Eu Não Quero Ser Só Uma Memória

2 Está enterrado em minha alma


Notas iniciais
Olá, pessoal! Postando novamente pelo celular, então a torcida para que não desformate tudo segue grande xD E aqui seguimos... Excelente leitura!

Izuku manobrou o carro para entrar na garagem do prédio.

— Chegamos! — Anunciou.

— Eu percebi.

Abriu o portão automático, estacionou, e saltou do carro em seguida, acompanhado de Katsuki.

Subiram as escadas — Izuku morava no primeiro andar — e logo a porta foi destrancada. Bakugou entrou no apartamento antes dele, analisando o ambiente. Era pequeno, e certamente correspondia a uma porção ínfima dos ganhos do outro.

Quatro cômodos: sala de estar, cozinha grande com uma mesa de seis lugares, banheiro e quarto. Era um típico apartamento de solteiro.

Mas o que o imóvel tinha de minimalista no que se tratava de espaço, tinha de entulhado na decoração.

Desdenhou com o olhar os itens de heróis espalhados por todos os lados, desde os pôsteres enquadrados nas paredes até os bonecos de colecionador expostos em prateleiras por toda a sala e sobre o armário ligado ao hack da televisão.

Enquanto contemplava com adversidade os arredores, Bakugou não percebeu que ele mesmo estava sendo observado.

Izuku reparava em cada detalhe dele, apreciando até as franzidas de cenho com absoluto encanto. Ter Kacchan em seu apartamento era o tipo de coisa que fazia seu coração perder a sensatez facilmente.

Então percebeu para onde o olhar dele estava mirado: os pontos centrais da sala, dois grandes pôsteres emoldurados e autografados.

Um era de All Might, na glória de sua era de ouro, com a frase “eu estou aqui” escrita ao fundo da imagem. Bem clássico e motivacional.

O outro era do Wonder Duo — o apelido caiu no gosto do povo depois que o próprio All Might chamou, em uma entrevista anos antes, a dupla ocasionalmente formada por Deku e Ground Zero dessa maneira. No pôster, os dois jovens heróis estavam lado a lado, com um sol nascente no vão entre eles.

Claro que o segundo era o que mais gerava expectativa em Midoriya quanto à reação do amigo de infância, por mais que este olhasse tudo com absoluta indiferença.

Aguardou que Katsuki verbalizasse algo.

— Tudo aqui é assim nerd? — Ele comentou simplesmente, sentando sem grandes cerimônias no sofá.

Midoriya se viu sem resposta, o que lhe custou bochechas rubras e chamativas. De brinde, ainda teve que lidar com um olhar intrigado do outro.

Decidiu desviar a atenção de si com algumas perguntas oportunas.

— Kacchan, então você, hm... — Pensou em como abordá-lo. — Você também não lembra do All Might?

— Quem diabos é All Might?

A resposta não somente esclareceu a dúvida de Midoriya, quanto também o fez perceber que Katsuki estava desconfiado. Devia estar alerta, decidido a não confiar em ninguém.

Perceber aquilo era um pouco preocupante.

— Vou te ajudar a lembrar. Eu prometo. — Pensou alto.

— Eu já disse que não quero a sua ajuda!

— Sabe, você vai aprender que vou te ajudar sempre, mesmo quando você não quiser.

Katsuki se virou na direção dele, irritado, e encontrou um olhar decidido e um sorriso pequeno, porém confiante.

Não entendeu qual era o problema dele, e muito menos a razão por trás do brilho que reluziu naqueles olhos verdes.

— Eu tive uma ideia! Vou trazer coisas que possam estimular sua memória! — Izuku explicou sua epifania, que tinha também, secretamente, o intuito de minimizar a desconfiança do hóspede.

Correu pelo corredor e entrou no quarto, onde procurou uma caixa sob a cama. Nesse mesmo intervalo, Bakugou aproveitou para se acomodar melhor no sofá, impaciente.

Midoriya voltou com quatro álbuns de fotos nos braços. Estendeu um deles a Bakugou, que lhe lançou um olhar interrogativo. Ele não aceitaria sem antes saber do que se tratava.

