Ethereal

18 Décimo Sétimo


ANTES

Homens e mulheres caminhavam como fantasmas esfarrapados pelas ruas sujas e turbulentas. Seus olhos não diziam nada, porque segundo lhes fora dito a vida toda, eles não eram nada. Seu caminhar era apressada, mesmo que sua mente não fizesse grande participação no processo, já que seus pés sabiam para onde estavam indo. Eles foram moldados assim.

Diane focou os olhos na vitrine, parando de observar o reflexo das pessoas às suas costas. O estabelecimento da costureira era pequeno, quase escondido no meio de tantas casas aos pedaços e outros estabelecimentos de comércio. Mas a dona fazia questão de exibir suas criações atrás de uma grande parede de vidro. Era como se dissesse: não importa quem você seja, esses vestidos nunca serão para você.

E de fato, suas criações eram magníficas. Como o longo vestido branco que Diane encarava agora. O tecido era florido e decorado com fitas douradas que formavam desenhos complexos e muito bem elaborados. Um verdadeiro vestido da realeza, com direito a mangas e calda bufante, e um decote perfeitamente desenhado. Basicamente, aquele era o vestido mais bonito que Diane já vira em toda sua vida.

Enquanto acompanhava as linhas dessa maravilha do universo, no entanto, sua cabeça estava muito longe dali, presa por aquele mesmo tiro que levou sua vida e a do corvo no sonho que tivera na noite anterior.

Quando caminharam para aquele vilarejo e ela tentou puxar conversa com Dorian, tudo o que realmente queria era esquecer do sonho, do tiro que ecoava em sua cabeça com a força e a violência de mil sóis. Mas assim que pisou no vilarejo, as lembranças de sua própria casa que ela abandonara voltaram numa onda avassaladora. Foi como se sua essência tivesse sido sugada, e não restasse nada dela além do fantasma da garota assustada que ela deixou para trás.

A memória que mais a perturbava era a do primeiro corvo que encontrara em sua vida. De quando uma ave negra tão misteriosa e exuberante quanto a noite pousou no terreno de sua casa, perto demais da pequena plantação da família para o gosto de sua mãe. Naquele momento, ela se lembrava, a mulher estava ocupada preparando a refeição para o marido que voltou cansado das incontáveis horas de trabalho, e ordenou — aos berros — que Diane espantasse a ave, antes que esta destruísse o único sustento deles.

Diane jura que tentou. Tentou espantar aquele bicho tão monstruosamente maravilhoso, mas assim que se aproximou da criatura, esta se virou para encarar a pequena menina curiosa, ligeiramente tombando a cabeça como se a estudasse. E as duas ficaram por longos segundos assim, se encarando sem ousar mover um músculo. A ave era negra e majestosa, grande demais para as mãozinhas dela, e assustadoramente linda. Suas penas reluziam na luz do sol, brilhando como diamante, e seus também pretos piscavam, curiosos — ou famintos.

A pequena Diane de suas memórias ousou dar um passo em direção ao pássaro, que continuou em sua promessa silenciosa de ficar parado. E então ela estendeu a mão para tocá-lo, quando estava suficientemente próxima para isso. Mas então algo mais aconteceu. Naquele seu momento de torpor, tão concentrada que estava observando a ave, ela não percebeu a chegada de mais alguém por trás. Não percebeu quando a faca foi lançada, ou quando sua orelha foi quase arrancada no processo. Mas o corvo viu tudo, e abriu as asas pronto para o voo.

O problema, é que o atirador era ruim de mira, e ao invés de atingir o coração ou a cabeça do pássaro como era desejado, uma de suas asas foi atingida, e a criatura caiu enquanto se contorcida confusa para trás.

