Eu Cuidarei De Você.

16 Capítulo 16 - O que importa é o agora.


R: Quinn...

Q: Hmm... [disse concentrada na leitura que fazia]

Era um domingo. O resto da semana tinha se passado de uma forma calma apesar de Rachel ainda estar estressada. Ela tentava disfarçar, mas a loira percebia. Não era só a formatura que a incomodava. Na semana seguinte seria a sua audição para NYADA, e Quinn tinha certeza que ela se transformaria em uma pilha de nervos. Nesse momento ela estava deitada na cama da loira, sobre seu colo, enquanto a namorada lia um livro. Quinn já estava pensando em desistir da leitura. Só tinha começado a ler porque Rachel estava sonolenta, mas ela não parava de conversar um minuto sequer.

R: Eu não te acompanhei na fisioterapia essa semana. [disse brincando com os dedos da mão livre da loira]

Q: Minha mãe foi comigo...

R: Eu sei... Mas eu queria ter ido. Sempre que eu te pergunto como foi você me responde as mesmas coisas e quando eu me ofereço pra ir você diz que não precisa...

Tinha um motivo para ter evitado que Rachel fosse com ela na fisioterapia. Suas pernas estavam recuperando a sensibilidade rapidamente e ela já conseguia se sustentar em pé por mais que alguns segundos. A parte em que ela andava estava sendo mais complicada, mas com a ajuda de barras de apoio ela dava pequenos passos. Judy acompanhava seu avanço emocionada. Não tanto quanto Quinn, que havia melhorado o humor consideravelmente, mas ela procurava esconder isso da morena. Queria fazer uma surpresa para ela. Queria já estar andando quando ela soubesse. Estava evitando qualquer contato mais íntimo também, com medo de não se controlar, mas o mais difícil de controlar mesmo era o desejo que sentia por ela... Agradecia por Rachel não ter mencionado esse assunto e por ela estar tão atolada de coisas pra fazer que elas não se encontravam fora do colégio. Era incrível como a morena conseguia se desligar de tudo quando estava com um objetivo em mente.

Q: É porque realmente não precisa meu amor. Eu sei que você está ocupada.

Judy estava mais calma também. Além de estar feliz pela filha, elas conversavam mais e estavam mais próximas do que nunca. Quinn a convenceu a procurar um advogado naquela semana e eles já estavam discutindo os termos do divórcio.

R: Sua mãe não estranha que eu fique no quarto deitada com você?

Quinn suspirou, deixando o livro em cima da mesinha de cabeceira e envolvendo Rachel em seus braços.

Q: Ela nunca me disse nada.

R: Por que você parou de ler?

Q: Sério Rach? [olhou-a incrédula] Como eu vou conseguir ler com a minha namorada tentando chamar a minha atenção desse jeito? [começou a rir]

R: Eu só queria conversar... [encabulou-se]

Q: Pensei que estivesse com sono [arqueou a sobrancelha]

R: Desculpa... [murmurou]

Q: Besta, eu estou brincando com você. [lhe deu um selinho]

R: É porque eu lembrei que vou ter que ir embora daqui a pouco. Combinei com o Kurt.

Q: Acho que você devia relaxar...

R: A gente vai fazer compras [abriu um sorriso], não é pra ensaiar...

Q: Hm... Me leva lá embaixo então?

A morena se levantou e puxou a loira para si e seus olhares se encontraram. Rachel aproximou seu rosto do dela e a acariciou com o nariz enquanto se entorpecia com aquela proximidade e com o calor da respiração de Quinn em seu próprio rosto. Trocou um beijo sedento com ela, As línguas deslizavam com saudade uma da outra. Rachel parecia então, ter se dado conta do que estava faltando.

R: Eu acho que quero ficar aqui com você [disse ofegante]. Vou ligar para o Kurt...

Q: Não, meu amor... Você combinou com ele.

R: Mas...

Q: Você sabe como ele fica quando alguém desmarca alguma coisa. Ainda mais se for pra fazer compras [tentou disfarçar]. E minha mãe está lá embaixo.

R: Tem razão... [concluiu suspirando]

Rachel então desceu com ela e a loira respirou aliviada. Aliviada? Frustrada era a palavra certa. Então ela forçou a se lembrar do porquê de estar fazendo aquilo e que era verdade que sua mãe estava por perto, elas não se arriscariam dessa forma. Judy estava na sala, então Rachel se despediu de Quinn com um beijo na testa e um afago rápido na nuca. Quando a loira se virou para ir à cozinha ouviu a voz de sua mãe:

J: Como vai o namoro?

Ela parou onde estava, perguntando a si mesma se tinha escutado certo. Olhou para a mãe e ela estava de costas, lendo uma revista no sofá. Nem se dera o trabalho de virar para encará-la.

Q: Que namoro? [fingiu surpresa]

Sua mãe então se levantou, guardou a revista e se postou na frente da filha.

