Nesses vinte anos, as coisas mudaram muito na casa de Mário. Antigamente, ele e Simone se levantavam, enquanto Mário se vestia para o trabalho, sua esposa preparava o café para ele. Era tudo tão saboroso, tão bem feito, umas torradas bem quentes ou um pãozinho doce com aquela manteiga que derrete na boca! Até o café era perfeito, nem tão doce, nem tão forte, naquele ponto ideal.

Agora, Mário tem que acordar Lucy, que nunca se acostumou em acordar cedo. Além dele ter que se arrumar correndo, tem que preparar seu próprio café, já que o da Lucy é horrível, muito forte, e a manteiga não derrete na boca, aliás, margarina.

— Sabe, Mário, não dá pra esquecer da Simone nessa cozinha — Rogério começa a lembrar dos velhos tempos — Ela era espetacular!

— Isso é verdade — Mário olha para o que resta de seu pão — Agora a gente tem que se virar como pode

— Ah, pelo amor de Deus, né, Rogério? — Lucy, que lavava louça, se vira para Rogério — Não vem falar dessa mulher aí, não, por favor!

— Só tô falando que ela cozinha muito bem…

— E eu não! — Lucy abandona a louça — Eu sou dedicada e um dia vou ser tão bom quanto ela!

— E vai abrir um restaurante? — Rogério ironiza Lucy

— Vai ficar insistindo em falar dessa mulher — Lucy começa a ficar estressada — Tá preso no passado ainda, né?

— Ah, as coisas estão muito diferentes…

— Para com essa nostalgia ridícula! A mulher do Mário, agora, sou eu! Ela saiu da vida dele, pra sempre! Ela não existe mais…

— Dá um tempo, né, Lucy! — Mário entra na discussão — Ela é mãe da minha filha, vai continuar existindo, de qualquer jeito!

— Ele não para de falar dela…

— Foi só um comentário, amor! — Mário releva

— Rogério, vê se entende, assim como a Simone abandonou o Mário, eu quero abandonar, ignorar a existência dessa mulher!

— Lucy, quer parar com esse ciúme ridículo! — Mário começa a ficar nervoso com Lucy — Pra quê essa insegurança?

— Vocês que começaram com essa conversinha de que antigamente era melhor — Lucy tenta se explicar — Se com ela era melhor, não tem porque você querer ficar comigo!

— Meu bem, você mesmo disse pra gente viver o presente, vamos, por favor! — Mário tenta acalmá-la

— Um presente ruim? — Lucy continua provocando — Vamos voltar ao passado, né, Rogério?

— QUER PARAR DE SER RIDÍCULA, LUCY!!! — Mário se levanta da cadeira, bem nervoso

— Você fazia isso com a Simone, amor? — Lucy começa a ser sarcástica

— Ela não me provocava igual você!

— Então era melhor, né? — Lucy continua a provocar — Volta com ela, então!

— Gente, por favor, parem de brigar! — Rogério fica preocupado com os dois — Eu não queria provocar nada…

— Mas acabou me provocando, Rogério, infelizmente — Lucy se vira pra Rogério — Mas você não tem culpa do Mário concordar com você…

— Para de colocar palavras na minha boca, Lucy!

— Gente, eu tenho que ir…

— ENTÃO VAI, ROGÉRIO!!! — Lucy e Mário gritam com Rogério

— Tchau! — Rogério sai bem sem graça

Bem, se Rogério foi um gancho para uma grande discussão de casal, isso cabe a interpretação de cada um… Mas Lucy já havia se comparado com Simone, em outras ocasiões. Já com a passiva Simone, houve uma briga apenas uma vez, no caso, a que ocasionou a separação:

— Eu não suporto mais ficar presa aqui em casa, sendo sua serva! — Simone começa a se alterar — Quando eu peço uma coisa pra você, Mário, eu não posso…

— Por quê você quer trabalhar? — Mário não entende Simone — Não viu o que aconteceu com a Rosana? Arranjou um amante…

— Você não confia em mim?

— Pra quê trabalhar, amor? — Mário ridiculariza a situação — Eu já trabalho! Você cuida da casa, da Mariana, e eu, do dinheiro!

— Eu não quero ficar mais dependente de você! — Simone argumenta — Eu também quero viver!

— E quem disse que você não vive?

— Eu não vivo o que eu quero!

— Então, você não é feliz comigo?

— Não desse jeito…

— Então, vai embora daqui! — Mário expulsa Simone, de casa — Vai ser feliz!

— Você não tá me entendendo…

— Eu é que não te entendo! O que deu em você? Não é mais a mesma pessoa!

— Mário, eu só quero viver minha vida!

— Então vai!

Ao chegar no trabalho, pelo menos, Rogério tem alguém para desabafar sobre tudo o que está acontecendo… Gabriel. E pra ele, quando mais Rogério falar, melhor!

— Eu, realmente, não entendo como a Lucy foi parar na casa do Mário — Rogério desabafa com Gabriel — Eles não tem nada a ver!

— Como é que ela foi parar ali, hein? — Gabriel começa a questionar Rogério — Ela não era muito rica?

— Ela ficou pobre depois que o Estevão, que por coincidência é dono desse shopping aqui, deu o golpe no baú nela!

Gabriel fica perplexo. O pai dele sendo acusado de golpista? Que absurdo! Ele teria que tirar a limpo essa história com o pai. Não é possível uma barbaridade dessas! Que mundo pequeno! Quem imaginaria que a ex do papai milionário terminaria compromissada com o amigo desse ex-presidiário que trabalha pra ele, hein? Que mundo pequeno!

