Eu Escolhi Você

2 Doces lembranças, amarga realidade!



Naquela noite, Hiumy não foi a única a ir dormir tarde. Na casa ao lado, Felipe em seu quarto, se perguntou repetidas vezes a mesma coisa, até pegar no sono. Mesmo que soubesse a resposta e talvez soubesse, agora lutava para não admitir, que seu olhar para Hiumy denunciava seus sentimentos e que mesmo que não diga uma palavra, o coração grita e se expressa com os olhos!

No dia seguinte, a história se repetia:

-Hiumyyyy, está na hora do café! Não demora se não você vai se atrasar!

-Tudo bem mãe, já vou descer.

-Filha, o que pretende fazer com sua bicicleta?

-Qual bicicleta mãe?

-Aquela que ganhou do seu pai, que está na garagem!

-Não sei mãe, acho que está muito velha. Não sei se tem como concertar.

-Olha filha, vou colocá-la no passeio, se alguém a levar, tudo bem, se não a gente manda arrumar. Estamos combinadas?

-Sim mãe , tudo bem. Mas agora preciso ir se não vou me atrasar.

-Vá bem e se esforce na escola. [ despede Shizuka ]

Hiumy se levanta da mesa e rapidamente sai pela porta da sala. Mas antes de se dirigir ao passeio, olhou para um lado e para o outro, talvez tentando encontrar ou evitar seu vizinho. Mas naquela manhã, Felipe se atrasou:

-Ai caramba! [ dando um salto da cama ] Estou atrasado! A professora vai me matar!
[ desce rapidamente as escadas ]

-Filho, não vai tomar café? [ questiona Sandra, sua mãe ]

-Não mãe, eu estou muito atrasado. Vou levar apenas essa maçã. [ toma a maçã, beija sua mãe e sai pela porta da sala apressadamente. Ao sair Felipe se depara com a Sra. Shizuka empurrando uma velha bicicleta para o passeio.]

-Bom dia Sra. Shizuka, essa bicicleta... a Senhora, não a quer mais?

-Oi Felipe, bom dia! Essa bicicleta é da Hiumy, ela a ganhou do pai, mas acho que está muito velha e apesar da Hiumy gostar muito dela, não temos dinheiro para mandar concertar entende?

-Sim Senhora, eu entendo! Bom! Eu tenho que ir para a escola. Bom dia Sra. Shizuka!

-Bom dia Felipe e se esforce na escola hein!

-Sim Senhora!

Felipe esperou que a Sra. Shizuka colocasse a bicicleta no passeio e imaginou que pudesse pegá-la, concertar e devouvê-la para Hiumy. Tentando assim começar do zero, ou tentar se aproximar. A quem estava tentando enganar? O verdadeiro motivo é que, ver novamente aquele sorriso ou aquele cabelo, lhe faria bem.

Felipe pegou a velha bicicleta levou para sua garagem e ficou ali, sem se lembrar do horário da escola e sem que percebesse, já havia começado a escurecer. Passara o dia inteiro na garagem concertando a velha bicicleta; pintura, peças novas, uma boa limpeza. A cada novo brilho que surgia na bicicleta, uma visão da possível reação de Hiumy ao recebê-la; um sorriso, um obrigado, um abraço e quem sabe um beijo! Mas por que? Por que, aquela garota, que não gostava dele, que o maltratava? Essa era a maior questão na cabeça de Felipe.
Naquela noite, Hiumy chegou em casa, cumprimentou sua mãe, mas não havia aquele sorriso dos outros dias, parecia faltar algo!

-Oi filha, como foi na escola?

-Tudo bem mãe, eu tive uma prova hoje, mas tirei boa nota. Mãe, o que houve com a bicicleta?

-Não sei filha! Acho que alguém a levou, mas nós combinamos, lembra?

-Sim mãe, eu sei, mas... foi meu pai quem me deu antes de...

-Eu sei filha, mas você sempre vai ter a lembrança dele e isso ninguém vai levar, não vai envelhecer.

