Depois que consegui parar de chorar, fiquei quietinha no colo do tio Charlie por mais alguns minutos.

Ele continuava passando a mão no meu cabelo devagar.

Do mesmo jeito que fazia naquela lembrança.

Meu peito apertou outra vez.

Mas agora doía menos.

Jake permanecia encostado perto da porta da cozinha, completamente silencioso pela primeira vez desde que chegamos.

Os olhos escuros alternando entre mim e Charlie como se tentasse entender até onde aquilo tudo ia.

Charlie finalmente respirou fundo.

Ainda confuso.

Ainda abalado.

Mas tentando agir normalmente.

Como sempre fazia quando não entendia alguma coisa emocional demais.

— Certo… — ele murmurou rouco. — Vou ligar pra sua mãe vir te buscar.

Assenti pequenininho.

Charlie levantou devagar e foi até o telefone da cozinha enquanto eu me sentava no sofá abraçada no meu ursinho.

Jake veio sentar perto de mim quase imediatamente.

Como se tivesse medo de me deixar sozinha agora.

Fiquei ouvindo baixinho a voz do tio Charlie falando no telefone com a mamãe.

Tentando soar normal.

Mesmo claramente não estando normal.

Então Sue apareceu da cozinha carregando um prato.

— Acho que alguém precisa comer.

O cheiro chegou primeiro.

Panqueca.

Meu coração ficou quentinho imediatamente.

Sorri sem perceber.

— Obrigada.

Sue colocou o prato na minha frente junto com um copo grande de leite.

Jake soltou uma risada baixa.

— Você ainda ama panqueca.

Franzi a testa olhando pra ele.

— Ainda?

Ele percebeu o que falou tarde demais.

O coração disparou imediatamente.

Mas antes que pudesse consertar, outra lembrança apareceu.

Cozinha pequena.

Charlie queimando panquecas.

Eu rindo.

Sorri sem perceber outra vez.

— Ah.

Jake passou a mão no rosto cansado enquanto Charlie voltava da cozinha lentamente.

Ele me observou por alguns segundos.

Muito atento.

Muito quieto.

Então sentou na poltrona diante de mim.

— Sua mãe já tá vindo.

Assenti enquanto cortava um pedaço da panqueca.

O silêncio na sala ficou confortável por alguns minutos.

Só o som da chuva fraca lá fora e do garfo batendo no prato.

Então Charlie perguntou cuidadosamente:

— Você tá melhor agora?

Olhei pra ele.

Pra preocupação nos olhos dele.

E alguma coisa dentro do meu peito apertou tão forte que respondi sem pensar:

— Você sempre pergunta isso.

Charlie ficou completamente imóvel.

Jake fechou os olhos imediatamente.

E eu…

Eu só continuei segurando o copo de leite sem entender completamente por que aquela frase parecia tão importante.