Eu Aceito

1 Capítulo Único


Hály saiu do banheiro enrolada em uma toalha. A luz da lua cheia atravessava as cortinas e a janela de seu quarto deixando sua pele prateada se você olhasse de um ângulo correto. Ela deixou a toalha cair e foi até seu guarda roupa de onde tirou uma camisola simples e a vestiu. Já fazia um tempinho que tentava esquecer o que havia acontecido com Damian no início do mês, mas um término de namoro não era tão fácil assim, mesmo já tendo se passado algumas semanas, ainda mais para uma adolescente de 17 anos. Seu corpo tremia e a primeira de muitas lágrimas caiu deixando uma mancha mais escura no tapete. Ela jogou-se na cama e desabou em choro mais uma vez. Cada lágrima uma lembrança. Felizes lembranças de um cafajeste que ela queria muito, mas que ao mesmo tempo detestava e que não conseguia esquecer.

Várias vezes as colegas de turma a alertaram sobre Damian. Muitos diziam que ele não era quem dizia ser, que ela deveria prestar mais atenção nele, ate que um dia ela recebeu um bilhete anônimo dizendo para encontrá-lo debaixo da arquibancada do campo de futebol da escola depois do almoço. Foi quando ela finalmente ela descobriu que Damian a traía com sua melhor amiga, Melissa, a capitã das líderes de torcida. Era recente, Hály estava vivendo um mix de vários sentimentos. Ela estava decepcionada por ter sido traída em tão pouco tempo pelo seu primeiro namorado, magoada por ter sido com sua melhor amiga desde o jardim de infância. Qual seria o motivo? Melissa era mais bonita? mais magra? beijava melhor? Ela não entendia, e tudo isso só a deixava mais insegura com seu próprio corpo, ferida, ela não desejava nada além de sumir.

