Eu Cuidarei De Você.
2 Capítulo 2 - Me deixa ser forte por você
Rachel acordou com o alarme de seu celular tocando, desligou-o e viu que tinha perdido a hora. Pôde ver também várias mensagens e ligações de Finn. Não teve vontade de olhar, nem de ligar de volta. Jogou o celular na cama e foi correndo se arrumar para voltar ao hospital. Quando chegou, encontrou Brittany e Santana na sala de espera.
R: Ela já acordou?
B: Já... [disse com uma expressão triste]
R: O que houve? Eu acordei atrasada... [preocupou-se]
S: Ela surtou. [disse irritada]
R: Como assim?
S: Eu entrei falando que se ela me desse outra porra de susto que nem aquele eu a matava pessoalmente e ela me ignorou. Tentamos conversar e ela começou a gritar do nada, dizendo coisas horríveis e atirando coisas e chorando. Judy disse que ela fez a mesma coisa com ela quando acordou e não conseguiu mover as pernas. Ela foi pra casa descansar e nós ficamos aqui.
R: Eu... Eu vou tentar conversar com ela... [disse indo em direção à porta]
B: Eu não acho uma boa ideia...
R: Eu preciso ver como ela está!
Rachel entrou no quarto e viu que a loira parecia dormir serenamente. Seu coração se acalmou imediatamente ao vê-la bem. As feições delicadas de Quinn, sua respiração calma, aquilo deu um sopro de vida à morena, que estava melancólica. Sentou-se ao seu lado e segurou sua mão, acariciando-a. Ficou um tempo contemplando aquela cena e apertou com mais força a mão da loira, para depois deslizar a ponta dos dedos por seu braço... Respirou fundo.
R: Eu sei que você está acordada Quinn. [disse calma, sentando-se ao seu lado]
A loira abriu os olhos e ficou encarando o teto, mordendo o lábio inferior.
R: Como você está?
Q: Como eu estou? [disse com raiva] Como você acha que eu estou? [encarou Rachel]
A diva podia ver a dor naqueles olhos cor de avelã com riscos verdes. Seu coração se apertou.
Q: Eu virei uma inválida Rachel! Eu nunca mais vou poder andar novamente [falou com os olhos marejados para em seguida afundar o rosto no travesseiro], eu preferia ter MORRIDO! [exclamou]
R: Quinn! [repreendeu] Você não pode estar falando sério! Você não sabe do que está falando...
As lágrimas caiam pelo rosto de Quinn, que agora soluçava.
Q: Sai daqui! Eu não... Eu não quero você aqui! Eu não quero ver ninguém! SAI DAQUI! [berrou]
R: EU NÃO VOU SAIR [gritou de volta, segurando os braços da loira, que estavam agitados].
Q: Sai, por favor! [pediu mais baixo, fechando os olhos e chorando intensamente].
Quinn lutava, mas não conseguia mais fazer força. Desabou num choro desesperado e Rachel não sabia mais o que fazer. Nunca a tinha visto tão frágil; tão vulnerável. Devagar, a morena colocou as duas mãos no rosto da loira, tentando acalmá-la. Os olhos de Quinn estavam verde claro devido ao choro. Eles encararam os castanhos da morena, desesperados.
R: Eu não vou sair... Calma, por favor, não chora...
Rachel acariciava o rosto de Quinn. Precisava que ela ficasse bem, não suportava vê-la daquele jeito. A loira começava a se acalmar com o calor e a confiança que emanavam do olhar e do toque da morena. Fechou os olhos, respirando fundo. Alguns minutos se passaram até ela falar de novo:
Q: O que... Você está fazendo aqui? E... O casamento? [perguntou temerosa, os olhos ainda fechados].
R: Não aconteceu. [disse, tirando as mãos de seu rosto].
Q: O quê? [exclamou, abrindo os olhos, o coração acelerado].
R: Eu não me casei. [disse simplesmente]
Q: Por quê?
R: Não está óbvio? Como eu poderia me casar com você tendo sofrido um acidente?
