Eu Me Lembro - Crepúsculo
73 Bom Dia
Quando desci as escadas já pronta, o cheiro de café preenchia a casa inteira.
Meu pai tava na cozinha terminando de colocar alguma coisa numa marmita enquanto cantarolava baixinho uma música aleatória.
Normal.
Confortável.
O tipo de coisa que fazia meu cérebro finalmente desacelerar um pouco.
— Bom dia, criatura estranha — ele falou sem olhar pra trás.
Revirei os olhos automaticamente.
— Bom dia, pai.
Ele finalmente virou segurando uma torrada mordida.
— Você tá com cara de quem passou a madrugada resolvendo os mistérios do universo.
Congelei por meio segundo.
Meu pai estreitou os olhos imediatamente.
— Ah não. Essa cara significa que você realmente tava fazendo isso.
Comecei a rir sem querer.
E ele riu logo depois, claramente aliviado por eu parecer normal outra vez.
Minha mãe apareceu na cozinha pegando a bolsa.
Ela me olhou discretamente.
Só pra verificar se eu tava bem.
Sorri pequeno pra tranquilizar ela.
Funcionou mais ou menos.
Meu pai terminou o café rápido e pegou a chave do carro.
— Vamos antes que eu receba outra ligação dizendo que minha filha resolveu discutir filosofia existencial com os professores.
— Isso aconteceu uma vez.
— Três.
— Detalhes.
Minha mãe riu baixinho enquanto eu pegava a mochila.
Antes de sair, ela segurou meu rosto rapidinho entre as mãos.
— Tenha um bom dia.
— Vou tentar.
Ela beijou minha testa e me soltou.
O ar frio de Forks bateu no rosto assim que saímos de casa.
A chuva tinha diminuído pra aquela garoa irritante que nunca acabava de verdade.
Entramos no carro e meu pai ligou o aquecedor imediatamente.
Ficamos em silêncio por alguns minutos enquanto ele dirigia pelas ruas molhadas.
Mas eu conseguia sentir ele me olhando discretamente de vez em quando.
Pensando.
Finalmente suspirei.
— A mamãe contou pra você?
Ele soltou uma risada fraca pelo nariz.
— Contou.
Afundei no banco dramaticamente.
— Ótimo.
— Ei.
Olhei pra ele.
Meu pai mantinha os olhos na estrada enquanto falava calmamente:
— Você não tá assustando a gente.
Meu peito apertou um pouquinho.
— Nem um pouco?
Ele pensou por dois segundos.
— Tá. Um pouco.
Comecei a rir.
E ele também.
Então ficou sério outra vez.
— Mas isso não muda nada.
Olhei pela janela enquanto a floresta passava borrada pela chuva.
— Eu não sei o que tá acontecendo comigo.
Meu pai ficou quieto por um instante antes de responder:
— Talvez ninguém saiba ainda.
Silêncio confortável.
Então ele acrescentou:
— Mas você não precisa resolver tudo sozinha.
Meu coração apertou quentinho.
Assenti pequeno.
Quando finalmente chegamos na escola, o estacionamento já tava cheio.
Meu pai estacionou devagar e desligou o carro.
Mas antes que eu saísse…
Ele segurou meu braço de leve.
Olhei pra ele imediatamente.
— Independente do que você lembrar… — ele falou baixinho — não esquece de viver essa vida também, tá?
A garganta queimou um pouquinho.
Porque aquela frase parecia importante demais.
Assenti devagar.
— Tá bom.
Ele sorriu pequeno e bagunçou meu cabelo antes de me deixar sair do carro.
O frio atingiu meu rosto imediatamente enquanto eu atravessava o estacionamento segurando a mochila.
E sem querer…
Olhei automaticamente pra floresta atrás da escola.
Como se esperasse ver olhos dourados me observando entre as árvores.
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