Notas iniciais
Oi pessoal! Valeu por acompanhar a história ♥ Se sentir no coração que deve, deixa um comentário aí no capítulo. Me ajuda demais! ♥

Miram deu a primeira gargalhada depois de muitos dias. Dário logo notou e, também rindo, ficou admirando-a ao seu lado. Ela levou a mão à boca para tentar recuperar o ar, mas a vontade de continuar rindo era muita.

— Ah, qual é! — o garoto em frente dos dois retrucou. Era dele que estavam rindo, mas ele não parecia estar na mesma onda. Murchou os ombros em sinal de que já havia desistido de ser levado a sério. — Tá, podem rir, mesmo.

— Não dá, cara! — Dário reclamou tentando parar de dar risada. — Essa foi a coisa mais imbecil que já ouvi. Se superou.

O garoto parecia ser um pouco mais novo, com uns catorze anos. Apesar da idade, era alto e magricela. Usava uma blusa xadrez larga e tinha cabelos castanhos desgrenhados, olhos verdes caídos e um sorriso muito largo, mas charmoso. Era muito agitado. Estava de pé, ficava balançando levemente de um lado para o outro e articulava muito as mãos e braços enquanto falava.

— Tá, podem me zoar com isso — ele se eximiu, já aceitando a chacota que sua história tinha virado. — Mas eu juro que na hora eu não percebi!

Um carro de polícia passava pela rua mais ou menos a cada trinta minutos. Todo final de semana faziam isso, mas nos últimos dias voltaram a ficar mais frequente. No geral, sabiam que a maioria dos jovens da cidade ficariam por lá, então pelo menos um dos quatro carros da guarda municipal ficava dando voltas pelas quadras no centro e da praça. Cada vez que passavam, Miriam e Dário puxavam seus copos e garrafas de bebidas para suas costas para ficarem fora da visão dos policiais. A ronda era realmente pouco eficiente.

— Eu disse que você ia gostar do Rafael — Dário comentou para Miriam enquanto enxugava lágrimas de risadas dos olhos. Ela fez que sim com a cabeça, retomando um pouco o fôlego. Dário havia explicado que tinha alguns amigos antigos que moravam na sua rua desde crianças, mas que estavam estudando em outra escola naquele ano.

Rafael olhou para trás e se distraiu com uma garota baixa, gorda e de cabelos pintados de verde se aproximando com sacolas de mercado cheias. Correu até ela para ajudar. Antes dela, Miriam tinha visto garotas de cabelos coloridos só como fotos de perfil de fakes no Orkut.

Aquela era a maior praça da cidade, bem onde ficava a papelaria dos pais de Dário. Havia uma enorme igreja no centro, a matriz, uma fonte larga com chafariz do lado esquerdo e um coreto amplo do lado direito. Entre eles, caminhos com gramados, flores até que bem cuidadas e árvores altas e antigas.

Outros grupos de adolescentes se espalhavam por todo o local conversando e também escondendo suas bebidas quando o carro da polícia passava.

— Valeu por me fazer sair um pouco de casa — Miram disse para Dário enquanto Rafael não voltava.

— Sabia que tava precisando — confessou para ela. — E que massa que ajudou mesmo. Precisava te apresentar o Rafa e a Ana. Fazia um tempo que eu não saía com eles. Antes era quase sempre. Eu, Rafa, Ana e o Hélio.

Miriam sentiu certo pesar no último nome. Não sabia que eles já tinham sido amigos próximos. Mas, atualmente e nitidamente, não eram mais. Ia perguntar por que, mas Rafael e Ana chegaram perto demais.

Os quatro estavam na parte da frente do chafariz, sentados em sua borda e aproveitando os pequenos respingos de água que o vento trazia dos jatos de água diretamente para suas costas. Mesmo recém anoitecido, ainda fazia certo calor na cidade. Finalmente havia parado de chover. O último dia de chuva tinha sido no velório de Larissa.

