Alice's p.o.v


Eu sentei no sofá sem realmente sentir minhas pernas.

Tudo naquela casa parecia estranho agora.

Não perigoso.

Pior.

Familiar.

Charlie estava nervoso demais na cozinha. Eu conseguia ouvir os movimentos rápidos dele abrindo armários sem necessidade enquanto Sue tentava acalmá-lo em voz baixa.

“Ela é só uma criança.”

“Talvez tenha ouvido nomes.”

“Charlie, respira.”

Mas os pensamentos dele estavam em completo caos.

Enquanto isso, Maliza subiu no sofá ao meu lado como se me conhecesse há anos.

Pequena demais.

Quente demais.

Humana.

Ela puxou as pernas para cima do estofado e ficou me observando em silêncio por alguns segundos, abraçada ao ursinho gasto.

Os olhos castanhos presos nos meus.

Meu corpo inteiro continuava desconfortavelmente rígido.

Porque eu não conseguia parar de enxergar Bella em pequenos fragmentos dela.

O jeito de observar.

O jeito de inclinar a cabeça.

Até a expressão pensativa.

Então Maliza falou baixinho, as palavras emboladas pela fala infantil:

— Você demorô.

Pisquei lentamente.

— O quê?

Ela mexeu na orelha do ursinho distraidamente.

— Eu achei que você vinha antes.

O ar pareceu mais frio.

Tentei sorrir de forma cuidadosa.

— Você me conhece, Maliza?

Ela deu de ombros como se a pergunta fosse estranha.

— Conheço.

Meu peito apertou.

Atrás da parede, ouvi um copo escapar da mão de Charlie na cozinha.

Ele também estava ouvindo.

Claro que estava.

Maliza olhou na direção do barulho rapidamente e depois voltou para mim.

Então se aproximou mais no sofá até o joelho pequeno tocar minha perna.

E falou baixinho.

Muito baixinho.

As palavras ainda infantis e emboladas.

Mas claras o suficiente para fazer meu corpo inteiro congelar.

— Eu me lembro de tudo.

Por um segundo, achei que tinha entendido errado.

Porque aquilo não fazia sentido.

Nenhum.

Eu encarei a menina pequena diante de mim tentando reorganizar a frase na minha cabeça.

“Lembro de tu.”

“Lembro de algum.”

Qualquer coisa.

Qualquer coisa menos aquilo.

Mas Maliza continuava me olhando com uma calma impossível para uma criança de quatro anos.

Meu peito apertou violentamente.

— O que você disse?

Ela franziu o nariz pequeno como se estivesse frustrada comigo.

Então repetiu mais devagar:

— Eu lembro… de tudo.

A cozinha ficou completamente silenciosa.

Nem Charlie nem Sue se moviam mais.

O mundo inteiro pareceu prender a respiração.

Eu senti algo gelado atravessar meu corpo morto.

Porque não era só o que ela disse.

Era o jeito.

A tristeza tranquila na voz pequena.

Familiar demais.

Maliza apoiou a cabeça no meu braço como se aquilo fosse natural.

— O Edward tá muito triste.

Meu coração morto pareceu despencar dentro do peito.

Não.

Não.

Não.

Minha visão ficou estranhamente nítida de repente.

Cada detalhe da sala parecia agressivamente real.

O relógio antigo na parede.

O cheiro de café vindo da cozinha.

A chuva batendo nas janelas.

E aquela garotinha humana encostada em mim dizendo coisas impossíveis com a voz suave de uma criança.

— Maliza… — minha própria voz saiu baixa demais.

Ela levantou os olhos castanhos para mim.

E por um segundo horrível…

Não parecia uma criança olhando de volta.

Parecia alguém tentando me reconhecer através de uma distância absurda.

Então Charlie apareceu na porta da cozinha.

Pálido.

Assustado.

— Alice.

A voz dele falhou.

Eu olhei para ele sem conseguir responder.

Porque pela primeira vez em muito tempo…

Eu estava com medo de uma maneira que nem visões conseguiam explicar.