— Minha mãe sempre comprou os álbuns de escola das nossas turmas. Considerando o seu acidente, talvez essas fotos possam acelerar sua recuperação.

A explicação foi convincente o bastante para que ele aceitasse olhar o álbum, ainda que resmungando, e não protestasse quando Midoriya sentou timidamente a seu lado.

Folheou as páginas recheadas de fotografias com uma evidente dose de tédio, zangado por ter que fazer algo tão banal quanto garimpar um álbum velho de um monte de pirralhos.

Passou as páginas achando aquilo uma total perda de tempo, até Izuku apontar com orgulho para uma foto em particular — de duas crianças sorrindo com bonequinhos de heróis em mãos.

— Kacchan, somos nós!

O olhar escarlate viajou de uma das crianças da foto até o rosto de Izuku, comparando-os. Ignorou o rubor que surgiu nas bochechas sardentas e seguiu sua análise. Só voltou as atenções ao álbum quando concluiu que uma daquelas crianças era, de fato, o homem à sua frente.

Katsuki olhou em confusão para a própria versão escolar. Apalpou a cabeça, buscando pela textura espetada vista em seu cabelo.

— Me arranja um espelho. — Ordenou.

— O que?

— Anda logo! Me arranja um espelho!

Midoriya murmurou parado no mesmo lugar uns bons segundos antes de se dirigir ao banheiro. Voltou com um espelho de bolso, que foi entregue a Bakugou, sem agradecimentos.

Estranhou a forma que ele olhava o próprio reflexo e em seguida para a foto, repetidas vezes.

— Você não se lembrava do seu rosto?

Izuku não foi respondido com nada mais que um xingamento baixo e a visão de seu espelho sendo atirado do outro lado do sofá. Conhecendo Bakugou, aquela era uma reação típica para coisas que o orgulho não o permitiria admitir.

A amnésia era muito pior do que Midoriya imaginava, e claro que Katsuki estava disfarçando isso. Ele não lembrava o próprio rosto.

E ainda dizia que não precisava de ajuda!

— Seu nome é Bakugou Katsuki. Você tem 22 anos e seu aniversário é em 20 de abril. Sua mãe se chama Mitsuki e seu pai Masaru. Você é um herói, e há alguns anos disputa comigo a posição de número 1. Seu sonho é chegar definitivamente ao topo.

Recebeu um olhar de esguelha e uma visão desagradável dos dentes dele rangendo, mas não os gritos que certamente receberia se estivesse enganado em sua suspeita.

— Fala sério, eu disputo o primeiro lugar com você? Por que eu não te superei ainda?

Izuku bufou. De todas as informações, realmente foi aquela que o impactou?

“Competitivo como sempre.”

O outro seguiu folheando o álbum dos tempos da pré-escola, até por fim concluí-lo e começar o próximo.

Continuou ostentando o olhar desinteressado até parar repentinamente em outra foto.

Nela, Bakugou estava junto de seus amigos da época da escola primária, com Midoriya bem mais ao fundo, como se não tivesse sido convidado a aparecer na fotografia. Mesmo naquelas condições, ele olhava para Katsuki com um sorrisinho devotado — que, na verdade, não era muito diferente do atual. O caderno em mãos também não passou despercebido.

— Já entendi, você era um nerd que ficava na minha cola. — Katsuki debochou, com arrogância. — E quem são os extras?

— Eram seus amigos.

— E o que aconteceu com eles?

— Acho que você cortou relações com eles depois de algum tempo. – Expôs com receio e incerteza, lembrando a contragosto do quanto aqueles garotos já foram cruéis com ele, liderados pelo próprio Bakugou.

— Ahn? Você acha? Se também andava com eles, como não sabe o que aconteceu?

— É que...e-eles nunca quiseram contato comigo.

A resposta triste, e emitida em tom tão desconfortável, fez o herói explosivo compreender que havia acontecido alguma coisa.

Não quis tocar no assunto, e foi para o terceiro álbum, buscando — agora que conhecia — seu próprio rosto.

Uma das primeiras fotos era dele com outro grupo de amigos. Notou que estava um pouco diferente, graças à puberdade.