Durante vários dos dias seguintes, Miriam ainda via cenas daquele dia bem claras em sua memória. Apenas alguns segundos de silêncio ou solidão já eram o suficiente para ativá-las. O choro da mãe de Larissa sobre seu caixão. Os gritos do pai durante a caminhada antes do sepultamento. A família abraçada e aos prantos pelos cantos.

Nunca tinha ido a um velório de uma pessoa tão próxima. Nem mesmo em sua família ocorreu de precisar. Encarar a fragilidade da vida assim tão de perto tinha mexido muito com seus ânimos. E chegar lá sozinha, sem o suporte do pai e nem de sua mãe piorava ainda mais a sensação de aperto. Aquele tipo de situação que se via à beira da adolescência e sentia um vislumbre da vida adulta, onde não há amparo e nem margem para errar, sem ninguém para recorrer. Cada dia entendia mais a fragilidade da mãe e o trabalho do pai que os afastavam dia a dia dela.

Encontrou Felipe no canto do salão e se agarrou a ele. Estava mais calado que o comum, e não era para menos devido aos anos de amizade com Larissa. Mesmo em companhia, a garota não sabia como proceder. E também não tinha coragem de prestar suas condolências à mãe. Ela era tão simples, tão singela. Vivendo uma emoção tão estarrecedora que Miriam não seria capaz de conceber. A cada saraivada de choro que ouvia, sua mente era invadida por angústias e possibilidades.

E se Larissa tivesse compartilhado antes que também tinha uma carta? E se todos eles tivessem ido à polícia? E se as buscas de Miriam tivessem resultado em algo útil? E se ela tivesse chamado Larissa para dormir na sua casa? E se ela estivesse escondendo algo além? Será que se recusou a confessar o seu segredo? O que Larissa tinha de tão profundo sobre sua história para custar sua vida?

Estaria viva?

Mesmo insistentes, as perguntas pareciam bobas. Porque o corpo da garota estava ali na sua frente para atestar a realidade imutável. Um corpo delicado, rodeado com flores até o queixo para esconder as feridas no pescoço. Como era cruel encarar o silêncio de uma pessoa um dia tão expressiva.

Além da sensação de penúria que dormia e acordava em seu psicológico, Miriam ainda experimentava o medo. As aulas foram suspensas na cidade toda por três dias e ela não conseguia sair de casa. Era como se em qualquer esquina tivesse alguém esperando para esfaqueá-la igual Larissa e Paloma.

Quando pensava no Anônimo, via um demônio, um fantasma traiçoeiro que virava fumaça e escorria pelas mãos de qualquer um que tentasse pegá-lo. Até o momento, a investigação da polícia não levou a nada. Será que era realmente uma pessoa? Parecia mais uma entidade, um monstro.

Enquanto Ana ria, Miriam fechou os olhos e substituiu-a em sua imaginação por Larissa. Viva, ali, bebendo, rindo, feliz, zombando. Mas, ao abrí-los, via novamente a realidade. Pelo menos estar perto de outras pessoas e fora de casa por um tempo a fazia lembrar que as coisas podiam caminhar, de que era meramente seguro tentar viver. De que dava para se distrair e pensar na parte triste por um pouco menos de horas a cada dia.

Depois do ataque de riso, Ana insistiu em ensinar Rafael o passo de alguma música que Miriam não conhecia, mas parecia ser popular. Ela deixou as sacolas repletas de doces e salgadinhos perto dos pés de Dário enquanto Rafael cantarolava seu ritmo. Ana tentou então tentar, desajeitadamente, fazer Rafael acompanhar os passos que a garota pedia para ele repetir.

— Então você e Hélio já foram amigos? — Miriam aproveitou a deixa. A resposta só veio depois do garoto trocar de posição sobre a mureta do chafariz e respirar um pouco:

— Já, e muito. Desde pequenos. — Ao contrário do que Miriam esperava, Dário não tinha tanto ressentimento na voz. Mas dava para perceber certa importância no que dizia.