Um único grito surpreso saiu pela garganta da garotinha, mas sua mãe logo veio puxar sua orelha, com uma força sobrenatural na ponta dos dedos e um ódio incontrolável nos olhos. Ela gritou com a menina, gritou e gritou. Berrou como ela era burra, questionando o porque dela querer destruir a família. No que ela estava pensando? Por que ficara encarando o maldito pássaro ao invés de espantá-lo para longe? Quer destruir sua família, é isso? Quer que não tenhamos nada para comer? Seu pai e seus irmãos dão um duro para sustentar a família, e você, garotinha ingrata que perfurou seu caminho para nossas vidas a contragosto, ao invés de ajudar só quer atrapalhar ainda mais? Já não basta ter nascido?

E a bronca continuou, mas Diane não ouvia nenhuma palavra, ela não conseguia ouvir nada além da batida abafada de seu coração. Enquanto sua mãe berrava em seu ouvido, ela também empurrava a cabeça da garotinha para baixo, obrigando-a a encarar o corvo que morria, impotente para ajudá-lo.

— Não acho que branco seja a sua cor — veio a voz de Dorian da realidade. Ela nem se deu ao trabalho de se mexer.

— Não acho que eu tenha uma cor.

Sua voz saía curta, sem emoção. Por trás dos olhos, ela via o filete de sangue que escorria pela terra ao redor do corvo. Que passava despercebido por suas penas negras.

Dorian se pôs ao lado dela, encarando o vestido com mais cuidado. Então olhou de lado para ela, como se tivesse se esquecido subitamente porque ela estava ali.

— Encontrei uma hotelaria com dois quartos disponíveis e comprei comida — ele estendeu um saco cheio de frutas para ela, mas Diane simplesmente continuou a encarar o vestido.

— Não estou com fome — e então se virou e começou a caminhar na mesma direção que o fluxo na rua. As vozes altas da população abafavam o eco do tiro e dos gritos do pássaro de sua lembrança.

Dorian rapidamente a alcançou e começou a morder uma maçã como se realmente não se importasse com o desconforto dela. O que provavelmente era verdade. Diane cruzou os braços revirando os olhos irritada, mas deixou que o garoto andasse a sua frente. Afinal, não sabia onde ficava a maldita hotelaria. Ela nem poda ver a hora que finalmente poderia se jogar numa cama limpa e dormir para sempre.

Eles chegaram e subiram degraus de madeira que rangiam a cada passo, Dorian cumprimentou um velho decrépito atrás de um balcão no fundo do terraço e Diane simplesmente seguiu atrás do garoto, a cabeça baixa. Quando finalmente chegaram à duas portas no fim de um corredor no segundo andar, Dorian indicou a da direita para ela e falou que o jantar seria dali a uma hora, e que poderiam solicitar um banho depois disso.

Diane concordou com a cabeça a tudo que ele dizia, sem se importar com nada daquilo. Quando ele finalmente fechou a boca para a alegria dela, a dispensou, e entrou fechando a porta de seu próprio quarto. Sem pensar duas vezes, Diane fez o mesmo.

O quarto era pequeno, e relativamente menor dos que ela estava acostumada com Bev. A lembrança da mulher embrulhou seu estômago, e ela se jogou na cama com uma careta, sem lançar um segundo olhar para os poucos móveis do cômodo. Cerrando os olhos no segundo que sua bochecha encontrou com o colchão. Mas no segundo que fechou os olhos, foi perturbada não só pelos gritos como também com a imagem do corvo morto, e dos rastros de sangue em seus dedos, que pareciam tão reais...

Ela se levantou de um pulo. Diane bagunçou os cabelos, então deu de cara com seu rosto no espelho. Ela estava toda despenteada e suja, o rosto muito pálido e olheiras debaixo dos olhos. Sem contar com os hematomas perto de sua bochecha. Ela desviou os olhos da própria imagem, percebendo o quanto desejava aquele banho.

Ela estava tão casada, e não queria fazer nada além de dormir, mas não conseguia ficar parada, não enquanto não encontrasse uma forma de desviar sua cabeça da imagem do corvo.

Diane andava de um lado para o outro, a luz do sol lentamente escorrendo para fora do quarto, através da janela solitária aos pedaços do cômodo. A garota se sentou perto da janela, apoiando sua cabeça nos braços cruzados sobre o peitoril. A cidade se movimentava abaixo dela naquele ritmo doentio e maquinário. Sincronizado demais para parecer real aos olhos dela que apenas observava.

