Eu Sou Sua Escuridão
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Acho que usei um pouco de "Dorian Gray" nesse capítulo, mas espero que gostem. Vou tentar postar o próximo mais rápido, ainda preciso escrever e tals e a fic tá acabando, acho que faltam 2 capítulos, talvez. Bom, espero que estejam gostando ^^ até mais *o*
Estava tão escuro que ele mal podia enxergar as próprias mãos a sua frente. Havia uma pequena fonte de luz ao longe e Bill se sentiu induzido a ir até ela. Parecia tão serena e calma... Como se seu brilho se alimentasse de paz e harmonia e assim que a alcançasse nada mais o preocuparia. Pensou em ir até ela. Estava cansado de toda aquela escuridão, de toda aquela dor que estava presa no seu âmago. Mas onde ele realmente estava? Não soube dizer ao certo. Ao tentar lembrar, tudo o que conseguiu visualizar foi dois olhos azuis piscando, procurando por ele através da noite. Logo surgiu uma voz e essa voz ele reconheceu. Eric.
Bill abriu os olhos e se deparou com o teto branco descascando e com teias de aranha nos cantos. Estava no hotel em que havia se hospedado com Eric e este estava deitado na cama ao seu lado. Pela luz no lado de fora da janela, já devia passar do meio dia e os dois ainda estavam ali.
Bill pensou em acordar Eric, mas ao se aproximar descobriu que ele não estava dormindo. Mortos talvez não precisassem dormir. Eric abriu os olhos e sorriu levemente com os cantos da boca ao ver Bill ao seu lado. Há muito que sua aura negra não podia mais ser vista, reduzida a um fino contorno escurecido ao redor dele.
Eric observou curiosamente enquanto Bill almoçava. Macarrão branco e carne ao molho madeira. Bill ficou surpreso ao notar que aquilo que ele mais queria comer estava sendo servido naquele dia, em um restaurante na estrada não muito longe do hotel em que eles haviam se hospedado. Não notou que estava com fome até seu estomago grunhir insatisfeito.
Voltaram para a estrada assim que Bill terminou. Haviam perdido tempo demais dormindo e talvez aquela criatura já os estivesse quase alcançando. Eric insistia dizendo que fugir era inútil naquele caso e Bill se sentia tentado a gritar com ele e convencê-lo a não ser tão pessimista. Por mais que perguntasse por que Eric dizia para que ele desistisse, não obtinha resposta. Eric se limitava a resmungar e cruzar os braços.
Era outono e Bill adorava isso. As folhas amareladas enfeitavam toda a estrada, cobrindo o terreno ao redor como um tapete. As árvores estavam sem folhas ou com algumas resistentes que se mantinham presas aos galhos. Era a época favorita de Bill. Tudo parecia mais poético e bonito, especialmente ao pôr do sol. Não fazia nem muito frio e nem muito calor e o garoto ao seu lado o acalmava de alguma forma, como se fosse protegê-lo do que quer que o afligisse. Pensou se toda aquela felicidade que sentia poderia ser causada por ele, que poderia estar sugando o que havia de ruim em Bill para si. Mas não havia aura negra ao redor de Eric e seu rosto não demonstrava tristeza, por isso Bill se permitiu relaxar.
Revezaram no volante, parando a fuga apenas para Bill comer. No segundo dia de viagem, pararam o carro para encher o tanque em um posto de gasolina. Uma parte do dinheiro que Bill havia recolhido em casa se foi.
As luzes no horizonte indicaram que uma pequena cidade se aproximava e Bill decidiu que estava cansado de dormir no banco do carro. Eric não reclamava de nada, não comia ou dormia. Tomava um ou outro copo de vodka quando Bill parava para comer em algum restaurante, mas nada além disso. Não disse se concordava ou não com a parada, apenas estacionou o carro em silêncio em frente ao primeiro hotel descente que apareceu quando entraram na cidade.
O quarto era melhor do que o último em que haviam ficado. A cama era maior e cheirava melhor também, e cheirou melhor ainda quando Eric veio se deitar junto de Bill. Bill deitou a cabeça no peito do garoto e deixou que o perfume dele preenchesse suas narinas. O corpo de Eric não possuía calor, mas logo sua temperatura se equilibrou com a de Bill.
Embora Eric fosse um fantasma, respirava normalmente e Bill relaxava conforme o peito do outro subia e descia embaixo de si. Se acostumou rapidamente com a presença dele junto de si e agora já não podia suportar a ideia de tê-lo longe. Sua mente constantemente afundava em um mar de perguntas sem respostas que ele tentava não pensar. Se Eric estava morto, ficaria da forma como estava para sempre, ou iria para outro lugar? Bill envelheceria e ele permaneceria ao seu lado, com aquela exata aparência? Ao menos ele pode concluir que outras pessoas além dele próprio podiam enxergar Eric, afinal, era o próprio Eric que havia feito o check in no outro hotel, e isso já era um alívio. Se apenas Bill o visse, seria um problema.