— Com o tamanho dessa cidade, acho que todo mundo é amigo de infância — Miriam tentou descontrair.

— Quase isso — ele concordou, ainda pensativo. — Ele morava umas três quadras pra cima da minha e nossas mães eram amigas desde sempre. Elas e a mãe da Sabrina, também. Mas eu era mais próximo do Hélio porque a gente brincava muito na rua. Ana e o Rafa apareciam por lá também.

— E o que rolou pra pararem de falar?

Miriam imaginou que poderia ser algo relacionado com Sabrina. Lembrou do primeiro beijo que trocou com o rapaz, o gosto de lágrimas e de Dário chamando-a pelo nome da garota loira sem querer.

— Ah, nada em específico — nessa fala Miriam sentiu o pesar voltando. — Ele só fez outros amigos mesmo.

— Sei que a cidade é pequena, mas é engraçado os remetentes serem todos... relacionados de algum jeito — Miriam refletiu. Hélio, Dário e Sabrina eram amigos mais próximos. Não sabia se os outros também eram. Pelo menos Marcos e Paloma namoravam. A não ser por ela e Windera, que vinham de fora.

— É, pensando assim, pode ser — Dário refletiu. — Mas, pelo tamanho da cidade, acho que as chances de ser assim são altas mesmo.

— Pois é — Miriam ia continuar fazendo perguntas para entender melhor, mas um vulto repentino do seu lado direito a fez pular de susto.

— Pessoal — a voz grave e intrusiva surgiu tão intensamente que até Ana e Rafa, que estavam totalmente distraídos, se assustaram e olharam para Marcos avançando sobre Dário e Miriam.

Ele estava nitidamente bêbado. Seu corpo cambaleava quase sem equilíbrio algum. Os olhos inchados e estalados pareciam assustados e urgentes. Os cabelos cacheados estavam mais desgrenhados e bagunçados que o convencional.

— Marcos? — Dário interveio e levantou-se para dar apoio ao garoto, que não recebeu bem a sua ajuda e empurrou de leve para a direção de onde estava.

— Ei, eu preciso falar só com vocês, sério mesmo — ele insistiu escorando-se na mureta onde Miriam se sentava. — É sobre aquele assunto. Sério, chega ai!

Dário e Miriam se entreolharam meio perdidos, mas concordaram em o seguir. Ana e Rafael assistiam com caras de dúvidas.

Miriam encarou no fundo daqueles olhos perdidos e cansados de Marcos. A última vez que o tinha visto foi justamente no velório de Larissa. Alguns minutos antes de começar o cortejo para o enterro, uma movimentação seguida de burburinhos surgiram na entrada da humilde funerária pública da cidade. Algumas pessoas se amontoaram perto da porta para cumprimentar quem vinha chegando. Tentavam ser silenciosas em respeito aos familiares dos que estavam sendo velados naquele dia chuvoso, mas o farfalhar era inevitável.

Quando começaram a se dispersar, a garota reconheceu o rapaz que vinha atrás do homem que gerou todo aquele alvoroço. Era Marcos, com os mesmos olhos abatidos, cabelos cacheados bagunçados e ombros caídos. Vestia um terno cinzento numa grife bem diferente do que costumava usar no dia a dia. Mas combinava com a roupa do homem que ele acompanhava.

Miriam não o reconheceu de primeira, mas, após olhar bem o seu rosto e ligar os pontos com a movimentação que ele causou, logo se tocou de que se tratava do prefeito da cidade. Era um homem muito alto, com ombros largos, peitoral enxuto e barriga proeminente. Além do terno, vestia botas de couro típicas de um cowboy e um chapéu de boiadeiro branco e grande capaz de fazer sombra do topo do seu rosto enrugado até o pescoço queimado de sol.

