Eterno inverno
1 Eterno inverno
Eu não sei dizer onde minha vida começou a tomar esse rumo, mas sei quando foi que percebi.
Fazia frio, o que me deixou triste porque minha mente desenterrava memórias suas constantemente. Eu lembrava de suas mãos segurando o cigarro com as pontas dos dedos. De você fazendo café às três da tarde e torcendo o nariz para meu chá. Você sempre foi uma pessoa de café. Talvez isso tenha sido nosso maior problema.
Café era algo que estava em seu sangue praticamente. Café e cigarros. O cheiro da bebida preta ficou associada com seu rosto com o passar do tempo. É cruel. Não posso te esquecer nem se quisesse.
Eu costumava pensar que você poderia tomar mil banhos que mesmo assim continuaria a feder a cigarros. As vezes eu te abraçava e fazia cara feia porque sua pele parecia ser feita de cigarro mentolado. É, gente já discutiu algumas milhões de vezes sobre isso, mas continuo com o mesmo pensamento.
Cigarro mentolado é coisa de mulherzinha. Eu quero sentir o gosto de cigarro, porra. Se eu quisesse gosto de menta chuparia uma bala.
Lembro de ter dito algo parecido para você e então sua resposta foi me olhar com desgosto e dizer para eu parar de associar coisas que não gosto com “coisa de mulherzinha”. Eu era um viado reproduzindo machismo. Acho que ainda sou. Há coisas em mim que não consigo consertar.
De qualquer forma, eu estava segurando uma garrafa de... Eu não lembro. Era vodca, provavelmente. Sempre falei que vodca é a minha bebida, mas foi com ela que percebi que estou totalmente fodido da cabeça.
Caralho, eu tinha tropeçado no meu próprio vômito. Sim, foi assim que percebi que eu estava enterrado na bosta. Metaforicamente falando.
Caí de joelhos, mas não tive forças pra levantar, então deitei no chão do lado daquela coisa nojenta que comi no almoço. Eu sequer me lembrava de ter vomitado. Por isso tropecei.
Olhei pro batente da porta do meu quarto e lembrei que foi ali que te vi pela última vez. Foi no verão. Quanto tempo se passou? Os dias estão cada vez mais confusos.
Lembrei de como você tinha deixado seu cabelo crescer naquela época. Ele ainda está grande? Porque você fica uma coisinha tão linda. Desculpe se eu jamais te disse isso. Deveria ter dito.
Você estava com um cigarro entre os dedos. Uma visão tão comum. Mas daquela vez você tinha feito as malas e suas roupas não estavam mais ao lado das minhas. Você se equilibrou em um pé enquanto amarrava o cadarço do tênis e o cigarro ficou entre seus lábios. Eu me aproximei e, por Deus, eu tive medo de ter deixado um rastro de bosta no corredor porque eu estava todo cagado de medo.
Eu tirei o cigarro de seus lábios e dei uma tragada mesmo odiando aquela merda mentolada. Meu Marlboro tinha acabado e eu precisava tragar algo pra lembrar de que estava ali e que aquilo não era um sonho ruim.
Fiquei segurando o cigarro mas você não o quis de volta. Da mesma forma como não me quis mais. Lembro de ficar olhando para aquilo e me perguntando se aquele cigarro seria a última coisa que você daria para mim.
Você fechou a porta quando saiu, mas não foi embora. É, você continua aqui.
Por que precisava ser tão cruel?
Ou você não lembra de ter feito café antes de sair por aquela porta? Eu odeio o cheiro dessa merda e ela ficou pela casa durante horas. Talvez mais do que odeio aquele Holywood de menta que você carregava pra todo lado.
Joguei a cafeteira fora um mês depois de você partir. Sim, eu demorei um mês inteiro para aceitar que eu nunca mais iria te ver.
Sabe aquele espaço da cozinha que você ocupava pra guardar pó de café? Eu estou usando pra guardar bebida. As vezes penso em jogar fora porque sei que você iria desaprovar. Mas não vai fazer diferença, não é?
Mas foi ao lado do meu vômito que pensei em realmente desistir de tudo. Porra, um dia antes eu tinha fumado um maço inteirinho de mentolado só pra me lembrar do seu cheiro.
Toda vez que eu lembro de você saindo e dizendo adeus eu sinto vontade de sufocar com meu próprio sangue. Não sei o que fiz de errado. Talvez eu tenha sido eu demais. Talvez eu tenha te assustado quando esqueci do meu próprio aniversário e no mês seguinte escrevi uma carta de 30 metros celebrando seus 24 anos de vida. Talvez você tenha esperado o mesmo no ano seguinte, mas eu bebi tanto no seu aniversário de 25 que mal me lembro do que aconteceu.
Eu nunca soube dizer se te amei de mais ou de menos, mas doí de qualquer maneira.
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