Depois de um tempo finalmente seu choro parou dando lugar a alguns leves espasmos de soluços e Hály se perguntou se Damian valia realmente a pena. Será que ele era realmente o cara certo? Foi nesse momento que ela percebeu. Não. Ele não era. Um homem de verdade jamais trairia a sua namorada com a melhor amiga dela. Os sentimentos que guardou por tanto tempo deram lugar à raiva, a partir daquele momento. A cada vestígio de uma nova lembrança feliz que ela tentava esquecer, aqueles sentimento ruins só cresciam dentro dela. Não, ele não era o cara certo. Hály odiou-se ainda mais por ter confiado e acreditado naquele idiota.
De repente ela viu uma sombra na parede que não pertencia a ela. Hály estava deitada na cama enquanto a sombra estava agachada no parapeito da janela. Foi estranho, pois quando se virou pensou ter visto aquilo que seria a coisa mais perfeita que já imaginou, isso a fez saltar da cama.
Era uma mulher jovem, magra, porém rígida. Seu olhos eram verdes mas não um verde qualquer, era muito além disso, eram selvagens, sobrancelhas arqueadas. Quando a encarou pôde sentir uma brisa que vinha pela janela como se tivesse acabado de vestir uma manta quente em um vale gelado a noite. A garota usava um vestido deslumbrante, branco e cinza, mangas caídas até o tapete apesar de curto acima dos joelhos. Apesar de quente a brisa trazia a neve de dezembro e mexia em seus cabelos soltos como brasas vermelhas subindo e descendo, sua expressão era fria e confortante.
A moça pulou do batente de mármore da janela e entrou. Ela estava descalça e apesar de imundos seus pés não sujaram o tapete felpudo do quarto. Hály sentiu uma sensação de paz instantânea na presença da menina, era como se todo o ódio sumisse por um breve instante. Podia ver uma espécie de luz que irradiava de sua pele, sua aura. Só sua presença já a fazia bem, mas ao mesmo tempo ela tinha medo pois nunca vira nada assim. Achou que estava na hora de fazer algumas perguntas.
— Quem é você? ou melhor, O que é você? — Hály perguntou, curiosa.
— Olá Hály, Boa noite! — A deusa sorriu. — Me chamo Diana, mas você deve me conhecer melhor pelo nome de Ártemis ou o que você preferir.
— Você é um anjo? — Hály perguntou.
— Não, sou uma deusa. — Ártemis respondeu.
— Você é linda... Tem certeza de que não é um anjo? — Hály continuou meio perplexa.
Ártemis gargalhou e fez que sim com a cabeça.
— Quantos anjos você já viu de perto? Nem todos são agradáveis. — Ártemis perguntou.
Ártemis deu um passo a frente sorrindo, trazendo consigo sua paz e foi quando uma gazela branca saltou para dentro do quarto. Ela não emitia sons, e seu corpo não era feito de matéria palpável, sua pele fumaçava, se desmanchava e depois voltava ao normal como se fosse uma projeção gráfica. Hály lembrou-se de Ártemis. Havia estudado mitologia grega em algumas aulas de história no sexto ano. Sua memória falhou um pouco, mas pelo pouco do que havia lembrado já imaginava o que a deusa poderia estar querendo. Quando Átemis tentou dizer algo Hály a cortou.
— O que veio fazer aqui? Desculpe a minha grosseria mas não há nada aqui pra você. — Hály gritou. — Isso não lhe dá o direito de invadir o meu quarto.
— Mantenha a calma criança. — Ártemis respondeu ainda sorrindo. — Vim aqui para lhe fazer uma pequena proposta.
Criança? Ártemis falava como se ela própria fosse a pessoa adulta ali naquele momento. Hály não entendia na realidade o porque da deusa estar em seu quarto. Na verdade não acreditava na existência de deuses ou se ela era apenas coisa da sua cabeça.
— Posso entrar? — Ártemis perguntou.
— Você já fez isso. — Hály respondeu firme.
A deusa caminhou graciosamente o restante do caminho até a cama e sentou-se na beirada. Bateu delicadamente a mão no colchão convidando Hály a sentar-se a seu lado.
— Eu sou a deusa grega da caça. No momento estou recrutando garotas para meu grupo de caçadoras. Minha ultima líder desistiu de seguir meus princípios e agora preciso arranjar uma nova representante. Porém nenhuma de minha meninas é boa o suficiente.
— Deusa da caça? Recrutando? Do que você está falando? — Hály continuou. — Quantos anos você tem? 11?
— Quem dera! — A deusa riu — Minha idade não é importante, sou uma deusa dozela. Apareço dessa forma porque acredito que seja menos assustadora. Sem contar que se um humano olha a forma divina de um deus, seus olhos queimam e seu corpo explode em faíscas. — Ártemis respondeu. — Estou tentando aumentar o meu grupo de caçadoras, elas viajam comigo, combatendo monstros e ajudando a quem precisa, sejam humanos, semideuses ou criaturas míticas.
— E o que eu tenho a ver com isso? — Hály gritou.
— Eu sei que você acabou de passar por um momento delicado. Fim de um relacionamento, e eu sou contra essa mania que os homens tem de se apaixonar. Não tenho experiências amorosas. Se você se unir a mim eu lhe ofereço proteção, amizades, um novo mundo de oportunidades e o mais importante, a juventude eterna. Para isso, basta abnegar-se ao mundo retardado dos homens que tanto lhe magoaram e vir comigo, acompanhando a mim e minhas caçadoras nas nossas missões. — Ártemis disse e Hály sentiu o tom de malícia na voz dela. A gazela brilhante parou de correr e começou a flutuar pelo ar ao redor do quarto. Havia espaço suficiente.
— Como sabe do meu relacionamento? — Hály sentiu medo. Começou a se perguntar se a garotinha era uma deusa ou se agora crianças estavam tomando a iniciativa no roubo de casas.
— Sou uma deusa. A gente entende dessas coisas. — Respondeu. — Observamos tudo.
— Eu não sei... O que vai acontecer se eu aceitar? — Hály perguntou. — Tipo, o que eu vou fazer quando sairmos daqui? Caso eu aceite...
— Você virá comigo e iremos juntas encontrar o restante do grupo. Em seguida daremos início a busca de uma nova garota caso você não sirva para o que eu estou lhe propondo. — Ártemis respondeu.
— Porque você acha que eu sou a garota certa? — Ela começou novamente a chorar. — Você não tem vergonha de convidar uma garota a se livrar dos homens logo após um término de namoro? Não entende que estou fragilizada emocionalmente? Que covardia.
— Eu vim até aqui porque você me pediu. Como? Nos seus sonhos. Você não me conhece, mas eu a conheço. Durante o sono você tem vislumbres tristes. Você deseja a liberdade, a independência, a autoconfiança, que são coisas que todas as caçadoras possuem. Tenho lhe observado muito esses dias e eu não teria vindo aqui se você de fato não quisesse isso.
E Ártemis tinha razão... Naquele momento ela queria aquilo mais do que tudo no mundo.
***
Silêncio.
A deusa voltou a flutuar sobre o tapete.