O prefeito caminhava meio lento entre as pessoas e acenava para elas com a cabeça já que tinha virado todo o centro das atenções. Quando se aproximou mais da sala onde estava o corpo de Larissa, tirou o chapéu e o acolheu sobre a barriga com a mão esquerda em sinal de respeito. Sua cabeça era careca e tão enrugada quanto o rosto. Marcos parou atrás dele. Parecia estar incomodado por estar perto do centro das atenções, então frequentemente buscava ficar atrás do homem para se esconder em sua imagem.

Imediatamente, o pai de Larissa, um senhor mais baixo e corcunda, caminhou até o prefeito com dificuldade e parou em sua frente. Encarava-o com uma face não muito simpática.

— Senhor Heraldo — o prefeito disse. A sua voz era grave e condizente com aquele homem corpulento. — Meus sentimentos para o Senhor e sua família.

Mas não teve resposta. O pai ficou encarando-o e emburrou ainda mais seu rosto em sinal de desgosto. Teve um momento que parecia que ia dizer algo, mas apenas desviou do prefeito e seguiu para parte de fora da casa funerária.

Todos assistiam à cena com atenção, mas o prefeito não parecia estar abalado com a recusa. Talvez, como político, estivesse acostumado com aquela situação. Continuou com uma expressão serena e dirigiu-se ao outro canto para falar com pessoas que pareciam mais convidativas. No caminho, passou por perto de Miriam e Felipe. Marcos os cumprimentou com o olhar e seguiu o homem.

Miriam se perguntou se o pai de Larissa tinha alguma desavença com o prefeito, mas, mais tarde naquele dia, pegando de butuca uma conversa entre duas senhoras, descobriu que, nas últimas semanas, mesmo com a recente morte de Paloma, o policiamento em toda cidade (que já era pouco) havia diminuído e a população tinha percebido, o que gerou certa revolta em algumas famílias. E depois piorou: surgiram boatos de que a polícia da cidade, que estava sem delegado por causa da prisão do pai de Paloma, estaria totalmente às ordens dos vereadores e prefeito, que pediam para as rondas e chamados de socorro serem prioridade para suas próprias casas, principalmente no condomínio fechado onde moravam os mais ricos.

No geral, a imagem do prefeito estava bem desgastada. Primeiro pelos assassinatos, depois pela prisão do delegado, que era seu amigo pessoal e, por fim, o desvio no trabalho da polícia. Péssimo para ele, pois as eleições estavam quase chegando e seu concorrente estava se aproveitando muito daquela crise toda: gritava aos quatro cantos e em seus comícios a falta de segurança da cidade.

— A gente já volta — Dário justificou para Ana e Rafael enquanto seguia Marcos trançar as pernas para debaixo de um abacateiro logo à frente, numa parte da praça que estava mais deserta.

— Na moral — Marcos jogou o corpo no tronco grosso da árvore para não precisar ficar vacilando de um lado pro outro. Estava agitado e lembrava pouco o garoto acuado do velório. Falava meio embolado, mas parecia estar tentando se concentrar para se fazer entender bem. — A gente precisa ir pra polícia agora denunciar aquela maníaca da Windera.

— Como assim? — Miriam ficou instigada. Na verdade, não sabia se deveria ficar. Podia estar ouvindo apenas lorotas de um cara bêbado e destroçado depois da namorada ser assassinada.

— É verdade — ele se justificou. Percebeu que não estava sendo levado tão a sério, então ajustou a postura e se esforçou mais ainda para falar direito e claro. — Aquela mina é mórbida, velho.

— Isso a gente já sabe... Se você começar a explicar o que tá rolando, eu agradeço — Dário resmungou já sem muita paciência.

— Calma, maninho — Marcos chegou a dar uma risada frouxa, mas depois se recompôs para continuar: — Ela simplesmente levou uma advertência da diretora ontem.

O garoto levou a mão direita até a boca para segurar um arroto repentino que lhe subiu à garganta. Fechou os olhos por causa do esforço, respirou fundo e continuou:

— Tinha um... trabalho pra aula de sociologia. Cada um apresentava algo regional, sei lá. Eu nem fiz. E como a Windera-maluca é de fora e tals, a professora deixou ela falar sobre os Estados América.