O conselho de sua sábia mãe, pareceu não devolver o sorriso ao rosto de Hiumy. Ainda faltava alguma coisa.
Hiumy subiu para o quarto que parecia mais escuro, mais silencioso, mais vazio que nunca! Silêncio que foi quebrado enquanto conversava consigo mesma:

-Por que aquele garoto não foi na escola hoje? Bom, pelomenos eu não tive que conversar com ele. Será que aconteceu alguma coisa? [ olha pela janela em direção a casa de Felipe. A luz de seu quarto estava acesa. ]

Aquela talvez tenha sido a noite mais bem dormida para Felipe. Não havia como negar sua ansiedade com o dia seguinte. Mas o sono veio, os sonhos vieram, talvez os mais doces até aquele momento.

Na manhã seguinte, Felipe esperou Hiumy sair primeiro. Foi até a frente de sua garagem levando a bicicleta; a colocou lá, certo de que conseguiria se aproximar da garota. Pela janela do quarto, observava Shizuka, o comportamento do vizinho.
Após Felipe sair, a mãe de Hiumy desceu para ver a bicicleta. Ficou ali por alguns instantes, talvez a bicicleta nova tivesse trazido alguma boa lembrança, talvez somente pensando no motivo para aquilo.

Um pouco na frente, Hiumy caminhava a passos largos em direção a escola. Chegando lá dirigiu-se a sala. O mesmo fez Felipe, porém com um sorriso, como alguém que prepara uma festa surpresa de aniversário e espera ansioso para ver a reação do aniversariante.
Já no intervalo, Felipe entrou no refeitório procurando por Hiumy, aquela era à hora de contar a surpresa. Dirigiu-se segurando os passos para não correr em direção a garota. Quando chegou à mesa disse:

-Bom dia pessoal! [ silêncio ] Hium...

-Gente, vamos para outro lugar? [ levantou-se a garota chamando seus amigos e sentou-se em outra mesa ]

Felipe não compreendeu e insistiu indo até a outra mesa.

-Hiumy, será que eu poderia conversar com você?

Naquele momento houve cochichos, risos de deboche. Hiumy se sentiu constrangida. Sem saber do que se tratava, não pensou duas vezes; olhou para os amigos e respondeu a Felipe:

-Escuta, será que você não entendeu que não quero ser sua amiga, não quero conversar com você, não quero nem mesmo sentar na mesma mesa que você?! Faz um favor pra mim? Volta para o seu canto e me esquece tá?!

Houve em todo o refeitório, um silêncio que só foi quebrado pelo batido de um coração, não, talvez fossem gemidos, talvez fossem lágrimas!
Felipe não teve chance de falar da velha bicicleta! Seu amigo Shouta, viu a cena e logo tratou de apoiar o novo aluno:

-Felipe, esquece! São um bando de fracassados, você não ia querer se juntar a eles. Além do mais a escola é grande e tem muita gente legal, muitas garotas, você pode fazer amizade com outras pessoas né!?

Felipe novamente tenta esboçar um sorriso para o amigo.

-Claro, eu não queria me sentar com eles, só queria dizer uma coisa, mas não tem importância. Não era nada de importante! [ mudando de assunto, Felipe tenta desconversar ] Ei Shouta, pode me explicar como que funcionam os clubes? Eu estou interessado em participar de um.

-Claro que sim, eu posso te apresentar aos presidentes deles também. Com isso você poderá escolher o melhor para você. Ei, Felipe-chan, não deixa isso te desanimar, ou criar uma imagem ruim sobre os outros alunos tá?!

-Tá!