Q: Foi só por isso? [havia tristeza em sua voz]
R: Na verdade não... Eu não nego que ia me casar, eu já estava do lado de Finn no cartório [a loira desviou o olhar], mas então soubemos do seu acidente e tudo perdeu o sentido.
Q: Me desculpa... [disse baixinho]
R: Não se desculpe! Eu falei que não foi só por isso! Mesmo que pudesse ter sido de uma maneira menos violenta, eu meio que me dei conta... De que eu não era pra estar fazendo aquilo... Tudo o que você me falou me atingiu na hora, e eu vi que você tinha razão... Eu... Eu não sabia mais o que estava fazendo lá. [disse sincera]
Antes que Quinn pudesse dizer alguma coisa, entraram no quarto uma Brittany temerosa e uma Santana emburrada.
B: Q? [disse tímida, esperando uma explosão da loira].
Quinn suspirou, fechando os olhos novamente, mas não fez nada.
B: Por favor, não grita mais com a gente [disse encarando o chão].
Como ela poderia sentir raiva diante do comportamento de Brittany? Sentiu inclusive um pouco de vergonha ao vê-la acuada. Elas não tinham culpa que ela tinha virado uma inútil, pensou.
Q: Não vou. [disse com um sorriso fraco]
Brittany, com cuidado, sentou-se na cama, e Santana, de má vontade, sentou-se ao seu lado. Rachel levantou-se e saiu. Precisava conversar com o médico responsável por Quinn. Ouvira o que ele falara. Ele disse que eram poucas as chances dela voltar a andar. Mas ela tinha chances ainda, certo? E se ela tivesse o mínimo que fosse a morena iria se agarrar a isso, e ia fazer darem certo. Tinha que fazer darem certo. Ficou um tempo do lado de fora do quarto quando ele passou andando depressa.
R: Dr. Tyler! [chamou]
T: Sim? [disse, indo até ela].
R: Eu queria saber sobre o estado da Quinn... Sobre...
T: A coluna dela?
R: Você disse que ela tinha chances... De voltar a andar.
O médico suspirou antes de voltar a falar.
T: Olha... O estado dela é muito complicado e cada paciente reage de um jeito. Não sabemos como será a sua recuperação e eu não queria dar esperanças... O esperado é que ela não volte a andar, mas ela tem chances. Pequenas, mas tem.
Uma centelha de esperança acendeu-se no coração de Rachel.
T: Ela poderá passar por sessões de fisioterapia para tentar recuperar a sensibilidade. Vai ser difícil, ela precisará de alguém o tempo todo, dando apoio emocional pra ela não desistir. Porque pode ser muito demorado também, pode não ser uma recuperação total...
R: Quando ela vai ter alta?
T: Depois dos exames, hoje mesmo. Foi impressionante o modo como o acidente não afetou o resto do corpo dela. Só a coluna...
Nesse momento, a atenção de Rachel foi desviada para os membros do coral, que entraram na sala de espera. Finn foi direto para ela.
F: Rach, você não recebeu minhas mensagens? [disse lhe dando um beijo no rosto]
R: Não, eu... [sentiu-se desconfortável] Eu perdi meu celular [mentiu]
F: Eu queria conversar com você.
R: Pode ser depois? [disse desanimada]
F: Sem problemas... Como ela está?
R: Mal... [conseguiu dizer]
Finn fez uma cara triste e a abraçou. Foi doído para Rachel constatar que aquele abraço não a fazia mais se sentir confortável, protegida. Como se o encanto tivesse acabado ou se rompido. Quando se separou esboçou um sorriso tímido para o rapaz e ficou esperando enquanto os membros do coral entravam para ver Quinn. Não demoraram nem um minuto e a morena pôde escutar a loira esbravejando outra vez, expulsando-os de lá. Imaginou que fosse vergonha, por mais que não fizesse sentido ela se sentir assim. Eles saíram de cabeça baixa, um por um. Kurt aproximou-se dela.
