercava ainda estava presente, porém fraca e Bill não queria se esforçar para vê-la. Ele parecia muito mais bonito sem aquela escuridão ao seu redor.
O silêncio foi interrompido pelo toque do celular de Bill. O aparelho vibrou através das suas roupas e Eric abriu os olhos, subitamente se afastando do outro. Bill tateou o bolso da calça até conseguir agarrar o celular e atender.
Era um amigo, prestando suas condolências por Andreas. Bill percebeu que Eric o encarava, sentado sobre as pernas na cama e se apressou para cortar a conversa.
– Eu... acho que ainda não me apresentei. – Bill começou, mas foi interrompido pelo garoto que voltou a se aproximar dele na cama.
– Bill Kaulitz. – Eric falou.
– Sabe quem eu sou?
– E quem não sabe quem você é? – Eric tinha um olhar divertido quando falava. – Acho que tenho de agradecer por isto, não é? – Falou apontando para o pulso enrolado em faixas que agora apresentavam duas linhas vermelhas no lugar dos cortes. Antes que Bill falasse mais alguma coisa, ele começou a desenrolá-las, deixando visíveis os cortes recentes e os outros mais antigos. Ele estendeu os dois pulsos para que Bill pudesse conferir. Havia pelo menos dez cicatrizes em cada braço e no braço esquerdo havia uma cicatriz tão grossa que Bill acharia difícil alguém ter sobrevivido á um corte daquele sem precisar levar pontos.
– Por que você faz... – Bill começou, mas seu telefone tocou de novo. Desta vez era Tom. Ele se desculpou e se sentou na cama com as pernas esticadas e atendeu ao celular.
Tom estava preocupado. Bill saiu para o estúdio logo cedo, mas não havia chegado lá quando Tom ligou para o lugar. Bill tentou explicar que estava na casa de um amigo e que acabou perdendo a hora, mas percebeu que era inútil argumentar com Tom. Ele estava fora de si. Por fim decidiu que teria que acalmá-lo pessoalmente e desligou o celular.
Ia retomar a pergunta anterior para Eric, mas o garoto engatinhou na direção de Bill, mantendo o rosto tão perto do dele que Bill podia sentir sua respiração na pele. Se lembrou de quando Eric o empurrara contra a parede e sem motivo aparente o beijou. Aquilo fez com que ele corasse e ele desejou que estivesse suficientemente escuro para que Eric não percebesse.
Eu não sou gay. Ele queria dizer, mas era impossível afirmar uma coisa daquelas com aquele garoto tão próximo.
– Outra hora, Kaulitz. – Eric falou e sorriu desdenhoso se afastando. – Respondo suas perguntas em outra hora. Agora vá ver seu irmão.
Bill se levantou rapidamente e olhou receoso para o garoto. Eric também se levantou e lhe deu as costas, caminhando até a porta da sacada, sem prestar mais nenhum tipo de atenção em Bill que teve de voltar sozinho até a entrada do hotel.
Tom andava tagarelando de um lado ao outro da sala enquanto Bill tentava acalmá-lo.
– Você disse que ia até o estúdio e passou a tarde toda em outro lugar! Sabe como eu fiquei preocupado quando descobri que você não estava lá?
– Eu perdi a hora, Tom. Não estava planejando ir a outro lugar, apenas me ocorreu...
– E não podia ligar para avisar? O que estava fazendo esse tempo todo?
Reduzindo minha heterossexualidade ao pó.
– Conversando...
Tom passou a mão pelo rosto e respirou fundo.
– Ok, Bill. Conversando a manhã inteira e a tarde também. Deve ter sido um assunto muito interessante. – Tom revirou os olhos, decidindo que não iria insistir no assunto – Vamos, quero sair. Que tal aquele boate que fomos outro dia?
– Não estou muito afim de... – Tom não deixou o irmão terminar a frase, já estava o puxando pelo braço até a porta. – Pelo menos me deixe trocar de roupa, não estou vestido para uma festa.
Tom parou, analisando Bill.
– Parece ótimo para mim. Ninguém vai reparar nas suas roupas em uma boate, Bill. Tem muita luz piscando. – Concluiu, sorrindo e arrastando um Bill desolado pela porta.
A boate estava exatamente como Bill recordava. Cheia de luzes piscando e bêbados dançando. Ele não gostava muito daquele lugar, mas Tom adorava. Assim que chegaram, Tom se afastou e deu em cima da primeira garota razoavelmente bonita que encontrou. O irmão tinha um gosto duvidoso quanto a garotas, porém Bill não podia fazer nada quanto aquilo. Ele suspirou e procurou se divertir indo até o bar e pedindo um uísque. Com um pouco de álcool no sangue ele poderia tentar ver algum ponto positivo naquele lugar. Ou talvez tivesse uma dor de cabeça causada pela música horrível que estava tocando.
Com a pouca dignidade que restava, ele se manteve em pé num canto da pista, escorando na parede e saboreando o uísque no copo, observando as pessoas que se acotovelavam e dançavam sem nenhum tipo de ordem.
