Eu Mudei
8 Capítulo 8
Jéssica e Rogério conversaram muito naquela tarde e, de certa forma, ela conseguiu finalmente obter os dois pontos de vista que queria desde o início. Não para tirar uma conclusão de tudo isso, mas sim para conhecer todos os personagens dessa história e os supostos “perigos” que eles representavam.
Seu irmão, Leonardo, finalmente estava se abrindo para conhecer seu pai. Apesar de ter o tratado mal, ele percebeu que tudo aquilo representavam julgamentos prévios que foram plantados em sua mente pela sua mãe e seu padrasto… Apesar de ser uma tragédia, ele já tinha 20 anos, uma pessoa independente e, se até sua irmã estava tentando ir atrás dessa história, porque ele não poderia?
Já eram cinco da tarde, faltava pouco para a primeira aula da faculdade, mas antes de ir, Jéssica aproveitou enquanto Gabriel cuidava das últimas tarefas de sua loja e decidiu fazer uma visita à lanchonete do irmão. Havia um pouco de movimento, Simone estava atendendo um casal, que pareciam bem esnobes, e Mariana estava no caixa… Parecia ser o momento ideal, mas ela não encontrava Leonardo.
— Oi gente! — Jéssica cumprimenta as duas e tenta ver onde seu irmão está
— E aí, Jéssica! — Só Mariana cumprimenta, mesmo estando bem ocupada — Tudo bem?
— Tudo — Jéssica não acha — Cadê o Léo?
— Ele está meio lerdo esses dias — Mariana entrega o troco para uma cliente — Está lá dentro, no celular…
— Que folgado! — As duas riem — Posso ir lá?
— Pode!
— Ah, oi Jéssica! — Simone finalmente termina de atender o casal — Tava ocupada aqui, desculpa
— Oi Simone — Jéssica dá um passo pra trás — Sem problemas — Ela volta a andar
Jéssica entra na cozinha do restaurante e vê Leonardo sentado
— Oi Léo — Jéssica dá uma batidinha no ombro direito dele
— Jéssica? — Leonardo fica feliz ao ver a irmã — O que você está fazendo aqui?
— Vim ver você… — Jéssica dá uma olhada pra cima
— Só por isso? — Leonardo enche Jéssica de perguntas — E por que você quer me ver?
— Nossa, que curioso! — Jéssica brinca — Eu também fui na lojinha do Gabriel
— Que? — Leonardo muda de humor na hora — Você foi na loja… Na loja onde aquele cara trabalha?
— Aquele cara? — Jéssica debocha do jeito que Léo fala — Cada dia você inventa uma palavra diferente…
— É sério — Leonardo corta — O que foi fazer lá? Só pra ver o seu namoradinho, não foi…
— Ele não é meu namorado, Leonardo — Jéssica fica vermelha — Ainda…
— Jéssica, o que você foi fazer lá?
— Lembra que eu disse… Aliás, que eu sempre digo que eu quero, sempre, tirar tudo a limpo. Que eu sempre quero saber os dois lados da história? — Jéssica anda pela cozinha — Então, eu fui lá e conversei com o Rogério. Sabia que o nome do seu pai é Rogério?
— Rogério… — Leonardo fica paralisado por um instante, mas depois surta — Você tá louca? O que você foi fazer lá? Ele mesmo tinha dito que ia ficar longe de nós e você vai e… Já pensou se o meu pai descobre?
— Ele não tem mais que ficar nos controlando! — Jéssica tenta argumentar — Tanto eu quanto você somos maiores de idade…
— Mas ele é nosso pai! — Leonardo foca no paternal — Ele sabe o que é melhor pra gente e…
— Ih, Léo, você não quer saber o que ele disse? — Jéssica desvia o assunto
— O que ele disse? — Leonardo fica curioso
— Eu achei estranho… — Jéssica faz a mesma expressão de estranhamento — Ele não lembra
— Não lembra de que?
— De ter matado o cara…
— Como ele não lembra? — Leonardo não entende — Nunca vi isso…
— Foi o que eu disse pra ele! — Jéssica concorda
— Você é doida mesmo, viu — Leonardo balança a cabeça
— Mas eu meio que acreditei nele — Jéssica lembra de Rogério — Tipo, ele admite que tava nervoso, fora de si, se culpa… Não acho que ele mentiu. E pra que ele mentiria? Já pagou toda a pena mesmo!
— É, nisso até que você tem razão — Leonardo concorda, meio confuso
— Sabe, eu acho que ele realmente tá arrependido — Jéssica expressa o que sente — O jeito que ele fala, a culpa que ele sente… Você não viu também o dia que ele pediu perdão pra mamãe…
— Ah, eu vi muita coisa também — Leonardo comenta — Ele pediu perdão pra mim também, esqueceu? Eu tratei ele muito mal, sei lá, deu uma coisa em mim, não queria saber dele, não… Mas isso não saiu da minha cabeça! E depois que eu vi ele, naquele dia que o pai brigou com ele, eu, sei lá, fiquei mais mal ainda…
— Você tem que falar com ele, de novo!
— O que? — Leonardo fica nervoso — Falar com ele?
— Sim, vai ser tão bom tirar tudo a limpo — Jéssica tenta convencer o irmão — Você vai ver como é…
— Eu… Eu não vou mentir — Leonardo é sincero com a irmã — Eu quero, mas eu não sei se vou ter coragem… Sabe, é como se eu tivesse escolhendo entre ele e minha mãe
— Não, Leonardo — Jéssica argumenta — Você não vai escolher. Caso vocês se entendam, você só vai estar abrindo seu coração pra mais um!
— Será que a gente vai se entender?
— Não sei — Jéssica fica feliz com seu irmão — Só sei que ele vai ficar muito feliz!
