Eu Sou Inocente
3 Atoleiro
Um pequeno estalado seguido de um rangido foi ouvido quando a porta do esconderijo dos garotos foi aberta. Dave entrou e ajudou Orion a colocar a garota desacordada na cama.
— Ela está com a respiração baixa e pulso fraco, e parece estar desidratada. – Indicou Orion. – Parece que ela já estava caída na floresta há um bom tempo.
— Eu vou buscar um pouco d’água. – Disse Dave, indo até a cozinha e voltando com um copo de madeira.
Com muito cuidado, Orion levantou um pouco a cabeça da garota e a apoiou em seu peito, enquanto Dave calmamente abriu a boca da garota e pingava algumas gotas de água. Não demorou muito para que ela abrisse os olhos.
— Que bom que ela—
Antes que Dave terminasse a frase, a garota deu um tapa no copo, jogando-o longe, e tentou fugir dos dois, sem sucesso, pois caiu após dar apenas alguns passos. Orion se levantou assustado, e berrou:
— Ei! É assim que você agradece as pessoas que salvaram você de morrer no meio da mata?
A garota rapidamente se encolheu num canto, com a cabeça baixa. Dave se aproximou e lentamente tocou no ombro da garota, reconfortando-a.
— Calma... Está tudo bem agora... – Ele falou, mas a garota continuou com a cabeça baixa. – Então... Já que você claramente não confia em nós, e isso é algo bom, mostra que você é esperta, porém somos boas pessoas. Meu nome é Dave. Aquele ali é Orion. Esse é nosso abrigo. Então... Você pode dizer um pouco mais de você também? Qual seu nome?
A garota continuou do mesmo jeito.
— Se você não falar pelo menos seu nome, fica difícil te ajudar. Se não quiser falar nada tudo bem, é o seu direito, mas você terá que ir embora! – Falou Orion, com a voz firme.
A garota continuou imóvel. Dave olhou comum olhar de confusão para Orion, que se levantou e caminhou até eles.
— Não quer falar nada não é? – Ele pegou no braço direito dela e a puxou. – Então fora!
Ele começou a puxar ela em direção à porta, mas a garota se jogou em cima de Dave, o abraçando fortemente. Orion continuou a puxar ela, mas ela abraçava mais forte Dave, que após alguns segundos vendo essa disputa, gritou:
— CHEGA!
Orion soltou o braço dela, porém a mesma continuou abraçada com Dave.
— Ei... Relaxa... Pode confiar em mim, okay? – Falou Dave, calmamente para a garota, enquanto Orion revirava os olhos. – Orion, podemos conversar um pouquinho? A sós?
Dave colocou a jovem sentada na cama e ajeitou outro copo de água para ela, depois puxou Orion para um canto e falou, com uma voz baixa, porém firme:
— Qual o seu problema? Você que implorou para trazermos ela!
— Talvez eu tenha me precipitado... Talvez... Eu não sei... Mas talvez ela não seja uma boa pessoa... Desde a hora que ela acordou eu estou me sentindo meio desconfortável... Apenas... Mande ela embora, pode ser?
— Orion?! Você está me pedindo para abandonar essa menina completamente indefesa à própria sorte na floresta? Você perdeu a razão?
Orion começou a ficar inquieto, andando para um lado e para o outro.
— Talvez ela não seja tão indefesa assim. Se não, como ela pôde ter sobrevivido até agora?
— Sorte ué!
— Ah, por favor, Dave, conta outra.
— Não seria tão diferente de você, há alguns anos atrás. – Respondeu Dave, cruzando os braços.
— Eu não quero falar sobre o passado, você sabe bem porque. E outra, nem o próprio nome essa garota aí falou, você viu! Por favor, só... Só se livre dela.
— Orion... Talvez ela não tenha um nome ou sei lá, seja muda. Deixe que eu falo com ela, relaxa. – Dave disse, voltando ao quarto. Orion continuou ali, andando de um lado para o outro, com um aperto no peito.
Dave se aproximou da garota, ajoelhando na frente dela, que agora estava observando tudo ao seu redor com curiosidade. Ele colocou sua mão sobre a mão dela, que continuou da mesma forma observar o abrigo.
— Então... Você pode me dizer seu nome? Você... Tem um nome?
— Não... Me lembro. – A garota disse pausadamente as primeiras palavras desde que chegara.