A forma que todos os colegas pareciam olhá-lo, com um tipo de admiração parecida com a que Midoriya esbanjava desde sempre, mostrava que ele devia ter sido popular.

— Todo mundo queria sair na foto comigo. Eu era fodão.

— Era. — Midoriya concordou, resignado.

— O que eu tinha de tão especial? Mel no rabo?

— B-Bem...era a sua individualidade. Todos sabiam que seu futuro seria muito promissor, e que você tinha potencial para se tornar um grande herói.

Katsuki notou então que Izuku deixou de aparecer nos arredores das fotos. Todos na turma tiveram um momento perto de sua versão jovem e influente, menos ele. E antes que encontrasse uma foto do outro, o álbum acabou.

Parte dele se sentiu incrível por ter sido tão querido na escola. A outra viu-se contrariada.

— Por que você tem um álbum de merda em que não aparece nenhuma vez?

— Ah, isso... eu...eu aparecia em uma foto. Mas a sala votou para substituir por outra depois que o álbum já tinha sido encomendado. – Um pouco reticente sobre falar sobre o assunto, esclareceu.

A voz magoada de Midoriya confirmou as teorias de Bakugou. Na verdade, não precisava ser muito perceptivo para compreender o que tinha acontecido.

Os dois tinham se afastado. E pelo que percebeu, desprezou o outro — que, diferente de todos, era a única pessoa que ainda estava por perto. Sentiu-se estúpido, mas não transpareceu.

Começou a folhear o último álbum, o da U.A., e logo se viu em meio a mais um novo grupo de amigos. Reconheceu um dos componentes.

— O cabelo de merda.

— Sim! Ele mesmo! — Izuku confirmou. — E esses são seus amigos da academia também! Lembra de algum deles?

— Não, inferno! Pare de perguntar o tempo todo do que eu lembro!

Midoriya teve o trabalho de explicar acerca de cada um. Suas individualidades, talentos e coisas que fizeram juntos.

Sem paciência para metade da faladeira incessante em tom empolgado demais, os pensamentos de Bakugou se focaram nas fotos. Olhou os detalhes, e se agradou rapidamente.

— Esse é o meu traje? — Interrompeu o outro, reconhecendo sua figura em uma foto de toda sala junta, com cada um vestindo sua respectiva roupa de herói.

— Você fez uma ou outra modificação, mas...basicamente, é o mesmo.

Katsuki não conseguiu evitar de se achar descolado. O traje era a personificação de como ele desenharia se tivesse que esboçar um novo naquele exato momento.

E um grande uniforme verde chamou sua atenção. Não tardou a reconhece-lo.

— Parece que ninguém foi cuzão de trocar suas fotos dessa vez.

Midoriya sorriu, e logo estava corado de novo, mas não parou de falar sobre as experiências da U.A. nem por um segundo. Era evidente que ele tinha amado essa época.

E ao contrário da época de escola, naquele álbum ele tinha sido fotografado com muita frequência. Katsuki encontrou-o junto ao meio a meio, a um cara alto de óculos, uma menina com a cara redonda, outra de língua de fora...

Uma das últimas fotos era de Izuku com Todoroki, e Bakugou foi pego de surpresa ao se avistar de penetra no fundo. Aquilo o lembrou da forma que seu grupo escolar excluiu Midoriya no passado. Era como se o jogo tivesse virado: ele que passou a andar na cola do nerd.

— Você parou de me seguir. – Expressou, sentindo-se estranhamente traído pelo cara que lhe era um completo estranho até poucas horas antes.

— Mas não de te admirar.

— Tanto faz.

O álbum acabou, e Katsuki se viu um pouco deslocado temporalmente. Notou então o olhar analítico do outro sobre si.

— Desde que nos formamos, estamos trabalhando na agência do Endeavor, o pai do Todoroki-kun.

— Ahn? Como você sabia que eu estava encucado com isso?

— Ah! É...e-esse tipo de coisa meio que acontece... — Izuku replicou, coçando a nuca em sinal de vergonha.

Bakugou o olhou com desdém. Não bastava que o desgraçado o lesse tão facilmente, como também havia invertido o jogo de quem era a sombra de quem na época da academia.