Jéssica ficou mais um tempo, tentando conversar com seu irmão, já que ele precisava mesmo desabafar sobre esse assunto. Passaram alguns minutos e Gabriel veio encontrá-la, já que os dois iriam para a faculdade juntos, naquele dia.
Assim, Rogério ficou sozinho na Silver, até quando chegou uma bela mulher na loja. Ela aparentava uns trinta e poucos anos, tinha os olhos cor-de-mel, tinha o cabelo curto até o pescoço, castanho feito avelã, era uma dama bem bonita.
— Boa noite, senhora! — Rogério fica encantado com ela — Em que posso te ajudar?
— Boa noite! — Ela lança um sorriso — Na realidade, você poderá me ajudar muito… Qual o nome do dono dessa loja?
— Ele se chama Gabriel Ribeiro — Rogério fica curioso — No momento, ele não está, senhora!
— Exatamente! Foi por isso que eu vim! — A dama se sente aliviada — Por favor, não comente nada com ele, sim?
— Não estou entendendo, senhora — Rogério fica bem confuso
— É verdade, não me apresentei — Ela estende a mão para Rogério — Meu nome é Mirella, prazer em conhecê-lo!
— Rogério, prazer
— Mais tarde, você entenderá tudo, Rogério — Mirella anda pela loja — Mas eu preciso da sua ajuda, meu bem!
— Que tipo de ajuda? — Rogério não a entende bem
Os dois passam um bom tempo conversando, até que percebem o passar das horas e o quanto a conversa se desenrolou
— Nossa, Rogério — Mirella sorri ao olhar para o relógio de pulso — Agora que vi, já estamos conversando há duas horas! Tenho que ir!
— Mirella, foi um prazer te conhecer! — Rogério sorri, meio confuso — Mas você ainda não falou a que veio…
— Tenho que ir — Mirella se despede e vai andando — Foi um prazer… Depois nos veremos!
— Mirella… — Rogério não entende nada
Enquanto isso, no supermercado do shopping, Lucy está comprando os ingredientes para um canelone, ela quer surpreender seu marido e provar que também sabe cozinhar. Quando está passando pela parte dos congelados, de repente, ela encontra Estevão, que coincidentemente decidiu visitar seu shopping nessa mesma noite.
— Estevão, você por aqui? — Lucy fixa seus olhares em Estevão — Há quanto tempo!
— L-Lucy? — Estevão não queria vê-la
— O que tem feito em todos esses anos sem mim? — Lucy deixa de lado seu carrinho
— Ué, eu tenho vivido normal! — Estevão fica tenso
— Sabe, depois que você me deu o golpe, eu tive que começar… Sim, começar, porque eu sempre tive boa vida, não sabia ralar — Lucy anda em volta de Estevão — Mas eu não tenho raiva de você, não, pode ficar tranquilo!
— Lucy, olha só, eu acho melhor eu ir…
— Não, nem pensar! — Lucy bloqueia a saída — A gente precisa conversar, nem que seja um pouco…
— Eu não me sinto tão bem — Estevão está bem desconfortável
— Calma, se eu que era pra tá nervosa, não tô… Por quê você teria que ficar? — Lucy quebra o gelo — Como você tem vivido?
— Não tenho feito nada de interessante, não — Estevão fala com um certo desgosto pela sua vida — Só fico em casa, o dia inteiro, vendo TV!
— A gente podia sair pra conversar, um dia, o que você acha?
— Olha, Lucy, eu não quero reviver tudo isso, não — Estevão fala com um certo arrependimento — O que eu fiz com você, sabe, não me permite… Não permite nossa convivência
— Ah, Estevão, cala essa boca, vai — Lucy fica incomodada com o que ele falou — Eu que tenho que perdoar… Eu te perdoo!
— O que? Me perdoa? — Estevão não acredita — Tão fácil assim?
— Eu não guardo mágoa de ninguém… Isso só faz a gente ficar carregado de coisas ruins
— Lucy…
— Pelo última vez, eu te peço — Lucy insiste — Vamos conversar, senão eu des-perdoo
Estevão ri do comentário
— Está bem, mas vamos conversar em um outro lugar — Estevão olha pro supermercado — Pode ser na praça de alimentação?
— Pode, claro — Lucy sorri
Os dois vão pra praça de alimentação e começam a conversar sobre suas vidas
— Eu casei… Não, casei, não, eu juntei com um carinha aí — Lucy lembra de Mário — Ele é muito gente boa, mas eu acho que ele não gosta muito de mim, acho que ele ainda é apaixonado pela ex-mulher…
— Nossa, desculpa falar, mas você não dá sorte mesmo, hein
Os dois riem
— Mas eu também não dei — Estevão lembra de sua ex-mulher — Ela morreu em um acidente de carro… Foi assim, do nada, não consegui acreditar
— Pelo menos, você ficou mais rico, né? — Lucy brinca com Estevão — Você gostava dela, de verdade?
— Bem, eu não sei bem — Estevão fica sério — No começo, é óbvio que eu pensei no dinheiro, na beleza também é claro, ela era bem atraente… Mas acho que depois que tive um filho e tudo mais, comecei a gostar um pouco dela, sim!
— Olha — Lucy é sarcástica — Você tem sentimentos, que bacana!
— Mas ela — Estevão se lembra dela — Ela foi gostando menos de mim quanto mais o tempo passava…
— Qual era o nome dela? — Lucy fica curiosa
— Milena… Milena Brandão!
— E o seu filho?
— Ah, meu filho, o Gabriel, deve ter puxado ela… — Estevão ri de si mesmo — Na verdade, acho que não puxou nada de mim!
— Melhor pra ele, né — Lucy é sarcástica de novo
— Pois é
Os dois riem muito desta vez
Continua...
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