— Sério? Ela te falou isso? — Gabriel não consegue acreditar

— Sim! Parece que até a minha ex-mulher, a Rosana, sabia que o cara não prestava! a Lucy foi muito boba!

— Ah, se o Estevão descobrir que você anda falando isso dele…

— Inclusive… — Rogério não para mesmo de falar

— Não acredito que tem mais! — Gabriel acha engraçada a situação

— Ele deu o golpe em uma outra mulher aí! — Rogério estava falando da mãe dele- Parece que ele até teve filho! Ele não presta…

— Q-que? — Gabriel fica bem chocado — O que ele fez?

— Ela morreu em um acidente de carro bem suspeito… Bom, eu achei!

— Ah, você sabe do que tá falando? — Gabriel não consegue se controlar

— N-não, eu só tô comentando… — Rogério fica arrependido de ter se abrido demais — Parece que você nervoso, não gosta de julgamento, né?

— Não, que isso… — Gabriel fica bem confuso — Pode continuar falando do meu pai!

— O que? Seu pai?

— Eu disse pai? — Gabriel não mente bem — É, o Estevão é o meu pai!

— Me desculpa, Gabriel! — Rogério fica bem envergonhado — Eu não devia ter falado assim do seu pai! Eu não sei de nada!

— Cara, não tem problema! — Gabriel tira um peso das costas — Essas histórias até que são engraçadas! Eu só fiquei meio confuso com o que você disse sobre a minha mãe…

— Esquece isso, por favor! — Rogério decide reverter a situação — Bom, deixa eu trabalhar, que eu ganho mais do que ficar jogando papo fora…

É, foi um dia de muito trabalho! Leonardo estava tão cansado que até pediu uma carona do seu padrasto, Evandro, para ir embora pra casa. Evandro fecha sua loja de departamentos, um pouco mais cedo que o Lemone, o que é normal das praças de alimentação. Então, ele aproveitou pra forçar um encontro bem desagradável com Rogério… Sim, ele queria saber o que esse ex-presidiário queria com sua família:

— Alô, Gabriel, eu tô fechando a loja, viu… — Rogério conversa com Gabriel pelo telefone

— Beleza, Rogério, até amanhã!

— Até! Tchau! — Rogério desliga o telefone e fecha a loja, quando dá de cara com Evandro

— Você que é o Rogério? — Evandro olha com desprezo

— Sou, sim, e você quem é?

— Não interessa você saber quem eu sou… — Evandro se mostra bem nervoso com Rogério — Por que você vai sumir das nossas vidas!

— Não tô entendendo — Rogério fica confuso

— O que você quer com a minha mulher?

— De quem você tá falando?

— Você é sonso, né? Por que você tá infernizando a minha Rosana?

— Eu só queria o perdão dela… Mas eu não vou insistir!

— Será que você não percebe que sua presença é tóxica para todos? — Evandro começa a humilhar Rogério — Ou as pessoas têm medo ou repulsa… Mas eu não tenho medo de você!

— Cara, deixa eu te falar, eu tô tentando recomeçar a minha vida, já paguei pelo o que fiz… Não quero fazer mal a ninguém!

— Ah, vai me dizer que você não vai querer se aproximar do seu filho?

— Eu tentei ele, mas ele não quis… — Rogério lembra da situação, bem triste

— E ele não vai querer! É bom você saber que ninguém aqui quer se reaproximar de você!

— Cara, eu já entendi o recado! — Rogério começa a se incomodar — Sinceramente, você que tá me enchendo aqui…

— Nada vai ser páreo ao que você fez…

— Eu já paguei! VINTE ANOS! Você consegue entender isso? — Rogério se lembra de tudo o que passou na prisão — Se você soubesse o que eu passei…

— Foi pouco! — Evandro não tem um pingo de empatia por Rogério

— Ah, cara, já deu… — Rogério sai andando

Evandro agarra o braço de Rogério

— Me larga! — Rogério começa a se estressar

— Não vem querer dar uma de malandro pra cima de mim, não!

— Cara, me deixa!

Leonardo, que havia acabado de fechar o Lemone, mais cedo, estava a procura de Evandro

— Evandro? — Leonardo fixa os olhos em Rogério — Você? O que você tá fazendo com ele?

— Vim só deixar claro pra esse cara que comigo ele não mexe! — Evandro encara Rogério

— Eu não vou incomodar vocês!

— Não pra confiar em você! — Evandro continua a brigar — Ainda mais com essa sua cara de otário! Vai continuar fazendo merda!

— Quer me deixar em paz! — Rogério começa a olhar pro filho — E-eu vou embora!

— Espera… — Leonardo chama Rogério

— Filho?!

Rogério se surpreende com o filho. O que será que ele tem pra falar? Será que finalmente ele vai ter a chance de se explicar?

— E-esqueceu sua carteira… — Leonardo se sente estranho na presença do pai

— Ah, sim, obrigado, filho! — Rogério fica sem palavras — T-tchau!

— Já vai tarde! — Evandro grita

Rogério começa a caminhar, mas não consegue de parar de olhar pro seu filho. Ele sempre olha pra trás e vê que Leonardo também está paralisado, olhando pra ele…

— Bandido! — Evandro grita raivoso

— Ah, Evandro, pode parar! — Leonardo começa a ficar incomodado — Você fica caçando confusão aí…

— Esse cara precisava de um toque!

— Vamos embora! — Leonardo releva

Continua...