Não devia subestima-lo.

— Porra! Isso me deixa puto!

— Desculpe! Foi sem querer!

Sentiu uma súbita fúria com todas aquelas percepções. Empurrou os álbuns para os braços de Midoriya, como se estes o tivessem ofendido profundamente.

— Leve essas velharias daqui. Eu quero pensar.

— C-Certo.

Observou Izuku, todo avoado, retornar ao quarto. Revirou os olhos ao notar que ele tinha esquecido o espelho.

Verificou novamente seus arredores, e se espantou ao ver o quadro do tal “Wonder Duo” pela segunda vez. Não havia reparado que um dos caras era Midoriya e o outro, agora sabia, era ele próprio.

Refletiu silenciosamente acerca do fanboy incorrigível que havia o abrigado. Enquanto isso, Izuku foi para a cozinha, deixando-o em paz com seus pensamentos.

Após alguns minutos, estar sentado no sofá tornou-se fatigante. Curioso, levantou para ver o que o anfitrião estava fazendo. Era o jantar, aparentemente.

— Ah, Kacchan! Como você está? — Disse surpreso, desviando o olhar da cebola que cortava ao ver o outro herói adentrar a cozinha.

— Ainda não lembro de porcaria nenhuma, se é o que quer saber.

— Isso era esperado. O efeito da individualidade vai passar com o tempo, e aos poucos você vai se lembrar. Não se preocupe.

Voltou a cortar a cebola, agora com as mãos visivelmente trêmulas ante a presença de Katsuki.

Aquilo irritou o homem de temperamento conhecidamente explosivo a ponto dele arrancar a faca da mão de Izuku e empurra-lo fortemente com o quadril para o outro lado da bancada, cortando a cebola por si mesmo.

— Então por que você está tendo tanto trabalho comigo se eu vou lembrar de um jeito ou de outro, nerd de merda?

O apelido familiar e a forma zangada e quase cirúrgica que a lâmina da faca passeava pela cebola trouxeram um sorriso terno ao rosto de Midoriya.

— Todos estão preocupados com você. Não vamos te deixar sozinho nessa.

— Como se eu ligasse para isso. — Desconversou. — Sentimentalismo típico de personagem secundário.

Izuku não precisou perguntar se Katsuki continuaria o ajudando, porque tudo que teve que fazer desde a chegada do rival à cozinha foi indicar onde guardava seus utensílios culinários. Ele assumiu o ambiente todo para si, e tinha a clara intenção de concluir o jantar sozinho.

“É a forma dele agradecer pelo que estou fazendo por ele.”

— Eu não sabia que você gostava de cozinhar, Kacchan. — Comentou, encantado.

— Tanto faz.

Na verdade, nem o próprio sabia, afinal.

— Aí, por que você não me levou para a minha casa? — Bakugou levantou a questão.

— É que...na verdade, ninguém sabe onde você mora atualmente...

— Nem o cabelo de merda, que você disse que era tão amigo meu?

— Não. E você colocou o endereço dos seus pais nos documentos da agência.

— E cadê eles?

— Viajando, e aparentemente estarão incomunicáveis por um bom tempo. Sinto muito.

— Caralho...

Um silêncio constrangedor pairou no ar, e o assunto estava na iminência de morrer.

— E você lembra dessa receita, Kacchan? – Midoriya improvisou, disposto a seguir com a conversa.

— Não é uma memória pessoal. Pelo jeito, o vilão idiota me fez um favor por apagar só minha memória de que eu sou um mala do caralho.

Izuku se manteve em análise por algum tempo, saboreando aquele comentário.

Pensou sobre tudo que tinha acontecido desde a ligação de Kirishima. Nunca imaginou que poderia um dia fazer com seu amigo de infância temperamental as coisas que tinha feito ao longo do dia, como por exemplo relembrar a história dos dois e vê-lo cozinhar.

Talvez algo positivo realmente pudesse vir daquela experiência, mas não se deixaria enganar sobre o que queria: Kacchan de volta, com o que ele tinha de bom e de ruim.

— Oe, qual o seu problema? Por que você começou a murmurar do nada?