— Estados Unidos — Dário corrigiu, ainda sem paciência.

— É isso aí — Marcos acatou com se a correção fosse nada. — E ela podia falar sobre qualquer coisa, tá ligado? McDonald's, donuts, ação de graças, cheddar, sei lá, qualquer merda, mesmo. Mas a mina simplesmente achou que seria foda, na situação que a gente tá, falar sobre Columbine. Como se fosse algo legal. Tava mega empolgada. Nem parecia que tava falando de uma parada que aconteceu de verdade, sabe? Parecia que tava falando de um filme, total fora da realidade.

— O que é isso? — Miriam perguntou.

— Foi um massacre que rolou numa escola dos Estados Unidos. Dois caras que mataram um monte de aluno e professor. — Dário respondeu. Sua voz havia mudado de impaciente para levemente preocupado com a informação. — Que macabro, cara.

— É! — Marcos concordou. — Tá entendendo agora? Aquela mina é ma-lu-ca! E eu vou falar uma coisa pra vocês: foi ela, mano.

— Calma, não é bem assim — Dário defendeu. — Ela ser macabra e sem noção quer dizer nada.

— E outra: nada discreto da parte dela, né? — Miriam complementou. — Quer dizer, o Anônimo parece ser mais inteligente que isso. Mas não deixa de ser pesado pacas.

— A Anônima, cê quis dizer, né? — Marcos corrigiu. — Foi ela, velho! Tô falando! Ela matou minha Paloma!

Os ânimos do garoto mudaram de repente. Abaixou a cabeça para esconder as lágrimas que brotaram em seus olhos e deu um murro no tronco da mangueira. Miriam ia intervir, pedir pra ele sentar, tomar uma água, ou algo assim, mas ele apenas disparou em sentido para a rua e deixou ela e Dário parados na praça sem saber muito bem como reagir.

Algumas horas e uma garrafa e meia de tequila depois, Marcos já estava longe da praça da matriz. Chegava quase na beira da cidade seguindo por uma avenida que desembocava numa BR a alguns quilômetros pra frente. Antes disso, até tinha um último bairro da cidade antes de chegar no limite do município, mas havia uma área verde entre lá e onde Marcos estava. Então parecia que ele estava na beira, entre a cidade e o nada.

Desceu pela avenida íngreme tendo que se concentrar muito nos passos vacilantes de pessoa alcoolizada. Se alguém o reconhecesse por alí, seu padrasto ficaria furioso. Mas, foda-se, pensou. Só queria ficar louco e esquecer aquela merda toda. Ficar mais louco ainda.

Por isso tentava alcançar o posto de gasolina, talvez o único lugar da cidade que vendia bebidas e estaria aberto naquelas horas da madrugada. Merda de cidade. Precisava ir até o fim do mundo pra conseguir uma garrafa.

Quando o posto surgiu no seu campo de visão, ficou feliz ao ver suas luzes acesas e iluminando a avenida deserta. Apertou o passo, mas teve que ir com cautela porque um ácido lhe subiu pela garganta e achou que ia vomitar. Respirou fundo e continuou a caminhada.

— Puta que pariu — Marcos resmungou ao ver que, na verdade, o posto estava fechado, com as correntes levantadas cercando toda sua área interna e a loja de conveniência trancada.

Ignorou as correntes e desajeitadamente passou por cima delas. Ficavam na altura da sua canela, mas, mesmo assim, a atividade foi um pouco complicada. Cambaleou até chegar na porta da loja e bateu no vidro com força, quase quebrando.

— Zé! — gritou com a cara colada no vidro da fachada — Sei que você tá aí, seu porra!

Esperou por uma resposta, mas nada veio. Então tentou de novo:

— Abre aí, na moral! Só preciso de uma coisinha.

