Notas iniciais
Para minha fã número 1.
Luke usava seu uniforme da cafeteria: Um avental verde -com a logo do lugar- por cima da camisa e parte da calça brancas, um boné verde e tênis que trouxera de casa. Ele segurava um bule moderno, qual usava para servir alguns clientes atrás do balcão. Seu chefe o mandou limpar as mesas, Luke devolveu o bule ao seu lugar e pegou um pano para começar o serviço. Seus lábios não muito robustos assobiaram uma melodia amadora, mostrando só conseguir aquele som, enquanto limpava uma mesa que tinha sido suja pelos filhos do patrão. Ao terminar aquela mesa, pediu licença e começou a limpar uma ocupada por um homem de terno mexendo em seu notebook. Mesmo estando tão sério e formal, percebia que tinha pouca idade, talvez entre vinte e vinte quatro anos.
— Acha que está bom?- Perguntou o jovem que parecia um executivo.
Passando pano ao lado do cliente, Luke deu uma espiada no notebook, se impressionando com o que vira.
— Está muito explícito?- Fez outra pergunta.
O que vira era praticamente um banner de propaganda erótica com mulheres semi-nuas, daquelas em qual se viam em sites aleatórios. Mal sabia Luke que alguém na cidade podia trabalhar com publicidade de sites pornográficos.
— É um pouco...- Ele olhou de novo, prestando mais atenção nas imagens.-...claramente não adequado para menores de dezoito anos.
— Droga!- Ele estalou a língua.- Tenho que entregar isso hoje à tarde e não aguento mais olhar mamilos.
O funcionário permaneceu calado, observando um pouco de líquido ainda na xícara do cliente.
— Você...Trabalha com isso?- Seu olhar sugestivo abaixou-se ao ser encarado.
— Isso? Não, não. Não especificamente, eu trabalho com designer de várias áreas, mas peguei esse porque estava pagando bem. Não se rejeita trabalho.
"Estranho mexer com isso aqui" pensou Luke, visto que nenhuma situação tinha sido tão embaraçosa nesse emprego quanto essa. Prestes a deixar a mesa, decidiu perguntar se o cliente gostaria de mais café. A resposta foi positiva, fazendo com que deixasse o pano de lado para ir pegar o bule com mais café.
— Ó, ó.- Emitiu o patrão, estendendo sua caneca estampado — dada de presente por seus filhos no dia dos pais de três anos atrás — com a frase "Melhor Pai do Mundo".
Luke o serviu, seu chefe era viciado em cafeína, talvez isso explicasse a existência da cafeteria. Ele voltou para a mesa da indecência, enchendo a xícara do sujeito de terno.
— Você clicaria nisso?
Luke queria dizer logo que não. Não tinha interesse algum em mulheres, muito menos em pegar vírus no computador.
— Hum, eu colocaria a logotipo mais no canto, não acho que os caras estejam interessados nisso quando veem o banner.
— Adiciono mais mamilos tampados?
— Chega de mamilos...- Soara estranho.-...tampados.
Deu meia-volta e voltou à trabalhar, não sem dar algumas olhadas no homem fixo na tela. Vinte minutos se passaram, Luke estava no caixa agora, dando o troco para uma senhora com aparentáveis cinquenta anos, ela passava um ar místico — ainda mais com seu colar de lobo e chaveiro com a cabeça de uma boneca de pano — e misterioso. Já ia se retirar da função, mas um cliente inesperado veio até ele.
— Dois cafés e dois pães.- Disse o homem do banner.
Ele fingiu usar a calculadora para não dar na cara de que sabia exatamente o preço que ficara.
— Um e cinquenta.- Falou, mexendo as pernas por trás do balcão.
Após retirar uma nota do bolso e entregar, Luke com rapidez deu o troco.
— Obrigado.- Agradeceu o funcionário.
— Obrigado você pela ajuda.- Os dois se despediram com sorrisos.
Luke viu-o sair, assim como acontecia com vários clientes da cafeteria após pagarem, mas agora tinha sido diferente, dava para sentir um novo aroma no ar.
— Luke!- Gritou o chefe viciado.
Era o aroma dos croissants queimando.
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