Mas quanto mais olhava para os trabalhadores cansados e exauridos, mais se via divagando para sua casa.

De repente, em meio as últimas luzes do dia que lutavam contra as nuvens que se formavam, algo inesperado quebrou o ciclo do vilarejo. Um bando de crianças sorridentes corria pulando até a fonte que era o coração da região. Elas tinham fitas coloridas e quilométricas enroladas em um emaranhado de tecido nas mãos, e suas roupas eram tão vivas quanto. No meio dos trabalhadores que se arrastavam infelizes de volta para suas casas, as crianças até mesmo pareciam miragens de tão alegres. Mas então um bando de adultos também começou a se juntar a festa, levantando postes de madeira onde prendiam as fitas coloridas no topo para formar uma espécie de tenda gigante, e ela soube que tudo aquilo era muito mais do que real.

A música começou a tocar e todos começaram a dançar quando a lua finalmente chegou ao topo do céu, fogueiras sendo acessas em todas as partes onde comidas deliciosas eram preparadas. A festa acontecia como se sempre tivesse estado ali, e ela simplesmente estivesse distraída demais para perceber. O contraste daquela alegria toda com a cidade que se deparara naquela manhã a fez levantar a cabeça, curiosa. E o cheiro da comida não era nada mal. Talvez não seria um crime tão grande assim dar uma olhada.

Diane se levantou e parou com a mão a centímetros da maçaneta, tomando consciência do estado deplorável de suas roupas. Ela praguejou e se virou de frente para o quarto novamente com as mãos na cintura, o desapontamento tão grande que ela teve vontade de chorar. Ela olhou para a janela, o brilho das fogueiras iluminando o céu noturno. Diane deu de ombros e pegou sua capa, que estava relativamente menos suja que seu vestido, e colocou o capuz. A noite não estava tão fria assim, mas era sua última opção se queria passar despercebida pela multidão. Ela saiu do quarto num furacão de tecidos, e hesitou apenas um segundo a frente da porta de Dorian. Ela chegou até a levantar o punho para bater na porta, mas, sinceramente, por que ela iria querer sua companhia? Então recolheu a mão e se esgueirou para a festa.

Lá fora, a noite parecia mais acordada do que nunca. Uma banda cantarolava músicas típicas que a população recebia de bom grado, pulando cada vez mais alto a cada verso e com sorrisos tão grandes no rosto que ela temeu que chegariam a rasgá-los no meio. Diane se escondeu no vão entre duas casas e sorriu para a festa. Eram poucas as que se lembrava da infância, e muitas delas não passavam de borrões e fumaça, o cheiro crepitante das fogueiras inundando suas narinas. Ela sentia como se pudesse ficar ali para sempre, e por um segundo, todas suas lembranças ruins valiam a pena se ela pudesse experimentar nem que fosse por um segundos da alegria que consumia aqueles aldeões.

— Não me lembro de ter lhe dito para vir a festa.

Diane se assustou e bateu com as costas na parede que usava como esconderijo. Ela xingou alto.

— Não me lembro de ter perguntado — rebateu ela, tentando se recompor.

Dorian apenas sorriu. Ele comia um pedaço de carne mal-passada, o que só deixava sua expressão ainda mais sombria contando com a iluminação do fogo, que só acentuava mais as linhas do seu rosto e deixava seu cabelo num tom quase que normal de loiro.

— Justo — respondeu ele, fazendo uma pausa antes de continuar: — Pensei que você estivesse cansada.

— Pensei que você queria que não fôssemos vistos.

— Isso é uma festa — replicou ele — Ninguém repara em ninguém a não ser que tenha algo mais em mente. Só temos que não chamar muita atenção.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Você por acaso já se olhou no espelho?

Ele lançou aquele sorriso para ela que a dava vontade de espancá-lo.