Izuku engasgou, olhando para Bakugou sem saber como reagir. O jantar já estava até pronto, provando que ele levou um bom tempo apenas divagando.

— Ah! Eu nem percebi!

— Você é muito irritante! Vê se morre!

Ele riu discretamente da outra exclamação familiar, feita enquanto Katsuki enchia duas tigelas com um curry que cheirava inacreditavelmente bem.

Logo uma porção generosa estava diante dele na mesa. O outro herói sentou na cadeira da frente, comendo o jantar sem grandes considerações.

Midoriya saboreou uma colherada e sorriu em pura satisfação. Estava provando uma comida feita por Bakugou! E estava tão bom!

— Kacchan, isso está incrível! Acho que eu nunca...

— Pare com tanta animação, é só uma droga de curry. Come e fica quieto.

Apesar das palavras ríspidas, as expressões de puro contentamento de Izuku não pararam. Ele nem desconfiava do quão atento Katsuki estava a elas, e mais ainda aos comentários que fingia desaprovar — afinal o ego era grande, ele gostava de elogios.

Ao término da refeição, praticamente simultâneo, Bakugou pegou a tigela e a colher de Midoriya e já pretendia começar a lavá-las.

Foi interrompido pela captura da esponja e um olhar adversativo.

— O que você está fazendo? – Tentou apanhar a esponja de Midoriya. — Me dá esse negócio!

— Kacchan, me deixe ajudar! Você já fez o jantar, então eu...

— Cala a boca! Você não entendeu ainda, desgraçado?!

Ele se apoiou sobre a pia e lançou olhares furiosos pela janela. Não sabia se contava ou não. Não queria ter que dobrar seu orgulho, mas...

— Acha que eu não percebi que fui um filho da puta com você quando éramos mais novos? E eu sei que você me superou como herói e eu tive o que merecia, mas agora você tem que me aturar com amnésia e sendo a merda de um peso! Eu não quero ficar te devendo uma, então vê se para de me atrapalhar, porra!

O ar pareceu sumir da atmosfera para Midoriya. Seu olhar embasbacado e lábios entreabertos acabaram até desconcertando Katsuki – que foi grosseiro como sempre, é claro, mas foi feliz na tentativa de fazer o outro entender o que ele realmente queria dizer por trás de toda rispidez e palavrões.

Os dois acabaram sem fala, evitando contato visual um com o outro.

— K-Kacchan, você...

“Você é tão incrível!”

— O que é? — Bakugou resmungou, ante a frase incompleta.

— Você nunca seria um peso para mim. E eu já perdoei tudo que aconteceu no passado, porque depois você me ajudou de formas que nem imagina. Por isso, pode ficar aqui o tempo que quiser. Eu gosto muito da sua companhia.

Junto a seu esclarecimento, Midoriya se aproximou da pia, tentando combater a própria vergonha para se aproximar de Katsuki e olhar para ele.

Chegou ao lado, segurando a esponja em mãos com firmeza, reafirmando que não o deixaria lavar um mísero talher. Em contrapartida, entregou-lhe um pano de prato.

— Vamos fazer isso juntos.

Ouviu um “tsc” estralado contra o céu da boca, mas a ideia foi acatada facilmente. Em seguida, lavou a louça enquanto Bakugou a secava e guardava.

Quando entregou o último talher a ele, inclinou o queixo para olha-lo diretamente no rosto — o herói explosivo continuava sendo mais alto. Sobressaltou-se ao encontrar com o olhar escarlate já focado em sua direção, que rapidamente foi desviado, e deu lugar à típica expressão fechada.

Um verdadeiro borboletário voou pelo estômago de Izuku, que sorriu pateticamente para suas mãos cheias de espuma. Acabou radiante com aquele breve gesto, enquanto o outro tentava disfarçar o flagra.

Posteriormente, com as tarefas vinculadas às louças concluídas, a mente de Katsuki se focou em outros propósitos.

— Eu preciso tomar banho.

— Ah, claro!

Dirigiu-se ao banheiro, verificando o que precisaria, e viu Midoriya ir buscar algo no quarto. Olhou-o de cima abaixo quando ele voltou com os braços superlotados de coisas.

