Eu Sou Sua Escuridão
2 Capítulo 2
De alguma forma Bill havia chegado em casa. Ele só não se lembrava como. Mas também não se lembrava de muita coisa naquele momento. A cabeça latejava e o corpo estava dolorido. Só depois de tomar um bom banho quente e tomar um ou dois copos de café ele se sentiu um pouco melhor. Só então percebeu que já eram duas horas da tarde e ele estava faminto.
Por que Tom não me acordou? Ah... ele ainda está na Alemanha.
Bill havia se adiantado para voltar á Los Angeles quando Andreas ligara anunciando que um empresário estava interessado em contratá-lo para participar de um filme e Tom disse que chegaria talvez uma semana depois, já que ainda tinha assuntos a tratar na Alemanha. Mas então dois atrás Andreas... Logo Tom estará chegando, preciso dar um jeito de não me sentir tão...
Tão o quê? Ele não estava se sentindo triste. Havia acabado de se lembrar de Andreas, mas não sentiu nenhuma espécie de dor ou peso na consciência, apenas uma pequena tristeza por saber que nunca mais falaria com ele. Era quase um milagre.
Decidindo que deveria tentar não pensar naquilo, resolveu fazer compras. Enquanto se concentrasse em casacos, colares e sapatos, não se lembraria de enterros, cemitérios e... atropelamentos.
E foi o que ele fez. Gastou toda sua tarde em um shopping, sem saber ao certo quanto mais seu closet poderia suportar. Estava colocando todas as sacolas dentro do seu Mercedes quando avistou aquele garoto do bar andando na rua.
Mesmo agora que estava sóbrio, conseguia ver aquela aura negra que o contornava. Lembrou-se de como foi estranho a reação do garoto quando ele perguntou sobre aquela escuridão e de como se sentiu feliz ao receber aquele beijo.
Novamente, Bill quis segui-lo, ainda que algo dentro dele dissesse que era absurdo tomar essa atitude. O garoto simplesmente parecia magnetizá-lo e ele estava curioso sobre a noite anterior. Queria conhecê-lo e descobrir por que ele o beijara.
Abandonando o carro, ele correu para fora do estacionamento. Se aproximando apenas o suficiente para notar que ele usava o mesmo casaco negro da noite anterior e um coturno que alcançava a metade da panturrilha. Primeiro pensou em abordá-lo, mas depois decidiu que queria saber aonde ele iria.
Era fim de semana e por isso as ruas na proximidade do shopping estavam abarrotadas de gente. Ninguém parecia prestar atenção ao garoto.
Estou ficando doido. Se só eu vejo essa coisa em volta dele, estou definitivamente ficando maluco, Bill pensou enquanto o seguia o mais cuidadosamente possível para não ser percebido.
Ele dobrou uma esquina e Bill apressou o passo para não perdê-lo de vista, mas quando olhou novamente, o garoto havia sumido. Bill olhou em volta dos dois lados procurando encontrá-lo, mas não havia ninguém. Agora que haviam se afastado do centro da cidade, havia apenas duas ou três pessoas caminhando pela calçada. Onde ele se...
– O que está fazendo? – Ouviu a voz atrás de si.
Bill se virou e encontrou Eric o encarando com aqueles olhos azuis, tão claros e brilhantes.
– Eu... estava apenas andando por aqui... – Bill respondeu, sem saber ao certo o que dizer.
Belo stalker eu daria.
– Não, você estava me seguindo desde que passei por aquele shopping, por quê? – Eric respondeu pacientemente.
– Bem, eu... – Bill começou, mas parou e o encarou. Não iria se deixar intimidar. – Se sabia que eu estava te seguindo, por que não fez nada? Além disso, você me beijou! – Bill continuou como se fosse uma acusação. – Te seguir não pode ser comparado com isso. O que diabos foi aquilo?
– Está se sentindo melhor?
Bill o olhou sem entender a súbita mudança de assunto.
– É claro que está, não é? A dor não te machuca agora como antes naquele bar. – O garoto continuou. – Eu fiz aquilo. Fiz por que achei que se você é sensível o suficiente para notar a minha escuridão, como você mesmo disse, poderia te ajudar. Mas não me procure mais. Já te ajudei o suficiente.
Ele concluiu, passando por Bill e atravessou a rua. Bill olhou para as costas do garoto percebendo somente agora o quanto se sentia bem enquanto ele estava por perto e, agora que se afastava, era como se o mundo voltasse a ressoar nos seus ouvidos. Antes que o garoto adentrasse em um prédio do outro lado da rua, Bill gritou para se fazer ouvir.
– Ei! Eric! – O garoto se virou para olhá-lo. – Como... Como sabia que eu estava te seguindo?
Eric esboçou um meio sorriso antes de responder e voltar para a entrada do prédio.
– Seu coração bate tão alto que eu teria que ser surdo se não te ouvisse.
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