— Vou tomar isso como um elogio.

— E aliás — continuou ela — Por que ninguém pode nos ver? O que exatamente você veio fazer aqui?

A expressão dele ficou mais dura, mas ele se recusou a tirar o sorriso do rosto, como se já tivesse nascido com ele ali.

— Eu já disse. Negócios.

Que tipo de negócios?

Dorian olhou para trás como se alguém tivesse chamado seu nome, então pulou em cima dela, empurrando-a mais para dentro do beco e pondo-a atrás dele. Tudo aconteceu tão rápido que ela nem teve tempo de dar um grito. Ele então relaxou os ombros quando um casal cambaleante entrou no beco logo em seguida, agarrados um aos outro e bêbados demais para notá-los. Dorian suspirou irritado e deu a volta em Diane, seguindo mais para dentro do beco apenas para sair no meio da festa novamente. Ela o seguiu com as maçãs do rosto vermelhas enquanto arrumava seu capuz, o casal nem ao menos percebeu a partida deles, tão concentrados que estavam um no outro.

— Você está fugindo de alguém, é isso? — perguntou ela quando conseguiu alcançá-lo.

Ele lançou um olhar de lado para ela mas não respondeu nada. Diane ficou cansada de segui-lo e seguiu para o lado oposto, onde uma senhora com o rosto enrugado distribuía fitas coloridas que os habitantes amarravam nos pulsos e um doce branco como as nuvens de graça.

— Me desculpe — pediu Diane assim que aceitou os enfeites — Mas o que exatamente estão comemorando hoje?

A pergunta iluminou o rosto da mulher.

— É o aniversário de nossa santa protetora, querida! — Aqui, pegue mais um doce. Temos que ser generosos para quando a época da colheita chegar!

Diane agradeceu e se afastou. Ela vagou mais alguns minutos no meio da multidão pulsante até encontrar um acento perto de um fogueira cujo fogo não crepitava tanto quanto as outras, abandonada num canto. Ela quase conseguia se ver quando criança correndo em meio a festas como aquela, contente com a felicidade momentânea que encontrara, longe dos olhos da mãe.

Ela já estava quase desistindo de amarrar a fita colorida no braço — na terceira tentativa fracassada em que se encontrava -, quando a voz que ela aprendera a odiar dançou entre as chamas até os seus ouvidos e se sentou no banco de madeira de frente para ela.

— O truque — começou Dorian, retirando a fita das mãos dela e fazendo um nó perfeito — É encontrar alguém que saiba fazer o trabalho tão bem quanto você.

Diane revirou os olhos e murmurou um obrigada a contragosto.

— Não tem de quê — e eles ficaram em silêncio, cada um absorto nos próprios pensamentos até que ele quebrou a paz mais uma vez: — Por mais que eu aprecie muito o seu silêncio, esse seu ar melancólico está começando a chamar a atenção das pessoas. Então a não ser que tenha um bom motivo para ficar de bico, acho melhor começar a parecer um pouco menos mórbida.

— Me deixe em paz — replicou ela, incrédula com as palavras dele.

— Qual o seu problema, você não gosta de vilarejos?

— Qual o seu problema, você não consegue parar de ser um babaca?

— Para falar a verdade, não. Então desembucha.

— Desembucha o quê? — ela cruzou os braços para ele. Dorian simplesmente se encostou na parede da casa que se estendia atrás dele com os braços atrás da cabeça.

— Você ficou assim no segundo que entramos nesse lugar, então vamos lá, comece a falar, o quê te incomoda?

— Por que você se importa?

— Não me importo — garantiu ele — Estou entediado.

Ela revirou os olhos.

— Não sou seu brinquedinho para ficar de entretendo. Já basta ser obrigada a seguir nessa viagem ridícula com você, não me faça desejar ter morrido na estalagem de Bev também.

Agora foi a vez dele de revirar os olhos.

— Caramba, garota, você realmente não sabe agradecer.

