Eu Sempre Soube Que Valeria A Pena.
2 Capítulo Um.
O dia amanheceu chuvoso, estava frio e a preguiça não queria me deixar levantar da cama. Acordar cedo em pleno sábado seria uma tortura para muitas pessoas, mas pra mim era prazeroso, e eu já fazia há quase dois anos.
Me chamo Gabriela, moro na Capital de São Paulo no morumbi, — vocês devem conhecer- tenho 19 anos e trabalho com meu pai durante a semana na nossa pequena loja de calçados, que ele toca sozinho desde que minha mãe faleceu. Tenho um irmão chamado Vinicius que hoje tem, 13 anos, sabe que eu sempre me pego sorrindo quando olho para ele? Eu o cuidei desde pequeno e hoje ele tão crescido, lindo.
Quando finalmente consegui tomar banho e vestir uma roupa, desci para tomar café e me preparar para o trânsito enorme que enfrentaria até chegar ao meu destino.
— Bom dia, pai! Cadê o Vinicius? Ele não vai comigo hoje? — eu disse dando-lhe um beijo no rosto e sentando logo em seguida.
— Bom dia, filha! Ele ainda está dormindo, disse que amanhã tem campeonato de futebol e precisa descansar um pouco mais.
— Ele e suas desculpas. Enfim, só sei que eu vou, não perco isso por nada.
— Não sei como consegue ter tanta disposição com essa chuva. Se eu pudesse ainda estaria na cama.
— Confesso que demorei para acordar, mas o senhor sabe que não consigo ficar um sábado sem ir.
— Sei, e te admiro demais por isso.
Eu sorri timidamente e continuamos comendo. Meu pai era a pessoa mais doce que já conheci na vida e, apesar de ter um semblante e olhar triste, fazia questão de me oferecer sorrisos o tempo inteiro.
Após uma hora e meia presa no trânsito eu finalmente estacionei o carro, peguei a pequena mala que estava no banco de trás e caminhei até uma ala onde apenas funcionários tinham acesso.
— Bom dia, Gabi. Achei que não viria, as crianças não param de perguntar por você.
— Bom dia, Dr. Bruna. Você conhece esse trânsito, não é? Fiquei presa e me atrasei, já vou me trocar.
Coloquei minhas orelhas de Minnie e um nariz de palhaço, as crianças adoram quando me visto assim. Me olhei no espelho e sorri, até que tinha ficado legal.
— A Giulia passou a noite chorando. — disse Amanda.
— O cabelo dela está caindo?
— Começou ontem, já fizemos de tudo e não conseguimos consolá-la.
Entrei no quarto número vinte e três e fui recebida com sorrisos estampados em pequenos rostos cheios de tristeza e sonhos.
— Bom dia crianças. A Minnie não pôde vim hoje, então ela me promoveu para “assistente oficial de serviços secretos” e me mandou vim vê-los. Podem ir me contando como passaram a semana!
— Eu fiquei deitado, fiz exames, comi uma papa bem gostosa que minha tia fez e desenhei você. — disse Eduardo, um garoto de nove anos que tinha câncer no sangue, mais conhecido como leucemia; peguei o papel que ele estendia com a mão esquerda, nele eu estava com meus cabelos longos, olhos cor de mel e rodeada por um céu azul.
— Onde está você? — perguntei.
— Não sei quanto tempo vou viver… achei melhor não me colocar. — meus olhos enxeram d’água enquanto ele baixava a cabeça.
— Não, você viverá muitos anos, combinado? Façamos assim: você estava tirando fotos das flores que haviam numa árvore bem ao meu lado… eu sei que adora flores.
— Combinado. — ele sorriu, depois colocou um boné vermelho que eu havia lhe dado em seu mais recente aniversário.
— E você, Luiza? Leu o livro que te trouxe? — perguntei-me virando em sua direção.
— Li sim, eu quero um príncipe igual ao da história.
— Ah… você vai encontrar um bem melhor, garanto.
— E você, já tem um príncipe?
— Não, mas ele chegará também e quando isso acontecer você o conhecerá.
— Oba! E o que vamos fazer hoje?
— Ver um filme. Mas antes tenho que dar o presente da Giulia… — olhei para frente, onde ela estava sentada na cama e lhe entreguei orelhas de Minnie, e ela sorriu de lado — Minha chefe que mandou te entregar e eu sabia que ficaria ótimo em seu rosto.
— Meu cabelo está caindo…
— Uma boa oportunidade para ser uma Barbie e ter o cabelo que quiser, não acha? Imagina um rosa?
— Eu quero um cabelo rosa!
— Comprarei um pra você, mas agora vamos ver um filme?
— Vamos! — todos gritaram juntos enquanto eu pegava-o na bolsa e ligava o DVD. Sentei numa poltrona e enquanto eles estavam vidrados na história, eu pensava no quanto nossa vida é frágil, mas ao mesmo tempo linda, tanto quanto uma peruca rosa.
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