Na saída da escola, Felipe novamente encontra com Hiumy e seus colegas. Porém, desta vez Felipe não abaixou a cabeça, simplesmente seguiu em frente. No rosto de Hiumy, um sorriso amarelo, tentando não deixar transparecer para seus colegas que ela talvez estivesse um pouco arrependida de ter falado daquela forma com Felipe, mas não o procurou.
Chegando em casa, Felipe passou pela garagem, mas não viu mais a bicicleta e pensou em quem poderia ter pego. Mas não se importou muito, caso ainda estivesse lá, ele a pegaria e daria a outra pessoa, uma vez que a bicicleta havia sido jogada fora. Felipe então, entrou em sua casa, cumprimentou sua mãe e subiu direto para seu quarto, disposto a tentar esquecer tudo aquilo...inclusive...Hiumy!
A garota por sua vez, chegou em casa acompanhada por seus amigos, despediu-se e entrou.

-Mãe, cheguei!

-Olá filha! Como foi na escola?

-Tudo bem mãe! Já estamos começando a organizar os preparativos para o festival.

-Que ótimo filha!

-Mãe, vou subir e estudar um pouco.

-Hiumy...antes de você subir, me diz uma coisa: Como anda seu relacionamento com o Felipe-kun?

-[ a garota não entendeu a pergunta da mãe, logo pensou que ele pudesse ter se queixado ] Por que mãe? Ele fez alguma reclamação para a Senhora?

-Não, não é isso. Só acho que você deveria se aproximar mais dele, serem amigos. Ele me parece ser um bom garoto!

-[ responde sorrindo ] Mãe, na escola tem vários alunos, por que eu tenho que ser a amiga dele? Ele pode fazer amizade com quem quiser e além do mais, eu estou muito ocupada com os trabalhos da escola, o festival, coisas que Felipe não entende porque não é Japonês.

A sábia mãe, logo entendeu que aquilo era mais do que, falta de tempo. Hiumy desprezava o garoto pelo simples fato de não ter nascido no mesmo país que ela e para que não ficasse mal com seus colegas de escola.

-Hiumy... presta atenção no que vou lhe dizer: Quando me casei com seu pai, a minha família reprovou, porque ele era humilde. Mas eu não aceitei, mesmo todos me ignorando, virando as costas para mim, eu fiz o que meu coração mandou, eu me casei com seu pai. Mesmo ele não estando mais aqui, eu ainda o amo! Nunca se tratou de, se ele era rico ou pobre, ou Japonês ou estrangeiro. Eu simplesmente...amei seu pai e nos casamos! Não faça com o Felipe-kum, o que meus parentes fizeram com seu pai!

-Tudo bem mãe, eu vou pensar nisso.

Aquelas palavras, certamente mexeram com a garota, mas talvez ainda não fosse o suficiente.
Ao entrar em seu quarto, Hiumy teve um choque: a velha bicicleta estava tão nova quanto no dia em que a recebeu de seu pai. Os olhos de Hiumy logo se encheram de água, trazidas pelas lembranças de seu pai. Meio que como um filme, Hiumy por um instante voltou naquela noite, quando seu pai chegou em casa com a bicicleta. A semana que se passou, foi a mais feliz de toda sua vida, seu pai a levava no parque para ensinar a andar na bicicleta. Uma semana, esse foi o tempo que teve para fazer as melhores lembranças com seu pai. Logo depois, seu maior presente lhe foi tirado. Seu pai, morreu em um acidente, não houve tempo para socorro.
Hiumy tentou segurar as lágrimas! Nesse momento, sua mãe entrou no quarto e perguntou a garota:

-Você sabe quem fez isso, não sabe?

-[um gesto negativo com a cabeça, dizendo não]

-Foi seu amigo que não é Japonês. [ diz ironicamente Shizuka ]

Hiumy tentou disfarçar da mãe, mas naquele momento as lágrimas sairam. Suas pernas estavam trêmulas, quando Shizuka deixou o quarto, essas mesmas pernas não resistiram e se dobraram.
A tristeza, as lágrimas de Hiumy; talvez tenham sido trazidas pelas palavras de sua mãe, pelas lembranças de seu pai naquela última semana, ou pelo que disse a Felipe na escola. Ele não sabia da história da bicicleta, para ele era um simples presente...para ela, suas lembranças com seu querido pai.
Na manhã seguinte, Hiumy se levantou cedo:

-Bom dia mãe!