— Agradecer? — repetiu ela, ficando com raiva. Aquela mesma raiva que a consumia por dentro a tantos anos, aquela mesma que ela nunca botava para fora — Pelo quê? Por me fazer passar por tudo isso?

— Por tudo isso o quê? Pela viagem ridícula que vai salvar sua vida?

— Sim! — berrou ela — Sim. Pela viagem ridícula que me faz lembrar da minha infância!

Dorian apenas a encarou. Diane o encarou de volta com os olhos arregalados, de repente se sentindo ofegante como se dizer tudo aquilo desperdiçasse muita energia.

— Feliz? — perguntou ela ironicamente num tom mais baixo — Essa porcaria de vilarejo me faz lembrar da minha casa.

Dorian não respondeu de imediato, mas quando ele falou, Diane se surpreendeu com suas palavras.

— O que aconteceu lá para te deixar assim?

Seu tom não era provocativo, ou um deboche por assim dizer. Ele até mesmo se desencostara da casa, apoiando os cotovelos no joelho enquanto encarava o fogo. Diane lançou um olhar rápido para ele antes de fazer o mesmo.

— Minha mãe, ela... — Diane pigarreou — Digamos que ela não era exatamente a melhor mãe do mundo.

Dorian soltou uma risada, mas não parecia achar graça.

— Sei bem como é.

— A sua também era terrível?

Um músculo se moveu em sua bochecha, a expressão dele era sólida e inquebrável sob as chamas já quase extintas da fogueira. Tanto é que ela imaginava que ele desviaria do assunto novamente ou simplesmente seria grosso com ela. Mas ao invés disso, ele coçou a nuca e falou:

— Eu não sei. Ela foi embora antes que eu pudesse me entender por gente.

Diane não sabia o que era pior. Nunca ter conhecido a mãe ou ter a conhecido, simplesmente para descobrir que ela era um monstro.

— Um dos meus irmãos, Stephen — começou ela, já sem se importar com o que ele diria em resposta ou se ao menos se importaria — Ele dizia que ela era terrível assim comigo porque ela não conseguia me controlar do mesmo modo que fazia com todos eles. Ele dizia que eu não devia me sentir mal por isso, que eu era uma coisa boa.

— Onde ele está agora?

— Em casa, eu acho — ela fez uma careta para as chamas. Se continuasse a encarar um único ponto, talvez fosse capaz de conter as lágrimas — Eu... — não, ela não conseguiria conter as lágrimas — Eu fugi de casa há dois anos. Stephen me ajudou.

Dorian levantou os olhos para ela pela primeira vez e sorriu.

— Você fez o quê? — ele não parecia a estar julgando nem nada, só parecia se divertir com a realidade daquela situação.

Ela revirou os olhos marejados, mas também estava sorrindo.

— Sim, eu também não sou a melhor filha do mundo e sou uma idiota por achar que tenho o direito de julgar minha mãe depois do que eu fiz e...

— Não é isso — interrompeu ele — É só que... — ele parecia estar com dificuldade de encontrar as palavras certas — Isso é uma coisa muito... hum... corajosa de se fazer.

— Corajosa? — repetiu ela — Eu abandonei minha família!

— Sim. Mas você mesma disse que sua mãe era péssima, você teve coragem de lutar contra isso. Você encontrou uma nova vida com Bev e um trabalho digno, não há nada do de se envergonhar.

— Exatamente! — insistiu ela — Eu arranjei um trabalho. E ao invés de estar trabalhando para ajudá-los eu uso tudo para benefício próprio.

— Diane — chamou ele, como se quisesse que ela percebesse algo óbvio — Você é uma garota que tomou controle sobre a própria vida sozinha. Esse tal de Stephen tinha razão, você era ameaça para sua mãe porque é infinitamente melhor do que ela.

Diane piscou, e Dorian piscou em resposta, desviando os olhos dos dela e voltando a encarar o fogo. Ela engoliu em seco e fez o mesmo, rezando para que a luz do fogo fosse forte o suficiente para esconder o rubor em seu rosto.

