Quando desci as escadas já pronta, o cheiro de café preenchia a casa inteira.

Meu pai tava na cozinha terminando de colocar alguma coisa numa marmita enquanto cantarolava baixinho uma música aleatória.

Normal.

Confortável.

O tipo de coisa que fazia meu cérebro finalmente desacelerar um pouco.

— Bom dia, criatura estranha — ele falou sem olhar pra trás.

Revirei os olhos automaticamente.

— Bom dia, pai.

Ele finalmente virou segurando uma torrada mordida.

— Você tá com cara de quem passou a madrugada resolvendo os mistérios do universo.

Congelei por meio segundo.

Meu pai estreitou os olhos imediatamente.

— Ah não. Essa cara significa que você realmente tava fazendo isso.

Comecei a rir sem querer.

E ele riu logo depois, claramente aliviado por eu parecer normal outra vez.

Minha mãe apareceu na cozinha pegando a bolsa.

Ela me olhou discretamente.

Só pra verificar se eu tava bem.

Sorri pequeno pra tranquilizar ela.

Funcionou mais ou menos.

Meu pai terminou o café rápido e pegou a chave do carro.

— Vamos antes que eu receba outra ligação dizendo que minha filha resolveu discutir filosofia existencial com os professores.

— Isso aconteceu uma vez.

— Três.

— Detalhes.

Minha mãe riu baixinho enquanto eu pegava a mochila.

Antes de sair, ela segurou meu rosto rapidinho entre as mãos.

— Tenha um bom dia.

— Vou tentar.

Ela beijou minha testa e me soltou.

O ar frio de Forks bateu no rosto assim que saímos de casa.

A chuva tinha diminuído pra aquela garoa irritante que nunca acabava de verdade.

Entramos no carro e meu pai ligou o aquecedor imediatamente.

Ficamos em silêncio por alguns minutos enquanto ele dirigia pelas ruas molhadas.

Mas eu conseguia sentir ele me olhando discretamente de vez em quando.

Pensando.

Finalmente suspirei.

— A mamãe contou pra você?

Ele soltou uma risada fraca pelo nariz.

— Contou.

Afundei no banco dramaticamente.

— Ótimo.

— Ei.

Olhei pra ele.

Meu pai mantinha os olhos na estrada enquanto falava calmamente:

— Você não tá assustando a gente.

Meu peito apertou um pouquinho.

— Nem um pouco?

Ele pensou por dois segundos.

— Tá. Um pouco.

Comecei a rir.

E ele também.

Então ficou sério outra vez.

— Mas isso não muda nada.

Olhei pela janela enquanto a floresta passava borrada pela chuva.

— Eu não sei o que tá acontecendo comigo.

Meu pai ficou quieto por um instante antes de responder:

— Talvez ninguém saiba ainda.

Silêncio confortável.

Então ele acrescentou:

— Mas você não precisa resolver tudo sozinha.

Meu coração apertou quentinho.

Assenti pequeno.

Quando finalmente chegamos na escola, o estacionamento já tava cheio.

Meu pai estacionou devagar e desligou o carro.

Mas antes que eu saísse…

Ele segurou meu braço de leve.

Olhei pra ele imediatamente.

— Independente do que você lembrar… — ele falou baixinho — não esquece de viver essa vida também, tá?

A garganta queimou um pouquinho.

Porque aquela frase parecia importante demais.

Assenti devagar.

— Tá bom.

Ele sorriu pequeno e bagunçou meu cabelo antes de me deixar sair do carro.

O frio atingiu meu rosto imediatamente enquanto eu atravessava o estacionamento segurando a mochila.

E sem querer…

Olhei automaticamente pra floresta atrás da escola.

Como se esperasse ver olhos dourados me observando entre as árvores.