Eu corri até a casa como se alguma coisa estivesse me perseguindo.


Talvez estivesse.


Meus próprios pensamentos eram piores do que qualquer monstro que já enfrentei.


As árvores desapareceram num borrão escuro enquanto a voz de Emily continuava ecoando na minha memória. Não as palavras exatamente.


O tom.


A cadência.


Aquele maldito jeito suave de falar.


Parecia uma provocação cruel do universo.


Quando atravessei a porta da casa dos Cullen, Alice levantou imediatamente do sofá.


Ela nem precisou ler meu rosto.


Os pensamentos já estavam me denunciando.


Bella.


Emily.


Charlie chamando ela de sobrinha.


Os olhos do bebê.


— Edward—


— Não.


Minha voz saiu mais dura do que pretendia.


Subi as escadas num borrão e parei no corredor escuro antes do meu quarto.


O quarto de Bella.


Eu raramente entrava completamente agora.


Porque cada objeto ali parecia um pedaço do corpo dela abandonado no tempo.


Mas naquela noite eu entrei.


Devagar.


A cadeira da escrivaninha ainda estava torta exatamente do jeito que Bella deixava. Um livro velho permanecia aberto na última página que ela tentou ler. O cobertor azul continuava dobrado no canto da cama.


Sete anos.


Nada tinha mudado.


Porque eu não deixava.


Fechei a porta atrás de mim e permaneci imóvel no centro do quarto.


Então finalmente admiti o pensamento horrível que estava tentando evitar o dia inteiro.


Eu queria vê-la de novo.


Emily.


Só para confirmar que tudo aquilo era coincidência.


Só para provar para mim mesmo que não havia nada de Bella nela.


Mentira.


Eu sabia que era mentira no instante em que pensei.


Porque uma parte monstruosa de mim já estava procurando migalhas.


Ecos.


Qualquer coisa.


O cheiro.


O jeito de inclinar a cabeça.


A voz.


Eu estava fazendo exatamente o que Jacob acusou.


Agindo como se ela pudesse ser—


Não.


Rosnei baixo para mim mesmo.


A parede ao lado da cama rachou sob minha mão.


— Edward.


A voz de Carlisle veio calma da porta.


Eu não tinha ouvido ele subir.


Claro que não. Eu estava distraído demais enlouquecendo.


Carlisle observou o quarto silenciosamente antes de falar:


— Alice está preocupada.


Quase ri.


Alice estava preocupada?


Ela deveria estar aterrorizada.


Porque eu estava começando a entender algo profundamente errado sobre mim mesmo.


— Eu passei sete anos tentando sobreviver à morte dela — murmurei sem olhar para ele. — E agora meu cérebro está tentando transformar uma estranha em um fantasma.


Carlisle permaneceu em silêncio por alguns segundos.


Então entrou no quarto devagar.


— Isso não significa que você está substituindo Bella.


Fechei os olhos imediatamente.


Porque parte de mim temia exatamente isso.


— Então o que significa?


Carlisle demorou para responder.


— Que você nunca superou a perda dela.


A frase foi tão óbvia que quase pareceu cruel.


Claro que não superei.


Bella não foi apenas alguém que eu amei.


Ela era o eixo inteiro da minha existência.


Quando morreu, tudo continuou se movendo… exceto eu.


Carlisle observou a foto virada para baixo sobre a mesa.


— Charlie provavelmente está passando pelo mesmo problema — disse baixo. — Emily deve trazer lembranças para ele.


Lembranças.


Não ressurreição.


Eu precisava ouvir aquilo.


Precisava repetir aquilo até acreditar.


Emily não era Bella.


O bebê não era algum milagre impossível.


E os olhos parecidos não significavam nada além de genética cruel e coincidências dolorosas.


Então por que eu ainda conseguia ouvir aquele coração pequeno batendo na minha cabeça?


Tum-tum-tum-tum.


Forte.


Vivo.


Meu corpo inteiro tensionou outra vez.


Carlisle percebeu imediatamente.


— Edward.


— Eu sei.


Mas minha voz falhou no final.


Porque o pior não era a semelhança.


Era o medo.


Medo de me apegar àquilo.


E medo ainda maior de descobrir que eu já estava apegado.