K: Ei... [disse triste]
R: Ei...
K: Ela está bem nervosa [disse tenso]. O que aconteceu?
R: Ela corre o risco de não voltar a andar Kurt...
Kurt a olhou assustado, procurando saber se era uma piada de mau gosto, mas viu a cara séria da morena então fez uma cara compreensiva e a abraçou.
K: É difícil quando isso acontece com alguém tão próximo da gente. [disse, acariciando seus cabelos].
R: Eu briguei com ela um dia antes do casamento. [disse culpada]
K: Por quê?
R: Ela gritou comigo, dizendo que eu estava sendo burra ao me casar com Finn, que era muito cedo...
K: Eu achava isso também. [disse temeroso]
R: É... Eu vi que realmente estava me precipitando. E me sinto mal por ter me desentendido com ela. Me sinto mal pelo acidente.
K: Mas você não teve culpa...
R: Eu sei... É só que uma vozinha na minha cabeça não para de me dizer que de alguma forma eu tive culpa sim. Sei lá, é uma sensação ruim de ter podido evitar.
K: Não se sinta assim! Ninguém podia ter evitado... A gente estava longe dela na hora.
R: Eu sei...
Novamente, um a um, os membros do coral foram indo embora. Restando apenas as três que estavam ali desde o início. Santana e Brittany foram as únicas que Quinn não tinha expulsado dali quando todos entraram. Elas saíram depois de um tempo para esperarem Judy voltar e Quinn receber alta. Algum tempo depois ela apareceu, agradecendo as três pelo apoio. O casal pediu para Judy se despedir da loira por elas por que elas precisavam sair. E que visitariam Quinn no dia seguinte em casa. Agora restava apenas ela e Rachel. A mulher foi conversar com Quinn e meia hora depois voltou.
J: Rachel? [chamou tímida]
R: Sim? [sorriu]
Judy se aproximou para conversar.
J: Você esteve aqui o tempo todo do lado da Quinnie; e ela sempre falou muito de você...
R: Sério? [disse surpresa e encabulada]
J: Sim... Eu sei que vocês não se davam bem, mas ela gosta muito de você agora. E... Eu queria te pedir um favor por ela [falou sem graça].
R: Qualquer coisa. [assentiu]
J: Eu sei que Santana não tem muita paciência e Brittany é muito avoada, mesmo sendo ótimas pessoas. E eu sou muito ocupada agora que Russel saiu de casa, e não vou poder cuidar da minha Quinnie como gostaria. Eu sei que você é focada e persistente, pelo fato de ter perdoado a minha filha muitas vezes, e queria que você cuidasse dela, fosse uma boa amiga, como eu sei que você já é, mas principalmente agora.
R: Eu serei. [disse firme e lisonjeada pelas palavras]
J: Você poderia ir pra minha casa só por hoje? [pediu] Eu vou ter que sair e preciso que alguém esteja lá com ela.
Rachel paralisou por alguns segundos. Ela ficar sozinha com Quinn em sua casa? Não soube que sensação estranha era aquela percorrendo seu corpo, mas logo se recuperou.
R: Eu fico, pode deixar [sorriu].
A mulher a abraçou sorrindo, deixando-a sem jeito. Nesse momento Dr. Tyler se aproximou das duas, dizendo que Quinn já ia ser liberada. Quando ele começou a passar instruções para Judy, Rachel viu uma enfermeira empurrando uma cadeira de rodas para o quarto da loira. Imediatamente Rachel a seguiu. Quinn virou o rosto quando viu do que se tratava e se recusou e sentar na cadeira de rodas.
R: Deixa comigo. [disse baixinho para que só a enfermeira a ouvisse]
Ela assentiu e saiu do quarto.
R: Quinn? [chamou calma]
A loira virou o rosto para ela e as lágrimas estavam novamente ali.
R: Eu sei que é difícil e doloroso pra você, mas eu preciso que você seja forte.
Q: Eu não quero! Eu me recuso. Eu não consigo...