-Bom dia filha! Se alimente bem que é para ter forças para estudar.

-Não posso mãe, eu estou com pressa, preciso fazer uma coisa. Quando voltar da escola eu prometo que como tudinho! [ deu um beijo em sua mãe, pegou uma fruta e saiu pela porta com pressa ]

-Vá bem filha, se esforce na escola!

Hiumy, já na calçada, olhou para um lado e para o outro e dirigiu-se a casa de Felipe.
[ som da campainha ]
Sandra, mãe de Felipe, atende a porta:

-Bom dia Senhora! O Felipe está?

-Bom dia! Não, ele não está. Levantou bem cedo e foi para a escola. Quer deixar... [ a garota sem esperar saiu correndo para ver se o alcançava ]

-Obrigado Sra. Sandra!

-Por nada! Nossa que jovem apressada [ comenta consigo mesma ]
Mais a frente Felipe estava quase chegando à escola quando, alguém lá de trás gritou seu nome:

-Felipe-channnn ! Felipe-channnn !

Felipe reconheceu a voz, mas não podia acreditar que era a voz da mesma garota que o havia tratado tão mal...mas era...era a voz de Hiumy. Ofegante e em alto som! Felipe virou-se mesmo que forçadamente e lutou contra suas pernas que queriam esperar por Hiumy, mas seu orgulho falava o contrário. Felipe se virou e continuou andando.

-Eu preciso conversar com você, me espera! [ gritou Hiumy, já se aproximando do garoto ] Eu preciso conversar com você, será que pode me esperar?!

-Escuta, seus amigos não estão aqui agora, então não vai ter graça me tratar mal, porque não vai ter ninguém para ver.

-Não é nada disso eu só queria agradecer pela bicicleta!

-Não precisa. Uma garota como você não deveria conversar e muito menos, perder tempo agradecendo um garoto como eu, que nem ao menos sou Japonês, não é?!

-Mas é que...

-Escuta: Esquece isso, eu vou fazer o mesmo. Vou tentar esquecer algumas coisas e seguir adiante ta?!! A bicicleta, era só uma forma de..., esquece, ...não tem importância! Aquela bicicleta não tem importân...

-Tem!

-Oi?

-Ela tem... Ela tem muita importância pra mim! Foi meu pai quem me deu, era isso que eu queria explicar.

Felipe aceitou ouvir a garota. Toda a história sobre a bicicleta e sobre o pai de Hiumy foi contada pela garota. Felipe ainda estava muito machucado com todos os insultos e humilhações que ouviu de Hiumy, mas entendeu o quanto a bicicleta era importante para ela.

-Olha Hiumy, eu sei que a bicicleta é muito importante pra você, a sua mãe não tinha me contado nada. Eu sinto muito pelo seu pai e se você quiser conversar sobre isso qualquer hora, pode contar comigo, mas agora eu tenho que ir. [ disse friamente Felipe, se contendo para não abraçá-la. ]

Felipe se Levantou, deixando Hiumy ainda no chão e continuou caminhando, rumo à escola. Aquela, talvez, tenha sido a caminha mais longa da vida do novo aluno. Seu coração doía por não poder voltar e abraçá-la, mas era essa sua vontade. Consolá-la, dizer que ela não estava sozinha, que as lembranças de seu pai, nunca poderiam ser tiradas dela, nem mesmo o tempo que apaga todas as coisas.
Hiumy talvez tenha aprendido naquele dia, que as boas lembranças são doces, mas se a pessoa que te proporcionou aquele momento não está mais, todas ficam um pouco amargas no final...
Porque a realidade...tem que voltar!

*Continua...

Notas finais
Obrigado pelas pessoas que leram e deixaram reviews; e aos que não deixaram também ^^. Espero que gostem e continuem acompanhando!