— Enfim — continuou ela depois de um tempo — Esse vilarejo ele é... muito parecido com o que eu cresci. Toda vez que eu olho para os lados é como se eu estivesse em casa novamente. É como se a cada esquina que eu viro eu pudesse trombar com minha mãe. E por mais que eu tenha me libertado dela, eu não estou pronta para encará-la novamente. E é isso. É isso que me incomoda.

Ela deu de ombros como se perguntasse "Satisfeito?".

— Sabe — começou ele, a surpreendendo novamente com aquele tom calmo que ela não estava acostumada — Eu cresci num lugar muito parecido com esse também. Só que um pouco mais... para o interior.

— Família grande e complicada também?

Ele riu novamente e moveu a cabeça para o lado como se as lembranças o causassem arrepios.

— Complicada sim, mas não tão grande assim — respondeu — Na minha casa era só eu meu pai e... — a voz dele sumiu por um segundo, como se sua língua tivesse sido temporariamente cortada — E a minha irmã.

Enquanto ele encarava as chamas, ele parecia ter se perdido na própria linha de pensamentos.

— Qual era o nome dela?

Os olhos dele se estreitaram, como se ele conseguisse ver muito mais do que simplesmente fogo naquela fogueira.

— Rose — ele engoliu em seco — O nome dela era Rose. Ela era mais nova do que eu.

Diane percebeu o uso do pretérito em sua fala, então resolveu não perguntar mais nada, deixando que ele tomasse o tempo que precisasse.

— Ela... — se Diane não estivesse olhando fixamente para ele, juraria que ele estava chorando, tamanha era a dor em sua voz — Ela não era filha da minha mãe, e sim de um outra mulher que meu pai arrumara depois mas que acabou morrendo. Ela não gostava muito de mim, mas Rose... Rose me adorava — um sorriso brotou no rosto dele, tão espontaneamente que Diane sentia que nem mesmo ele sabia de sua existência — Depois que minha mãe foi embora, meu pai virou um homem bêbado que não parava mais em casa, jogando todo o dinheiro que não tínhamos fora em apostas. Então basicamente tudo que eu e Rose tínhamos era um ao outro. Mas era suficiente. Ela era o suficiente para mim — a voz dele estava tão baixa agora que Diane se perguntava se ele não acreditava que estava falando com si mesmo — Minha mãe podia ter me abandonado, e o meu pai. O mundo inteiro podia ter me deixado de lado, mas enquanto eu tivesse Rose, enquanto aquela garotinha doce e inocente me amasse e acreditasse em mim, eu não precisava de mais nada.

Diane via o outro lado dele agora. E aquele garoto ensanguentado que encontrou há dois anos atrás não a assustava mais, o garoto frio e ríspido. Por um segundo, ela não conseguiu mais enxergar aquele lado dele, aquele lado que tanto odiava e desprezava. Por um segundo, aquele garoto de sorriso monstruoso não parecia mais capaz de quebrar mais ninguém, tamanha era a força que ele havia sido quebrado.

— Enfim — falou ele, depois do que pareceu uma década. Voltando o olhar para ela agora um pouco confuso, como se tivesse esquecido que ela estava ali. Então esfregou os olhos e piscou diversas vezes, olhando ao seu redor como se tentasse processar o lugar em que se encontrava — Família é algo complicado mesmo. Acho que deveríamos voltar para a estalagem, já devemos ter perdido o jantar.

Ele se levantou e bateu nas próprias coxas como se espantasse a poeira de muitos séculos de lá. Tudo o que Diane conseguiu fazer enquanto ele se virava e partia sem esperar por ela foi encará-lo até que sua imagem não passasse de um ponto indistinto na multidão.

A música que a banda tocava era intensificada pelos gritos dos aldeões, pelos seus pés maltratados que pulavam no chão e pelas palmas das mãos calejadas que batiam. Diane se voltou para a fogueira e encarou as chamas até que tudo o que restasse na sua frente fosse um punhado de lenha queimada e uma fumaça negra que era rapidamente engolida pelo céu da noite.