Eu Me Lembro - Crepúsculo
68 Sozinhos
O silêncio depois da minha resposta ficou pesado na cozinha.
Maliza abaixou os olhos lentamente para o prato.
O coração acelerando um pouquinho.
Triste.
Alice percebeu primeiro, claro.
Ela olhou rapidamente para o resto da família antes de falar casualmente demais:
— Emmett, vem comigo.
— Mas eu—
Rosalie já estava levantando puxando ele pelo braço.
— Agora.
— Isso é preconceito contra pessoas bonitas.
Jasper passou por mim silenciosamente enquanto Esme recolhia alguns pratos vazios da bancada.
Carlisle apareceu na porta da cozinha por um instante, observou nós dois e apenas assentiu levemente antes de sair também.
Em poucos segundos…
Restou apenas eu e Maliza.
O som da chuva.
O relógio da cozinha.
E o coração humano dela batendo rápido demais.
Ela mexia distraidamente no canto do caderno com o lápis.
Sem me olhar.
Como Bella fazia quando estava nervosa.
Meu peito apertou outra vez.
Sentei devagar na cadeira à frente dela.
Mantendo distância suficiente para não assustá-la.
Mas perto o bastante para ouvir cada mudança na respiração dela.
— Ei.
Ela levantou os olhos devagar.
Os castanhos brilhando inseguros.
— Eu estraguei tudo?
A pergunta atravessou meu peito imediatamente.
Porque ela parecia genuinamente assustada com isso.
Balancei a cabeça rápido.
— Não.
Ela apertou os lábios.
— Então por que você ficou com aquela cara?
Fechei os olhos por um segundo curto.
Porque como eu explicava isso?
Como explicava que ouvir “eu lembro de ser Bella” tinha partido e reconstruído meu mundo inteiro ao mesmo tempo?
Olhei novamente pra ela.
Pequena demais.
Humana demais.
Mas carregando uma dor antiga demais pra idade que tinha agora.
Então respondi a verdade:
— Porque eu passei muitos anos tentando sobreviver sem você.
O coração dela falhou uma batida inteira.
E eu imediatamente percebi o erro.
Você.
Não Bella.
Você.
Maliza percebeu também.
Os olhos arregalaram levemente.
Mas ela não corrigiu.
Não pareceu ofendida.
Só… triste.
Ela largou o lápis lentamente sobre a mesa.
— Às vezes eu fico com medo.
Minha garganta apertou.
— Do quê?
Ela demorou pra responder.
Observando as próprias mãos.
— De esquecer.
O mundo inteiro pareceu parar por um instante.
Porque aquilo fazia sentido demais.
Porque as lembranças dela vinham em fragmentos.
Sentimentos. Vozes. Pessoas.
E talvez ela estivesse percebendo que Bella não era apenas memória.
Era uma vida inteira desaparecendo aos poucos dentro dela.
— Quando eu lembro das coisas… — ela murmurou baixinho — parece muito importante. Mas depois fica distante de novo.
Meu peito queimou violentamente.
Ela levantou os olhos para mim outra vez.
— E se eu esquecer você?
A pergunta destruiu o pouco equilíbrio que eu ainda fingia ter.
Porque aquela…
Aquela era exatamente a minha maior ameaça desde que ela apareceu em Forks.
Não perder Bella outra vez pela morte.
Mas pelo tempo.
Pelo crescimento.
Por Maliza inevitavelmente se tornando apenas Maliza.
Humana. Viva. Nova.
Ela percebeu minha expressão imediatamente e se arrependeu.
— Desculpa, eu não queria—
— Não.
Interrompi rápido demais.
Inclinei um pouco o corpo na direção dela antes de continuar mais baixo:
— Você não precisa lembrar de mim pra importar.
Os olhos dela ficaram brilhantes imediatamente.
— Mas eu quero lembrar.
Silêncio.
A chuva parecia mais forte agora contra as janelas da cozinha.
Então Maliza perguntou quase num sussurro:
— Você sente falta dela todos os dias?
Fechei os olhos.
Porque não existia resposta segura pra isso.
Quando abri novamente…
Ela me observava como Bella costumava observar.
Como alguém tentando entender uma dor que já conhecia.
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