— E-Eu trouxe roupas. Foi o Kirishima-kun que te emprestou, já que as minhas provavelmente ficariam curtas em você. E...elas parecem ser confortáveis, m-mas se precisar...

Bakugou entendeu pouco a partir daí, porque Midoriya estava agitado demais, e falou numa velocidade absurda. Ele continuava corado devido ao incidente da cozinha.

— Aqui tem toalhas, roupas, uma escova de dentes nova, desodorante, esponja...

— Já deu, nerd! Não sou um bebê, sei me virar sozinho! — Repreendeu, pegando os objetos exagerados dos braços dele e adentrando o banheiro.

— Eu sei, d-desculpe...

Katsuki emitiu um muxoxo baixo antes de fechar a porta.

Enquanto ele tomava seu banho, Izuku tentava se recompor, sentado no sofá com as imagens recentes povoando a mente. O coração acelerava até mesmo com a simples constatação de que Bakugou estava em seu apartamento, e ele se sentia ridículo por isso, mas não conseguia evitar.

Afinal, era Kacchan...

Que não tardou a sair do banheiro, libertando uma cortina de vapor no momento em que a porta foi aberta. O fôlego faltou a Midoriya quando viu a figura caminhando em sua direção, com algumas gotículas ainda cobrindo os ombros expostos pela regata, e enxugando o cabelo com a toalha em um frenesi de fricções exageradas.

Bakugou se largou no sofá próximo a ele, relaxado pelo banho quente. Torceu a feição ao ver que o nerd assistia a televisão desligada, e estava encolhido em um canto, visivelmente tenso. Revirou os olhos pelo comportamento tímido, sem imaginar que Midoriya tentava conter o arrepio que lhe percorreu o corpo ao sentir o cheiro de seu sabonete preferido grudado no outro.

— Aí, você pretende assistir alguma coisa?

— N-Não. — Gaguejou mais que o normal para suas interações com Bakugou, e só conseguia olhar as própria mãos, trêmulas.

— Então vaza daqui. Estou com sono.

Midoriya finalmente fez contato visual, confuso com o tom imperativo de sua expulsão. Ele parecia estar falando muito sério.

— Você quer dormir aqui? M-Mas... — Tentou se explicar, completamente desnorteado com a ideia que lhe acometeu. — P-Pode ficar no meu quarto, se quiser. Eu durmo no sofá.

— Não quero deitar na cama de ninguém. Eu fico aqui.

Um suspiro de decepção emergiu dos lábios dele, porém decidiu não argumentar. Soltou uma interjeição de aceitação e foi para seu quarto, de onde voltou com os braços superlotados novamente.

— Trouxe travesseiros, lençóis, cobertores, edredons...

— Eu me viro. — Katsuki apanhou as cobertas e as atirou de qualquer jeito no sofá, estudando de qual lado deixaria o travesseiro.

— T-Tem certeza que...

— Tenho! Agora vaza daqui!

Alguns murmúrios com notas de preocupação exagerada preencheram a sala, até Izuku ceder e deixa-lo fazer as coisas à sua maneira.

— Tudo bem. Então boa noite, Kacchan!

— Vaza logo, caralho! — Katsuki escoltou o outro até o corredor, reforçando suas palavras.

Recebeu uma risadinha envergonhada como resposta e foi dormir, se acomodando no sofá da melhor forma que conseguiu, vulgo encolhido. Quando já tinha pegado no sono, não percebeu Midoriya no fim do corredor, observando-o discretamente após uma ida ao banheiro no meio da madrugada.

Izuku sabia que estava cavando o próprio buraco ao trazer Bakugou para seu apartamento, mas ao vê-lo dormir daquela forma tão serena, como não via desde a infância, não conseguia evitar o pensamento de que estava valendo a pena.

Foi dormir com o peito aquecido e o coração agitado.

Notas finais
Para que escrever o Midoriya tendo uma queda pelo Bakugou quando posso escrever ele tendo um abismo inteiro, não é mesmo? Rçrçrç No próximo capítulo provavelmente haverá a aparição de outro ship meu do coração, mas não vou contar qual é só para fazer suspense xD Espero que tenham gostado! Até o próximo :3