— Sai pra lá moleque — finalmente uma voz surgiu lá de dentro. Era o segurança que estava num cantinho do fundo da loja. — Se teu pai te pega aqui essas horas cê tá lascado.

— Aquele merda não é meu pai — Marcos resmungou e virou-se para a rua. Bufou de raiva e começou a pensar onde poderia encontrar mais bebida. Mas, antes, precisava urinar porque uma vontade súbita surgiu.

Zé revirou os olhos e voltou a tampar os ouvidos com os fones de ouvido plugado à uma pequena TV portátil que guardava embaixo do balcão.

Marcos contornou a área da loja para ir até a lateral do posto, onde ficava uma espécie de viela que dava limite entre o terreno do posto e a construção do lado, um restaurante. Alcançou a porta do banheiro masculino do posto e mexeu na maçaneta, mas estava trancado. Tentou forçar com o próprio corpo algumas vezes só para descontar a raiva e frustração, mas logo desistiu. Olhou para o fundo da viela e viu a caçamba de lixo do posto toda abarrotada de sacos fedidos.

— Vai ser aí mesmo — ele se aproximou mais do lixo já abrindo a braguilha. Quando estava quase terminando, ouviu alguns passos em suas costas, então provocou: — Seu Zé, se não quer gente mijando no lixo do seu patrão, fala com o Senhor Prefeito.

Quando terminou de falar, mais um enjoo subiu pelo peito, desta vez mais forte. Teve que levar a mão à boca e segurar a respiração para não vomitar ali mesmo. O ácido queimava tanto na sua garganta que seus olhos lacrimejaram. Contou até dez na cabeça porque achou que ia ajudar.

Só retomou o fôlego quando percebeu um aperto sobre seu diafragma. Sentiu-se preso de repente e teve o corpo arremessado para o lado. Parecia que estava sendo jogado contra a parede da porta do banheiro, mas conseguiu reunir forças para travar bem as pernas no chão e seu corpo não acompanhou o braço que o circundava.

Não deu tempo de Marcos resmungar. Foi içado para o lado oposto e teve que continuar tentando manter-se firme para não cair. Ia gritar, mas a outra mão de quem o segurava apertou sua boca com tanta força que o fez morder o próprio lábio.

Olhou para baixo e viu uma mão coberta por uma luva de tecido escuro e um braço também coberto por uma manga longa preta. Marcos começou a processar melhor a situação e decidiu se livrar de vez daquele abraço. Seu coração já estava a milhão. Só não vomitou porque seu corpo estava em alerta demais e seu instinto não queria o deixar vulnerável.

Ia se jogar para trás e derrubar contra o chão seu corpo sobre o da pessoa que o agarrava. Já tinha visto aquele movimento em lutas na TV e foi a primeira ideia que lhe veio à cabeça. Mas não teve forças para completar. O abraço era forte demais. Percebendo a tentativa de Marcos de ficar livre, a pessoa o soltou. Mas logo em seguida, o empurrou contra o lixo.

O garoto caiu sobre sua própria urina quente e alguns sacos de lixo nada macios e repletos de garrafas de vidro e latas de alumínio. Ouviu algumas quebrarem e pontadas agudas surgiram em seu peito e ombro. Teve tempo nem de colocar os braços sobre o rosto para proteger a cabeça antes de cair. Espatifou como merda e teve muita dificuldade de conseguir apoio nas mãos contra o chão para poder se virar ou se levantar.

Quem virou seu corpo foi a pessoa que o jogara ali. Puxou o ombro esquerdo de Marcos no sentido oposto para que ficassem cara a cara, mas Marcos ainda no chão, deitado sobre o lixo e totalmente indefeso. Ele sentiu as mesmas pontadas do peito, mas desta vez nas costas. O peito estava encharcado e quente. Pontas de sangue brotavam das suas clavículas até a altura do umbigo e se misturavam com a urina na camiseta branca.