A gazela de luz havia parado de correr, andou até a deusa devagar roçando sua cabeça nela pedindo carinho. Quando Ártemis tocou os chifres com a mão, a gazela deu lugar a um um magnífico arco de prata e puxou uma aljava lateral que se materializou ali naquele momento. Ela liberou uma flecha que apontou para a cabeça de Hály.
— Recite – Ela disse.
Naquele momento, as palavras saltaram da boca de Hály como uma pequena música.
“Eu me comprometo com a Deusa Ártemis. Dou as costas a companhia dos homens, aceito a virgindade eterna e me junto a Caçada.”
Ártemis lançou a flecha que explodiu em uma bolha de luz ao tocar a testa de Hály. Suas roupas modificaram, agora ela usava uma túnica cinza, seu cabelo tornou-se longo e sua pele brilhava como uma moeda nova de prata.
— Para completar o ritual, empunhe seu arco e dê seu primeiro tiro. Agora! — Ártemis disse suavemente.
Hály tirou o arco que apareceu no seu ombro e uma flecha de prata da aljava. Mirou na árvore fora do quarto e acertou em cheio ao soltar a corda. Permitiu-se um sorriso.
Ao tocar a árvore foi como se o mundo houvesse parado por um segundo. Sua percepção havia melhorado, ela conseguia sentir cada folha que se desprendeu de cada galho com a força do impacto da flecha no tronco.
— Bem vinda! — A deusa disse feliz.
— Obrigado minha senhora! — Hály respondeu curvando-se.
As duas subiram no batente da janela. Ao longe uviu-se o uivo de um lobo.
Ártemis sorriu.
— Eu pensei que você fosse a lua... — Hály respondeu.
— Até os deuses não fazem tudo o tempo todo Hály. Por enquanto vamos visitar outra garota e em seguida encontrar o grupo. — Ela respondeu. — Queres fazer alguma coisa antes de ir?
— Sim — Haly disse. Tirou mais uma flecha e apontou para dentro do quarto. Quando soltou a corda, a flecha voou em uma linha cortando aquele ar sem movimento e pousou estraçalhando a camada de vidro do porta — retrato com a imagem de Damian. — Agora podemos ir. — Terminou.
E juntas, Hály e Ártemis pularam do batente e correram em direção à escuridão noturna, atravessando florestas e lagos congelados, rumo a algum lugar que ainda não sei onde fica. Rumo a algum lugar onde a vida longe dos homens pudesse ser vista como algo bom e normal. Rumo a sua liberdade.
FIM

Notas finais
Esse capítulo era na verdade uma One Shot, no entanto resolvi dar uma continuidade, em breve posto o segundo capítulo!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!