Eu, Kindred
1 A ovelha chama. O lobo ataca.
Notas iniciais
Essa é uma homenagem para esse campeão.
Espero que goste.
"
— Olá, somos Kindred, pelo menos esse é um de nossos nomes. Nas terras do oeste eu sou Ina e meu parceiro é Ani. No leste, sou Farya e ele é Wolyo. Independente de nossos nomes eu sou sempre a Ovelha e ele sempre será o Lobo. Eu irei lhes contar um pequeno conto de nossa aventura, certo, Lobo?
— Não me importo. Eu só quero caçar!
— Paciência, caro Lobo.
— Aaaarrrrggg... Quero morder algo que seja macio e que gema de dor.
— É claro, posso contar nossa história enquanto caçamos.
— Então vamos logo!
— Venha, minha criança, deixe-me lhe contar um pequeno conto.
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Numa cidade qualquer, o inverno castigava seus habitantes. Como se o frio não fosse castigo suficiente, uma epidemia mortal se agravava na cidade deixando mais da metade da população doente.
Muitos morreram e outros muitos esperavam, pacientes, pelo fim. Os hospitais precários e extremamente lotados de pessoas que proferiam palavras de maldição aos funcionários e deuses que antes tanto prestigiavam
— Ovelha, por que não nos veem?
— Ainda não é chegado o tempo, meu caro — respondi com a voz suave e gentil.
— E aqueles que nos veem? — sua voz era grave e ameaçadora.
— Para esses é chegado a hora.
— Eu os devorarei! — o sorriso vinha de orelha a orelha.
— Como eles desejarem, caro Lobo.
Só aqueles que estão em seus últimos momentos podem nos sentir. Para muitos não somos tão visíveis. Para outros somos tão próximos como velhos amigos.
Um homem velho ergue suas mãos suplicando pelo descanso eterno. Sua doença já avançara o suficiente para não existir mais cura nem... esperança. Eu não podia permitir que tal alma sofresse mais. Empunhei meu arco e desferi uma flecha alva em seu peito, fazendo-o cair lentamente ao chão. Ninguém sabia seu nome e nem mais saberia.
—Eu queria devorá-lo, Ovelha — disse o Lobo circulando meu corpo, depois se aproximando do corpo inerte no chão.
— Não aqueles que me aceitam tão gentilmente, caro Lobo.
Passo a passo fui desferindo minhas flechas nos corações daqueles que me aceitavam naturalmente. Entretanto um jovem garoto que ainda tinha muitos sonhos não me aceitava, mesmo que lhe restasse apenas poucas horas de vida.
Quando me avistou, sentiu a adrenalina que há muito tempo ele não sentia.
Vendo que o garoto não me aceitava, parei de avançar. O Lobo pousou nos meus pés com olhos curiosos.
— Escolha agora minhas flechas...
— Ou meus dentes — o Lobo abriu um largo sorriso deixando visíveis os dentes pontiagudos e mortais.
Apavorado, o garoto juntou suas forças para fugir daquela presença. Virou uma esquina e correu para o mais longe possível.
— Tome para você — concedi.
— Sim — o Lobo iniciou sua perseguição comigo logo atrás.
As forças do garoto eram limitadas, mas admito que eram surpreendentes. Ele correu metros de distância de onde estava em poucos minutos. Contudo mesmo longe ele podia ouvir a voz cruel do Lobo:
— A caçada começou!
O garoto virou uma esquina, entrou numa simplória mercearia e saiu pelas portas dos fundos indo de encontro contra a ruela. Correu e correu. Corria pela sua vida. Ele não queria morrer. Não se permitiria morrer.
Seu corpo estava quente por causa da corrida, o frio não o incomodava, porém seu fôlego começava a vacilar. Atrás de um caixote, decidiu descansar na esperança de ter nos despistado.
O sorriso aliviado foi substituído pelo pânico. Uma luz prateada veio de seu corpo e então a marca apareceu em seu peito.
— Temos o seu nome... — eu disse estando a poucos metros dele.
— E o seu cheiro — completou o Lobo com a voz ameaçadora.
O garoto encolheu seu corpo e tentou espreitar por cima do caixote. Sua curiosidade só lhe confirmava o inevitável.
Eu o observava com meus olhos azuis e imaginando quais seriam suas ações futuras.
— Aí está você — disse o Lobo em seu tom aterrorizante. — Ninguém pode se esconder...
— Embora muitos tentem — completei imparcialmente.
Sabendo que não podia mais se esconder ali, o garoto ergueu seu corpo com dificuldade e mesmo ofegante e com as dores que sua doença lhe proporcionava ele não desistia, continuava a fugir de seu destino.
— Corra... agora! — ordenou o Lobo se divertindo. — A caçada recomeçou! — Estava visivelmente empolgado.
A visão do garoto começava a ficar turva. Sua respiração era mais pesada e dificultosa, precisava se escorar nas paredes para não cair. E com um sorriso desconformado se deparou com uma rua sem saída.
Olhando de volta para local de onde veio, eu bloqueava a única saída.
As poucas horas que lhe restavam se transformavam em minutos.
— Podemos ir, caro Lobo? — perguntei.
— Eu vou primeiro. — Seu corpo se moveu em direção a sua presa.
Ainda com as poucas forças, pegou um pedaço de madeira no chão e apontou para meu parceiro que riu em resposta. O corpo dele tremia de medo e seus batimentos cardíacos estavam acelerados.
— Ele quer brincar, Ovelha — disse o Lobo movendo-se mais um pouco afrente. — Isso será divertido.
— Fique à vontade — eu disse enquanto ficava na retaguarda apenas observando.
Desesperado, o garoto avançou com o pedaço de madeira investindo contra o Lobo que agilmente se esquivou fazendo-o acertar seu corpo gasoso. Com a guarda totalmente aberta, o Lobo cravou seus dentes na panturrilha do garoto que urrou de dor. A mordida rasgou a carne tingindo o chão de um vermelho belo e vivo.
O garoto sentiu o ardor percorrer sua perna e, tentando suportar a dor, girou seu corpo para atingir o Lobo pela frente. Entretanto, meu parceiro já se encontrava atrás dele novamente, mordendo seu ombro esquerdo e arrancando parte do músculo do braço.
As lágrimas caíam de seus olhos. O garoto tentou se afastar, mas com sua perna ferida vacilou e seu corpo caiu sobre o próprio sangue. Antes que pudesse se virar o Lobo lhe rasgou o musculo lombar em suas costas.
O garoto ficou inerte, não tinha mais forças para se mover nem mesmo erguer a cabeça. A visão do céu cinzento sem nenhuma estrela era terrivelmente deprimente.
Olhando-o por cima, cobri seu campo de visão obrigando-o a me encarar.
— É esse meu fim? Que decepcionante — a voz do garoto fraquejava.
O silêncio se manteve absoluto até o momento que o Lobo, mostrando seu sorriso final, cravou-lhe os dentes pontiagudos no pescoço fazendo-o ter espasmos momentâneos.
— Tal qual acontece com todos que carregam nossa marca — foram às últimas palavras que o garoto ouviu de mim.
O Lobo devorou o jovem garoto enquanto eu olhava para o céu melancólico, admirando o último cenário que nosso alvo pôde apreciar.
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— Quem é o próximo? — perguntou o Lobo faminto.
— Todo mundo — eu, a Ovelha, respondi serenamente.
Notas finais
Rezo para que no nosso próximo encontro, tu não tenhas a marca de Kindred.
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