Pensar no futuro estava embaralhando o cérebro de Bill. Decidiu se concentrar apenas na mão que lhe afagava os cabelos e acabou dormindo por horas a fio. Estava cansado de fugir, apesar de estar a pouco tempo fazendo isso. Sentia falta do irmão e da rotina que levava antes disso tudo. Antes de aquela criatura persegui-lo e antes de se envolver com Eric.
Por isso, quando novamente seu assassino apareceu no dia seguinte, Bill não quis se entregar. Não se deixaria levar assim tão facilmente, mesmo que isso o colocasse na mesma condição de Eric. O garoto havia feito a escolha dele, o caminho mais fácil. Bill preferia resistir.
A criatura estava parada do outro lado da rua, esperando por eles assim que saíram no dia seguinte de manhã. Era um dia estranhamente nublado e escuro, mas havia luz mais do que suficiente para saberem que era ele. Usava um sobretudo negro, caindo-lhe até os joelhos. Um chapéu de abas na cabeça, que não impedia que o brilho vermelho dos seus olhos fosse visto, e um lenço negro cobria sua boca e nariz, assim, não podiam ver seu rosto.
O gancho estava lá, reluzindo em sua mão direita. Eric prendeu a respiração assim que o viu parado encarando-os. Bill sabia que ele se lembrava de tudo que havia sentido quando ficou preso naquela gosma negra que era constituído o corpo daquilo que os encarava. Dessa vez ele impediria que o homem com o gancho lhe fizesse qualquer tipo de mal.
Bill se adiantou para o outro lado da rua. Eric não se moveu, respirava pesadamente, observando a cena de longe. Bill continuou avançando, com o coração batendo forte no peito. Nem um movimento foi feito do outro lado da rua. A criatura permanecia parada, assim como Eric. Bill estava tão próximo agora que se esticasse o braço tocaria nele. Se sua mão voltaria ou não com uma gosma nojenta caso ele fizesse isso, ele não sabia. Nem iria testar para saber.
Antes de tudo, ele queria conhecer o rosto daquilo que o perseguia, por mais temível que pudesse ser. Ergueu o braço e tocou o lenço que cobria seu rosto e o puxou para baixo, sem que ele nada fizesse para impedir Bill.
Ainda segurava o lenço nas mãos quando se pôs a correr com lágrimas nos olhos e sentindo as pernas fraquejarem. Não ouviu Eric vindo atrás dele, mas sabia que ele estava vindo e o alcançando. Bill não conseguiria ir muito longe, tropeçava em tudo o que havia no chão e seus olhos estavam embaçados devido ás lagrimas.
Era horroroso. Era medonho. Nojento. Era... Tom?
Não, não podia ser Tom. As feições lembravam muito o irmão, mas aquelas mesmas feições pertenciam a Bill e cada detalhe particular do seu próprio rosto estava estampado nitidamente no rosto daquela criatura. A verruga embaixo do lábio inferior, estava especialmente visível apesar de toda a deformação do rosto. Sabia que era o seu rosto ali, mas era horrendo. Havia pus e feridas onde quer que dirigisse o olhar e a carne parecia estar se decompondo. Não sabia como reconheceu a si mesmo ali, mas foi o que viu e tudo o que conseguiu fazer foi correr para longe daquele horror. Não se lembrava de ter visto algo tão nojento desde o último filme de horror que havia ousado assistir por insistência do irmão.
Caiu de joelhos e vomitou no chão quando Eric o alcançou. Quase levou o lenço negro ao rosto para limpar a boca e quando se lembrou de onde aquilo tinha vindo, atirou-o pra longe, enojado.
– Bill... – Eric se aproximou cauteloso. – Você... Você está bem?
– Não. – Bill tentou procurar a voz na garganta. – Não. O que era aquilo? O que diabo era aquilo? Não quero chegar perto daquela coisa nunca mais, por favor, por favor me diga que ele não está vindo atrás de mim, Eric...
Eric sentou-se ao lado de Bill e o abraçou, como Bill já havia feito antes, quando era Eric quem chorava. Assegurou-lhe de que não havia nada nem ninguém atrás deles, mas Bill continuava nervoso e chorando como uma criança. Afagou seu cabelo de leve para tentar acalmá-lo e deixou que Bill chorasse no seu ombro pelo tempo necessário para se sentir melhor.
– Eric – Falou entre soluços, alguns minutos mais tarde quando conseguiu reunir força suficiente para mover os lábios e produzir algum som. –, o que era aquilo?
Eric engoliu em seco. Era a hora de Bill saber.
Fale com o autor