Ethereal
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Tenho sentimentos agridoces sobre a chuva. Os sons me agradam, ver as gotas caindo também e a temperatura que ela procede também quase sempre é agradável, mas ela me incomoda de vez em quando e se torna um inconveniente para a minha rotina. Não falo do tipo de rotina que é consistente e bem organizada, falo do tipo de rotina inconsciente que você segue quando o seu cérebro não planejou nada. Falo da rotina que eu sigo porquê, embora os instintos dos nossos antepassados fossem caçar e encontrar abrigo, os meus são entrar no ônibus pra ir pra faculdade e uma vez lá andar direto pra sala evitando contato visual com a multidão de jovens que parecem suspeitamente sempre animados demais para cumprirem uma tarefa odiável como adquirir conhecimento pra se solidificarem como engrenagens da roda incansável que é a nossa sociedade. Quando está chovendo, não consigo admirar a paisagem de árvores pela qual o ônibus passa e que eu já tenho decorada por conta da quantidade absurda de vezes as quais já percorri o mesmo caminho; culpa das janelas por ficarem embaçadas. Mas faz parte, vou só entrar no ônibus e ignorar os meus arredores pra me concentrar na tela pequena do meu celular que já está com a bateria em 42% e provavelmente não vai sobreviver às próximas quatro horas na faculdade.
Tem sempre gente falando no ônibus e as vezes eu desejo ter algum amigo consistente no ônibus pra ficar conversando, mas aí eu lembro da época em que eu sentava do lado de uma menina de enfermagem e tinha que ficar inventando papo furado pro caminho não ser desconfortável por conta do silêncio. Me pergunto se as pessoas que estão conversando agora no ônibus estão sendo movidos pelo mesmo proposito, a urgência de evitar o desconforto.
— Não consigo ver o Bolsonaro com esses olhos pessimistas que todo mundo vê. O Lula era pior! — disse um rapaz a dois bancos de distância, provavelmente aluno de engenharia. Eu gosto de tentar descobrir o curso das pessoas baseada pela primeira impressão, não diz muito sobre a personalidade delas, mas é um jogo divertido. Bem parecido com astrologia. De qualquer forma, o rapaz parecia muito passionado sobre o assunto, então aquela conversa parecia ser mais um debate fruto de interesse mútuo do que conversa furada pra matar o tédio. Bom pra ele.
Ligo a tela do meu celular pra me deparar com zero notificações e um wallpaper de nebulosa. O wallpaper é bonito, a falta de notificações me chateia.
Lembro de ter enviado um meme de gatinho pra pelo menos cinco amigos meus há pelo menos duas horas, mas me consolo justificando a situação com o argumento de que todo mundo tem coisa mais importante pra fazer e nem tudo é pessoal, o mundo não gira ao redor de “não responder os memes da Nath” e ninguém me desconsidera ao ponto de querer me ignorar. Ser desconsiderado significa que eu preciso passar pela mente das pessoas e eu acredito veementemente que a maioria das pessoas que eu conheço só sustenta uma indiferença profunda em relação a minha pessoa, o que pode parecer bom se você refletir de forma rasa, mas é um dos piores adjetivos para definir uma relação entre dois humanos pensantes. Indiferença é o estado em que todos estavam um em relação ao outro antes de estabelecerem relações, e se você é indiferente pra alguém que você conhece, significa que não causou impressões extraordinárias, sejam elas positivas ou negativas. Resumidamente, você ‘não fede nem cheira’ e eu acho isso mais ofensivo do que feder.
“Então por que você continua mantendo relações com pessoas que são indiferentes a você?” você pode perguntar. E a resposta é simples, eu não sei. Não diria que é necessidade de aprovação porque eu não busco aprovação, mas quem sabe necessidade de companhia, se sentir relacionada, achar que tenho laços. Pode parecer fútil, e provavelmente é, mas é um dos fatores chaves da evolução da humanidade como espécie. A socialização faz parte dos nossos instintos e é o que permite que existamos como sociedade. Nos primórdios alguém pensou “e se eu parar de viver sozinho com a minha família e encontrar outras famílias pra integrarem o nosso círculo?” e foi assim que as vilas surgiram, depois as cidades, depois os Impérios... Enfim, dá pra entender o espírito da coisa.
Comecei a jogar um joguinho genérico que não tem fim e o único propósito é acumular pontos. Quando eu perco pela primeira vez, meu rosto aparece na tela do celular por ela ficar escura e refletir e esse é o momento que eu determino como hora de parar de jogar, porque não tem coisa que mate mais o clima do que eu ver meu próprio rosto. Esse acontecimento até me motiva a puxar a touca que estou vestindo mais pra baixo, quase tampando toda a minha testa e me afundar no banco. Hoje não tem ninguém sentado do meu lado e isso é confortável, mas eu também não fico incomodada quando alguém senta do meu lado. São quase trinta pessoas que pegam esse ônibus, então geralmente sobram lugares, por isso não dá pra levar pro lado pessoal quando ninguém senta.
Minutos depois, o ônibus chega e eu desço, observando as pessoas correndo pra o lugar coberto. Já pesquisei sobre isso, se é mais sensato correr ou andar em caso de chuva. Basicamente, se você corre vai estar exposto a mesma quantidade de gotas pelas quais seria atingido se estivesse andando. Correr é igual menos tempo, mas como você vai se mover mais rápido, vai ser atingido por um raio maior de gotas do que seria se estivesse se movendo menos rápido nesse espaço de tempo. Andar é igual mais tempo, mas você vai se mover menos rápido então menos gotas vão te atingir por segundo, no entanto você vai estar andando devagar então é a mesma quantidade de gotas pela qual seria atingido se estivesse se movendo rápido. Com isso coberto, eu declaro que prefiro ir andando, já que é menos esforço.
Já tentei explicar isso para as minhas colegas uma vez em que começou a chover quando estávamos em um lugar descoberto do campus, mas aí elas me deixaram pra trás e eu me senti meio babaca.
Vou andando, passo pela catraca e sigo o caminho evitando olhar para o rosto das outras pessoas. Contato visual com estranhos me incomoda. Sempre me pergunto qual a impressão que têm de mim e isso me corroe. Eu gostaria de saber? Provavelmente não, mas ainda assim é um objeto interessante de curiosidade. Devem achar que eu sou metida, mas é só covardia somado ao medo de ler a mente de alguém acidentalmente.
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