J: O seu namoro com a Rachel [disse calmamente]. Eu sei que nunca estive muito próxima dos seus relacionamentos e que pode ser estranho estar perguntando isso. Mas eu realmente gosto daquela menina e da forma como ela se preocupa e está sempre perto de você.

Quinn a encarava sem ter o que dizer. O estranho então era a sua mãe se preocupar com o seu namoro e não o fato dela saber sobre ele e saber com quem era?

Judy encarou a filha ainda com uma expressão calma no rosto.

J: Eu não vou julgar você. Acho que já passou por tudo o que tinha podia ter passado durante toda a sua adolescência... Eu podia muito achar que essa é só mais uma fase sua. Mas eu espero que não seja, porque eu nunca te vi tão feliz. Se não fosse pela Rachel, depois do seu acidente eu duvido que você estaria tão bem como está agora. Quando você gritou comigo dentro daquele quarto depois de acordar da cirurgia, eu pensei comigo mesma: “É isso. Ela não vai suportar, esse foi o limite”. E aquilo me matou, eu não aguentava mais ver você sofrendo... [disse com a voz embargada] E então ela apareceu e eu te vi sorrir de novo. Vi você ganhar uma luz que não tinha antes. Eu fiquei com tanto medo dessa luz se apagar e tão aliviada ao ver que ela não sairia do seu lado. Como eu posso julgar uma coisa dessas? Eu não entendo, mas eu respeito.

Q: Você sabia... O tempo todo? [conseguiu dizer]

J: Eu sabia antes mesmo de você se dar conta Quinnie.

Q: Como? [sussurrou]

J: Eu não sabia quem ela era... Mas um dia eu ouvi uma música vinda do seu quarto. Uma voz cantando uma música que eu não conhecia. E ela era tão diferente das músicas que você costumava escutar... Você deixou o seu notebook em cima da cama e desceu para fazer alguma coisa e eu olhei. Era uma tal Rachel Berry cantando On My Own... Eu me lembrei que era de um musical. E você não escutou só uma vez, mas tantas... E eu soube quem ela era por você. Você falava tanto dela sem perceber... E acho que mãe simplesmente percebe essas coisas. E eu percebi, pelo seu olhar, pelo modo que ela sempre arranjava de te ajudar e como isso te deixava desconcertada. Você nunca se deixava abalar por ninguém, mas ficava tão cheia de emoção falando dela, mesmo que fosse raiva ou medo...

Quinn chorava escutando aquelas palavras. Ela não se recordava desse momento, fazia tanto tempo... Ouvir sua mãe falando lhe trouxe uma enxurrada de lembranças e sensações... As outras cheerios riam das performances da pequena, por mais que ela fosse talentosa, e Quinn ria junto. Toda aquela pressão em cima dela por ser a líder de torcida popular... Mas, no fundo, ela sabia que era uma máscara. Foi exatamente assim. Ela escutou repetidas vezes a morena cantando, sentindo seu peito se preencher de uma coisa que não conhecia, mas que a deixava aquecida. Não compreendia, mas ouvir aquela voz lhe trazia paz. E ela negou pra si mesma, para os outros, e, principalmente, para Rachel. E tudo o que ela fez de ruim para a garota depois disso simplesmente pesou sobre ela outra vez. “Estúpida”, era a palavra que ela usava para se definir naquele momento.

Q: Eu acho que eu nunca vou conseguir me perdoar por tudo o que eu fiz com ela [disse baixo, mais para si mesma do que para a mãe].

J: Você precisa se perdoar, se não vai ser sempre insegura. [disse calma]

Q: Como eu consigo fazer isso? Me assusta tanto a sensação de que eu vou perdê-la!

A mãe abraçou a filha, reconfortando-a. As lágrimas desciam copiosamente pelo rosto de Quinn.

J: Só faça as coisas certas...

R: Kurt! Olha esse suéter!

K: Nem pensar Rachel, se você veio fazer compras comigo para levar mais do mesmo pode voltar para casa!

A morena olhou perplexa pra ele. Kurt revirou os olhos.

K: Nós vamos para Nova York minha diva! Está na hora de você renovar o seu guarda roupa!

R: A gente nem sabe se vai mesmo para Nova York... [disse baixo]

K: Mas é claro que vamos! E solte esse suéter! [olhou de lado para ela]

Ela lhe deu um sorriso fraco e o seguiu para fora da loja.

K: É impressão minha ou você não está mais com aquele entusiasmo todo sobre Nova York?

R: É claro que eu estou, lá é o meu lugar! [respondeu firme]. Mas... [olhou para os lados pensativa, deixando o resto da frase morrer]

K: ...Mas a Quinn vai para New Haven. [concluiu para ela]

R: Sim. [disse desanimada]

K: Você não está pensando pelo lado positivo.

R: E qual é?

K: É melhor do que se ela tivesse ficado aqui em Lima. New Haven é muito perto de Nova York. Uma hora e meia de trem...