Marcos, agora ainda mais tonto, forçou a visão para conseguir enxergar quem estava ali. Definitivamente não era Seu Zé. A escuridão dificultou ainda mais a vista de transformar aquele vulto embaçado em uma figura humana reconhecível. E, quando o fez, não conseguiu identificar nada considerável.

Apenas uma figura humana. Aparentemente masculina, totalmente vestida de preto, dos pés à cabeça, e com uma toca tampando todo o seu rosto, deixando apenas as aberturas para os olhos. A única coisa que se clareava no meio de toda aquela escuridão era uma faca de açougueiro que o homem-penumbra segurava na mão direita. Ao ver o objeto, Marcos grunhiu e tentou levantar-se com tudo, mas seu oponente foi mais rápido.

Curvou seu corpo para baixo e fincou a faca na clavícula direita de Marcos. Ele soltou um urro que transbordava toda a dor que sentia. Seu braço direito estremecia e parecia tomar diversos choques. Instintivamente, tentou agarrar com a outra mão o pulso do homem que o esfaqueava. Tentou movê-lo para o sentido contrário do seu corpo, mas não conseguiu.

Ficou tentando se soltar por um tempo enquanto gritava e remexia as pernas e cintura com força para tentar se desvencilhar, mesmo que seus movimentos fizessem suas costas roçarem ainda mais sobre os cacos pontiagudos e lacerar com mais intensidade os vários cortes sobre sua carne.

Abriu os olhos e encarou a mão que segurava o cabo branco da faca. Tentou novamente empurrá-la para a fora, mas sua mão se agarrou apenas à manga da camiseta do homem. Num movimento vacilante, moveu a manga para cima, revelando parte de seu braço.

Marcos não conseguia ver nada além da tatuagem que descia pela pele do homem desde o limite da manga até o começo da luva preta. Era um desenho ondulante e esverdeado, já com traços largos e difusos devido ao tempo.

A faca finalmente foi retirada de seu ombro e sentiu sangue brotar da clavícula com tanta força que jorrou sobre o cabo da faca até a tatuagem. O homem desceu a manga para cobrir sua pele toda e rapidamente transferiu outro golpe. Dessa vez, dobrou seu pulso para deixar a lâmina da faca num ângulo perpendicular ao corpo de Marcos. Agarrou com a mão livre o braço esquerdo do garoto e puxou-o em sua direção. Em seguida, desenhou com a lâmina no antebraço de Marcos uma linha do seu cotovelo até o osso saltado do pulso. O sangue escorria de imediato conforme o aço afiado abria sua pele.

Marcos gritou mais ainda. Era um outro tipo de dor. Até mais torturante. No ombro sentia um misto de soco com o corte. Uma dor funda, grossa e com pancada que se expandia até a ponta dos dedos. Já no antebraço era um incômodo agudo, fino e ardido como um ferimento banhado a álcool.

Depois de terminar o corte, o homem voltou à postura ereta e chutou com força a costela esquerda de Marcos, que revirou o corpo para o lado contrário. Tentou ficar em posição fetal para abraçar a região que doía, mas os sacos de lixo atrapalhavam o movimento completo.

Quando Marcos abriu os olhos novamente, não havia mais ninguém com ele. Queria recuperar o equilíbrio e pelo menos sentar-se, mas não conseguia. As dores eram dilacerantes e o enjoo voltou com tudo. Virou o pescoço para o lado e deixou todo aquele líquido esverdeado brotar de sua boca com força. Viu ele se misturar com o sangue que escorria de seu ombro e uma tontura nauseante subiu com tudo. Olhou para o outro braço e encarou o longo corte cuspir uma pequena cachoeira de sangue que descia até seu peito.

Aquele banho escarlate todo deixou sua mente tonta. O mundo girou, esfumaçou e perdeu o sentido.

Notas finais
Oi pessoal! Valeu por acompanhar a história ♥ Se sentir no coração que deve, deixa um comentário aí no capítulo. Me ajuda demais! ♥