Rachel aproximou-se dela e segurou sua mão.
R: Me deixa ser forte por você então.
Q: Você não precisa. [disse seca]
R: Mas eu quero. Eu vou cuidar de você.
Aquelas palavras pesaram o ambiente no quarto. Quinn a olhou intensamente e Rachel se surpreendeu com o brilho em seu olhar, mas então ela virou o rosto novamente.
Q: Eu não quero que você tenha pena de mim.
R: Eu não tenho pena de você, nunca tive. Nem de mim mesma eu tenho na verdade. E eu aprendi isso com você.
Q: Comigo? [virou-se para ela]
R: Sim, com você. Tudo o que você fez, o tempo todo em que estivemos no colégio só me tornou mais forte, mais confiante. Eu não tenho pena de você Quinn. Agora na verdade eu tenho um sentimento muito bonito pelo o que nos tornamos. Não somos mais inimigas. Eu tenho admiração por você, carinho; e por isso quero cuidar de você. Não por pena.
Aquelas palavras tocaram Quinn, de uma forma boa. Suas defesas se desfizeram por um instante. Sem dizer mais nada Rachel passou um braço por debaixo de seus joelhos e outro em suas costas e a levantou com cuidado.
Q: Rach... Não, eu... [olhou-a nos olhos, envergonhada].
O momento pareceu durar séculos. A morena segurava Quinn em seu colo e a olhava com carinho enquanto Quinn não conseguia desviar o olhar. Arrepios percorriam o corpo das duas, que sentiram isso, e não sabiam explicar. Na verdade, a loira sabia, só não tinha coragem de falar.
R: Shhh, confia em mim. [disse finalmente desviando o olhar]
A respiração das duas estava pesada. Com delicadeza Rachel a colocou na cadeira de rodas e ajeitou as pernas da loira ali; o que fez com que Quinn começasse a chorar.
R: Ei... [agachou-se, limpando as lágrimas da loira com os polegares] Tá tudo bem.
Q: Não está!
R: Vai ficar então. Isso é temporário.
Q: Eu não vou me agarrar a uma chance que quase não existe pra depois ela ser arrancada de mim!
R: Eu não vou te deixar desistir assim. [disse firme]
Q: Não tem do que desistir Rach... [disse agoniada]
Queria dizer algo a mais, mas não conseguiu pensar em mais nada. Apenas acariciava o rosto perfeito de Quinn, que fechava os olhos para sentir melhor aquele toque que tanto a acalmava. A morena se levantou e se postou atrás dela. Começando a empurrar a cadeira para fora do quarto. Antes de sair, deu um beijo carinhoso no topo da cabeça de Quinn. Assim que saíram, Judy foi direto para a filha, assumindo o lugar de Rachel. A loira estava com uma cara amarga, um nó preso na garganta. Não enxergava ninguém e sentia vergonha de sua própria situação. Não entendeu quando não viu nem Santana nem Brittany na sala de espera e quando Rachel entrou em seu carro após tê-la ajudado a se ajustar no banco do carona. Sua mãe explicou que Rachel ficaria com ela, já que tinha um compromisso.
Q: Eu não quero ser um peso pra ninguém [disse fria]
J: Filha...
R: Acho que você ainda não entendeu Quinn, o que eu te disse no hospital.
Silêncio.
O resto do caminho foi percorrido num silêncio completo. Rachel olhou pelo retrovisor e reconheceu aquele olhar que Quinn exibia. Já o tinha visto várias vezes, todas em momentos em que a loira buscava aparentar frieza, crueldade. Não pôde evitar estremecer, esse olhar estava diretamente ligado à sua humilhação. Mas Quinn não era mais a mesma pessoa, e Rachel não iria mais se sucumbir a esse olhar gelado. Manteve-se firme então. Sabia que a loira era forte, decidida, firme. E agora que ela estava tão frágil, a morena ia ser tudo isso por ela. Pelas duas. De uma coisa sabia: não ia deixar o brilho de Quinn se apagar.
Fale com o autor