Edward’s p.o.v


Ela entrou no quarto já dizendo, sem rodeios:

— Acho que finalmente lembrei quem eu era.

Por um segundo inteiro… nada em mim se moveu.

Nem respiração. Nem pensamento. Nem o tempo ao redor.

Só o som da chuva na janela aberta.

Meu livro ficou suspenso nas mãos, esquecido.

E eu a encarei.

Maliza estava parada perto da porta, mochila ainda nas costas, o cabelo levemente molhado da chuva. Pequena demais para o peso daquela frase.

Mas os olhos dela…

Os olhos estavam sérios.

Diferentes.

Não era curiosidade infantil.

Não era repetição de algo ouvido.

Era decisão.

Meu peito apertou com uma força antiga demais.

— O que você disse? — minha voz saiu baixa.

Controlada.

Mas por dentro… tudo já estava em colapso.

Ela deu um passo para dentro do quarto.

Depois outro.

Como se tivesse ensaiado isso muitas vezes.

— Eu lembro — ela repetiu, mais firme agora. — Não tudo… mas bastante coisa.

Meu corpo ficou rígido.

Porque “bastante coisa” nunca era seguro.

Nunca era simples.

Ela olhou ao redor do quarto como se buscasse apoio nas paredes.

E então voltou os olhos para mim.

— Eu lembro de você… antes.

A palavra “antes” bateu como um impacto direto no peito.

Eu fechei o livro sem perceber.

— Antes de quê?

Ela hesitou.

Só por um segundo.

Mas foi o suficiente para me destruir.

— Antes de eu ser eu.

O silêncio ficou absoluto.

A chuva pareceu mais alta.

O mundo inteiro parecia prender o ar junto comigo.

Eu levantei devagar da cadeira, sem tirar os olhos dela.

Cada passo até ela foi pesado.

Cuidadoso.

Como se qualquer movimento pudesse quebrar algo irreversível.

— Maliza… — tentei.

Mas ela balançou a cabeça.

— Não, espera.

Ela apertou as alças da mochila com força.

E então falou, mais rápido, como se se alguém interrompesse ela, perderia tudo:

— Eu lembro da floresta. Da chuva. De você falando meu nome como se fosse… importante demais.

Meu peito queimou.

— Eu lembro de Jacob também.

Minha mandíbula travou.

— Lobos.

A palavra saiu pequena, mas certa.

E isso fez o chão desaparecer sob mim.

Ela respirou fundo.

E então soltou a frase que fez meu mundo inteiro parar de vez:

— E eu lembro de ser Bella.

O silêncio que veio depois não era só silêncio.

Era vazio.

Absoluto.

Como se até a casa tivesse esquecido como existir.

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Porque aquilo…

Aquilo não era sugestão.

Não era coincidência.

Não era imaginação infantil.

Ela estava olhando diretamente pra mim.

E ela sabia.

Eu dei um passo instintivo pra trás sem perceber.

Como se a própria realidade tivesse mudado de posição.

— Não… — minha voz falhou.

Ela piscou, assustada com a minha reação.

E por um segundo… pareceu só uma criança de novo.

— Eu não tô inventando — ela disse rápido. — Eu juro que não tô.

Mas eu não conseguia responder.

Porque tudo dentro de mim gritava uma coisa impossível.

E ao mesmo tempo…

Tudo dentro de mim reconhecia.

Ela deu mais um passo na minha direção, hesitante agora.

— Edward… eu acho que eu voltei.