Rachel suspirou. O que Kurt dizia não deixava de ser verdade. Mas uma proximidade que não lhe permitia tocar Quinn ou ser tocada por ela nunca seria próxima o suficiente. Era incrível como em tão pouco tempo a loira lhe roubara para ela. Ao contrário de Finn, ela a queria do seu lado e não suportava mais a ideia de se separarem. Teve que parar com os pensamentos melancólicos, pois Kurt ameaçou roubar sua coleção da Broadway se seu humor não melhorasse. Por fim ele estava tão desanimado quanto ela.

K: O Blaine ficará aqui... [disse triste]

R: Vocês se resolveram? [disse se batendo mentalmente pelo lapso que teve com os problemas de seu melhor amigo]

K: Ele só estava distante para não doer tanto quando eu finalmente fosse embora.

R: Não foi a melhor das ideias... Mas acho que cada um tem uma forma de mostrar o quanto sente falta de quem se ama, não?

K: Acho que sim... Mas o que realmente fez me sentir mal é que eu sequer estava pensando nisso. Eu estava todo feliz enquanto ele só ficava cada vez mais triste.

R: E no fim sempre sobra nós dois para consolar um ao outro [suspirou, quase que conformada]

K: Ainda bem que é assim [abriu um sorriso largo para a diva]. Porque eu não me imagino mais sem você.

Rachel abraçou Kurt, os olhos rasos de lágrimas. Foi para casa depois de o amigo parecer satisfeito com a quantidade de sacolas e pacotes que carregava. Estava sentindo falta de Quinn. Pegou seu celular para ligar para a loira e viu que esta havia lhe mandado uma mensagem:

Q: Não me deixe te perder.

Não fazia ideia do que tinha motivado-a a escrever aquilo, mas era exatamente o que estava rondando a sua cabeça no momento, mesmo que por motivos diferentes. Ligou para ela.

R: Não vou deixar. [disse ouvido o som da risada melodiosa de Quinn]

Q: Só viu a mensagem agora?

R: Sim... Está tudo bem? [disse, ouvindo a loira suspirar].

Q: Aconteceram algumas coisas hoje...

R: Tipo?

Q: Minha mãe sabe sobre a gente.

R: Você contou? [disse surpresa]

Q: Não, ela meio que já sabia... E por incrível que pareça, ela aprova.

R: Sério Quinn? [abriu um largo sorriso]

A loira limitou-se a um murmúrio perante a animação da namorada.

R: Está tudo bem? [estranhou]

Q: Está... É só que... Eu perdi tanto tempo [disse sentida]... Tanto tempo sem você.

R: Eu disse que eu passaria por tudo de novo, não disse?

Q: Disse. Eu só acho que podia ter sido diferente.

R: Talvez se fosse diferente a gente não estaria namorando agora.

Q: Eu me recordo de você não ter ficado muito feliz quando eu disse essas mesmas palavras para você. [disse um pouco mais fria]

R: É claro! Você usou o seu acidente para justificar...

Q: Porque é a verdade! [cortou]

R: A gente não vai discutir sobre isso agora vai? Sobre o que podia ter acontecido ou não? Achei que essas dúvidas já tinham passado, estamos juntas, de uma forma ou de outra.

Q: É só que TALVEZ se tivesse sido diferente, se eu não fosse tão estúpida você não teria tantas coisas ruins para se recordar de mim!

R: Eu não penso em nada ruim quando me lembro de você Quinn... [disse num sussurro]

Q: Mas elas sempre vão estar ali, até alguma briga explodir na nossa cara e tudo ser lembrado de novo.

R: E não seria uma surpresa se essa briga fosse por insegurança sua, não? [deixou escapar, arrependendo-se logo em seguida].

Q: Não. Não seria. [disse em um tom que partiu o coração da morena]

R: Me desculpa, eu não quis dizer dessa forma! Eu só quero que você entenda que aquilo ficou no passado, Quinn! Um passado que talvez tivesse sido necessário, mas nunca vai deixar de ser só isso...

Quinn não disse nada e Rachel sabia que a tinha magoado. Ela disse que precisava desligar depois da morena ter tentado puxar outro assunto.

A diva não entendia como elas tinham se desentendido e sabia que havia algo errado com Quinn. Ela conhecia a namorada que tinha e a sua mania de guardar as coisas para si, mas entendia que nada seria resolvido naquele momento. Enquanto se preparava para dormir mandou uma mensagem para ela. Deitou-se e revirou-se na cama o que pareceram milhares de vezes antes de pegar no sono.

R: O que importa é o agora e tudo o que aconteceu antes foi uma forma de nos levar a isso, ao nosso presente. Eu amo tudo o que você foi e tudo o que você é, entenda isso.

Em sua casa Quinn não tinha conseguido dormir, olhava para a mensagem repetidas vezes. Não soube quando, mas adormeceu com o celular na mão e aquelas palavras rodando em sua mente. A determinação que em fazer aquilo dar certo ainda estava nela, mas sensação ruim de que Rachel iria terminar com ela por conta de seu passado ainda a assombrava. Sua mãe tinha razão. Definitivamente ela precisava acertar aquela confusão dentro dela mesma que tanto a machucava...

Notas finais
Judy always knows ^^