Eu Me Lembro - Crepúsculo
12 Conversa e Desabafo
No dia seguinte, a chuva caiu pesada desde o amanhecer.
A casa inteira estava silenciosa outra vez.
Mas não era o silêncio confortável de antes.
Era tensão.
Expectativa.
Como se todos estivéssemos esperando alguma coisa acontecer.
Eu estava sentado imóvel no piano quando ouvi o motor da caminhonete de Charlie subindo a estrada.
Meu corpo inteiro endureceu imediatamente.
Charlie raramente vinha aqui.
Quase nunca, depois de Bella.
Ouvi os pensamentos dele antes mesmo da porta abrir.
Nervoso.
Cansado.
Determinado.
E tristeza.
Sempre tristeza.
Esme foi atender primeiro, surpresa.
Então Charlie entrou na casa lentamente, carregando cheiro de chuva e café velho. O cabelo grisalho estava mais ralo agora. As rugas pareciam mais profundas do que apenas um dia antes.
Mas o que realmente me atingiu…
Foi o jeito que ele olhou para mim.
Não havia raiva.
Nunca mais houve.
Só cansaço antigo.
— Edward — ele disse baixo.
Levantei devagar.
Os outros desapareceram discretamente da sala quase imediatamente. Carlisle puxou Esme consigo. Emmett subiu as escadas sem dizer nada. Alice hesitou antes de sair, claramente querendo ouvir tudo.
Então restaram apenas nós dois.
Como deveria ter acontecido anos atrás.
Charlie esfregou as mãos molhadas na calça jeans.
Parecia desconfortável.
— Eu… precisava conversar com alguém.
Aquilo me surpreendeu mais do que deveria.
Charlie nunca foi homem de conversar.
Muito menos comigo.
Ele soltou um suspiro pesado antes de continuar:
— E antes que você diga qualquer coisa… eu não vim aqui pra culpar você.
Meu peito apertou instantaneamente.
Charlie desviou o olhar para a janela.
— Já perdi anos demais fazendo isso comigo mesmo.
Silêncio.
A chuva batia forte no telhado.
Então ele finalmente falou o nome dela.
— Bella fez as escolhas dela.
A frase saiu difícil.
Como se ainda doesse dizer em voz alta depois de sete anos.
— Eu passei muito tempo pensando que precisava odiar alguém pelo que aconteceu.
Ele soltou uma risada seca.
— Você era o alvo mais fácil.
Eu permaneci imóvel.
Porque não havia defesa possível.
Charlie respirou fundo.
— Mas ela amava você.
Aquilo destruiu alguma coisa dentro de mim imediatamente.
Charlie continuou olhando para a chuva.
— E eu conhecia minha filha. Quando ela colocava algo na cabeça… acabou.
Uma memória atravessou minha mente involuntariamente.
Bella sorrindo teimosa enquanto insistia que queria se tornar vampira.
Meu peito queimou.
Charlie esfregou o rosto cansado.
— Então… acho que só fiquei cansado de carregar raiva.
O silêncio entre nós ficou estranho.
Pesado.
Mas não hostil.
Então os pensamentos dele mudaram.
Emily.
Maliza.
Confusão.
Charlie soltou outro suspiro.
— E agora tem isso.
Meu corpo inteiro tensionou discretamente.
Ele percebeu.
Claro que percebeu.
— Você viu a bebê, né?
Não respondi imediatamente.
Charlie assentiu devagar, como se isso confirmasse algo para ele.
— Eu quase deixei ela cair quando abriu os olhos.
Meu peito apertou violentamente.
— Charlie—
— Eu sei.
A voz dele saiu cansada.
— Eu sei que ela não é Bella.
Mas o jeito como falou mostrava exatamente o contrário.
Porque ele também via.
Também sentia.
Charlie sentou lentamente no sofá, parecendo dez anos mais velho de repente.
— Emily lembra Renée quando era mais nova às vezes. Mas tem horas…
Ele hesitou.
Eu não conseguia me mover.
— Tem horas que ela faz uma expressão e eu juro por Deus que vejo Bella olhando pra mim.
O silêncio ficou sufocante.
Charlie apoiou os cotovelos nos joelhos.
— E agora a bebê também.
Ele soltou uma risada baixa e quebrada.
— Acho que eu tô ficando maluco.
Não.
Porque eu entendia perfeitamente.
Isso era o pior.
Charlie finalmente olhou diretamente para mim.
Os olhos cansados carregavam sete anos de luto acumulado.
— Eu precisava falar disso com alguém que amava ela tanto quanto eu.
A frase quase me destruiu.
Porque durante sete anos eu achei que Charlie me odiasse demais para ainda me considerar parte daquela dor.
Mas ali estava ele.
Quebrado exatamente como eu.
Tentando sobreviver aos fantasmas de Bella em outras pessoas.
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