Eu Me Lembro - Crepúsculo
17 Fugindo
Eu fui embora sem direção.
Como da primeira vez.
A diferença era que antes eu fugia porque acreditava que Bella estaria mais segura sem mim.
Agora eu fugia porque não sabia sobreviver à possibilidade de sentir alguma coisa novamente.
O primeiro lugar para onde fui foi Jacksonville.
Claro que foi.
Dirigi por dias inteiros sem precisar parar, deixando Forks desaparecer lentamente atrás de mim enquanto a chuva cinzenta dava lugar ao calor úmido da Flórida.
Renée ainda morava na mesma rua.
A mesma casa clara. As mesmas plantas exageradas perto da varanda. O mesmo sino de vento irritante balançando na entrada.
Eu fiquei observando de dentro do carro durante horas.
Renée parecia menor agora.
Mais velha.
O cabelo tingido escondia mal os fios grisalhos.
Ela saiu de casa segurando uma caneca de café, distraída, falando sozinha exatamente como Bella dizia que fazia quando nervosa.
Meu peito apertou imediatamente.
Bella.
Sempre Bella.
Renée ainda carregava a dor dela no rosto. Mais silenciosa agora. Mais integrada ao corpo. Como uma doença antiga que nunca desapareceu completamente.
Então ela sorriu para alguma coisa no celular.
E ouvi.
Mesmo de longe.
“Ela é linda, Charlie.”
Uma foto.
Maliza.
Meu corpo inteiro congelou.
Renée levou a mão à boca olhando a tela.
Os pensamentos dela ficaram inundados de saudade instantaneamente.
Bella teria amado essa bebê.
Fechei os olhos imediatamente.
E fui embora.
Outra vez.
Os dias viraram meses rápido demais.
Roma.
Praga.
Buenos Aires.
Tóquio.
Reykjavík.
Eu me movia constantemente porque ficar parado fazia os pensamentos piorarem.
Mas não importava onde eu estivesse.
Alice sempre me encontrava.
Às vezes ligava apenas para dizer coisas banais.
“Emmett destruiu outra mesa.”
“Charlie finalmente trocou o sofá.”
“Jasper está ganhando de Rosalie no xadrez e ela odeia isso.”
Tentativas transparentes de manter algum pedaço meu conectado à família.
E funcionava.
Mais do que eu admitia.
Carlisle também ligava.
Nunca pressionava.
Nunca perguntava quando eu voltaria.
Só falava comigo como se eu ainda pertencesse àquela vida.
Esme às vezes deixava mensagens longas demais sobre qualquer detalhe doméstico imaginável.
Eu ouvia todas.
Mais de uma vez.
Porque a voz deles me lembrava que ainda existia um lugar no mundo onde eu era amado.
Mesmo quebrado.
E inevitavelmente…
Maliza aparecia nas conversas.
No começo Alice evitava.
Depois percebeu que eu perguntava mesmo sem perceber.
“Charlie está melhor?”
“Emily está dormindo?”
“A bebê continua saudável?”
A bebê.
Como se eu tivesse medo até do nome dela.
Então um dia Alice simplesmente falou:
— Ela começou a andar.
Silêncio.
Eu fiquei parado no telhado de um prédio em Viena olhando neve cair enquanto o mundo inteiro parecia distante.
— Ah.
Alice suspirou do outro lado da linha.
— Edward.
— O quê?
— Você perguntou rápido demais.
Fechei os olhos imediatamente.
Droga.
Quatro anos passaram assim.
Rápidos para um imortal.
Mas longos o suficiente para mudar humanos profundamente.
Charlie envelheceu mais.
Emily se casou oficialmente com Aaron.
Sue e Charlie finalmente começaram algo de verdade.
E Maliza…
Maliza cresceu.
Alice mandava fotos às vezes apesar de eu nunca pedir diretamente.
Mentira.
Eu nunca precisei pedir.
Ela sabia.
Na primeira foto, Maliza estava coberta de tinta azul até os cotovelos.
Na segunda, dormia abraçada num cachorro enorme.
Na terceira…
Meu corpo inteiro congelou.
Ela estava sentada no colo de Charlie segurando um livro.
Os olhos castanhos enormes concentrados na página.
Exatamente como Bella fazia.
Passei horas olhando aquela foto sozinho num hotel em Lisboa.
Horas.
Odiando a mim mesmo.
Porque eu já sabia coisas demais sobre uma criança que nunca conheci.
Alice ligou naquela noite.
— Você ainda vai fingir que não ama ela?
A pergunta me destruiu imediatamente.
— Alice—
— Não daquele jeito.
A voz dela saiu cansada.
— Edward, ela não substitui Bella. Ninguém substitui.
Silêncio.
Então Alice falou algo que me perseguiu por semanas:
— Mas talvez amar alguém de novo não seja uma traição.
Eu desliguei logo depois.
Porque aquilo era perigoso demais para pensar.
Mas naquela noite…
Pela primeira vez em quatro anos longe de Forks…
Eu comecei a considerar voltar.
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