– Nunca pensei que você freqüentasse um lugar desses. – A voz soou ao seu lado e Bill se virou.
– Eric! – Exclamou surpreso. O garoto havia se escorado á parede ao seu lado sem que Bill percebesse. – O que está fazendo aqui?!
– Não posso freqüentar uma boate? – Perguntou ironicamente. Vendo a expressão de Bill, ele acrescentou com um olhar divertido: – Nah, só estava te seguindo mesmo.
– Me seguindo? Por quê?
– Você me segue, eu te sigo. É quase como se sua vida fosse um twitter. – Ele deu de ombros. – E que lugarzinho mais baixo...
– Meu irmão gosta...
– Fico feliz que não seja seu irmão, então. – Eric estendeu a mão e retirou o copo de uísque da mão de Bill e ele próprio sorveu um gole. – Até a bebida é ruim, sinceramente...
– Eric... – Bill começou. Havia um milhão de coisas que ele queria dizer, mas nenhuma delas chegou até os seus lábios. Eric inspirou fundo e se moveu até ficar de frente para Bill. Ele usava uma camisa xadrez, calça skinny preta e um all star de mesma cor, além de duas munhequeiras listradas tampavam as cicatrizes nos pulsos. Colocou as mãos na parede ao redor de Bill que o encarou. Nunca sabia o que esperar daquele garoto.
– Já imaginou... – Eric começou, observando o modo como Bill reagia. – Se tudo isto aqui não passasse de um sonho?
Bill continuou encarando Eric, sem saber o que responder.
– A boate, as pessoas, se tudo não fosse algo da sua cabeça?
– O que... – Bill tentou dizer, mas parou. De repente foi como se tudo estivesse prestes a ruir. Sentiu que o mundo tremia ao seu redor, a música e o burburinho das pessoas se distanciavam cada vez mais. Ele voltou a olhar para Eric e para o sorriso torto que ele se forçava a colocar no rosto para manter suas verdadeiras emoções escondidas. Eric olhou em volta como se também estivesse vendo sua realidade se desfazendo como Bill imaginou que a dele estava.
E num piscar de olhos tudo voltou ao normal.
– Você é louco. – Bill disse. – O que foi que colocou no meu copo?
– Ah, Kaulitz... – Eric falou, ainda forçando o sorriso. – Eu acabei de chegar, e você não tocou na bebida desde que eu a peguei. – O garoto estendeu as mãos para o peito de Bill e se aproximou, segurando a camisa do alemão e o puxando para mais perto. – Não fiz nada. É tudo coisa da sua cabeça.
Então ele o soltou e foi embora. Bill encarou as costas dele, boquiaberto, até perdê-lo de vista em meio a multidão de pessoas.
Passou o resto da noite observando o irmão cambalear bêbado indo de garota em garota. Um verdadeiro galinha. Não sabia onde Eric tinha ido e tentou se convencer de que não se importava também. Ele me drogou! Tenho certeza de que foi isso...
Enquanto olhava para a pista de dança sentiu o peso de um olhar cair sobre ele. Do outro lado da boate, alguém o encarava fixamente. Não era Eric, disso ele tinha certeza. Bill se esforçou, ficando na ponta dos pés para tentar evitar a multidão de pessoas que estavam na frente. Era um sujeito grande, talvez da mesma altura que ele. Usava um chapéu que causava uma sombra em seu rosto e assim não conseguiu ver seus olhos, mas tinha certeza de que olhava para ele. O sujeito abriu caminho entre as pessoas e se locomoveu em linha reta na direção de Bill.
Bill não sabia explicar por que ficou com medo, mas ficou. O homem se aproximava, vestindo um sobretudo que lhe tampava todo o corpo até as pernas e as mãos estavam enluvadas. Não, era apenas em uma das mãos que ele usava uma luva. Da outra, um gancho se encontrava preso no lugar da mão. O aço cintilou quando o homem o ergueu na direção de Bill.
De repente, Bill foi agarrado pela manga e puxado para o lado. O gancho raspou na sua têmpora, mas teria causado estrago pior se Bill não tivesse sido puxado.
– Se alguém tenta te matar é assim que você reage, Kaulitz? – Era a voz de Eric, que ainda segurava sua manga e o puxava na direção da aglomeração de pessoas que dançavam alheias a tudo o que estava acontecendo naquele canto escuro.
– Ele... O que... Por que... – Bill gaguejou olhando para trás. O homem andava calmamente atrás deles.
– Você perde tempo demais com perguntas. Não importa o porquê, Kaulitz. Se alguém tenta te matar, você desvia. Você é idiota? – Perguntou retoricamente. Bill levou a mão até a têmpora e percebeu que um filete de sangue estava escorrendo no lugar em que o gancho o cortara. Perdeu o equilíbrio e tropeçou, sem conseguir acompanhar o ritmo de Eric. Deu uma última olhada ao rosto do garoto e se sentiu estupidamente seguro. Então apagou.
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