Quando voltei para casa, as luzes ainda estavam acesas.

Claro que estavam.

Ninguém ali dormiria depois daquela noite.

Entrei silenciosamente pela porta da frente e imediatamente encontrei a sala exatamente como deixei horas antes.

Livros espalhados por toda parte.

Rosalie sentada no chão folheando páginas rápido demais. Jasper lendo algo em francês antigo. Alice encolhida no sofá abraçada às pernas enquanto Esme organizava pilhas de livros já abertos.

Até Emmett ainda estava lendo.

O que, naquele ponto, era sinceramente perturbador.

Todos levantaram os olhos quando entrei.

Mas foi Carlisle que imediatamente chamou minha atenção.

Ele estava sentado na poltrona perto da lareira segurando um livro diferente dos outros.

Velho.

A capa gasta. As páginas amareladas.

E o título…

Fez meu corpo inteiro ficar rígido.

“Lendas Makah” — Martha Young.

Meu peito apertou violentamente.

Carlisle percebeu minha reação instantaneamente.

Claro que percebeu.

— Onde conseguiu isso?

Minha voz saiu baixa demais.

Carlisle fechou parcialmente o livro antes de responder:

— Arquivos antigos da universidade de Tacoma. Uma colega minha encontrou referências depois que liguei pra ela.

Alice ergueu os olhos para mim lentamente.

Os pensamentos dela estavam menos frenéticos agora.

Mais focados.

Mais perigosos.

Caminhei devagar até Carlisle sem conseguir tirar os olhos do livro.

Makah.

A tribo de Sue.

As histórias que ela mencionou.

Meu corpo inteiro parecia tenso demais para existir.

— E?

Carlisle hesitou.

Erro.

Grande erro.

— Existem relatos antigos muito semelhantes ao que estamos vendo.

Silêncio.

Rosalie fechou o livro dela devagar.

Até Emmett parecia desconfortável agora.

Carlisle abriu algumas páginas cuidadosamente.

— Os Makah acreditavam que certas pessoas podiam retornar quando existia um vínculo emocional forte demais para ser rompido.

Meu peito queimou instantaneamente.

Não.

Carlisle continuou lendo baixo:

— “A alma encontra novamente o caminho quando deixa promessas inacabadas.”

As palavras atravessaram meu corpo como faca.

Promessas.

Volto logo.

É como se você nunca tivesse existido.

Não demoro.

Memórias esmagaram minha mente violentamente.

Bella chorando na floresta.

Bella me esperando voltar.

Bella morrendo tentando permanecer comigo.

Fechei os olhos imediatamente.

— Para.

Carlisle levantou os olhos do livro.

Mas eu já estava ouvindo mais.

Mais do que queria.

“Alguns retornam próximos daqueles que perderam.”

Maliza.

Charlie.

Forks.

Minha garganta queimou.

Alice levantou do sofá lentamente.

— Edward—

— Não.

Minha voz saiu mais forte agora.

Mais desesperada.

— Isso é uma lenda.

Carlisle assentiu calmamente.

— Sim.

Mas ninguém parecia convencido o suficiente pelo próprio ceticismo.

E isso era o pior.

Porque todos ali tinham visto coisas impossíveis demais para ignorar facilmente outra impossibilidade.

Alice se aproximou devagar.

— Ela sabia coisas que não deveria saber.

Eu desviei o olhar imediatamente.

Porque sabia exatamente quais coisas.

A promessa na floresta.

Meu nome.

O jeito que ela me abraçou.

Meu corpo inteiro tensionou outra vez.

Então Carlisle falou algo que fez o ar da sala parecer desaparecer:

— Os relatos dizem que as memórias costumam voltar primeiro durante febres e sonhos.

O silêncio ficou brutal.

Porque Maliza teve ambos naquela noite.

Fechei as mãos com força absurda.

— Isso não prova nada.

Mas minha voz falhou no final.

Porque eu queria desesperadamente que provasse.

E odiava isso.

Odiava com tudo que ainda restava de mim.

Carlisle fechou o livro devagar.

Então me encarou diretamente.

— Edward… se existir qualquer possibilidade—

— Não.

A palavra saiu instantaneamente.

Quase feroz.

Todos ficaram imóveis.

Respirei fundo desnecessariamente.

Tentando impedir minha própria mente de atravessar aquela última linha impossível.

Mas já era tarde.

Porque naquela noite…

Pela primeira vez desde a morte de Bella…

Eu comecei a imaginar como seria ouvir ela dizer meu nome outra vez.