— Hm... Não se lembra? Você não se lembra de nada então? Como chegou na floresta, por exemplo?
A garota o ignorou e continuou a fitar o quarto por alguns minutos, até que de repente ela focou os olhos na porta.
— Chegando... Algo... – Ela falou. Sua voz tinha um tom de preocupação. Orion ficou curioso.
— Quem? Quem está chegando? – Perguntou Orion.
A garota sem nome não respondeu, só ficou parada olhando a porta. Dave ignorou isso e continuou:
— Bem... Se você não se lembra de nada até aqui, acho justo agora ser seu ponto de partida até que você recupere suas memórias. Vamos escolher um nome para você então.
Os olhos da garota saíram da direção da porta e se focaram em Dave, que estava em sua frente.
— Que tal... Hm... Elisa?
A garota continuou parada, sem esboçar nenhuma expressão.
— Acho que ela não gostou muito... – Disse Orion, debochando da cara do amigo. – Acho que Jane é muito mais a cara dela.
A garota continuou da mesma forma.
— Haha, você é péssimo com nomes Orion, o seu prova isso. Acho que ela iria gostar de Hannah.
Nada, nenhuma reação.
— Ai, que menina mais difícil de agradar. Coloca o nome dela de “chata”. – Bufou Orion, sentando-se na cama.
— Hm... – Dave ficou olhando profundamente nos olhos da garota. – Eve... O que acha de Eve?
A garota sorriu pela primeira vez, fazendo Dave sorrir também. Orion revirou os olhos.
— Tudo bem, o nome dela é Eve. Decidido. Agora será se podemos fazer o almoço, sem carne obviamente? – Orion respondeu.
Dave concordou e os dois foram rumo à cozinha, porém um grande barulho foi ouvido, a porta abriu-se abruptamente e uma bomba de gás lacrimogênio veio rolando, espalhando gás por todo lado.
Dave começou a tossir e empurrou Orion de volta ao quarto.
— Pegue a minha arma, rápido!
Orion correu até o quarto. A arma estava no canto, mas antes que ele pudesse chegar perto dela, um pedaço da parede de madeira caiu bem em frente ao garoto, que se assustou. Um soldado vestindo roupas cinza entrou pelo buraco na parede. Orion correu até Eve, que parecia não entender o que acontecia, e se colocou na frente da garota. Então outros dois soldados entraram pela mesma abertura na parede.
— O que vocês querem? – Gritou, sem obter uma resposta.
O gás começou a se tornar mais forte, fazendo Orion não enxergar com muita clareza o que estava acontecendo graças aos olhos lacrimejantes.
— Capitão, encontramos o que parece ser o alvo, devemos eliminar? – Falou um dos três soldados num rádio.
Mais do que rápido uma resposta foi ouvida pelo dispositivo:
— Esqueça essa garota inútil, venha até a cozinha, você não tem ideia de quem eu encontrei: Dave Eilan!
O soldado afirmou e guardou o pequeno comunicador.
— Sinto muito garotos, mas não podemos deixar nenhum rastro. – Falou o soldado da esquerda, antes de sacar uma arma de eletrochoque e atirar em Orion e Eve, que caíram desmaiados. O soldado da direita, que segurava um galão, começou a jogar gasolina por todo o cômodo, enquanto os outros dois foram em direção à cozinha.
Lá, Dave estava sendo algemado inconsciente, com claras marcas de socos no seu rosto.
— Quem diria que encontraríamos Dave Eilan aqui, não é mesmo capitão?! – Gritou um dos soldados, todo contente.
O capitão tirou sua mascara de gás e cuspiu no rosto do desmaiado Dave e sussurrou em seu ouvido:
— Hora do acerto de contas, velho amigo.
O capitão saiu carregando Dave, então um dos soldados acendeu um isqueiro e jogou no chão, fazendo chamas se espalharem e encher toda a casa. Os soldados saíram sem prestar atenção se faltava alguém e começaram a ir rumo à sede da Horizon Helmet.
Não muito longe dali, ao sul, Eve estava parada, em pé. Orion estava no chão, desmaiado, do lado do soldado que jogara gasolina no quarto, também inconsciente.
A garota ficou parada, olhando as chamas destruírem o abrigo dos dois garotos que a resgataram. Após alguns minutos ela falou, para si mesma:
— Dave...
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